O Teste da Deusa

15 Capítulo Quatorze – Planos


Notas iniciais
Boa leitura! [ATUALIZADO 01/02/2017]

A área dos chalés era bem ampla. Haviam pelo menos trinta construções baixas. Lembro que na minha infância haviam apenas doze. Gostaria de me lembrar de como eles surgiram.

O chalé de Hades não era difícil de identificar, era feito de mármore negro, e eu tinha a impressão de ver detalhes em obsidiana. As colunas causavam arrepios, não existiam janelas, e havia caveiras demais para o meu gosto. Uma tocha queimava do lado de fora, mesmo à luz do dia, me fazendo imaginar o motivo dela estar ali.

Respirei fundo quando parei na porta e girei a maçaneta.

O interior era muito mais convidativo. Os chalés do acampamento são grandes, por terem de abrigar um número alto de campistas, e aquele não era diferente apesar de ter apenas um morador, bom, talvez dois com as visitas esporádicas de Hazel. Uma cama de casal ocupava o lado esquerdo, sua cabeceira parecia ser de veludo, preta, os lençóis eram de seda vermelha escura. Um pouco mais à frente, no mesmo lado, haviam dois beliches pretos, lençóis também de seda, mas num tom bordô.

O chão era coberto por um carpete cinza escuro, que atuava com as paredes também pretas. As luzes, vindas de pequenas luminárias, eram fracas em todos os cantos do quarto, que deveria parecer ameaçador, mas me deixava tranquila.

Sentei na cama de casal, que imaginei ser de Nico. Havia uma porta que, possivelmente, dava para um banheiro. A maioria dos chalés não têm um, mas acredito que ser filho de um dos três grandes deva lhe dar privilégios. No lado direito haviam bancadas com livros, papéis e lápis, na parede havia um painel com anotações, fotos e desenhos. Haviam fotos minhas, do Argo e do pessoal, me aproximei para vê-las melhor e tentei lembrar daquilo.

Levei um susto quando a porta do banheiro abriu e um Nico usando apenas uma toalha amarrada da cintura, saiu. A mão direita segurava a parte do nó e a esquerda usava outra toalha para secar o cabelo.

Por todos os deuses.

— Annabeth! Você acordou. Eu não esperava você aqui. Eu... vou vestir alguma coisa.

Ele caminhou até um pequeno armário e tirou algumas peças. Olhei para o outro lado, já que ele decidiu colocar as roupas ali mesmo.

— Posso olhar?

Ele deu uma risada.

— Você não precisava nem ter desviado.

Revirei os olhos sorrindo e olhei para ele. A maldita calça de moletom solta no quadril. Camisas. Eu preciso de uma camisa para esse homem.

— Eu não lembrava do chalé de Hades. Quando eu era pequena, ele não existia. Porque Zeus resolveu permitir?

Nico esfregou um pouco mais do cabelo com a toalha.

— Bom, Percy pediu. Pediu vários chalés a mais.

Abri a boca, em descrença.

— Ele pediu? Só isso? Foi lá e eles acharam que era uma boa ideia?

Nico deu uma risadinha e negou com a cabeça.

— Ele trocou a imortalidade dele por isso.

Pela segunda vez, abri a boca sem acreditar.

— Imortalidade? Ele era imortal? Por que ele não ia querer isso?

— Quem sabe? Aquele cara é estranho. Eu vou colocar a toalha ali no banheiro, espera aí.

Quando Nico me deu as costas, entrando no banheiro, um som agoniado saiu da minha garganta. Ele voltou logo em seguida.

— O que?

Fui até ele e o virei de costas para mim, novamente.

— Suas costas. – Meus olhos encheram d’água. Haviam cinco cicatrizes atravessando toda a parte de trás do seu tronco, com a largura de dois dedos meus. Eram manchas quase rosas, um pouco mais altas que a pele dele. Meus dedos encostaram em uma delas, e ele retesou o corpo. – Dói?

Ele negou, virando para mim.

— Só está um pouco sensível.

— Me desculpe. – Eu podia sentir algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Eu não quis... não quis que isso acontecesse. Foi minha culpa. Se eu... se eu lembrasse...

Pisquei, tentando afastar as lágrimas. Como uma semideusa eu devo ter visto todo tipo de tragédia, mas como Annabeth Chase, a garota sem memória, aquilo tudo era um absurdo. Como eu podia aprender a lidar com coisas daquele tipo? Como mal suportava aquilo, como lidaria com coisas mais difíceis, como a morte de alguém?

— Ei, não, claro que não. – Ele secou minhas bochechas com a ponta dos dedos e deixou as mãos ali. – Não foi sua culpa meu amor. Nada disso foi.

Segurei suas mãos ali. Eu precisava de apoio. Precisava de alguém para contar.

— Eu podia ter feito algo. Agora você vai ficar com essas cicatrizes.

— Annie. Foram marcas que vieram enquanto eu tentava proteger a garota que amo, eu não tenho nada para me envergonhar disso. Eu ia me machucar quantas vezes mais fossem necessárias para que você nunca seja atingida. Aliás, eu quase te matei por causa da ambrosia que eu te dei. Vamos mesmo discutir quem tem mais culpa?

Eu quis chorar mais. Mas não chorei. Eu sorri. Eu sorri e fiz o que queria fazer há algum tempo. Preciso experimentar uma coisa.

Estiquei um pouco meu corpo e encostei meus lábios nos de Nico. Ele ficou lá parado, me segurando. Me mantendo ali, como se estivesse com medo que eu fugisse. Até decidir me beijar também. Eu me sentia feliz. Me sentia segura. Me sentia protegida. Não queria nunca sair daquela bolha que criamos.

Ele encostou a testa na minha me prendendo ali. A pele de Nico contra os meus dedos. Sua respiração no meu rosto. Seus braços à minha volta.

— Você lembrou? Lembrou de mim? – Ele parecia tão agarrado àquela esperança que me senti péssima por não poder concordar. Neguei com a cabeça. – Então... porque... porque você...

Sorri.

— Eu não sei. Porque eu quis. Porque você é uma boa pessoa Nico. Porque provavelmente é isso o que eu faria caso pudesse lembrar.

Ele sorriu, de um jeito tão feliz que me fez ter vontade de tê-lo beijado antes. Me deu uma série de beijos rápidos e me soltou rindo.

— Certo. Precisamos falar com Quíron, não é?

Neguei novamente, sentei na cama tirando os sapatos e cruzei as pernas.

— Eu já fiz isso.

— E aí, o que ele disse que aconteceu?

— Ele não falou nada que eu não soubesse. Disse que foi algum deus, realmente, e que os motivos são um mistério. Disse que eu esqueci o nosso mundo, sabe, esse “mitológico”. Que eu perdi meus instintos de semideusa. Mas posso recuperar.

— Como?

— Numa missão.

Ele assentiu sentando em um sofá de canto que eu ainda não tinha visto.

— Quando Quíron disse que você vai poder ir falar com o Oráculo?

— Então, sobre isso...

— Annabeth...

— Ele não quis me ajudar Nico! Disse que não tinha permissão. Eu não me lembro de Quíron precisar de permissão para fazer qualquer coisa.

— Annie... Se ele disse que não podemos, não podemos.

— Na verdade, não foi bem isso que ele disse.

— Annabeth...

— Ele disse claramente: eu não posso deixar você ir até o Oráculo enquanto eu estiver aqui.

Nico tentou falar algo, mas suspirou derrotado.

— Mas o que você sugere então Annie? Invadir a Casa Grande e consultar o Oráculo em segredo quando ele não estiver?

Sorri de lado enquanto Nico negava e dizia que não poderíamos fazer aquilo.

— É exatamente isso que vamos fazer.

***

Era hora do almoço. Até onde sei, deve ter pelo menos uns cinco anos que eu não lidero a fila do chalé de Atena. No mínimo.

A minha mesa era cheia, gigantesca. Eles ficavam rindo e brincando o tempo todo, e lembrei da minha própria mesa, quer dizer, ela no passado. Todos os amigos que tive. Meu coração se encheu de alegria e pesar. Onde estariam? Todos vivos?

Nico não aparecera ainda, e eu estava um pouco preocupada. Onde mais ele podia estar?

De repente vi Percy chegar, fazer sua oferenda e ir para a sua mesa. Vazia. Apenas ele.

Peguei minha bandeja e me sentei à mesa dele, na sua frente.

Ele interrompeu sua garfada e me olhou surpreso.

— Ãn. Não sei se você pode sentar aqui. – Ele moveu o garfo em um gesto que nos envolvia.

— Ah. – Me surpreendi – Existem regras para isso? – Dei de ombros, dando uma garfada no meu macarrão – Eu não sei de nada.

Percy sorriu, voltando a comer.

— O que faz aqui?

— Bom, eu te vi aqui sozinho e pensei “eu podia ir lá fazer companhia para ele”. E aqui estou. Fim.

Sua boca estava suja de molho e ele sorria para mim, de boca cheia.

— Você nunca fez isso antes.

— Mesmo? Que estranho. Acho que eu viria.

— Eu não tenho tanta certeza, você é toda certinha e tal.

— Talvez eu fosse. Agora que eu não me lembro de nada mesmo, posso ser quem eu quiser.

— Acho que eu gosto muito mais dessa nova Annabeth do que da outra.

Abri a boca, fazendo cena, mas dei risada.

— Acho que eu devia me sentir ofendida.

— Provavelmente. – Ele tomou um gole da sua bebida. – Onde está Nico?

— Eu não sei. – Olhei para os lados, procurando Nico, mesmo sabendo que ele não estava ali – Nós nos falamos mais cedo, mas ele saiu e eu fui para o meu chalé trocar de roupa... depois não o vi mais. Achei que ele estaria aqui.

— Ele deve estar um pouco atrasado.

— É. E a Rachel? Não está aqui?

Uma sensação estranha se apossou de mim. Percy sorriu.

— A Rach é mortal, não vê muita graça em ficar aqui, até porque, não é seguro para ela andar tanto com semideuses. Tenho medo que meu cheiro fique nela, ou algo assim. Ela deve estar resolvendo as coisas do casamento.

Uma pontada me atingiu, sem motivos.

— Eu havia esquecido completamente! Meus parabéns! Eu não consigo lembrar da Rach, mas ela deve ser muito legal.

Percy mastigou mais um pedaço da sua comida, tentando evitar um sorriso.

— Eu nunca achei que ouviria isso da sua boca.

— O que? Por quê?

Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto, estava calor.

— Bom, você a odeia desde o momento em que colocou os olhos nela. Lembra? Quando... eu quase explodi minha escola, antes de virmos para o acampamento?

Forcei minha mente a lembrar. Eu corria, para tentar tirar Percy de uma encrenca, como sempre.

Assenti, sorrindo, surpresa. Qual era mesmo o problema daquela vez?

— Eu lembro! Os lestrigões!

— Os Les... quem?

Revirei os olhos sorrindo. Ele havia me feito aquela mesma pergunta muito tempo atrás.

— Os canadenses.

Percy exclamou um longo “ah” em compreensão.

— Não, essa foi a vez em que você conheceu o Tyson.

— Oh meu Deus, Tyson. Eu nem... nem me lembrava dele.

— Ele sente saudades de você. Mas você ainda não acertou.

— Certou. Me deixe pensar. – Ficamos em silêncio por um segundo e eu lembrei. – As empousai. Te atacaram, destruíram sua escola. E... Rachel ajudou você.

Pelo visto as empousai só te trazem azar.

Levei um susto. A voz em minha cabeça foi alta e clara.

— O que foi? Tudo bem?

Assenti lentamente olhando para os lados.

— Eu só... pensei ter ouvido algo. – Sorri, negando com a cabeça – Vocês se casam quando?

— Daqui... mm mês e vinte e três dias, exatamente.

— Já? Uau. Eu não imaginava que ia ser tão rápido.

Ele sorriu.

— Rápido mais ou menos né. Fazem uns cinco anos que estamos juntos.

— Vocês já namoravam na época do Argo?

— Mais ou menos. Nós havíamos dado um tempo durante a missão.

Assenti, compreendendo.

— Annie. Te achei. Foi meio difícil já que você não estava na sua mesa.

Levei um susto ao ouvir a voz de Nico.

— Oi! Eu não sabia que você tinha chego. Onde você foi?

— Eu fui resolver aquele nosso problema.

Assenti.

— Bom, eu preciso ir. – Percy levantou da mesa – Você vai ir lá agora ou no final da tarde?

— Eu vou ver o que Nico quer me dizer, e aí decido. Tudo bem? Ou preciso avisar antes?

— Não, pode só aparecer. Tudo bem.

— Tchau Percy.

Ele sorriu para mim e acenou com a cabeça para Nico. Girei meu corpo, ficando de frente para ele.

— E aí?

— Bom, nós vamos ter que ir bem tarde hoje. O Sr. D geralmente vai para outro lugar. Quíron dorme cedo, mas não sei. A gente pode ir pelas sombras.

Assenti. Nico pigarreou.

— Onde você vai com Percy?

— Ah. Ele vai me ensinar esgrima. Vamos ver se conseguimos reativar a minha mente.

— O Percy? Vocês andam bem amigos, né.

Encarei o Nico, esperando não ver o que achei que estava acontecendo.

— Você está com ciúmes? Do Percy? Eu nem me lembro dele! Ele está noivo! E, sabe, eu ainda não lembro de nós.

Ele abriu a boca, e a fechou logo em seguida. Olhou para o chão, depois para um dos lados.

Percebi o que eu tinha falado tarde demais.

— Nico eu...

— Não. Tudo bem. Você está certa. Eu só acho que se você lembrasse dele, não estaria assim, tão próxima.

Nico me deixou ali sozinha, e eu não pude deixar de imaginar com quem estava me metendo.

Notas finais
Oi oi gente, então, acho que eu tô' cumprindo super bem a parte de postar, vai? Estou sendo bem legal, quase um cap por semaaana. Beijão! ^^