O cheiro de sangue ainda se fazia presente, mesmo depois das incógnitas horas percorridas. A bem da verdade, não fazia mais nenhuma diferença. As paredes, manchadas, não podiam ser vistas naquela penumbra absoluta, e o pouco do líquido que ainda se ressecava na barba espessa e marrom já o acompanhava a tanto tempo que o odor não era mais sentido. Talvez o nariz quebrado e desfigurado ajudasse. Numa rara mudança de posição, a cabeça pesou pra frente e foi o que bastou para cada músculo e nervo de suas costas gritarem em protesto. Os externou com um simples grunhido, seguido de um murmúrio indecifrável que a essa altura não mais perturbava os uma vez incomodados guardas à porta.

Começava a perder. Sabia disso não pela imensa cicatriz de ombro a ombro que podia tocar com a ponta dos dedos, tampouco pela perfuração na coxa ou pelo nariz quebrado. Perdia porque começava a esquecer coisas primordiais. Repassou, então, tudo que ainda sabia. Era pai, e os nomes de seus filhos não lhe escapavam. Fora preso, e soube lembrar com detalhes de todos seus crimes. Sabia, mais por intuição do que por lembrança, que era um homem com um propósito. Foi só então, após quase apagar pela terceira vez em uma semana por fome e por sede, que descobriu o que era que estava esquecendo. Se esquecesse, venceriam.

Quase como sentisse esse desvanecer, a porta se destrancou num estrondo e os vigias de farda azul se postaram um de cada lado. Contrariando a lógica, quem passou por entre eles não vestia outra destas fardas, ou mesmo uma que lhe indicasse superioridade. Nem uma estrela no peito, um cabelo longe de estar raspado. Vestia, por capricho do destino, um terno de alta costura e sua superioridade emanava de um olhar aquino: frio, sistemático e que encobria um sadismo muito bem alimentado pelas recentes sessões. Diferentemente destas últimas, sentou se na cadeira a frente ao barbudo ensanguentado sem nenhum instrumento. Não precisou de socos e chutes, chicotadas e queimaduras, privações de qualquer tipo. A essa altura, já as julgava superadas. A pior das torturas em seu livro bem escrito de atrocidades foi um olhar penetrante e quieto no fundo dos olhos sem vida do desnutrido que mantinha enjaulado. Passaram ali talvez horas, talvez segundos, os dois sem dizer palavra alguma. Nunca precisaram. Conexões empáticas não se apagam após divergências, ainda que divergência seja um eufemismo exagerado. O elegante, barbeado e musculoso engomado já sabia que ganhara, só esperava os lábios do prisioneiro se umedeceram o bastante para que pudesse abrir a boca

—Eu falo.

E falou. Por horas. A caneta do oficial movia se com depressiva calma, anotando endereços, nomes, contas bancárias e armamentos. Levantou se na maior das sintonias entre mente e corpo e enfim rendeu se a arrogância lançando um sorriso vencedor. Passou pela porta e partia sabe lá Deus pra qual dos escritórios. O segurança que a fechou, porém, não convenceria o seu superior do que acabava de ver: o encarcerado finalmente limpava a barba em um movimento rápido, incongruente com seu estado físico. Terminado o movimento, lançou o mesmo sorriso, ainda mais cheio de si.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.