O Tigre Negro

7 O Esconderijo


Notas iniciais
Espero que gostem deste capítulo :D E sejam bem-vindos ao clube, leitores novos o/

Kishan caminhava à minha frente com passadas largas e pesadas pela beira da estrada. No começo, eu tentara seguir o ritmo de seus passos, mas a medida que o ritmo não diminuía, desisti.

Depois de toda aquela situação esquisita na árvore, Kishan simplesmente começara a andar em uma direção da estrada e não parara até agora. Ele parecia estar irritado porque bufava e murmurava coisas em hindi de vez em quando.

Após uns dez minutos de caminhada, o silencio entre nós — o qual parecia estar se eternizando — começara a me incomodar profundamente. Inspirei fundo e apertei o passo até chegar ao lado de Kishan, ele não demonstrou nenhuma reação o que fez meu “sangue subir”. Num surto de impulso misturada com raiva, agarrei o antebraço de Kishan.

– Dá pra você parar só por um segundo?! – Ralhei.

Kishan parou, ainda encarando a estrada.

– Qual o problema, Kishan? Tudo estava bem, até divertido lá nos portões e depois na árvore... está acontecendo algo que eu deveria saber? Porque parece que estou perdendo alguma coisa aqui, sinceramente.

Kishan inspirou e se virou para me encarar.

– Não há nada de errado aqui, querida. Não se preocupe. – Disse ele de forma descaradamente sarcástica, abrindo um falso meio sorriso no rosto.

– Não estou preocupada com você. Só acho que me deve explicações sobre tudo. A gente nunca conversou de verdade sobre a maldição porque você vive fugindo. Eu embarquei nessa loucura com vocês por sua causa, porque eu não queria que você sofresse novamente como naquele dia que ficou inconsciente. Eu odeio admitir isso, mas naquele dia eu sofri muito vendo você daquele jeito. Fiquei paralisada e não conseguia respirar direito só de pensar que algo de mal aconteceria com você...

Kishan passou as mãos pelo cabelo, aparentemente nervoso.

E quando pensei que responderia ou comentaria algo, Kishan simplesmente não o fez. Ao contrário, voltou a encarar a beira da estrada.

– Eu não tenho obrigação nenhuma de estar aqui com você — Completei, angustiada. – E para concluir, estou confusa porque não sei se a ligação que sinto por você é real ou se é, ao menos, recíproca. Não é uma ligação de amor ou de atração sexual, é algo que parece... antigo. Como se fosse de alguma encarnação passada. E eu posso estar louca, mas preciso saber a resposta.

– É – Murmurou Kishan.

Confusa, perguntei:

– É o quê?

– É recíproca – Explicou Kishan, olhando fixamente nos meus olhos – A ligação é real. No começo, quando te vi pela primeira vez, ignorei a sensação gelada que senti arder no meu peito. Mas o gelado foi aumentando muito rápido conforme o tempo, até que no dia seguinte, aconteceu aquilo. Eu não consegui controlar minha transformação em tigre mesmo tendo mais duas horas disponíveis como homem. Então quando não resisti mais, o tigre tomou conta do meu corpo.

– E como você conseguiu recobrar os sentidos naquela noite? Nós havíamos tentado de tudo e eu duvido que minha teoria de ter te acordado apenas sentindo sua presença seja real.

– Eu tive um sonho naquela noite – Kishan franziu os lábios – E Yasubai apareceu nele. Desde então isso tem me atormentado e não comentei o sonho com ninguém, nem com senhor Kadam.

– Espera, quem é Yasubai?

– É uma longa história – Disse Kishan – Acho melhor seguirmos a estrada, vou te contando tudo enquanto caminhamos, eu realmente lhe devo muitas explicações.

Encarei a estrada no sentido em que estávamos seguindo e observei que não existia nada ali além de árvores, nenhuma vila, nenhuma casa, ninguém.

– Antes de tudo, para onde estamos indo? – Perguntei.

– Eu achei que quem vencesse a corrida, teria o direito de escolher o passeio da tarde, estou errado?

Kishan levantou uma das sobrancelhas, assim como sempre fazia quando falava com, digamos... mais charme do que usava normalmente.

– Tá, só espero que você não seja um maluco assassino, porque aqui só tem mato e árvores e essa estrada é extremamente erma.

Kishan riu e disse:

– E não se esqueça que me conhece a poucos dias, então não sou exatamente o que se chama de alguém confiável.

Dei de ombros, rindo.

– Vou correr esse risco dessa vez, tigre. – Eu disse, seguindo a estrada.

– Admiro sua coragem, Lizzie. As garotas sempre preferem a companhia de Ren, apesar de eu ser bem mais interessante.

– Ei! Meu pai me chamava de Lizzie! – Exclamei surpresa — E por que você sempre se compara a Ren?

– Eu não me comparo a ele...

Levantei uma das sobrancelhas, o que fez Kishan ceder.

– Tudo bem, eu faço isso. – Admitiu ele – Mas é inevitável, sempre vivi na sombra de Ren. Ele sempre foi o mais amado, o mais forte, o melhor em tudo. Ele seria o futuro rei e se casaria com Yasubai. Acho que tenho meus motivos.

– Kishan, eu sou irmã mais velha e acredite ou não, meus irmãos também acham que tudo é injusto com eles. Mas sabe, eu adoraria ser irmã mais nova.

Kishan virou o rosto para me encarar.

– Por que? – Perguntou, curioso.

– Porque vocês, irmãos mais novos, não são pressionados como os irmãos mais velhos são. Vocês só veem o lado bom de ser um irmão mais velho, contudo a mais pura verdade é que recebemos muita responsabilidade. – Expliquei – Você já parou para pensar como deveria ser difícil para Ren? Ser o futuro rei, ter um casamento arranjado, sair para viagens diplomáticas...

Kishan balançou a cabeça de leve, em negação.

– É, eu nunca pensei por esse ponto de vista – Murmurou ele, refletindo.

Sorri para a estrada à nossa frente.

– Um famoso poeta escocês disse um dia: Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria, e eu concordo.

– Estou impressionado, você sabe como dar bons conselhos – Observou Kishan.

– Eu só tento entender as pessoas.

– Mas é boa nisso, seria uma ótima conselheira real. Minha família iria adorá-la, principalmente minha mãe.

De repente, Kishan parara de andar. Ele analisou o pequeno rochedo que estava disposto à nossa frente, alisando sua superfície. Olhei para cima e reparei que o rochedo provinha de uma montanha e estávamos na beira da estrada, no pé da montanha.

– Chegamos! – Anunciara Kishan.

Olhei para ele, confusa e perguntei:

– Chegamos onde? Não tem nada aqui. – Indiquei a estrada e as árvores ao redor.

Kishan sorriu com um lado dos lábios e se moveu até a outra extremidade do rochedo. Observei os rápidos movimentos de Kishan. Ele posicionara a mão aberta, deixando a palma voltada para a pedra. Depois, posicionou o dedo mínimo na base da pedra, assim, encostando o dedo mínimo no polegar então foi deslizando a mão para cima na medida exata de um palmo, fez isso repetidas vezes enquanto falava baixinho em hindi, reparei que ele na verdade, estava fazendo uma contagem e que o que estava fazendo com a mão era uma forma de medida, palmos.

– Tēraha – Disse ele quando chegou no que seria, segundo minha contagem, o número treze.

– Treze – Murmurei inconsequentemente.

– Exato – Disse Kishan, me lançando uma piscadela.

Kishan avançara sua mão sob a pedra em linha reta a partir do ponto em que ele parara a contagem. Quando parou movê-la, aplicou uma pequena pressão sob a pedra, onde a ponta de seus dedos tocavam.

Um bip soou, fazendo com que a superfície da pedra se movesse lateralmente, como um portão automático. Logo, notei que a face do rochedo era falso.

Quando o portão de pedra falsa se abriu totalmente, revelou um espaço escuro e profundo.

– Vamos – Convidou Kishan -, entre.

Kishan tomou a frente enquanto eu o seguia, sem acreditar no que ele acabara de fazer com o rochedo.

Ele tateou uma das laterais de uma parede no interior da caverna. Ouvi um clique e o portão se fechou rapidamente enquanto luzes também foram acesas. Me virei para o interior do espaço agora iluminado.

Era impressionante, eu nunca vira algo como aquilo.

Kishan reparou no meu espanto e riu.

– Bem-vinda ao meu espaço, Lizzie. – Disse ele, indicando o local.

Notas finais
Comentem o que acharam, críticas, elogios? Podem mandar! PS: Kishan é problema mesmo, mas ele é um amor, né?