O Tempo Emprestado
1 Prólogo
Eu estava brincando com o meu pai no balanço. Sim, uma criança de 11 anos pode brincar com o pai no balanço. Meus cabelos ruivos estavam voando junto comigo, minha faixa roxa quase na minha cara e meu vestido roxo indo contra o vento. Ainda bem que estava de shorts embaixo. Eu ria alto, sentindo o frio na barriga. Olhei para trás para pedir a meu pai empurrar mais forte, mas ele estava olhando fixamente para o quadro de arquitetura de uma escola antiga pendurada na parede.
—Ei! Vamos almoçar! —gritou ela da cozinha— Fiz a favorita da Celine: estrogonofe!
Eu e meu pai nos entreolhamos, e depois ele correu para a cozinha e eu pulei do balanço correndo logo atrás dele. Cheguei e sentei numa cadeira vazia, na frente do meu pai e da minha mãe, que tinha os mesmos cabelos ruivos lisos e na ponta enrolado. O pai estava estranho hoje, faltando quatro dias para meu aniversário de 12 anos. Ele mal tocava no estrogonofe.
—Pai, você não vai comer o estrogonofe? —perguntei, com o garfo levantado— Você mal tocou nele.
Ele piscou mais de uma vez e forçou um sorriso que não me parecia um verdadeiro —e acredite, faz tempo que não vejo um sorriso verdadeiro vindo dele.
—Vou sim querida. —disse ele, mexendo no estrogonofe para comer— Tava pensando em como o tempo passa muito rápido, já que a minha princesinha vai fazer 12 anos daqui quatro dias.
Dei um sorriso de mal jeito e terminei de comer. O cheiro do ketchup misturado com o da mostarda fazia uma combinação perfeita com o do frango e do creme de leite. Terminei de comer e dei a desculpa que ia ao meu quarto, mas na verdade fui ao escritório dele para ver o quão importante era aquele quadro de escola. Mas eu vi outra coisa que me chamou atenção: um livro escrito “Diário de Beatriz” cheio de adesivos de unicórnios, pandas e… ursos rosas com garras cobertas de… sangue?! Nem abri ele, fui direto ao meu quarto ver com mais calma sem meu pai ver.
Joguei o tal diário na cama e tranquei a porta para garantir que ninguém me visse com esse diário. Peguei ele e sentei na minha mesa e abri ele. Tinha uma página da tal Beatriz se apresentando. Tava escrito assim:
Querido diário, meu nome é
Beatriz, tenho 10 anos. Amo
unicórnios, pandas e o Gloomy
bear. Meu irmão Artur está
meio estranho depois que conheceu
a Diana, mas eu gosto dela.
Enfim, é isso. Tchauu!
Ela tinha uma letra linda para uma criança de 10 anos. Continuei folheando o diário e percebi que ela escreveu até o dia 13 de novembro, e acho que tinha passado 2 meses depois do meu aniversário. E estava escrito:
Querido diário, hoje fui ficar no jardim com o Artur e com a Diana, mas eles falaram que com aquela conversa eu não podia participar, então vou sair rapidinho para comprar o lançamento do Bis que eles tanto queriam: o Bis limão. No mercadinho da tia Célia estava uns R$2,00. Vou ir comprar e depois volto com atualizações. Tchauzinho.
E tinha parado lá. Parecia que tinham rasgado folhas depois dessa. E aonde um Bis Limão é dois reais?! No mercadinho mais barato do meu bairro custa 9 reais! E a letra dela tinha mudado muito desde da primeira página. No final do diário, encontrei uma foto bem velha. Tinha três pessoas: uma menina pequenininha em relação das outras crianças. Tinha uma menina de cabelo preto até o ombro, sardas e olhos claros que tinham um delineado gatinho muito lindo, e do lado dela tinha um menino de cabelo cor de mel, uma pele meio morena e olhos de uma cor verde meio marrom. Atrás da foto tinha uma coisa escrita e era a letra da Beatriz antes do dia 13 de novembro, parecida com a da primeira página.
Melhores amigos para sempre (e para além do tempo!).
Parque municipal-20/03/2009
P.S.:Artur, você prometeu que a gente vai ser o 'Trio Parada Dura' para sempre! Não deixe a Diana ir embora nunca, tá? Eu divido meu Bis de Limão com ela todo dia se ela ficar. Amo vocês mil vezes! Ass: Bia <3”
Como ela é fofa, daria tudo para ser amiga de uma pessoa assim. Mas pera… Artur? Artur é o nome do meu pai! E o menino tem as mesmas feições do meu pai. Mas eu nunca conheci uma tal de Beatriz, só se eu conheci ela quando era um bebê. “É só pesquisar no Google, tonta” pensei. Entrei no google e entrei no site do Facebook e pesquisei por “Artur Ribeiro”, mas achei apenas o perfil novo dele, que existia desde do ano que nasci, que é 2015.
—Que raios eles usavam para se comunicar se não tinha Facebook?! —resmunguei.
Pesquisei por “redes sociais 2009” e apareceu o Orkut, tentei a sorte e entrei no site deles e pesquisei pelo nome do meu pai, e adivinha? Apareceu. Tinha a foto do meu pai no canto, do lado tinha o nome dele, localização e tinha uma parte bem engraçada, o “sobre mim”. Falava assim: “Meu nome é Artur Ribeiro. Irmão da melhor conselheira de 10 anos Beatriz e protegido da Diana (e da Beatriz). Se mexer com elas, mexe comigo também. MSN: artur.bdarbr@hotmail.com”.
—Meu Deus, o que é MSN? —falei, escrevendo exatamente essa segunda frase. Na aba de amigos e apareceu o perfil da Diana e da Beatriz. O da Diana era ela mesmo fazendo um sinal de paz e amor com um céu azul atrás, e o da Beatriz era, de longe, o mais fofo; era ela abraçada com o ursinho rosa dela.
—Celine! —minha mãe gritou— Filha, você não vai na escola?! É quase meio-dia e você tem que estar na escola meio-dia e meia!
—Já vou!
Estava atrasada e deixei o meu computador ligado. Enfiei a foto na minha bolsa e coloquei meu uniforme correndo. As seis horas dentro daquele lugar fechado passaram como um borrão, só lembro da minha amiga perguntando do porque que estava pensando muito, só isso. O sinal tocou para ir embora e sai na frente da cambada. Precisava chegar em casa rápido para ver se alguém mexeu no meu computador. Cheguei em casa suando, minha mãe estava fazendo, pelo cheiro, aneis de cebola e batatas fritas. Fui direto ao meu quarto, e meu pai estava na cadeira vendo o perfil da Beatriz.
—Filha, você sabe quem é essa? —ele disse com uma voz meio chorosa— Provavelmente não. Mas da onde você ouviu falar dela?
—Não sei pai. Apenas queria ver você antes de eu nascer e achei o perfil dela.
E ele bateu no meu ombro —estranho, já senti essa sensação de um outro jeito… deixa quieto— e resmungou algo de encontrar ela e deu desculpas para mim. Fui tomar um banho e deu uma soneira, então fui comer batatas fritas e aneis de cebola e deitei. Meu sonho era muito estranho. Não era bem um sonho, era um sonho lúcido. Eu estava num quarto pequeno com paredes num tom azul bebê com nuvens desenhadas, e tinha um “forte” de almofadas e eu entrei nela. No momento que eu entrei, parecia que eu tinha entrado num túnel escuro e mais na frente, tinha uma mulher tentando acalmar o bebê dela, que estava chorando alto. E olhando bem, parecia muito com a Beatriz, mas a versão adulta dela. Mas o diário dela não tinha acabado em 2009? E aquelas folhas rasgadas, o que significam? Ela sabe de algo que ninguém podia saber?
Acordei com um gosto de sal na boca, devo ter apagado depois de comer. Fui tomar uma água e ouvi os passos apressados da minha mãe.
—Filha, você viu seu pai? —ela disse com os olhos marejados e as mãos tremendo levemente— Ele estava dormindo ao meu lado e depois saiu.
—Não vi ele também, mãe. —disse, mas com os olhos fixos no copo da água— Vou ligar no celular dele.
Peguei meu celular e liguei para o número dele, e o celular tocou do escritório, mas como minha mãe disse, ele não está em casa. Abri a porta do escritório e achei uma folha largada abaixo da janela, de cabeça para baixo. Estava escrito:
Oi meninas, aqui é o Arthur. Desculpe, precisei sair para… respirar ar fresco. Estou na floresta aqui perto. Não se preocupe comigo. Até.
Ass. Arthur
Porque ele iria querer ir à floresta? E o nome dele estava escrito com um H, meu pai odiava quando ia num café e escrevia “Artur” com H. Ele não deixaria esse erro passar, não foi ele que escreveu.
—Mãe. Vamos à floresta. —disse com uma “raiva” crescendo— Agora.
—Que isso menina? Aquela área é perigosa. —disse ela, procurando o meu pai nos ARMÁRIOS— Por que você quer ir lá?
—O pai está lá. Vamos.
Entramos no kwid vermelho e fomos em direção à floresta e quando chegamos, corremos para o meio da floresta. Vi uma trilha de como se algo foi arrastado para o coração dela, e claro que eu e minha mãe seguimos. O rastro levava na maior árvore do bairro, e pelo o que eu vi, tinha uma corda pendurada no galho, “não é o que estou pensando, né…?” pensei comigo, indo na direção da corda. E era, infelizmente era. Meu pai estava pendurado na corda. Mas… por que? Ele era feliz em casa… ou é o que eu e minha mãe pensava?
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