O Tempo Que Não Passa Nessa Cidade
2 Marcus - de fanfic à Dostoievski
2
Ninguém avisou a tia de Marcus — sim, esse é o nome dele, mas não o Marcos dos filmes, do preto e dos quadrinhos, mas o MarcUs, da cidade grande, do cabelo colorido e do sorriso de raposa — que abrir um sebo naquela cidadezinha seria como abrir uma sorveteria no ártico. Bem, ele avisou, mas ela não ouviu.
Havia aprontado tanto em casa, saído com tantas más influências e usado tantas substâncias que assustaria um químico formado, que a mãe lhe obrigou a passar aquelas férias ali, no epicentro do tempo que nunca passava, aquela cidade do tamanho de um feijão onde todos se conheciam. Era terrível. Ele nunca havia visto ninguém, mas todos sabiam seu nome, de onde vinha, talvez até seu signo e seu ascendente. Sair era um terror! Encontrava sempre as mesmas pessoas... Se sentia preso num gibi da Mônica. Sem falar, é claro, que, obviamente, não havia de ter nenhum tipo de diversão ali: sem cinema, sem festas, sem sorveteria... Sem até uma piscina... E aquele calor, ah, que calor infernal. Ele mal aguentava sair de casa e encarar o sol queimando sua pele... felizmente ele usava roupas leves e passava protetor.
Só havia uma coisa para se fazer e sentir o tempo não passar: ler. Ah! De todos os defeitos de Marcus, nunca poderiam lhe apontar a necessidade de leitura ou a futilidade. Se permitia ser tudo, menos burro ou iletrado. Havia lido de tudo na vida, de fanfic — e, cá entre nós, ele era um assíduo consumidor de fanfics, principalmente quando se tratava de histórias de deus ídolos preferidos, como os meninos do BTS ou as meninas do TWICE — à Fiodor Dostoievski — a quem ele atribuía certo “ranço”, ainda há quem use essa palavra? Bem, naquela cidade que o tempo não passava eles usavam — e sempre, sempre, sempre, queria ler mais e mais. Dos males o menor, o fato de poder trabalhar para a tia, num sebo fadado ao fracasso total, só era menos atordoador em razão de que ali, pelo menos, ele teria um tempo para ler tudo que queria e se aventurar nos mundos irreais, que eram inimaginavelmente mais agradáveis que sua realidade nua e crua.
Tinha amigos na cidade... Muitos amigos. Mas nenhum deles mandava mensagem. Marcus se fez de cego e criou a teoria de que ele nunca tinha sinal o suficiente para receber qualquer coisa no celular... Mas, talvez, ele só não tivesse tantos amigos assim.
Ah! Aquela cidade maldita. Aquele calor insano. Não passava um carro, não passava uma alma viva. Marcus se sentiu um espetáculo quando viu dois gatos brigando no meio da rua, pois havia de ser a coisa mais emocionante de sua vida em dias, desde que chegara.
A tia abriu o sebo mesmo assim. Ele havia aceitado o cargo — não que ele tivesse outra opção — e ficaria ali, pelo menos pela manhã.
Estaca quente demais para ficar lá dentro — e o ventilador estava quebrado. Marcus pegou um banquinho de madeira, um exemplar de Cem Anos de Solidão, seu celular com suas adoradas playlists, que iam do funk carioca ao kpop girl-crush, seus fones de ouvido e se sentou ali, na calçada.
Quando ia começar o primeiro capítulo viu aquele garoto estranho, de preto, sob o sol escaldante. Então ele observou melhor, aproveitou sua distração, lendo uma revista em quadrinhos, para encarar cada detalhe de seu rosto: desde seus traços bem delineados, sua barba rala e seus olhos meio sombrios, mas levemente instigantes, como se houvesse uma chama brilhando la dentro, tentando sair. Então num momento ele sorriu para o que quer que estivesse lendo. E Marcus, involuntariamente, sorriu sozinho.
Mais involuntário ainda foi o que ele fez em seguida:
— Ou — chamou — Ou — chamou novamente — Ou — mais uma vez — Ou! — na última ele gritou e o rapaz ergueu os olhos da revista. O olhar dele desarmou Marcus por completo, que não soube exatamente o que fazer. Então, como um aluno da quinta série, ele disse — Você chama ou por acaso?
O garoto ficou o encarando por algum tempo, revirou os olhos, lhe mostrou o dedo do meio e foi embora.
— Babaca — ele disse.
Marcus riu baixinho.
— Eu sou patético — pensou, abrindo o livro novamente, mas sem tirar o rapaz de olhos brilhantes do pensamento.
Fale com o autor