O Teste da Deusa
12 Capítulo Onze – Como entrar em pânico
Notas iniciais

— Por favor, eu não aguento mais. Diz que já é a minha vez de dirigir ou eu vou morrer de tédio. Por favor.
Nico deu uma leve risada ao meu lado, e negou com a cabeça.
— A sua vez é depois do jantar, calma, nós já vamos achar algum lugar para comer.
Me escorei no assento meio emburrada. Estávamos no segundo dia de viagem e pelo ritmo das coisas, na noite seguinte já teríamos chego ao acampamento. Desde a declaração de Nico, ele não havia falado muito, ficava quieto na maior parte do tempo e ocasionalmente se manifestava para responder alguma pergunta. Eu preciso mudar isso, mas não sei de que forma. Apesar de achar melhor que ele não diga coisas desconfortáveis, eu me sinto um pouco estranha com o silêncio crescente entre nós.
Ele contou sobre minhas missões, e sobre as dele também. Me falou sobre o acampamento até que eu me lembrasse. Me fez dizer o nome de todas as caçadoras e explicar algumas partes da história grega e eu me sentia cada vez mais familiarizada com tudo aquilo. Era como se o cenário estivesse perfeitamente reformulado na minha mente, mas os personagens e suas falas ainda eram um mistério.
— Olhe – Apontei para uma lanchonete ao longe – podemos parar para jantar lá, o que acha?
Nico assentiu, acelerando em direção ao lugar. Eu estava com muita fome, na parada ao meio dia não havia uma loja de conveniências, então não pude comprar nenhum lanche para o resto do dia. Acredite ou não, ficar mais de trinta horas sentada no banco de um carro ou dormindo podia ser mais cansativo do que eu gostaria de acreditar.
O nosso carro era silencioso ao reduzir no estacionamento parcialmente vazio. Com certeza não era a nossa parada mais movimentada. Chequei a adaga presa à minha cintura e fiz um pedido breve a todo deus que eu lembrasse o nome para que tudo fosse calmo.
Nico entrou na minha frente, escolhendo uma mesa para sentar.
A lanchonete era de tamanho médio e agradável, mais da metade das mesas estavam ocupadas, uma família grande rindo enquanto pediam mais batatas, um casal de idosos, uma mesa com três meninas muito bonitas, acompanhadas de dois rapazes; e outra com uma mãe e sua filha, presumo. Crianças correndo e esbarrando em mim, me dando vontade de sorrir e ao mesmo tempo mandá-las parar.
— Ei Annie, aqui está bom?
Assenti olhando para o assento perto das janelas, o ar de fim de tarde vindo delas me deixava calma.
— Faça o pedido, sim? Você deve saber o que eu gosto. Eu vou ir ao banheiro, é rápido.
— Vai querer suco de morango ou laranja hoje?
— Laranja. – Respondi sem pensar muito. Eu preciso usar o banheiro, e preciso de um espelho.
Ao abrir a porta, a primeira coisa que reparei foi o estranho cheiro de um estábulo, o que, admito, não funcionou bem para abrir o meu apetite. Havia apenas duas cabines, e uma delas estava ocupada. Fechei a porta e na cabine ao lado alguém puxou a descarga, saindo. Talvez fosse impressão, mas o cheiro parecia um pouco mais acentuado. E não pude deixar de escutar uma coisa.
Clic. Clic. Clic.
O ranger metálico se seguiu por mais alguns segundos, até a porta ser aberta.
Mal me olhei no espelho e saí rapidamente. Enquanto voltava para meu lugar, procurei para onde a visitante poderia ter ido, por curiosidade. Agora, na mesa que antes havia três garotas e dois rapazes, havia uma nova mulher. Ela, assim como as outras era muito bonita, com o cabelo vermelho e os olhos castanhos. Mas não havia sido isso que chamou minha atenção. Foi o olhar fixo que ela me lançava. Sem desviar, sem piscar. Encarando descaradamente e então, voltou sua atenção ao Nico.
Quando cheguei à mesa, não pude deixar de me sentir aflita.
— Fez o pedido?
Ele assentiu, indicando o balcão.
— Já estão trazendo. Você ficou estranha de repente, aconteceu alguma coisa?
— Não podemos pedir para levar?
— Acho que podemos... O que aconteceu?
Mordi meu lábio, sem saber o que dizer.
— Sabe... Sabe quando você tem uma sensação esquisita? Um pressentimento?
Nico se levantou imediatamente indo em direção ao caixa e eu escutei novamente.
Clic. Clic. Clic.
Em uma quantidade bem mais considerável.
Caminhei até Nico mais rápido do que gosto de admitir e apertei seu braço. Eu estava apavorada. Seria estresse pós-traumático, ou, quem sabe, pré-traumatico? Cansaço da viagem me fazendo alucinar?
Foi então que senti o cheiro novamente e seu braço endureceu sob minhas mãos.
— Annie. – Ele sussurrou. – Se eu não estiver enganado, vamos precisar lutar. Prepare a sua adaga.
E aí eu percebi. De repente, a lanchonete estava vazia. Apenas nós e as quatro garotas.
— Parem agora mesmo ou vão se arrepender. – A voz dele ecoou pelo lugar, firme e clara.
Uma delas deu uma risada.
— Esse lugar é nosso meio-sangue. Nós vamos nos alimentar de quem quisermos.
Olhei para ele em pânico. Alimentar? Alguém queria se alimentar de mim?
Um flash rápido pela minha mente me indicou que talvez, apenas talvez, aquela não fosse a primeira vez.
A mulher de cabelos vermelhos que eu havia visto antes me lançou um olhar inexpressivo e era como se lesse a minha mente.
— Não estamos interessadas no seu sangue, criança. Saia agora e não sofrerá consequências.
— Nico... Por que elas não querem o meu... – engoli em seco – Sangue?
Foi então que notei algo errado. Elas tremeluziram e eu vi. Era como se a cor fosse drenada de seus rostos e braços, tornando-as brancas como giz, e seus olhos mais vermelhos que sangue. E seus dentes... Seus dentes eram presas. Quando uma delas deu um passo à frente, notei suas pernas: uma era peluda e marrom, como um bode, ou burro. A outra era idêntica a uma perna humana, mas feita de bronze. Daí que vinham os clics.
— Venha até mim, meio-sangue.
A resistência de Nico parecia fraquejar ao meu lado.
— O que elas são? Nico! O que elas são? Você pode vê-las?
Ele negou com a cabeça.
— Eu sei o que são, empousai. Você já lutou contra elas.
E então, com um movimento de mão sua espada surgiu e ele atacou a que havia dado um passo à frente, transformando-a em pó.
A de cabelos vermelho o encarou.
— Vai se arrepender por isso.
E aí eu senti que era a minha deixa.
Nico tentava atacá-las, mas suas garras eram mais eficientes do que pareciam ser. E eu estava paralisada, com a adaga em mãos, sem saber o que fazer. Eu não sabia mais lutar.
Minha mente era um breu total ao que se refere usar qualquer arma. E uma delas notou isso.
— O que foi semideusa? Não sabe como usar uma arma?
Estiquei minha adaga em direção a ela, que apenas sorria.
— Eu ainda posso fazer um estrago.
— Isso é o que veremos.
Quando ela pulou em cima de mim, jurei que seria meu fim. Mas eu não esperava – muito menos ela – que uma espada negra aparecesse no meio de seu estômago.
— Obrigada. – Falei para Nico, que tinha que lutar contra as duas restantes.
Ele sorriu para mim e tentou atacar a empousa de cabelo escuro, sendo facilmente desviado. A que eu havia encontrado no banheiro pulou em suas costas e eu gritei. Mas ela já havia o alcançado, enquanto ele ainda tentava lutar com a outra.
Peguei o objeto mais pesado que encontrei no balcão e joguei em sua cabeça. Eu podia ter acertado Nico. Mas para a minha sorte atingiu a dela. A garrafa se espatifou no momento em que Nico matou a terceira. Aproveitou a distração da última em, diga-se de passagem, tentar me matar, e cortou sua cabeça.
E eu ainda estava parada praticamente sem reação.
— Tudo bem? – Ele perguntou, sorrindo. Eu assenti. – Certo então. Pega a comida e vamos logo.
— Você acha que é seguro pegar isso? – Nico estava um pouco mais ofegante do que eu acredito que ele deveria estar.
— Acho. – Ele deu de ombros. – Corremos mais risco ficando aqui do que comendo isso.
Quando ele me deu as costas eu vi o que estava errado. E o fato de ele estar se apoiando nas mesas e cadeiras ao andar, até finalmente tropeçar e cair só me fez ter mais certeza que algo estava muito ruim.
E foi aí que eu entrei em pânico.
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