O Teste da Deusa

21 Capítulo Vinte – Brinco com cães de metal


Notas iniciais
Oi gente! Estou indo responder os reviews agorinha, falo com vocês nas notas finais, beijo! [ATUALIZADO 01/02/2017]

Eu precisava admitir que Quíron tem muito bom gosto quando estamos falando de roupas.

Eu vestia uma bota de cano alto preta, uma legging cinza, e uma blusa de lã preta que se estendia até um pouco abaixo das minhas coxas.

Nico estava usando uma calça preta, botas de combate e uma jaqueta de aviador estranhamente familiar.

— Nós devíamos falar com o Percy.

— Eu não tenho certeza que é seguro tentar manter contato com ele por enquanto. Pelo menos, não nós.

Nico revirou os olhos enquanto dava mais uma mordida no sanduíche. Acabou que havia comida na geladeira sim, provavelmente cortesia de Quíron. Ou, talvez, estivéssemos comendo um sanduiche feito por Sally Jackson há dez anos.

Larguei meu copo e pisquei. Espera aí.

— Nico. O nome da mãe de Percy é Sally?

Ele assentiu, sem entender.

— Porque?

Lembrei da sensação sorrisos doces, abraços quentinhos e um conforto fora do normal. Eu conheço Sally?

— Nada. Bom, tem certeza que não precisa descansar mais?

— Eu tenho sim. – Ele levantou e foi até o quarto pegar as mochilas.

Havíamos passado o dia na cabana. Assim que Nico deitou, dormiu o tempo todo. Mas eu não. Minha cabeça estava trabalhando em várias possibilidades.

Analisei o papel com a mensagem de Quíron, atrás dele eu havia feito minhas próprias anotações. Ali estavam escritas as duas profecias e o que sabíamos delas até agora, junto com o nome que recebemos de Quíron.

Suspirei enquanto desenhava um círculo em volta da palavra.

— O que você acha que isso significa?

Nico deu de ombros e me entregou uma das mochilas.

— Vamos saber em breve, talvez quando pegarmos o carro. Nós temos que ir. Você tem mesmo certeza de que não quer passar no acampamento?

— Nico, alguma coisa lá quer me matar e usou o Percy...

— Não era o Percy. Podia ser, sei lá, um ciclope? Você que entende das criaturas místicas, não eu.

— Que seja. Ele talvez corra perigo conosco. No acampamento ele vai ficar seguro, a essa altura Jason e Piper já devem estar lá.

Nico revirou os olhos. Eu sabia que ele estava irritado com a ideia de não levar Percy – o que é muito, muito estranho. Olhamos ao nosso redor, tendo o cuidado de checar se não deixamos nada para trás.

Nico me estendeu a mão.

— Vamos?

— Precisamos mesmo ir pelas trevas? É só até a parada de ônibus.

— Precisamos sim, e se não irmos agora, vamos perder o horário.

Bufei irritada e lhe dei a mão. Logo, a escuridão nos engolia por completo.

Quando abri os olhos, a luz dos faróis atingiu meus olhos e me fizeram fechá-los novamente. Nico gritou, levantando a mão para fazer sinal ao ônibus que freou logo em seguida.

— Santo Deus! – O motorista exclamou assim que abriu a porta – Eu podia jurar que não tinha ninguém nessa parada, eu tinha acabado de olhar e não vi nada! Me desculpem.

Nico abriu um sorriso ensaiado – claramente falso – e lhe estendeu o dinheiro, comprando as nossas passagens.

— Tudo bem, sem problemas. Essas coisas acontecem.

O motorista assentiu e nos desejou boa viagem e logo já estávamos acomodados em nossos bancos junto com as mochilas.

— Até agora, tudo bem. Não é? – Tentei sorrir.

— Não diga isso. As coisas conseguem ficar terrivelmente ruins sempre que alguém diz isso.

Desfiz meu sorriso e encarei a estrada. Vai ser uma longa viagem.

***

Levamos mais ou menos quatro horas para chegar até o Empire State. Milagrosamente, estávamos vivos.

— Como a gente conseguiu pegar trânsito às dez da noite? – Resmunguei, irritada.

— É por isso que eu prefiro viajar nas sombras.

— Bom, ninguém está desmaiado, não é? Não reclame.

Ajeitei o casaco que eu havia colocado e olhei ao redor.

— Quem exatamente nós estamos procurando?

Nico olhou ao nosso redor e deu um enorme sorriso ao localizar quem quer que fosse. Encarei a mesma direção que ele e vi uma garota, com o cabelo castanho trançado. Ela usava uma legging preta, botas de combate, uma blusa branca e um casaco roxo. Estava escorada à um poste, jogando uma moeda para cima. Aos seus pés dois cães brincavam tranquilamente em um pega-pega infinito.

Nico mal falou comigo e já ia em direção a ela, me deixando para trás. Eu ainda não o havia alcançado quando a garota o viu e se jogou sobre ele, num abraço.

Senti algo se revirar no meu interior, mas não pude distinguir exatamente o que era.

— Como você está? Eu fiquei muito preocupada quando recebi a mensagem.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos, virou para um lado, para o outro, analisando cada pedaço e conferindo se estava tudo em ordem. Ela se comportava como uma irmã mais velha, mas não parecia ser irmã dele. Quando a manga da jaqueta desceu um pouco não pude deixar de reparar a tatuagem na parte interna de seu braço. SPQR.

— Eu estou bem. Vem, vem dar oi pra Annabeth.

Sorri meio tímida forçando meu cérebro a trabalhar. Quem é ela?

Ela sorriu para mim, e me abraçou, não tão entusiástica como com Nico.

— Como vai Annabeth? É bom ter ver.

— Igualmente... – Encarei Nico em um pedido de socorro.

— Ah, desculpe. Reyna, Annabeth ainda não recuperou a memória. – Ela assentiu, me encarando – Bom, essa aqui é a pretora do Acampamento Júpiter, não acho que vocês tenham se encontrado aquele dia. Lembra da Reyna?

Forcei um pouco mais a minha mente, e com a menção ao nome, lembrei de algumas coisas. Jason, Percy, uma cidade queimando.

Sorri, tentando disfarçar a bagunça em minha mente.

— Claro, que bobeira a minha. – Ouvi um rosnado abaixo de mim e olhei para baixo.

— Notei que trouxe os meninos – Nico se abaixou e fez carinho em uma das orelhas, quando meus olhos focaram de verdade os cachorros, quase cai para trás.

— Eles... eles... Como eu não notei?

Nico riu um pouco.

— Tudo bem Annie, é normal, é a névoa. Trouxe aurum e argentum pra te proteger?

Tentei me lembrar dos meus encontros com Reyna. A primeira vez que nos vimos, estávamos conversando enquanto caminhávamos por algum lugar, até que tudo começou a pegar fogo. Tenho quase certeza que ela disse que eu deveria ficar, e ser morta pelos meus crimes. Não estou muito certa de que temos uma relação muito amigável.

— Nunca se sabe quem você pode encontrar no caminho, não é? Bem, eu fui convocada para uma reunião no olimpo, acho que alguma deusa desapareceu e eles querem que eu invente algo para tranquilizar o acampamento. Quando eu estava saindo, recebi um pacote de Mercúrio, com isso. – Ela levantou as chaves e nos mostrou, entregando a Nico. – E aí, tinha instruções pra mim vir até aqui e esperar o Rei Fantasma. Eu achei que pudesse ter acontecido alguma coisa. Vocês estão em missão ou algo assim? Aliás, você fez um trabalho maravilhoso na reforma do Olimpo Annabeth. Por mais estranho que seja entrar em um lugar grego. Acho que os deuses estão um pouco doidos. – Um trovão retumbou acima de nós e Reyna levantou as mãos em rendição antes de responder aos céus. – O que eu posso fazer? É verdade.

Fui responder, mas Nico me interrompeu. Espera aí. Eu reformei o Olimpo? Por quê? Minha mente se moldou à imagem onde eu estava em uma sala, com vários... Deuses, eu e Percy. Ele rejeitou a imortalidade. Eu fui escolhida para reformar o olimpo. Por que estávamos juntos por lá?

— Não exatamente. Bom, muito obrigado. Diga a todos no acampamento que logo, logo tudo vai estar resolvido, eu prometo. Você está há muito tempo aí?

— Algumas horas. – Ela respirou fundo – Mas eu preciso ir. Guido está me esperando longe daqui. Eu realmente preciso ir, Frank está sozinho, depois que Jason virou pontifex¹ ele não tem muito tempo livre para me substituir enquanto estou fora. E a legião realmente sabe ser caótica quando quer. – Ela apertou o braço de Nico. – Gostaria que conversássemos mais, tenho a impressão que algo está muito errado.

— Tem certeza que é seguro ir agora? Está muito tarde, e escuro.

Ela mostrou as adagas escondidas dentro do casaco e sorriu.

— Eu sei me cuidar, sou pretora da décima segunda legião. Qualquer coisa, aurum e argentum vão me proteger.

Ela deu um breve aceno de cabeça para mim e dentro de poucos minutos já havia desaparecido completamente de nossa vista.

— Bom. Isso foi estranho. Quando foi que vocês ficaram tão... próximos?

Nico apenas levantou a sobrancelha, e pegou algo em sua mochila. Era um relógio.

— Bom, durante a segunda Grande Profecia, nós carregamos juntos a Atena Partenos. Sabe, lá do outro lado do mundo, até aqui. Foi uma viagem longa, tivemos tempo de nos conhecer bem.

Concordei com a cabeça e apertei a alça da mochila.

— Bom, qual desses é o nosso carro?

Nico pegou a chave e apertou o botão de alarme e um Prius prata ao nosso lado apitou.

— Maravilha.

Nico passou para o lado do motorista e se sentou, sendo seguido por mim. Eu tinha a estranha sensação de que Prius me eram familiares.

— Nico, eu já tive algum carro como esse?

Ele negou, enquanto abria a parte de cima, lá encontrou documentos de carro e carteiras de motorista com os mesmos nomes que as identidades falsas na minha bolsa.

— Melhor deixarmos as mochilas aqui, e não no porta malas, nunca se sabe quando vamos precisar fugir.

Assenti e abri o porta-luvas.

Lá dentro havia um pouco de dinheiro, um pacote com ambrosia e um papel em branco. Puxei-o para analisar melhor.

— O que é isso? – Murmurou Nico, tentando ver. Ele olhou em volta para ter certeza que ninguém prestava uma atenção desnecessária em nós e acendeu a luz acima da nossa cabeça.

— Eu não sei... parece não ter nada.

Desdobrei o papel e de repente ele se iluminou, formando vários desenhos.

— É um tipo de mapa. Um mapa daqui.

Um ponto brilhante surgiu no canto direito.

— Ei, somos nós aqui. – Nico apontou. – É um caminho... Passa por Nova Jersey, Pensilvânia, Ohio, Indiana, Illinois, Wisconsin, Minnesota, Dakota do Norte...

Narramos a trajetória enquanto uma linha luminosa indicava o caminho.

— Aí sai dos Estados Unidos, entramos no Canadá. Saskatchewan, Alberta, a Colúmbia Britânica, Yukon e aí termina em...

— Juneau.

Apertei os lábios. A imagem na folha desapareceu.

— Não foi isso o que Quíron disse? Juneau? É um lugar? É pra lá que devemos ir? – Bati a mão na minha testa, como sou estúpida. – É a capital do Alasca.

— Eu acho que sim. Melhor a gente guardar isso.

— Lá não tem algum problema com os deuses? Não consigo lembrar.

— Bom, – Nico coçou a cabeça – o Alasca meio que está fora do domínio dos deuses, é uma terra meio doida. Faz sentido Afrodite não conseguir sair de lá. Mas Annie, são... mais de seis mil quilômetros.

— Bom, queremos que eu recupere a memória ou não?

Nico espremeu os lábios e então revirou os olhos.

— Acho bom essa viagem valer a pena. É melhor irmos dormir em algum lugar, e aí, partir de manhã. Já é bem tarde.

Assenti enquanto encarava o relógio. Meia noite.

— Ei! – Uma ideia surgiu em minha mente. – Já sei pra onde podemos ir, liga o carro.

Nico apenas suspirou e deu a partida. Talvez agora as coisas comecem a dar certo.

Notas finais
Eu amei vocês respondendo minhas perguntas do capítulo passado. E eu resolvi postar esse até que rápido, porque eu já escrevi o próximo capítulo e posso dizer que: SE PREPAREM. Esse capítulo não foi muito dinâmico, mas teve várias coisas importantes. Quais seus palpites para o que vai acontecer agora? ¹ Pontifex maximus é o termo em latim pra... basicamente, "sumo sacerdote dos deuses", é o cargo mais alto que se pode ter no Acampamento (e na Roma Antiga também, eu acho). Se não me engano, Nico disse que o senado queria eleger Jason em O Sangue do Olimpo.