Notas iniciais
Hey, acho que irei mudar algumas coisinhas, okey?Amo este livro. Meu primeiro do titiu Verdinho.

Na manhã seguinte à formatura do ensino médio e depois de ser dispensado por seu décimo nono Hudson, a célebre menina prodígia Rachel Berry tomou um banho de banheira. Rachel sempre preferiu banhos de imersão; uma das regras fundamentais em sua vida era nunca fazer em pé qualquer coisa que pudesse realizar, com a mesma facilidade, deitada. Ela colocou os pés na banheira assim que a água esquentou, sentou-se e ficou observando, com o rosto estranhamente sem expressão, enquanto a água subia. Foi encobrindo suas pernas, que estavam dobradas e cruzadas. Rachel percebeu, embora sem muito ânimo, que estava muito comprido e grande demais para aquele espaço — parecia uma criatura praticamente adulta brincando de ser criança.

Quando a água começou a banhar sua quase ausente mas nada definida barriga, ele pensou em Arquimedes. Quando Rachel tinha uns 4 anos, leu um livro sobre Arquimedes, o filósofo grego que descobriu, ao se sentar numa banheira, que o volume de qualquer corpo poderia ser calculado com base no deslocamento da água. Ao chegar a essa conclusão, dizem, gritou “Heúreka!” descobertas importantes continham um “momento eureca”. E mesmo então, com tão pouca idade, Rachel queria muito ser a autora de descobertas importantes, o que o fez perguntar ao seu pai, Hiram, assim que ele chegou em casa aquela noite:

— Papai, algum dia eu vou ter um “momento eureca”?

— Ah, minha estrelinha — ele disse, pegando sua mão. — Qual é o problema?

— Eu quero ter um momento eureca — ela respondeu, da mesma forma que outra criança teria expressado a vontade de ter uma das Tartarugas Ninja.

Ele encostou as costas da mão na bochecha dela e sorriu, os rostos tão próximos que dava para ela sentir o cheiro de café.

— Mas é claro, Rachel, filhinha. É claro que você vai ter.

Só que os pais mentem. Está na descrição do cargo deles.

Rachel respirou fundo e deslizou o corpo, mergulhando a cabeça. Estou chorando, pensou, abrindo as pálpebras para enxergar embaixo da água cheia de sabão que fazia seus olhos arderem. Quero chorar,então devo estar chorando, mas é impossível dizer ao certo dentro d’água. E não estava. Estranhamente, estava deprimida demais para derramar lágrimas. Magoada demais.

A sensação era de que Finn Hudson havia roubado dela a parte que chorava.

Rachel destampou o ralo, ficou de pé, enxugou-se e vestiu-se. Quando saiu do banheiro, viu os pais sentados, juntos, em sua cama. Nunca era um bom sinal quando ambos estavam em seu quarto ao mesmo tempo. Historicamente, aquilo significava:

1- Sua avó/seu avô/sua tia-Suzie-que-você-não-conheceu-mas-acredite-era-legal-e-é-uma-pena morreu.

2- Você está deixando que alguém com o nome/sobrenome Hudson distraia os estudos.

3- Os nenéns são gerados por meio de um ato que em algum momento você achará interessante, mas que por enquanto só a deixará horrorizada, e, além disso, às vezes as pessoas fazem coisas que incluem algumas etapas do ato de gerar nenéns que, na verdade, não incluem a fabricação de nenéns, como beijar o outro em lugares que não ficam no rosto.

Nunca significou:

4-Um garoto chamado, ou com sobrenome, Hudson ligou enquanto você estava no banho. Ele sente muito. Ele ainda a ama e cometeu um erro imperdoável, e está esperando você lá embaixo.

Mas, mesmo assim, Rachel não pôde evitar nutrir a esperança de que seus pais estivessem no quarto para dar uma notícia do tipo 4. Em geral, a garota era pessimista, mas parecia fazer uma exceção para os Hudson: sempre achava que voltariam com ela. Aquela sensação de amar e ser amada invadiu seu ser, e ela pôde sentir o gosto da adrenalina no fundo da garganta — e quem sabe não acabou, e quem sabe ela iria poder sentir o toque da mão dele de novo, e ouvir aquela voz alta e grossa se transformando num sussurro na hora de dizer eu-te-amo do jeito rapidinho e baixinho como sempre fizera. Ele falava eu te amo como se fosse um segredo; e um dos grandes.

O pai, Leroy, ficou de pé e deu um passo em sua direção.

— O Finn ligou para o meu celular — ele disse. — Está preocupada com você.

Rachel sentiu a mão do pai em seu ombro e, em seguida, os dois se aproximaram e se abraçaram.

— Estamos muito preocupados — o outro pai, Hiram — ou papai -, falou. Ele era mais baixo que Leroy e tinha cabelos castanhos, quase brancos, usava óculos. — E surpresos — acrescentou. — O que aconteceu?

— Não sei — Rachel disse, baixinho, encostado no ombro do pai. — Ele simplesmente... não me aguentava mais. Cansou de mim. Foi o que ele disse.

Aí Hiram se levantou e foi um tal de se abraçarem, braços para todo lado, até que ele — Hiram — começou a chorar. Rachel se desvencilhou dos abraços e sentou-se na cama. Sentiu uma necessidade absurda de expulsá-los do quarto imediatamente, como se fosse explodir se não saíssem. Literalmente. As vísceras espalhadas pelas paredes; o cérebro prodigioso jogado na colcha da cama.

— Bom, em algum momento precisaremos sentar e avaliar suas opções — o pai disse. Ela era fã de avaliações. — Não estou tentando ver o lado bom, nem nada, mas parece que agora você terá tempo livre no verão. Um curso de férias na Universidade Northwestern, talvez?

— Quero muito ficar sozinha, só hoje — Rachel respondeu, tentando transmitir uma aura de tranquilidade para que os dois fossem embora e ela não explodisse. — Então, podemos fazer essa avaliação amanhã?

— É claro, estrelinha — Hiram respondeu. — Estaremos aqui o dia todo. Desça a hora que quiser, e nós o amamos, e você é tão, tão especial, Rachel, e não podemos de jeito nenhum deixar que esse garoto faça sentir qualquer coisa diferente disso, porque você é um garota magnífica e genial...

E, naquele exato momento, a garota mais especial, magnífica e genial do mundo correu para o banheiro e botou os bofes para fora. Uma explosão, por assim dizer.

— Ah, Rachel! — Hiram gritou.

— Só preciso ficar sozinha — ela insistiu, do banheiro. — Por favor.

Quando saiu, os pais tinham ido embora.

.

Pelas quatorze horas que se seguiram, sem fazer uma pausa sequer para comer, beber ou vomitar de novo, Rachel leu e releu o anuário da escola, que recebera apenas quatro dias antes. Tirando o blá-blá-blá costumeiro dos anuários, o seu continha setenta e assinaturas. Doze eram só as assinaturas mesmo, cinquenta e seis mencionavam sua inteligência, vinte e cinco diziam que gostariam de tê-la conhecido melhor, onze falavam que foi legal tê-la como colega de turma na aula de inglês, sete incluíam as palavras “esfíncter da pupila” e impressionantes dezessete terminavam com “Fique tranquila!”. Rachel Berry não poderia ficar tranquila mais que uma baleia-azul poderia ficar magrinha ou
Bangladesh poderia ficar rico. Provavelmente, aquelas dezessete pessoas estavam brincando.
Pensou naquilo — e refletiu sobre como vinte e cinco de seus colegas de turma,e refletiu sobre como vinte e cinco de seus colegas de turma, alguns dos quais haviam frequentado a escola ao seu lado doze anos seguidos, poderiam ter desejado “conhecê-lo melhor”. Como se não tivessem tido oportunidade.

Mas, acima de tudo, naquelas quatorze horas, ele leu e releu a dedicatória de Finn Hudson XIX:

Rach,

A todos os lugares aonde fomos. E a todos aonde iremos. E a mim, aqui sussurrando de novo, de novo, de novo e de novo: euteamo.

Para sempre seu, Finn H-u-d-s-o-n

• • •

Por fim, Rachel achou que a cama estava confortável demais para seu estado de espírito e, por isso, deitou de barriga para cima com as pernas esparramadas pelo carpete. Ela começou a criar anagramas de “para sempre seu” até que achou um que lhe agradou: se um pesar para. Então ficou deitado ali imaginando se o seu pesar pararia, e repetiu mentalmente a já decorada mensagem, e quis cair no choro, mas em vez disso sentiu apenas uma dor no plexo solar. Chorar é algo a mais: é você mais as lágrimas. Mas o sentimento que Rachel carregava era um macabro choro ao contrário. Era você menos alguma coisa. Ela ficou pensando naquela expressão — para sempre — e sentiu uma queimação logo abaixo da torácica.

Doía como a pior surra que já tomara, ou slushie. E ela já havia tomado muitas.

Notas finais
- Os anagramas irei deixar os mesmos.- O que acharam?