O Tigre Negro
19 Lago de Espelho
Notas iniciais
Mais um capítulo de O Tigre Negro, espero que gostem
Minhas pernas formigavam, atiçando uma ardência extrema em meus músculos. Meu corpo implorava por água e descanso, mas que eu permitia apenas que sentisse a brisa e o sol brilhante queimando sob meus pelos de raposa.
Manik sobrevoava acima de minha cabeça, num céu extremamente azul enfeitado por imensas e gordas nuvens brancas. Após corrermos horas e horas sem cessar pelo caminho até Lokesh, ouvi um guincho de águia ecoando dos céus. O aviso. Algo que eu e Manik havíamos combinado posteriormente em caso de se algo suspeito acontecesse, ele guincharia ou eu lançaria labaredas de fogo para o alto. Daquela vez, foi o guincho estridente da águia que havia soado imponente. Logo meus atentos olhos vasculharam a área a procura de algo errado. Até se fixarem à minha frente, onde a razão do alerta de Manik pairava claramente conforme nos aproximávamos. Em frente existia uma longa extensão de algo claro que refletia o sol, sua superfície lisa tremulava conforme a brisa forte era soprada, em uma quase sedutora forma de chamar a atenção. Talvez fosse o calor, a sede e o cansaço combinados que me fizessem a enxergar daquela maneira, porém era inegável o fato do quanto um lago parecia poético naquele momento de necessidade. Porque não sabemos o quanto algo é primordial até o perdemos, e é nessa transição que a poesia é criada. Parei na beiradinha do lago cristalino e encarei a água-espelho. Vi meu rosto em forma de raposa pela primeira vez desde que me começara a me transformar nesses últimos dias. Meu pelo parecia ser tingido num tom de cor de abóbora escuro, enquanto as orelhas, numa tonalidade mais clara e amarronzada. Seguida por linhas pretas na borda de minhas orelhas empinadas. Meu focinho preto brilhava com o suor e meus “bigodes” oscilavam conforme o vento. Manik pousou ao meu lado deslizando suas asas suavemente. Ele se transformou em homem, me instruindo:– Vamos beber a água estando transformados em animais. – ele gesticulou em direção ao lago. — Essa água não é filtrada então não é aconselhável bebe-la enquanto somos humanos, podemos pegar vermes. Tentei fazer uma careta quando ouvi a palavra “vermes” porém tudo o que consegui foi algo parecido com um franzir de cenho. Supus naquele momento que rostos de animais não foram feitos para caretas humanas.– Nossos estômagos de animais são resistentes, foram feitos para aguentar beber água de lagos e rios. – continou Manik antes de se transformar em águia novamente. Encarei a raposa refletida no lago-espelho e mergulhei minha cabeça em sua direção como numa competição de quem pegava mais maçãs do barril. A água era deliciosamente refrescante. Abri meus olhos embaixo dela e vi milhares de pedrinhas que refletiam a luz do sol, descansando no fundo do lago cristalino. E então ouvi um barulho quase estrondoso que fez minhas orelhas se agitarem em alerta. Levantei minha cabeça, assustada. Olhei em volta e nada de estranho notara, quando virei minha atenção para frente senti algo se chocar contra mim. Em um primeiro momento fiquei confusa, mas depois de me chacoalhar notei que estava inteiramente molhada e que o que havia se chocado contra mim era na verdade água. A risada ecoou através do lago, através de Manik.– Desculpa, Lomari. Não pude resistir. – Ele puxou os cabelos encharcados para trás e levantou os ombros. Estreitei meus olhos de raposa e grunhi para a figura na água. Arrastei minhas pernas para trás, ganhando impulso. Num segundo, meu corpo de raposa foi impulsionado para a água. Quando finalmente emergi, juntei minhas mãos em um formato de concha e antes que Manik notasse que eu havia me transformado, criei uma pequena “onda” que se quebrou em suas costas. Quando Manik se virou, seu rosto estampava confusão. Água pingava de seu cabelo. – Está ficando boa até demais nisso, hein. Se transformar entre uma cambalhota? Impressionante. – Observou ele enquanto se livrava das gotas de água.– Para a insatisfação do mestre, sim. – Repliquei.– Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos. E eu definitivamente quero que você aprenda rápido e viva da maneira que bem queira. Dei tapinhas na superfície cristalina da água enquanto refletia sobre o que Manik dissera.– Oscar Wilde? – Arrisquei. — É uma boa citação, nós tendemos a pensar que egoísmo só envolve nós mesmos e uma fixação por satisfação própria, mas acho que o egoísmo só se solidifica quando essa fixação afeta outras pessoas. Quero dizer, manipular, impor, invadir vidas que detém livre arbítrio por ambição própria, isso é egoísmo em sua forma pura. E é por isso que luto contra Lokesh, seu egoísmo destruiu tantas pessoas... Manik desenhou círculos na água ao seu redor com os dedos.– E o altruísmo consiste em deixarmos todo o mundo viver do jeito que bem quiser. Você é a outra face. – Concluiu. Sorri ao pensar que eu realmente era a outra face. Lokesh manifestava sua onda de destruição causada pelo egoísmo enquanto eu, Manik, Kelsey, os tigres e Sr.kadam, irradiávamos altruísmo. Talvez fosse assim nos contos de fadas também.
– Manik? – Chamei, um pouco receosa. — Você percebeu que não estou afundando?– O que quer dizer? – Ele franziu o cenho, me observando.– Eu quero dizer que eu deveria estar afundando a esta hora, eu não sei nadar, se lembra? Agitei minhas pernas na água, sentindo o fluido que não me sustentava. Procurei por pedras que pudessem ser apoiadas pelas pontas dos meus pés mas elas eram inexistentes.– Isso é fundo? – Indaguei, num súbito desespero por apoio. Meus pés, braços e pernas se movimentavam da maneira necessária para que eu não afundasse, mesmo que meu cérebro não entendesse completamente como; eu estava nadando. E foi naquele momento que uma imagem aparecera em um borrão de cores verdes e brancas no fundo do meu cérebro. A menina, que parecia ter quinze anos, usava um vestido branco enfeitados por rendas delicadas e finas, suas mãos pálidas agarravam o vestido comprido e o puxavam um pouco acima de seus pés para que não pisassem em sua barra. O fluído transparente e gelado tocava a ponta dos dedos de seus pés suavemente, como se a corrente de água pudesse pressentir a graciosidade que a menina emanava. As vozes um pouco abafadas gritavam um nome.“Adelaide”A garota esticou o pescoço, visualizando o imenso lago azul logo após a cachoeira. As três figuras submergidas no lago acenavam para Adelaide e gesticulavam para que a menina se juntasse a elas. Adelaide respirou fundo, esticou os pés até que ficasse na ponta de seus dedos e os impulsionando; saltou em direção à água. As amigas de Adelaide sempre prendiam a respiração quando ela pulava ao lado daquela cachoeira majestosa, pensavam que a queda d’água havia sido feita justamente para que Adelaide pulasse ao seu lado, porque só assim aquela paisagem fazia sentido. Os braços de Adelaide se abriam, seus longos cabelos dourados esvoaçavam pelo ar e seu vestido branco pareciam asas abertas, sustentando um anjo em pleno voo. E as garotas não podiam ver, mas um sorriso genuíno pendia dos lábios de Adelaide. Ela encarava seu reflexo no lago enquanto caía e imaginava que estaria prestes a mergulhar num espelho que pudesse talvez a levar à um mundo mágico. Onde humanos se transformavam em animais e batalhas de heróis fossem épicas. Mas quando Adelaide mergulhava, só enxergava o mesmo fundo de lago de sempre. Ela movia seu corpo como uma sereia pela água do lago, habilmente movendo seus braços e pernas. E só submergia quando sentia seus pulmões queimarem por mais oxigênio. No momento que saía do lago, suas amigas aplaudiam animadamente, como se a menina finalizasse uma apresentação espetacular. E então o sorriso de Adelaide desaparecia ao constatar o quão real seu mundo era.– Manik!! – chamei com uma certa urgência. – Eu sei porque estou nadando! Eu acho que depois de acionar o gatilho do véu, herdei todas minhas habilidades de minhas vidas passadas... eu fui Adelaide! Uma menina que nadava muito bem. – Isso é incrível – ele disse sorridente, deslocando-se do lago. -, você provavelmente é poliglota. Saí do lago também, pisando nas geladas e imensas pedras enfileiradas em sua beirada. Manik me observava com um olhar atento e curioso.– O que foi? Porque está me olhando desse jeito? – perguntei.– Sua perna – ele apontou sério em minha direção –, ela estava normal até agora e então simplesmente uma cicatriz apareceu. Desviei meu olhar para checar minha perna. E foi quando a vi, uma longa cicatriz que cortava minha coxa direita a partir de seu meio até chegar no meu joelho. Um pouco trêmula toquei-a.– Isso não estava aqui antes – murmurei assustada.– Liz? – Manik chamou. Parecia conter apreensão em sua voz. – Talvez você deva dar uma olhada no lago. Me virei lentamente para o lago. E encarei a água abaixo. De início, vi apenas rugas de água formadas na superfície do lago cristalino. Conforme elas se desfaziam, uma imagem aparecia refletida na água-espelho. Uma garota. Uma pessoa diferente, que deveria ser eu. Porque a água não refletia Liz Borrel. Refletia uma garota indiana. E minha memória recuperada sussurrava seu nome em meu ouvido: Padma.
Notas finais
E então...?
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