Notas iniciais
Aproveitem a leitura!

Estava sentada na pontinha da cadeira bebericando meu ponche de frutas enquanto sentia a música alta e dançante me tocando, querendo me puxar para a pista de dança, mas eu não conseguiria me alegrar o suficiente para dançar pelo resto da noite, estava chateada e parecia que tudo havia perdido a graça. Nada foi feito como tinha planejado, desde o meu vestido até o meu par do baile, tudo deu errado.

Primeiro, o lindo vestido cor azul safira que eu havia comprado com tanto sacrifício tinha sido todo feito em fiapos pelo meu gorducho e negro gato, Nico. No dia do baile, enquanto tomava um banho antes de me arrumar, Nico usava meu vestido como brinquedo de arranhar, fiquei extremamente furiosa quando encontrei o vestido em farrapos cheio de buracos e franjas desalinhadas jogado no chão. Os doces olhos dourados de Nico me imploraram perdão e o máximo de castigo que lhe dei foi o de não lhe dar carinho atrás de suas orelhas quando o gato ronronou alto. Ao me livrar da fúria, veio o desespero e uma pontinha de tristeza, afinal havia planejado tudo à semanas e eu não poderia comprar um vestido novo agora, primeiro porque não tinha dinheiro o suficiente e segundo porque nenhum vestido seria aquele azul safira perfeito que agora parecia um pano de chão velho. Corri escada à baixo chamando pela minha mãe, estava agarrando o vestido estraçalhado com uma mão enquanto a outra escorregava pelo corrimão.

– O que foi Liz? Calma e respira – Mamãe ordenou.

Fiz o que ela mandou porque percebi que estava mesmo ficando sem ar.

– Agora pode falar. – Disse ela.

Ergui o vestido no ar segurando uma alça em cada mão, várias tiras se desenrolaram com o movimento enquanto outras pendiam balançando precariamente do tecido.

Palavras não eram necessárias.

Mamãe levou a mão ao peito e fez cara de espanto o que me fez ficar mais desesperada do que já estava.

– Ahan, foi ele – Eu disse, quando ela apontou e olhou para o gato negro responsável pelo retaliamento do meu vestido de baile.

Nico miava e fazia carinho com a cabeça entre as canelas de mamãe. Olhei com cara feia para ele mas Nico simplesmente me ignorou e andou pomposamente em direção à sua caminha confortável de gato.

– O que eu faço agora?

– Precisa de outro vestido, tem algum em seu armário que sirva? – mamãe perguntou inocentemente.

É claro que não tinha um vestido de baile no meu armário, eu só tinha calças jeans e muitas blusas mas não um vestido de baile. Isso não.

– Mãe, você sabe que não tenho um vestido de baile no meu armário. – Resmunguei. — Vou ligar para Jake e cancelar.

– Não faz isso filha, você vai perder seu primeiro baile da faculdade? E ainda no dia dos namorados? Pense em como seu namorado vai ficar? Jake vai ficar arrasado!

– Mãe! Jake não é meu namorado e esse é só o nosso segundo encontro, okay? – Percebi que falara um pouco alto demais porque Nico levantou a cabeça aparentemente incomodado com o barulho repentino.

– Tudo bem, tudo bem. – Mamãe disse calmamente. – Só não cancele com Jake porque acho que tenho uma solução para o caso do vestido.

Mamãe abriu a porta de madeira do armário do quarto dos meus pais e tirou uma caixa grande e empoeirada do fundo dela. Enquanto eu a observava, ela colocava a caixa em cima do baú de madeira que ficava nos pés da cama de casal do quarto, sentei-me na cama perto da caixa enquanto mamãe tirava a tampa de papelão da caixa cuidadosamente. Depois de retirar todo o papel de seda embalado, mamãe ergueu um lindo vestido rosa chá clarinho com faixas de rendas brilhantes nas alças e em detalhes no decote e na cintura, depois da faixa da cintura o tecido caía em cascatas suaves. Era lindo.

– É lindo não é? – Mamãe disse.

Assenti maravilhada com a beleza do vestido toquei levemente as faixas brilhantes e um pouco transparentes das alças.

Mamãe sorriu.

– Quero que o use esta noite. Um vestido especial, para uma noite especial. Eu usei ele no meu último baile da faculdade e dancei com seu pai. – Disse, sorrindo levemente com a lembrança.

Afastei minhas mãos do vestido e as pousei no meu colo.

– Tem certeza de que posso usar? Se é tão especial pra você... não sei se deveria. – Olhei para o vestido de forma culposa, pensando na futura possibilidade de derrubar um ponche e manchar o tecido para sempre.

– Claro que sim, você vai usá-lo e não se fala mais nisso. Agora vai se arrumar.

Mamãe me enxotou do quarto e fui me arrumar para o baile.

Às sete horas em ponto a campainha soou e corri para atender a porta, quando a abri Jake estava lá sorrindo com seus dentes extremamente brancos e com seus cabelos loiros puxados para trás, pronto para um baile. Estava bonito mas não senti aquele arrepio que mamãe descreveu ao ver meu pai, que na época namorava minha mãe, ao vê-lo de smoking, todo romântico segurando um lírio branco a sua frente. Jake não me trouxera nenhuma flor e isso me desapontara um pouco, tenho de admitir.

– Feliz dia dos namorados – Jake disse pousando um beijo na minha bochecha esquerda. – Está linda, Liz.

Ele ofereceu a mão e me levou até seu carro e então fomos até o baile. Todo o caminho de ida foi preenchido com o mais silencioso dos silêncios embaraçosos da história, Jake parecia estar satisfeito em não falar nada e parecia não se importar com o silêncio porque olhava a todo momento para o seu próprio reflexo no espelho e sorria após a ação. Ele devia estar achando que era tão bonito, que não precisava de mais nada para conquistar uma garota, apenas de sua boa aparência. Eu não me importava com a boa aparência de Jake, ele poderia ser um belo garoto por fora mas por dentro estava oco e a intenção de um encontro não era conhecer a outra pessoa melhor? Saber de seus interesses em comum e todas essas coisas? Bufei, pela que me parecia ser a centésima vez naquela noite e cruzei os braços.

Que desperdício de noite.

Ao chegar no baile, encontramos uma rodinha de amigos de Jake que me cumprimentaram rápido e logo foram para a pista de dança, alguns deles ficaram sentados conversando e Jake se sentou também parecendo se esquecer de que eu estava ali, começou a conversar com seus amigos sobre o jogo de futebol que haviam assistido ontem. Depois de uns dez minutos sendo ignorada, levantei impaciente e me dirigi até a mesa das bebidas do outro lado do salão, peguei um pouco do ponche de frutas vermelho e despejei num copo, estava me preparando para voltar à mesa de onde estava quando vi algo estranho acontecer. Uma garota de vestido vermelho e cabelos louros compridos estava abraçada com Jake, eu a conhecia por fotos, era a ex namorada de Jake. Fiquei sem reação. A garota sussurrara algo nos ouvidos de Jake e ele deu uma olhada à sua volta, provavelmente me procurando. Quando não me encontrou por perto, puxou a garota, lhe deu um beijo nos lábios e a seguiu em direção à multidão aglomerada na pista de dança. Eu não senti ciúme de Jake mas sim raiva de mim mesma por ter sido tão ingênua. Tão azarada, tão boba.

Eu precisava desabafar com alguma amiga sobre isso e a única a quem recorreria seria Kelsey, ela sempre me compreendia mais do que as outras pessoas e nas aulas de latim ajudávamos uma a outra. Mas sabia que ela não estaria disponível no momento, ela deveria estar com Ren, seu namorado que viera da Índia para encontrá-la. Kelsey tinha sorte por ter alguém tão atencioso como par no baile, estava feliz pelos dois, formavam um casal lindo e eu não estragaria a noite de deles com más notícias da minha fracassada noite de baile estrelando um babaca louro e a volta de sua ex namorada top model. Decidi que não iria atrás de Jake, antes do baile já estava começando a me cansar dele e de seu narcisismo compulsivo, no final ele terminara tudo o que havia entre nós por mim e eu não precisaria me dar ao trabalho de nada, mesmo assim ainda sentia o vazio de ter sido deixada de lado, mesmo que por um babaca como Jake, aquilo doía um pouco. Era para ser uma noite especial, afinal de contas.

Sentei-me num canto vazio onde estavam dispostas algumas cadeiras de plástico e fiquei pensando se deveria voltar para a casa a pé ou se ligava para mamãe. Bebi um pouco do ponche vermelho enquanto observava a porta de saída do baile, vi que Artie estava lá como um “segurança” com sua ridícula gravata borboleta amarela. Fiquei imaginando como uma garota de bom gosto como Kells tivera a coragem de ter um encontro com Artie.

Ele estava segurando uma prancheta de controle de convidados nas mãos e riscava os nomes de alguns casais que chegavam no baile, também tentava encontrar penetras na festa, brigando com eles como se fosse o dono do mundo, um dos penetras simplesmente o ignorou e deu um tapa na patética prancheta de Artie, que caiu perto da mesa de bebidas.

– Ei! – Reclamou Artie, que correu para pegá-la como se tudo aquilo fosse uma questão de vida ou morte.

Ri baixinho imaginando se a mesma situação ocorresse com a sua agenda, ele morreria com a ideia de perdê-la.

Quando voltou ao seu posto, Artie estava mais atento aos penetras, ele chamou alguns jogadores do time de futebol da escola e disse algo que os fizeram assentir em conjunto então ficaram ao seu lado como seguranças de lojas de grife. Fiquei curiosa para saber como ele conseguira subornar os jogadores, talvez tivesse se voluntariado para fazer alguns dos trabalhos de faculdade deles.

Enquanto eu ainda tentava entender a estranha aliança entre os jogadores e Artie, vi que um cara abria caminho entre a pista de dança em direção à porta da saída, ele pendia um sorriso leve e malicioso nos lábios como se tivesse acabado de conseguir exatamente o que queria, seja lá o que fosse.

Se minha avó estivesse comigo agora, diria que ele era um rapaz belo, digno de um papel em algum filme hollywoodiano e eu teria concordado com ela. Ele era o rapaz mais bonito que já vira na vida. Se parecia um pouquinho com Ren, o namorado da Kells. Observei seus cabelos negros bagunçados e desalinhados, sua pele bronzeada em tom dourado e desejei saber a cor de seus olhos mas não conseguia os ver claramente. As garotas que o viam sorriam para ele, algumas outras que estavam bêbadas mandavam beijinhos no ar e os sopravam na direção do galã de Hollywood mas ele simplesmente as ignoravam.

O garoto bonito parou em frente a Artie, o qual levantou o braço gorducho, bloqueando a saída dele.

O garoto bonito se limitou a sorrir, parecendo se divertir com toda a situação.

Notas finais
Esse foi o primeiro capítulo, espero que gostem! Acho que já dá pra saber quem é o galã né? Também sou Team K ♥