O Tempo Que Não Passa Nessa Cidade

6 Marcus - constrangedor ou inusitado?


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Quando Marcus chegou aquela cidadezinha em que o tempo parecia não passar, não acreditava que um dia encontraria algo ou alguém que o fizesse sair do marasmo entediante constante que habitava por todos os lados daquele pequeno pedaço de interior mineiro. Todavia, não tinha vontade de voltar para casa — cá entre nós, apesar dele e da mãe repetirem veemente que ele havia sido enviado para lá em razão de mal comportamento, ambos sabiam que a história não começava ou terminava ali. Oh! Esse é um bom tópico: começos e fins.

Começou, assim, um dia quando o pai de Marcus foi embora, deixando só o vazio de sua paternidade na vida dele e da mãe, Cláudia, que sempre foi uma mulher extremamente forte, mas com um fraco para canalhas. De todos os namorados da mãe, o atual era o pior. Ele a envenenava. A transformava numa versão disforme, desconhecida, assustadora e amedrontada. A fazia perder seu brilho, sua essência e sua carisma — e, o principal, fazia com que a relação tão boa entre Marcus e Cláudia fosse abalada, ao ponto de se tornar quase que insuportável para ambos. O começo. O fim vocês já devem imaginar: o namorado da mãe de Marcus, depois da milésima briga com ele, chamando-o dos piores insultos possíveis em razão de seus gostos e sua sexualidade — tão horríveis que sequer vou listar aqui, mas vocês já devem imaginar — exigiu que Cláudia escolhesse: Ele ou eu.

Marcus achou que ela não fosse hesitar nessa escola. Mas ela hesitou.

Marcus, no fim, nunca foi bom em conhecer a verdade das pessoas. Mas, quando a própria mãe precisou pensar se seria melhor o filho que tem há dezessete anos, ou um marmanjo barbado que conheceu tem menos de um ano, toda sua paciência e toda sua boa vontade se esgotaram — e, cá entre nós, toda sua confiança nas pessoas também.

Marcus foi muito abandonado. Então se tornou desconfiado. Quando viu Marcos atravessando a rua, pronto para dar um passo a mais na relação estranha e inexplicável dos dois, sentiu um aperto forte dentro do próprio coração, uma angustia gritante consumindo seus pensamentos e a sensação de mil borboletas no seu estômago...

Ou talvez só fosse o que ele comeu no café — que não estava na melhor das condições de existência.

Marcos estava na porta. Marcus estava no chão. Não chovia. Não chorava. Não haviam livros. Não haviam filmes. As músicas haviam parado.

Olhos nos olhos. Castanho no preto. Colorido e sem cor. M e M. Austen e Lynch.

Austen sorriu. Lynch fez menção a abrir a porta.

Então tudo deu errado. Juntou a desgraçada com a disgrama e aconteceu uma bela de uma, bem, merda:

Marcus olhou para o lado e vomitou.

Não sei se pelo nervosismo, pelo medo de começar uma amizade — ou até algo a mais — e ser abandonado (De novo), por estar há menos de cinco metros de um dos garotos mais bonitos que ele havia conhecido em vida — sem saber, inclusive, se ele era “do babado” (Ninguém diz isso no mundo moderno, mas naquela cidade onde o tempo não passava, falavam), e se teria ou não uma chance com ele —, ou, talvez, por ele ter comido alguma coisa sugestivamente estragada no café.

Bem, ele vomitou. E é só isso mesmo. Um belo início.

Marcos correu, surpreso, entrou no sebo e se ajoelhou perto o suficiente de Marcus, mas longe o bastante do vômito...

— Tudo bem? Meu deus — ele disse. Austen limpou o canto da boca e não pode aguentar: riu de nervoso.

— Merda — foi tudo que ele disse. Lynch se escorou numa pilha de livros e riu de volta.

— Um belo terceiro começo — ele disse, por fim, com um sorriso que podia ganhar o mundo.

— Agora um começo de verdade — ele afirmou, por fim, olhando no fundo dos olhos de Lynch — Dizem que a terceira vez é da sorte. Lynch, não é?

— Como o David. Austen??

— Como a Jane — ocorreu um curto silêncio, que não foi constrangedor, mas acolhedor. Eles se encaravam. Sorriam. Sentiam coisas ienxplicaveis — Marcus — ele afirmou, estendendo a mão. Lynch arqueou as sobrancelhas.

— Sim — ele respondeu — como sabia?

Austen não compreendeu.

— O que? — questionou, confuso.

— O nome. Marcos.

— Esse mesmo — Austen respondeu, sorridente — Só que com “U”.

— Não, é com “O”.

Marcus arqueou as sobrancelhas e sorriu.

— Eu acho que sei como escrever meu nome, mas obrigado por me corrigir — Lynch cerrou o cenho, confuso.

— Espera, seu nome é Marcos?

— Marcus. E o seu é Marcos?

— É assim mesmo.

Eles se encararam sem nada dizer — dessa vez, porém, foi constrangedor. Chegou um momento que ambos queriam fazer a mesma piada:

— Marcus?

— O meu também é Marcos.

Eles se olharam e riram como dois idiotas. Dois idiotas muito sentimentais.

Mas o vômito ainda estava lá e chegou um momento que não dava mais para encarar. Marcus olhou para a sujeira e depois para Marcus, alisou a nuca e sorriu.

— Constrangedor.

— Inusitado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.