O Teste da Deusa
19 Capítulo Dezoito – Ordeno um ataque
Notas iniciais

P.O.V. Rachel
Assim que acordei, sorri.
Sorri como vinha fazendo nos últimos dias.
Minha cama parecia mais confortável a cada manhã, mesmo com toda aquela roupa de cama branca. Eu me sentia num filme.
Olhei para minha mão e vi o anel.
Não pude deixar de dar uma risadinha e me enrolar contra os lençóis.
Eu estou noiva de Percy Jackson.
Noiva.
Era assim agora. Ficar rindo à toa o tempo todo.
Na última semana, eu conheci oficialmente o Acampamento Júpiter, e conheci muitos dos amigos de Percy. Há anos não me sentia bem assim, estar longe de todo esse mundo mítico não me fazia bem. Eu parecia precisar desse contato constantemente, e, por mais que eu quisesse passar o tempo todo com ele no acampamento, eu precisei ficar por aqui. Havia muito sobre o casamento a ser visto.
Levantei e fui até o banheiro, juntando todo o meu volumoso cabelo num coque alto, acima da minha cabeça.
A maldição funcionara melhor do que eu havia previsto. Percy me pediu em casamento. As lembranças de todos os anos que deveríamos ter tido surgiam na minha cabeça todos os dias, uma melhor que a outra. Consigo lembrar de toda a minha aflição a cada vez que ele saia em uma missão, como meus pais reagiram ao conhece-lo, e como ainda não sabem que abandonei a faculdade de direito. Pelo visto, meu casamento será um dia de fortes emoções.
E, preciso dizer que se não fossem as minhas memórias anteriores, eu nunca saberia de nada. E até mesmo elas estão sumindo aos poucos e dando lugar às novas. Apesar disso tudo ainda é uma neblina na minha mente e tenho dificuldade em saber o que é real, e o que não é. Durante todo esse tempo, Nêmesis não apareceu uma única vez. Me pergunto o que isso significa.
O que eu teria de fazer para ela caso tudo desse errado?
Chequei meu relógio e percebi que estava atrasada para ir ao trabalho na galeria. Minhas obras evoluíram muito desde que cheguei aqui, e me pergunto se o motivo pelo qual eu não conseguia ser grande antes era por não ter Percy.
Ou quem sabe, não aceitar não o ter. Desde o dia que ele negara meu beijo em seu apartamento e simplesmente desapareceu da minha vida, tudo começou a dar errado.
Troquei de roupas, colocando minha calça jeans habitual e uma camiseta qualquer. Estou atrasada, de novo.
— Onde é que eu coloquei aquelas botas?
Quando as encontrei, calcei meus sapatos, peguei meu casaco e um cachecol, e desci as escadas do meu prédio, caminhando até a cafeteria mais próxima, esperei meu café ficar pronto e voltei para a rua.
Meu celular começou a tocar, e eu nem precisei checar quem era.
— Bom dia Rach.
Sorri e não pude conter um suspiro.
— Bom dia querido.
— Você está atrasada de novo, não é?
— Estou. – Dei uma risada – Não tenho culpa se precisei ficar acordada até tarde ontem. Você não faz ideia de como é difícil organizar um casamento. É pouco tempo e eu preciso enviar os convites. Você sabe por onde o Grover anda? Eu realmente não faço ideia de como encontrar aquele bode.
— É mais fácil você enviar para Juníper, ela está aqui no acampamento.
— Ótimo. Estou mais tranquila. – Fiz sinal, chamando um táxi. – Como você está?
— Estou bem, e um pouco animado, na verdade.
— Jura? O que aconteceu?
Um táxi finalmente estacionou e eu dei o endereço da galeria.
— Você não vai acreditar quem chegou no acampamento.
— Quem? Clarisse? Quem sabe... Will está de volta? Jason e a Piper voltaram do Acampamento Júpiter?
— Não. Annabeth Chase voltou.
Eu achei que podia ter uma parada cardíaca ali mesmo. Talvez podia ter caído, se eu já não estivesse sentada. Todo e qualquer sinal de felicidade se espalhou para fora do meu corpo.
— A-Annabeth? O... O que ela está fazendo aí?
Eu sabia que ela também devia estar em Nova Roma quando estivemos lá, afinal, era uma festa para eles. Mas, até onde sei, Percy não havia visto-a por lá. Até onde sei, nessa nova realidade, Percy não deveria querer ver nem a sombra dela.
— Parece que ela perdeu a memória, então eu estou tentando ajudar ela a lembrar. Claro, eu e o namorado dela. Ou não é mais namorado. Não tenho certeza.
Minha cabeça estava girando. Annabeth no acampamento com Percy? Isso não é bom.
— Ela está namorando? Eu não sabia.
— Como não? Durante a missão contra Gaia... Bom. Não importa. Nico está aqui com ela. Ontem tivemos nossa primeira aula de esgrima, e eu preciso lhe contar algo.
É agora. Ele descobriu tudo e vai me deixar.
— Diga querido.
— Eu quero sair em uma missão, para ajudá-la a lembrar. Ontem à noite eles invadiram a casa grande, hoje durante o almoço vou conseguir mais detalhes, mas tenho certeza que eles conseguiram entrar.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. Vocês não têm alguma rixa eterna que fez com que vocês não se falassem todos esses anos?
Pude ouvi-lo suspirar do outro lado.
— E nós tínhamos. Mas, sabe, eu estou aprendendo a lidar com isso. E desde que perdeu a memória, ela parece outra pessoa. Alguém pela qual valeria a pena ser um amigo. E ela precisa da minha ajuda, eu posso sentir isso. De uma forma ou outra, nós éramos amigos quando na nossa infância.
Eu não sabia se prendia a respiração, ou respirava muito rápido.
— Nosso casamento está chegando, Percy. Quero você vivo nele.
— Eu vou sobreviver. Bom, preciso ir.
— Vai me ligar depois do almoço?
— Não posso, tenho aula de esgrima com Annabeth hoje. São só por uns dias...
Apertei o copo de café na minha mão, derramando um pouco na minha perna.
— Droga... quer dizer, tudo bem querido. Nos falamos a noite então. Amo você.
— Também amo você.
Desliguei o telefone e tentei ao máximo possível limpar minha perna.
O que aquela maluca está querendo?
Paguei o taxista e desci para a galeria, indo até minha sala.
Larguei meu casaco, o cachecol e a bolsa sobre a mesa.
— Eu preciso de um calmante.
— Eu é que preciso de um quando sou obrigada a lidar com você.
Com um susto me virei e vi a mulher sentada no sofá encostado na parede. Nêmesis.
— O que você está fazendo aqui?
— Seu noivo finalmente lhe contou que a garota está por lá?
Suspirei, esfregando meu rosto.
— O que eu vou fazer? Eles têm tido aulas de esgrima juntos, ontem à noite ela recebeu uma missão e ele quer ir junto...
— Ontem à noite? – A deusa levantou, parecendo irritada. – Aquele centauro miserável, não deveria deixá-la ter uma missão... acho que teremos outra conversinha hoje. – Ela sorriu de um jeito estranho e me encarou. – Como vão os preparativos?
— Eles iam bem. Mas se a Chase conseguir algo, não acho que terei casamento para organizar.
— Bobagem. Só precisamos impedir que Percy vá com ela. Acho que eu mesma terei de... assustá-la um pouco.
Engoli em seco.
— Você vai machucá-la?
— Talvez. Você se importa?
Desviei de seu olhar e encarei o chão.
A verdade é que eu não queria fazer Annabeth sofrer. Quando aceitei o acordo, pensei somente em mim. Não me interessava o que aconteceria a ela, ao menos Nêmesis teve a bondade de lhe deixar com Nico. Eu não queria que ela se machucasse.
Fingi desdém.
— Só tente não matá-la, isso acabaria com a graça.
Ela revirou os olhos e caminhou um pouco.
— Como quiser, mas saiba que ela pode lembrar, e já está fazendo uma bagunça com todos, inclusive seu amado Percy.
Trinquei meus dentes.
— Nós vamos casar, e aí, todos vão poder viver felizes. Ela tem o Nico, não é mesmo?
— Você não faz ideia das infinitas coisas que mudaram.
Engoli em seco.
— Eu não preciso saber.
— Só saiba que você precisa concluir essa tarefa, caso contrário, você tem uma dívida comigo.
E então, ela se dissipou em uma névoa verde.
Meus telefones começaram a tocar e meu chefe vinha em minha direção. Pela primeira vez desde que acordei, estou apavorada. Quantas vidas eu destruí? E, afinal, o que Nêmesis quer de mim?
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