O Teorema Hudson.
4 Quatro.
Rachel estacionou numa parada de beira de estrada perto de Paducah, no Kentucky, por volta das três da madrugada, baixou o encosto do banco até espremer as pernas de Puck contra o assento traseiro e dormiu. Acordou umas quatro horas depois — Puck a chutava pelo encosto.
— Kafir, estou paralisado aqui atrás. Levante essa merda desse encosto. Eu preciso rezar.
Rachel estivera sonhando com seus melhores momentos junto de Finn Hudson. Estendeu o braço para baixo e puxou a alavanca, o encosto pulando para a frente num tranco.
— Fug — disse Puck. — Será que alguma coisa morreu na minha garganta ontem à noite?
— Humm, eu estou dormindo.
— Porque minha boca está com gosto de caixão destampado. Você trouxe pasta de dente?
— Existe uma palavra para isso, na verdade. Fetor hepaticus. Acontece nos estágios avançados de...
— Isso não é interessante — falou Puck, que era o que ele dizia sempre que Rachel saía por uma tangente aleatória. — Pasta de dente?
— Na nécessaire dentro da bolsa de viagem na mala do carro — respondeu Rachel.
Puck saiu e bateu a porta, e alguns minutos depois fechou a mala do carro com um estrondo. Rachel esfregou os olhos e achou que era melhor acordar de uma vez. Enquanto Puck ajoelhava no chão de cimento do lado de fora, virado para Meca, Rachel foi ao banheiro. (Alguém tinha pichado na porta do reservado: LIGUE-ME PARA CHUPETA. Rachel ficou se perguntando se a pessoa estava oferecendo um boquete ou uma carga elétrica na bateria e, pela primeira vez desde que ficara deitado e imóvel no carpete do quarto, entregou-se a sua maior paixão: Ligue-me para chupeta; Um tal pica-pau herege.)
Ele saiu andando no calor do Kentucky e se sentou a uma mesa de piquenique de frente para Puck, que parecia estar agredindo a mesa com o canivete preso no chaveiro.
— O que você está fazendo? — Rachel dobrou os braços em cima da mesa e baixou a cabeça.
— Bom, enquanto você estava no banheiro, eu me sentei nesta mesa de piquenique aqui no Cu do Mundo, Kentucky, e reparei que alguém tinha entalhado DEUS ODEIA GUEI, o que, além de ser um pesadelo ortográfico, é absolutamente ridículo. Então estou mudando isso para “Deus odeia baguetes”. É muito difícil discordar disso. Todo mundo odeia baguetes.
— J’aimeles baguettes — murmurou Rachel.
— Você aime muitas porcarias.
Enquanto Puck se esforçava para escrever Deus odeia baguetes, a cabeça de Rachel viajou dessa forma: (1) baguetes, (2) Hudson XIX, (3) um anel de rubis que comprara para ele cinco meses e dezessete dias antes, (4) a maioria dos rubis vem da Índia, que (5) era colônia do Reino Unido, da qual (6) Winston Churchill foi primeiro-ministro, e (7) não é interessante o fato de que vários políticos do bem, como Churchill e Gandhi, eram carecas enquanto (8) vários ditadores do mal, como Hitler, Stalin e Saddam Hussein, usavam bigode? Mas (9) Mussolini só usava bigode de vez em quando, e (10) vários cientistas de renome tinham bigode, como o italiano Ruggero Oddi, que (11) descobriu (e batizou em própria homenagem) o esfíncter de Oddi no trato gastrintestinal, que é apenas um entre vários esfíncteres menos conhecidos, como (12) o esfíncter da pupila.
E por falar nisso: quando Noah Puckerman apareceu na William McKinley High School no primeiro ano do ensino médio, depois de uma década de ensino domiciliar, ele era bastante inteligente, embora não tão prodigioso. Naquele outono, ele cursou Matemática 1 na turma de Rachel, que era do nono ano. Mas os dois nunca se falavam, porque Rachel havia desistido de fazer amizade com pessoas que não se chamassem Hudson. Ela odiava quase todos os alunos de McKinley, o que não chegava a ser um problema, já que a maioria também a odiava.
Depois de umas duas semanas de aula, Rachel levantou a mão e a Srta. Sorenstein falou:
— Pois não, Rachel?
Ela estava com a mão no olho esquerdo, visivelmente sentindo algum tipo de desconforto.
— Posso sair da sala um instantinho? — perguntou.
— É muito importante?
— Acho que tem um cílio no esfíncter da minha pupila — respondeu Rachel, e a turma inteira caiu na gargalhada.
A Srta. Sorenstein a deixou sair e ela foi ao banheiro, onde, com ajuda do espelho, tirou o cílio do olho, local onde se situa o esfíncter da pupila.
Depois da aula, Puck achou Rachel comendo um sanduíche de manteiga de amendoim sem geleia na grande escadaria de pedra da entrada dos fundos da escola.
— Olhe só... — disse Puck. — Hoje é meu nono dia numa escola, em toda a minha vida, e mesmo assim já consegui, de alguma forma, perceber o que você pode e o que não pode falar. E você não pode falar nada a respeito de seu esfíncter.
— É uma parte do olho — Rachel disse, na defensiva. — Eu estava sendo inteligente.
— Aqui, princesa. Você precisa levar em conta sua plateia. Isso teria feito o maior sucesso num congresso de oftalmologia, mas, na aula de Matemática, todo mundo só ficou tentando imaginar como diabos você conseguiu enfiar um cílio lá.
E foi aí que os dois ficaram amigos.
• • •
— Preciso confessar, não sou muito fã do Kentucky — Puck disse.
Rachel levantou a cabeça, apoiando o queixo nos braços. Ela percorreu com os olhos a
parada de beira de estrada por um instante. Seu pedaço perdido não estava ali.
— Tudo aqui também me faz me lembrar dele. Planejávamos visitar Paris. Quer dizer, eu nem quero ir a Paris, mas fico só imaginando como o Finn ia ficar empolgado no Louvre. Nós iríamos a restaurantes finos e talvez bebêssemos vinho tinto. Chegamos até a procurar hotéis na Internet. Poderíamos ter feito isso com o dinheiro do KranialKidz.
— Cara, se o Kentucky faz você se lembrar de Paris, nós estamos mal mesmo.
Rachel se sentou e olhou para a grama malcortada da parada de beira de estrada. E então olhou para o trabalho habilidoso que Puck havia realizado na mesa.
— Baguetes — Rachel explicou.
— Ai, meu Deus! Dá essas chaves aqui.
Rachel colocou a mão no bolso e jogou as chaves displicentemente para o outro lado da mesa. Rachel apanhou-as enquanto se levantava e foi na direção do Rabecão de Satã. Rachel o seguiu, desanimada.
• • •
Sessenta quilômetros adiante na estrada, ainda no Kentucky, Rachel havia se aconchegado junto à janela do carona e estava começando a pegar no sono quando Puck anunciou:
— O Maior Crucifixo de Madeira do Mundo: Próxima Saída!
— Nós não vamos parar para ver o Maior Crucifixo de Madeira do Mundo.
— Ah, se vamos — disse Puck. — Deve ser enorme!
— Noah, por que nós pararíamos para ver o Maior Crucifixo de Madeira do Mundo?
— Essa é uma viagem de carro! É uma aventura! — Puck bateu no volante para enfatizar sua empolgação. — Não é como se tivéssemos um lugar para ir. Você quer mesmo morrer sem nunca ter visto o Maior Crucifixo de Madeira do Mundo?
Colin ponderou sobre aquilo.
— Quero. Em primeiro lugar, nem eu nem você somos cristãos. Em segundo, passar o verão inteiro correndo atrás de atrações turísticas idiotas de beira de estrada não vai ajudar em nada. E, em terceiro, crucifixos me fazem me lembrar dele.
— Quem?
— Ele.
— Kafir, ele era ateu!
— Nem sempre — Rachel disse baixinho. — Ele usava um crucifixo, há muito tempo. Antes de a gente namorar.
Ela olhou pela janela, pinheiros passavam depressa. Sua memória imaculada invocou o crucifixo de prata.
— Seu nível de sitzpinklerice me dá nojo — disse Puck, mas pisou fundo no acelerador do Rabecão e continuou em frente, passando batido pela saída.
Fale com o autor