O Tempo da Minha Vida
1 O tempo da minha vida
Notas iniciais
- Você pode ficar esses minutos com ela, mamãe? Preciso terminar de arrumar o almoço e...
- Fique tranquila, querida, pode ir! Ela não vai me dar trabalho, não é, minha pequena Yuri?
O bebê em meus braços pesa um pouco e prefiro me sentar devagar na poltrona da biblioteca antes que minhas pernas continuem a falhar. Meu corpo não responde mais como eu gostaria, o cansaço me toma com rapidez, mas eu nunca fui tão feliz.
Minha neta dá um pequeno resmungo e aperta meu indicador com força descomunal perante seu pouco tempo de vida. Percebo minha filha sorrindo na porta junto ao marido.
- Senhora Kido, qualquer coisa é só nos chamar. A porta ficará entreaberta, tudo bem?
Faço um movimento com a cabeça indicando-lhe afirmação. Meus olhos pousam no singelo beijo trocado entre o casal e minha mente voa para um tempo em que eu mesma fazia aquilo entre os corredores da mansão.
a fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist;
directs you where to go
Suspiro pesadamente, sentindo aquele perfume doce do bebê – tão característico. Observo o lugar, antigo e cheio de memórias, assim como a dona. Meu coração aperta, não de tristeza, mas de uma saudade imensa. Uma saudade que só os velhos possuíam: a saudade das lembranças boas.
Quando Seiya partiu para os Campos Elíseos enfim, me senti aliviada. Sua missão mais que completa já se findara e seu sofrimento com aquela doença me fazia orar todas as noites para que Zeus o levasse ao descanso eterno. E assim foi. Muitos anos ele fez o bem ao meu lado, se tornou um valoroso guerreiro pelas causas sociais do mundo. A Fundação cresceu demais com seu ímpeto e ousadia. Eu cresci muito com seu amor e alegria.
E mais um dos frutos desse amor estava comigo naquele instante. E me senti realizada ao ver o orgulho de Shiryu ao segurar o primeiro neto, pois sei que Seiya se sentiria da mesma forma. Era uma pena eles morarem em locais tão distantes, eu gostaria de vê-los com mais freqüência. Antes nos encontrávamos sempre, tínhamos vigor, força e vitalidade. Tantos espetáculos de Shun fui assistir, o som da voz de June ainda preenche minhas tardes de domingo, tantas discussões sem fim de Hyoga e Ikki presenciei e consigo sorrir sozinha lembrando das expressões de Eiri e Minu perante os maridos tão turrões.
Todos nós estávamos um pouco turrões agora. Era estranho pensar assim hoje, mas posso dizer que nesse momento eu entendia muito melhor toda a suposta seriedade de Shion. Percebo que ele nunca foi ranzinza, ele só estava velho demais.
Eu estava velha demais.
and don\'t ask why
It\'s not a question
but a lesson learned in time
Os primeiros anos foram muito conturbados, para ser honesta. Pensando bem, ninguém sabia ao certo como agir com tempos de paz. Nunca houve essa oportunidade, você sabe? Ficamos todos bastante perdidos, e – foi tão interessante – quando um de nós resolveu assumir o relacionamento, todos os outros seguiram atrás.
E lembro do olhar dele sobre mim, de um leve rubor em seu rosto que – hoje sei – não era apenas nervosismo, mas continha certa dose de desejo adolescente. E daquele beijo. Daquele singelo, tranqüilo e consciente beijo. E eu nunca fui tão feliz.
A pequena Yuri solta uma pequena risada em meu colo. E passa pela minha cabeça que talvez eu já tenha ficado tão feliz quanto aquela vez, sim.
but in the end is right.
I hope you had the time of your life
No mesmo ano tivemos quatro casamentos. Era um pouco óbvio que Ikki não iria assumir um relacionamento tão cedo e Shun resolveu se dedicar a música antes de compartilhar o mesmo teto com June — ela mesma ainda procurando se encontrar diante de tantas novidades.
Meu casamento foi um mês depois do de Aioria e Marin e, logo em seguida tivemos o de Shiryu e Shunrei. Por último, a não tão surpresa assim, de Hyoga e Eiri. E isso foi só o começo.
Embalo a pequena criança em meu colo, sentindo a respiração dela suave em meu pescoço. A penumbra e o silêncio a tranqüilizaram a ponto de dormir, sua pouca idade também era grande efeito disso. Meus olhos recaem sobre os tomos enfileirados nas prateleiras, frutos de um trabalho realizado com muito afinco.
Pois nem só de amores era feita nossa vida, e muito menos o Santuário. E talvez esse seja meu maior orgulho, posto que exigi a cada cavaleiro e amazona que escolhesse uma profissão, um estudo, uma área ao qual se dedicar. E foi dessa atitude que nasceram grandes pesquisadores, trabalhadores, artistas e humanos.
As batalhas não eram mais travadas com violência, mas com as ferramentas dadas pelo ensino, pela experiência. Tivemos ótimas surpresas e até mesmo algumas funções que já imaginávamos nos trouxeram grandes impressões. Ninguém pensava que Aioria seria um excelente engenheiro e por mais que soubéssemos que Shaka daria um ótimo massagista, jamais sonhávamos que ele chegaria a ganhar a vida com isso!
E, assim, devagar eles foram ganhando o mundo. Ganhando liberdade, ilusões, alegrias, revoltas e tantas outras coisas que só o dia-a-dia normal pode proporcionar. E eu sempre olhei por eles. E por todos que nos chegaram depois disso.
Mas então comecei a perceber que nossos filhos estavam começando a olhar por nós.
and still frames in your mind
Hang it on a shelf
of good health and good time
E num dia muito claro de domingo, Saga – mestre do Santuário – foi até Starhill e não voltou mais. E Mu já não fechava as próprias mãos por conta da artrite. E Camus já não tinha forças para construir esquifes de gelo para os amigos descansarem eternamente.
E fomos padrinhos do casamento da filha de Hyoga. E Aldebaran se aposentou como professor universitário no Brasil. E o menino mais velho de Ikki nos deu a alegria de mais uma criança na família – o primeiro neto daquela grande sociedade.
Felicidade e tristeza se misturavam com tamanha rapidez que eram assustadores demais, até para mim. Nesse período, numa manhã de domingo, Aioros chegou a nossa residência para conversar a respeito de um livro que estava escrevendo. E pediu nosso depoimento. Aceitamos sem pestanejar.
Foi quando descobrimos que Seiya estava com câncer.
and dead skin on trial
For what it\'s worth,
it was worth all the while
Não sei ao certo se isso foi algum tipo de castigo que os deuses lhe deram por ter atentado tantas vezes contra o Olimpo. Pode ser. Talvez. Nunca vamos saber, para dizer a verdade.
O sofrimento dele também era meu. Então eu definhei com ele. E por mais que Hyoga cuidasse dele com toda a delicadeza que um médico é capaz de dar a seu paciente, e com tanto amor que um amigo é capaz de doar a outro, ainda assim foi muito duro.
Era um dia de verão quando ele me deixou. E meus filhos me apoiaram e me ampararam com carinho, mas um pedaço (grande) de meu coração também havia morrido naquele dia.
E dali para a frente, subitamente, percebi que comecei a usar muito mais meu vestido preto. Estávamos todos cansados. Estávamos todos indo embora. E, possivelmente, agora eu tinha maturidade suficiente para entender isso. Isso porque eu podia ver em meus braços o futuro, ressonando tranquilamente na forma de uma linda menina. Porque eu conseguia agora perceber que nossa missão estava completa e que só era possível um caminho para nós.
Ir para casa.
Foi o carinho de todos eles que me trouxe até aqui, afinal. Tive a sorte e o prazer de poder partilhar essa era com pessoas tão magníficas. Mas as eras sempre acabam e a paz agora reina no mundo, não há porque Athena permanecer na Terra.
but in the end is right.
I hope you had the time of your life
- Yuri? Yuri? Porque está chorando, meu bem? Mãe, aconteceu alguma coisa?
E o susto que minha filha toma ao notar meu corpo gelado só não é maior que minha tristeza ao ver as lágrimas lhe correrem a face. E ainda assim não consigo sentir qualquer desespero. E ela, apesar de imersa em luto, compreende o caminho da vida e a tranqüilidade com que me retirei da luta diária.
Tirou o bebê de meus braços frios e se emocionou ao ver no rosto marcado de rugas um delicado sorriso derradeiro. Logo seu marido chegava e tudo começou a se desvanecer de minha visão que já não era da mesma realidade deles.
Senti uma presença conhecida ao meu lado e sorri, já sem sentir as dores características da idade. Porque eu não tinha mais idade. Uma claridade agradável se pôs na frente de meus olhos e pude ver mais uma vez aquele rir brincalhão de meu eterno companheiro.
Estava feito.
E o maior legado de Athena permanecera na Terra.
Porque existe algo que o tempo não pode tirar de uma vida. E é por isso que jamais fomos derrotados.
E jamais seríamos.
O amor continuava lá.
Notas finais
Abraços,
Ephe-chan
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