O Teorema Hudson.
6 Seis
Notas iniciais
Era sempre assim: ela procurava a chave do Rabecão de Satã em todos os lugares e, depois de um tempo, desistia, dizendo: “Tá. Vou pegar o fugging do ônibus”, e aí, quando já ia em direção à porta, ela aparecia. A chave aparece quando você faz as pazes com o ônibus; Os Hudson aparecem quando você começa a acreditar que não há mais nenhum Hudson no mundo; e como não poderia deixar de ser, o momento eureca se deu exatamente quando Rachel começou a aceitar o fato de que jamais aconteceria.
Ela sentiu a empolgação do momento se propagar como uma onda por seu corpo, os olhos piscavam rapidamente enquanto ela se esforçava para se lembrar da ideia em toda a sua completude. Deitada ali, de costas, naquele ambiente quente e empoeirado, a sensação provocada pelo momento eureca equivalia à de mil orgasmos ao mesmo tempo, só que sem tanta lambança.
— Eureca? — perguntou Puck, a empolgação evidente em sua voz.
Puck também vinha esperando por aquilo.
— Preciso colocar isso no papel — Rachel disse, se sentando.
A cabeça dela doía muito, mas ela colocou a mão no bolso e tirou o caderninho que carregava para todo lado, além do lápis nº 2, que estava quebrado ao meio por causa do tombo, mas ainda dava para escrever. Ela rascunhou:
(Imagem do rascunho de Rachel Berry)
• • •
Ela ainda estava rascunhando quando escutou Lucy Quinn Fabray chegando.
Arregalou os olhos e a viu com outra camisa de malha (em que se lia GUTSHOT!), carregando uma caixa de primeiros socorros com uma, juro por Deus, cruz vermelha pintada.
Quinn ajoelhou-se ao lado de Rachel, tirou a camisa da cabeça dela com cuidado e falou:
— Vai doer.
Ela encostou um cotonete comprido no corte, embebido no que parecia ser molho de pimenta.
— FUG! — Rachel gritou, se encolhendo, e olhou para cima, vendo os grandes olhos castanhos dela piscarem por causa do suor que pingava enquanto a garota agia.
— Eu sei. Foi mal. Tá, acabou. Cê não precisa levar ponto, mas aposto que vai ficar com uma cicatrizinha. Tudo bem?
— O que é mais uma cicatriz? — Rachel disse, distraída, enquanto ela pressionava a testa dele com uma atadura de gaze enorme. — Sinto como se alguém tivesse me dado um soco no cérebro.
— Possível concussão cerebral — Quinn observou. — Que dia é hoje? Onde cê tá?
— Hoje é terça-feira e eu estou no Tennessee.
— Quem era senador de New Hampshire em 1873? — Puck perguntou.
— Bainbridge Wadleigh — respondeu Rachel. — Não acho que eu tenha uma concussão cerebral.
— Isso é sério? — perguntou Quinn. — Quer dizer, cê sabe isso de verdade?
Rachel fez que sim com a cabeça, devagar.
— É — respondeu. — Eu sei o nome de todos os senadores. Além do mais, esse é fácil de lembrar, porque sempre penso em como seus pais devem fugging odiar você para colocar o nome de Bainbridge Wadleigh.
— Sério — disse Puck. — Tipo, a pessoa já nasceu com o sobrenome Wadleigh. Só o fato de ser um Wadleigh já é ruim o suficiente. Mas aí você pega esse Wadleigh e o promove a Bainbridge. Não é de admirar que o pobre coitado nunca tenha conseguido se eleger presidente.
Quinn acrescentou:
— Mas, por outro lado, um cara chamado Millard Fillmore foi presidente. Nenhuma mãe que se preze botaria Millard num Fillmore também.
Ela entrou na conversa tão rapidamente e de um jeito tão natural que Rachel já estava revendo sua teoria sobre a Celebrity Living. Ela sempre achou que as pessoas de Lugar Nenhum, Tennessee, seriam mais burras que Lucy Quinn Fabray.
Puck sentou-se ao lado de Rachel e pegou o caderninho da amiga. Ele o segurou no alto, contra o sol, que havia saído de trás de uma nuvem para continuar castigando o solo rachado e alaranjado.
Deu uma olhada rápida no papel e disse:
— Você me fez ficar aqui todo empolgado e na expectativa e a grande descoberta é que você gosta de levar o fora das suas namoradas? Merda, Rachel. Eu mesmo poderia ter dito isso. Para falar a verdade, eu disse.
— O amor pode ser representado graficamente! — Rachel disse, na defensiva.
— Peraí. — Puck deu mais uma olhada no papel e depois olhou para Rachel. — Universalmente? Você está querendo dizer que isso vai funcionar para qualquer um?
— Isso. Porque relacionamentos são muito previsíveis, não são? Bem, estou desenvolvendo uma forma de fazer isso. Pegue quaisquer duas pessoas e, mesmo que elas ainda não se conheçam, a fórmula vai mostrar quem vai terminar com quem se vierem a namorar e aproximadamente quanto tempo o relacionamento vai durar.
— Impossível — disse Puck.
— Não, não é, porque é possível supor um futuro quando se tem um entendimento básico de como é provável que as pessoas ajam.
O suspiro longo e lento de Puck terminou num sussurro.
— É. Tá. Isso é interessante.
Ele não poderia ter feito elogio maior a Rachel.
Lucy Quinn Fabray se abaixou e pegou o caderninho da mão de Puck. Leu devagar. Por fim, perguntou:
— O que diabos é H-19?
Rachel apoiou a mão na terra seca e empurrou o corpo para cima, para se levantar.
— O “o que” é “quem” — ela respondeu. — Hudson XIX. Eu namorei dezenove seres, garotas e garotos, chamado Hudson, no sobrenome ou no nome.
Lucy Quinn Fabray e Rachel ficaram se encarando por um bom tempo até que, por fim, o sorriso dela deu lugar a uma risadinha.
— O que foi? — Rachel perguntou.
Ela balançou a cabeça, mas não conseguiu parar de rir.
— Nada. Vamos ver o arquiduque.
— Não, diga — ela insistiu.
Rachel não gostava que guardassem segredos dela. Estar por fora de alguma coisa a irritava mais do que deveria, na verdade.
— Não é nada. É só que... eu só namorei uma garota.
— E por que isso é engraçado? — perguntou Rachel.
— É engraçado — ela explicou — porque o nome dela é Rachel.
O Meio (do Começo)
Lá pelo terceiro ano a incapacidade de Rachel de alcançar um bem-estar sociológico havia se tornado tão óbvia para todos que ela só assistia às aulas da Kalman três horas por dia. O restante, passava com seu tutor vitalício, Keith Carter, que tinha um Volvo cujas letras da placa eram LOOOUCO. Keith era um daqueles caras que não passou da fase do rabo de cavalo. Também tinha (ou, no caso, tentava ter) um bigode espesso e volumoso, que tocava o lábio inferior quando a boca estava fechada – o que era muito raro. Keith adorava falar, e sua plateia preferida era Rachel Berry.
O tutor era amigo do pai de Rachel e professor de psicologia. Seu interesse na garota não era exatamente altruísta – no decorrer dos anos, Keith publicou vários artigos sobre a prodigiosidade de Rachel. E Rachel gostava de ser assim, tão especial que até os estudiosos ficavam interessados. Além disso, Keith Louco era o mais próximo que Rachel tinha de um melhor amigo. Todo dia Keith ia dirigindo até a cidade e encontrava Rachel numa sala pequena como um armário de vassouras, no terceiro andar da Escola Kalman. Rachel basicamente podia ler o que quisesse em silêncio durante quatro horas, e Keith o interrompia de vez em quando para debater algum tema, e então, às sextas-feiras, eles passavam o dia falando sobre o que Rachel havia aprendido. Rachel gostava mais disso que das aulas normais.
Principalmente porque Keith nunca aplicou nele um Abdominável Homem das Neves.
Keith Louco tinha um filho, Finn Hudson, que estava no mesmo ano de Rachel na escola mas era oito meses mais velho. Ele frequentava um colégio na zona norte da cidade, mas, de vez em quando, os pais de Rachel convidavam Keith Louco, a mulher dele e Finn Hudson para jantar e falar sobre o “progresso” de Rachel e coisas do gênero.
Depois do jantar, os pais se sentavam na sala de estar, rindo cada vez mais alto conforme o tempo ia passando, e Keith falava alto que não tinha a menor condição de voltar dirigindo até em casa, que precisaria de uma xícara de café depois de tanto vinho – “Sua casa é o paraíso dos enófilos”, ele dizia.
• • •
Certa noite em novembro, quando Rachel estava no terceiro ano e o tempo já havia esfriado apesar do papai dela ainda não ter decorado a sala para o Natal, Finn Hudson foi até sua casa. Depois de um jantar de frango ao molho de limão e arroz integral, Rachel e Finn foram para a sala de estar, onde Rachel se deitou atravessado no sofá e ficou estudando latim. Ela havia acabado de descobrir que o presidente Garfield, que não era particularmente conhecido por sua inteligência, tinha a habilidade de escrever simultaneamente em latim e em grego – latim com a mão esquerda e grego com a direita. Rachel tinha a intenção de igualar o feito.20
Finn Hudson, um pequeno filhote de gigante que compartilhava com o pai tanto o boné de um time qualquer quanto o fascínio por prodígios, ficou sentada observando Rachel em silêncio. Ela estava consciente da presença dele, mas aquilo não a distraiu, porque as pessoas com frequência ficavam observando enquanto ela estudava, como se houvesse algum segredo em seu modo de tratar a vida acadêmica. O segredo, na verdade, era apenas o fato de ela passar mais tempo que todo mundo estudando e prestando atenção.
— Como é que você já sabe latim?
— Eu estudo muito — ela respondeu.
— Por quê? — ele perguntou, chegando perto e se sentando no sofá ao lado dos pés dela.
— Porque eu gosto.
— Por quê?
Ela fez uma pausa por um instante. Não familiarizado com o “jogo do por quê”, estava levando a sério cada uma das perguntas.
— Eu gosto porque isso faz eu me sentir diferente e melhor. E porque sou muito boa nisso.
— Por quê? — ele perguntou, a voz melodiosa, quase sorrindo.
— Seu pai diz que é porque sou melhor que os outros em me lembrar das coisas, isso porque presto muita atenção e dou muita importância a tudo.
— Por quê?
— Porque é importante saber as coisas. Por exemplo, há pouco tempo eu aprendi que, certa vez, o imperador romano Vitélio comeu mil ostras em um só dia, o que foi um ato impressionante de abliguritio21 — ela disse, usando uma palavra que tinha certeza de que Finn não conhecia. — Saber também é importante porque faz você se sentir especial, e você pode ler livros que as pessoas normais não conseguem, como a obra Metamorfoses, de Ovídio, que foi escrita em latim.
— Por quê?
— Porque ele morava em Roma quando lá se falava e se escrevia em latim.
— Por quê?
E essa o pegou de jeito. Por que Ovídio viveu na Roma Antiga em 20 AEC,22 e não em Chicago em 2006 EC? Será que Ovídio ainda teria sido Ovídio se vivesse nos Estados Unidos da América? Não, claro que não, porque ele seria um nativo americano ou talvez um ameríndio ou um dos primeiros habitantes ou um indígena, que não tinham o latim nem qualquer outro tipo de linguagem escrita naquela época. Então, será que Ovídio se tornou importante porque era Ovídio ou porque viveu na Roma Antiga?
— Essa é uma ótima pergunta e eu vou tentar descobrir a resposta para você — ela concluiu, que era o que Keith Louco falava quando não tinha resposta.
— Quer ser minha namorada? — Finn Hudson perguntou.
Rachel se sentou rapidamente e o encarou, os olhos castanho do menino voltados para o colo. Tempos depois, ela viria a chamá-lo de Hudson, o Grande. Hudson I. Hudson, o Magnífici. Ela era visivelmente mais baixa que ele, mesmo sentada, e parecia estar falando sério, um pouco nervosa até, os lábios comprimidos enquanto olhava para baixo. Alguma coisa foi se propagando pelo corpo de Rachel. Suas terminações nervosas explodiram em arrepios na pele. Seu diafragma vibrou. E, obviamente, não devia ser paixão, nem amor, e não parecia ser amizade, então devia ser o que as garotas na escola chamavam de estar a fim. E ela respondeu:
— Sim, sim, quero.
Ele virou-se para ela, o rosto arredondado, as bochechas fofas e sardentas, e se inclinou para a frente, os lábios num biquinho, e beijou-a na bochecha. Esse foi o primeiro beijo de Rachel, e os lábios dele lembravam o inverno – frios, secos e rachados –, então ocorreu a Rachel que a sensação despertada pelo beijo não fora nem de perto tão boa quanto o som da voz dele perguntando se ela queria ser sua namorada.
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