O Tigre Negro

22 Kelsey Apagada


Notas iniciais
Oi gente, tudo bem? Espero que gostem desse capítulo :D

Baigas entravam na sala de comando como formigas. A maioria não sabia o que fazer agora que aparentemente Lokesh havia fugido. A sala de comando, onde Kishan e Lokesh haviam lutado estava abarrotada de balas duras cor de mel por todo o lado, chegando quase até os joelhos. Presumi que haviam usado o fruto dourado para distrair Lokesh com uma chuva de balas, o que agora dificultava a saída pelo galpão de lokesh.
Ninguém tinha tempo para explicar no momento, e com inúmeras famílias de Baigas que haviam perdido suas moradias, tudo estava confuso. Ouvi mães chorando, homens que seguravam armas, assustados e crianças chorando; perdidas de suas respectivas famílias.
Eu não aguentava ver o que a luta incessante de Lokesh pelos colares de Ren e Kishan haviam causado a pessoas que não deveriam ser envolvidas nessa situação. Subi nas caixas de armamentos empilhadas, fugindo do mar de balas duras para um lugar mais elevado.
– Atenção! – Gritei na língua Baiga.
Os índios se silenciaram ao ouvirem a voz da “filha do chefe”.
– Eu sinto muito por toda a destruição causada à aldeia Baiga. Eu sou filha de Lokesh, mas nunca cooperaria com seus planos mal-intencionados ou prejudicar a aldeia. – Nessa hora temi que uma rebelião se formasse contra mim, no entanto, todos permaneciam em extremo silêncio. Prossegui minha manifestação, com a garganta seca e o coração acelerado. – Soube que Lokesh fugiu e presumo que ele não voltará a usá-los como uma barreira de proteção contra tigres. No entanto, nada é certo, então proponho que todos se mudem para um local seguro.
Inúmeros Baigas que seguravam armas, as largaram no chão. Alguns se abraçavam, mães pararam de derramar lágrimas e todos sorriam diante de uma nova esperança.
– Ajudem meus amigos – Pedi aos Baigas – Lokesh prendeu um deles, ele está muito fraco e machucado. Eu sei que vocês conhecem a arte da cura como nenhum povo o conhece. Por favor...
Um dos Baigas, um senhor magro e que portava um cajado de madeira seca deu um passo à frente devagar.
– Nós a ajudaremos – Ele afirmou em uma voz enfraquecida, porém firme. – Você é filha de Lokesh, mas vejo que sua alma é boa e suas intenções são nobres.
Um grupo de Baigas se dirigiu apressadamente à sala onde a jaula de Ren estava localizada quando o senhor Baiga que havia se pronunciado acenou.
Todos seguiam devagar o Senhor do Cajado em meio à floresta densa e escura.
As luzes flamejantes das tochas iluminavam o suficiente para ver um pouco da trilha a frente e a cortina verde de folhas à nossa volta.
– Na verdade – Sr. Kadam explicou calmamente. – Senhorita Kelsey estava disfarçada como o braço direito Baiga de Lokesh, por esse motivo Ren...
– Meteu um soco bem no meio da cara dela? – Completei.
– Não colocaria exatamente nessas palavras. – Declarou ele, que no entanto não pôde deixar dar uma risadinha fraca.
– Isso é loucura – Continuei. – Vocês conseguiram recuperar o Lenço da Divina Tecelã e ele pode te transformar em outra pessoa? – Sr. Kadam assentiu enquanto evitava pisar em uma grossa raiz de árvore. – Então se Kelsey estava disfarçada como Baiga, quem era a verdadeira Kelsey?
Sr. Kadam lançou-me um olhar de entendimento, como se a resposta já estivesse implícita na nossa conversa anterior.

– Era Kishan!?
Sr. Kadam deu um pequeno pulo para trás como quem é surpreendido.
– Sim, Kishan estava disfarçado como Kelsey – Disse cautelosamente, como se não quisesse atiçar qualquer raiva que viesse (ou já havia vindo) à tona com a nova informação.
Minha respiração ficou densa e irregular. Kishan havia se disfarçado de Kelsey e então me xingou como se fosse ela. Isso não era justo com Kelsey.
Olhei para baixo quando senti algo perfurar minha palma da mão, percebendo que eram minhas próprias unhas. E a raiva flutuava novamente em meu estômago, fervendo como ácido.
Avancei pela procissão de índios Baigas rapidamente procurando por ele. Na hora eu não tinha a menor ideia do que dizer ou fazer. Talvez seguir o exemplo de Ren e soca-lo no meio da cara? A ideia era tentadora.
E então eu o vi.
Sob as luzes que crepitavam das tochas, seus cabelos negros pareciam ser feitos de ônix, os olhos brilhavam como bronze derretido.
E eu congelara. A raiva congelara.
Em seus braços ele carregava Kelsey, que parecia estar inconsciente por ter levado o soco. De tempo em tempo, ele olhava para seu rosto e tirava o cabelo que lhe cobria o rosto, gentilmente. Era difícil imaginar que esse Kishan era o mesmo que me prendera em uma jaula, que lutara comigo como se eu fosse um inimigo mortal.
Notei que Ren estava sendo transportado numa maca um pouco adiante por alguns índios Baigas. Aproximei-me dela, Ren estava acordado, mas muito ferido para caminhar sozinho.
– Ren? – Chamei baixinho.
– Eu te conheço? – A voz fraca dele saiu como um sussurro perdido.
Eu havia esquecido que minha aparência tinha mudado, então apenas sorri rapidamente e disse baixo:
– Sou só uma amiga.
Ren fechou os olhos como se sentisse dor.
– Não – Ele disse em meio a careta de dor. – Você é Padma.
Meu sangue reagiu como se mil agulhas magnetizadas fossem aproximadas à um ímã bruto.
– Como? Como saberia... – Minha voz fraquejou.
– É irmã de Yesubai. – Ele murmurou. – E são muito parecidas fisicamente.
– Eu... – Murmurei, sem saber ao certo o que dizer. No entanto, Ren havia fechado os olhos.
Uma luz forte brilhava à frente, observei inúmeros Baigas desacelerando seus passos, até que paramos em volta de uma enorme fogueira posta numa clareira.
O Senhor do Cajado prostrou-se humildemente ao ver Sr. Kadam e disse algo na língua Baiga.
Sr. Kadam se voltou para Kishan e para kelsey, que parecia ter acordado.
– Fomos convidados a ficar e descansar, além de participarmos de seus festejos comemorativos. – Disse ele.
Kishan assentiu. Kelsey estava cansada mas pôde se ver em seus olhos que estava tentada em prosseguir ao invés de parar para descanso.
Os Baigas preparavam o que podiam, tentavam armar barracas, no entanto não tinham todos os suprimentos necessários.
Sr. Kadam, com pena, criou tendas para cada família baiga com o Lenço Divino. Imediatamente Ren foi levado à uma delas.
Vi Kishan dizer algo à Kelsey, ele então a deixou junto ao Sr. Kadam, se dirigindo à tenda em que Ren foi levado.
Alguém teria que contar à Kells que Ren não se lembrava dela, mas ela estava tão frágil.
Procurei por Manik, que deveria estar ajudando os Baigas, suspirei quando não o encontrei. Talvez ele soubesse o que era melhor fazer.
Olhei para a tenda de Ren e quando percebi, estava a poucos passos de sua entrada. Então dei mais alguns passos e já estava praticamente dentro da tenda.
Um rosto se virou.
Os olhos de bronze sobrecarregados se repousaram sobre mim. E de súbito, se suavizaram.
– Padma – Um sussurro deixou seus lábios.
– Kishan – Eu esperava soar dura, no entanto, parecia aliviada em pronunciar seu nome.
Ele continuou onde estava, como se tivesse medo de me tocar ou se aproximar.
– Obrigado por pedir a ajuda dos Baigas. – Ele disse afinal. – Nós a ouvimos.
Encarei seus olhos.
– Não fiz isso por você. – Eu disse, dessa vez com a voz fria.
Ele não se pronunciou, apenas encarou seus pés.
Quando levantou o olhar, o brilho de seus olhos haviam mudado.
– Me desculpe – Ele disse se aproximando. – Não precisa me perdoar ou me aceitar de volta na sua vida...
– Eu só vim aqui falar sobre Ren – Interrompi-o.
A raiva borbulhava dentro de mim, era tão fácil pedir desculpa depois que tudo estava despedaçado...
– Ren não se lembra de Kelsey. – Declarei rapidamente.
Kishan suspirou.
– Manik me disse.
– Vai ser um choque pra ela, faz tanto tempo que ela não o vê. – Falei com uma certa urgência na voz.
No mesmo momento, alguns Baigas adentraram a tenda portando remédios naturais, folhagens e água; pedindo para que deixássemos o lugar para que assim pudessem tratar os ferimentos de Ren.
Kishan e eu saímos da tenda, deixando Ren aos cuidados dos índios. No lado de fora da tenda, um enorme e grosso tapete fora disposto no meio da clareira, perto da fogueira. E em cima dela inúmeros pratos típicos Baiga estavam espalhados como um banquete. Ao nos ver em pé, o Senhor do Cajado, que se tratava ser o líder da tribo acenou para que nos juntássemos ao único lugar livre no tapete: Ao lado de Kelsey e Sr. Kadam, é claro que o líder da tribo não tinha culpa de não saber que seria muito desconfortável sentar ao lado de Kelsey e Kishan, compartilhar uma refeição e comer sobremesa juntos (que aliás, era torta de morango).
Todos nos olhavam com curiosidade e a pressão começara a incomodar. Sr. Kadam sorriu, tentando amenizar o clima; no entanto ele ainda parecia pesar.
Kishan e eu nos sentamos em silêncio. Ele sentou-se primeiro, ao lado de Sr. Kadam, o que me obrigou a sentar do lado de Kelsey.
– Oi — Ela cochichou ao meu lado.
Virei-me. Me deparado com uma Kelsey sorrindo tristemente.
– Me desculpa pela jaula e tudo mais eu só achei que você trabalhava mesmo pra Lokesh e eu já havia perdido Ren, foi como se eu tivesse a perdido também, Liz. — Ela falava com desespero na voz.
– Tudo bem — Falei.- Você sofreu muito até agora e também não me deve desculpas.
Kells encarou a fogueira que soltava pequeninas fuligem negras pelo ar.
– Não estou querendo ser insistente — Ela disse. — Mas eu lhe devo desculpas, não importa o quanto sofri. Se de alguma forma a fiz sofrer também.
Sorri brevemente. Eu estava feliz por voltar a falar com Kelsey, ela era minha melhor amiga. Estávamos juntas desde Oregon e parecia errado estarmos em lados opostos de uma guerra.
Os Baigas começaram a se servir, colocando as refeições em folhas verdes grandes retiradas de árvores. Me deliciei com um arroz de cogumelo e especiarias perfumadas. Finalmente, vi Manik do outro lado do tapete, conversando com outros Baigas que outrora foram guardas de Lokesh. Quando me viu, ele levantou seu copo cheio de suco de manga e laranja, sorrindo.
Sorri de volta e levantei meu copo também, num brinde silencioso.
Nesse meio tempo, Kells olhava aflita para as inúmeras fileiras de tendas dispostas em fila.
– Ele vai ficar bem. — Afirmei baixinho.
Kelsey me olhou como se não acreditasse em mim se não pudesse checa-lo por conta própria.
E então ele apareceu, para a surpresa minha e de Kells. Lá estava Ren, com os cabelos lavados e inúmeros curativos espalhados pelo corpo. Não estava totalmente curado, mas muito melhor do que anteriormente.
Ele vestia uma espécie de saia, que na verdade era um pano bege enrolado em sua cintura. Uma vestimenta Baiga.
Ren passou por Kishan, dando um sorriso torto. Os irmãos se cumprimentaram com tapinhas nas costas e então se sentaram.
Eu sentia a tensão de Kelsey, a ansiedade para falar com Ren.
Ela inclinou a cabeça diversas vezes para ver Ren mas ele não olhara para ela sequer uma vez.
Lancei um olhar a Kishan. Em que gritava "deixe eu contá-la que ele não se lembra dela". Mas Kishan balançou a cabeça de leve, negando.
– Você quer comer mais alguma coisa? — A voz de Kelsey soou suave e esperançosa.
Ren olhou para Kelsey com a expressão neutra.
– Não, obrigado. — Disse educadamente.
A respiração de Kelsey pareceu desregular. Ela encarava a fogueira, sem compreender.
Músicas tocaram. Baigas se pronunciaram em um pedido de desculpas à nós por estarem trabalhando para Lokesh.
" Ele ameaçou machucar minha família se eu não o ajudasse."
E então duas garotas lindas surgiram, junto ao som de instrumentos Baigas. Elas dançavam, deslizando com graça para perto de nós, até ficarem de frente para Kishan e Ren.
Kishan parecia confuso.
Ren sorria genuinamente.
A garota sussurrou algo no ouvido de Ren e ele assentiu. Enrolando alguns cachos negros da garota entre seus dedos. Ele beijou seu nariz delicado, fazendo a garota sorrir timidamente.
– Liz — Kells disse sem entender.- O que está acontecendo?
Eu também não entendia, fora algo repentino, as garotas dançando, Ren agarrando uma delas ali...
Então o líder dos Baigas levantou, pigarreou e disse em sua língua nativa:
– Em agradecimento, ofereço aos dois tigres, nossas mais belas noivas.

Notas finais
E então? Me contem o que acharam ;)