O Tempo Dirá

38 Epílogo - Titãs para Sempre


Notas iniciais
Olá amores da minha vida!! É, finalmente o capítulo final de OTD. Ficou extenso {claro, não maior que o capítulo pasado, mas grande}, pois haviam tantas coisas que eu precisava lhes dizer, e algumas que eu não citei. Esse final ficou bem triste, na verdade. Para quem conhece bem os personagens, sabe o estado de espírito que cada um deles ficou, principalmente a Kory. Então, não foi um capítulo fácil de escrever, pelo contrário, foi complicado, várias vezes escrevendo, apagando e escrevendo de novo; mudanças drásticas no final da fanfic que comprometeram um pouco o meu epílogo já pré escrito. Não sei se vocês sabem, mas não era para ninguém morrer nessa fanfic. Na verdade, nem mesmo Slade morreria, ou Trigon. Entretanto, quem me conhece sabe que eu tenho uma coisa chamada "5 minutos", onde me deu a louca de matar os quatro {Rachel, Garfield, Dick e Slade}, mas a ideia inicial era de somente acabar com Trigon e, talvez, criar uma segunda parte, mas ai *PUFF* matei RUEHUFHEWIFUEWUFHERF :v Eu super agradeço a todos que comentaram, favoritaram, acompanharam e recomendaram essa fanfic, vocês não sabem a alegria que me dá saber do sucesso que essa fanfic gerou, e as marcas que deixou nos leitores mais dedicados e fiéis. Realizei um sonho, e agora entrego a vocês o final dessa enorme fanfic, e logo no ano que vem uma nova fanfic, que mesmo sabendo que nunca chegará aos pés de OTD, torço para que gostem, amem e a considerem como algo especial em suas vidas, como Felicidade e Angústia foi para muitos, e O Tempo Dirá foi agora. A fanfic se encerrou com: 316 comentários 57 Favoritos 112 Acompanhamentos 3 Recomendações. Obrigada a todos que acompanharam. Até as notas finais! Boa leitura!

Epílogo — Titãs para Sempre

[...]

"A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos."

– Pablo Picasso

Podemos ver o céu pintado de várias cores. Se pararmos para reparar um pouco no pequeno manto que cobre o mundo, diríamos que naquele dia o universo deu boas vindas à Terra com seu mais lindo brilho. Se comparássemos à um espetáculo de luzes, talvez não sentíssemos tanto ardor quanto deslumbrar ao vivo aquela maravilha divinal.

E, justamente nesse dia, ninguém parou para agraciar-se com o céu. O tempo era fúnebre. Se pudesse descrever aquele dia, usaria a palavra "morte"; pois de todas as coisas que aconteceram ao longo daqueles dias, essa pequena palavra esteve presente por toda Gotham.

Pessoas feridas, soterradas, assassinadas; pessoas que não conseguiram fugir quando dos céus desceram seres com sede de sangue. Tantas baixas, tantas despesas que sabe-se lá quem conseguiria custear; e o pior de tudo, as famílias daqueles que abandonaram o plano material e entrando no imenso ciclo da vida.

Nesse tempo, se um dia perguntarem quem salvou aquela cidade, inúmeras pessoas mencionarão o Batman, o Robin e a Batgirl. Uma pequena minoria diria que foi um grupo emergente de Gotham, denominado Jovens Titãs; já uma pequena parcela da minoria, reduzida à uma dúzia, diriam que foram somente duas pessoas.

Duas pessoas que desejavam que estivessem presentes para ver o brilho colorido do céu.

***

O grande e indesejado nome do lugar reluzia como nunca. Em cores douradas, o Cemitério de Gotham recebia em sua terra um grande número de pessoas embaladas pelo tempo.

Nunca o viram com tantas pessoas quanto naquela semana; ou tantos choros retumbando pelas altas árvores da primavera; tanto o preto e branco colorindo as tumbas; os hinos cantados; harpas tocadas e bandeiras estendidas. Talvez tenha sido o maior movimento presente no cemitério nos últimos tempos.

Em meio a todos eles, Garfield vidrava seu olhar para a lápide bonita e resplandecente. Com uma placa de ouro polido descrevendo o ocupante daquela sepultura.

Rachel Roth

1994 — 2010

Amada amiga, corajosa mulher.

Aquelas palavras eram vazias. Nenhuma delas conseguia descrever o quão majestosa aquela mulher havia sido. Coragem nenhuma se equiparava à sua; ou amor algum badalava como o dela.

Silenciosa e precavida, amante escondida, sentimentos lacrados à sete chaves para evitar o sofrimento alheio, e o ferimento em seu próprio intimo. Sorrisos breves, mas que guardavam segredos e mistérios bem mais perigosos e mortais que qualquer um.

A foto em sua lápide não a valorizava. Nada ali servia para ela. Aos olhos de Garfield, Rachel era perfeita demais para estar agora debaixo da terra seca do cemitério.

Desceu o olhar ao lado, à sepultura de mesma magnitude e também sem valor.

Richard "Dick" Grayson

1993 — 2010

Um bom filho, homem heroico.

Mais uma frase vazia. De um rapaz que batalhou, cresceu, se superou e brilhou no meio de tantos holofotes já reservados, usar a palavra Heroico era pouco — muito pouco.

Dentro daqueles olhos azuis misteriosos havia um grande sofrimento recorrente à seus erros, mas que guardavam uma imensa força de vontade para superá-los; em seus sorrisos largos, podia ser ver uma verdade pura, um amor que exalava por todo o lado embalando aqueles que desejavam sentir tal calor.

Com uma misteriosa identidade e família, conquistou bem mais o que muitos heróis de carteira assinada; salvou a vida de quem amava, e isso era o que importava.

Sorriu diante da imagem do rapaz. Por mais que não mostrasse a verdade por detrás do vidro, Garfield conseguia ver aquele sorriso que tanto havia acostumado, mas que também tanto desprezou.

Se pudesse voltar no tempo, a primeira coisa que faria seria evitar brigar com Dick. Deixá-lo sozinho para enfrentar seus próprios problemas talvez tenha sido a pior coisa que um dia pensou em ter feito.

Suspirou levantando o olhar pesado e sem brilho aos céus, sem ver a mesma beleza que todas aquelas cores harmoniosas transmitiam.

— Queria que vocês pudessem ver. — comentou em um sussurro doloroso e rouco, como se chorasse eternamente em uma dor infinita: — Talvez realmente fosse bonito em circunstâncias diferentes.

Sorriu sem emoção voltando os olhos à ambas sepulturas silenciosas. Aquilo era doloroso demais para se suportar. Mordeu o lábio inferior agachando-se em frente à ambas.

— Estou perdido. — lamuriou em desespero: — O que vou fazer sem vocês?

O silêncio respondeu por ele, angustiando aquele coração quebrantado. Seus olhos ardiam, mas não ousou se permitir chorar; não ali. Não na frente deles.

Fungou algumas vezes se levantando.

— Tenho que ir. — comentou embargado: — Preciso tirar a Kory de casa.

Tocou o túmulo de Rachel uma última vez despedindo-se de seu amor adolescente e de seu melhor amigo.

***

Kory abraçou forte o travesseiro contra seu corpo. Faziam dias que não sentia mais vontade de sair daquele quarto. A dor a consumiu no mesmo instante que Richard fechara seus olhos em um sono eterno; e até aquele momento não demonstrava que um dia pararia.

Não possuía mais lágrimas para derramar sobre a fronha, ou voz forte o bastante para chamar Ryan para lhe dar um copo d'água — mesmo que o rapaz praticamente estivesse morando em seu quarto.

Inspirou fundo impedindo-se de dormir. Sempre que o fazia tinha pesadelos, sonhos que na verdade retratavam o real; as dolorosas lembranças daquela guerra.

Tinha tanto por quem chorar. Sua irmã, que cuidou dela por um bom tempo; mesmo vivendo em pé de guerra, ela amava Komander, e isso nunca mudaria; sua amiga, que a ajudou em momentos difíceis, e suportou junto dela coisas das quais não era obrigada. Ela amava Rachel, com todas as forças.

Dick.

O maior problema, causador de todo o excesso de sofrimento pelo qual nunca pensou que teria; uma dor que arrancava seu coração desmantelado em dois.

Sentiu sua garganta arder, mas sabia que as lágrimas não sairiam. Não mais. Entretanto, seu coração doía tanto dentro de seu peito que pensou muitas vezes se aquela dor não era física.

Virou-se na cama olhando para o teto. Queria poder gritar, dizer a todos que estavam errados, e que Richard entraria por sua porta lhe chamando de amor, como sempre fez.

Cansada e exausta, fechou os olhos a contragosto, entrando no mundo das memórias as quais gostaria de se esquecer para sempre.

***

— Ela não está nada bem. — comentou Ryan à Victor de frente para si na sala de estar.

O garoto estava sentado em uma maca em sua própria casa. Como a de Victor havia sido destruída, estava morando temporariamente com Karen até achar uma moradia em meio à destruição em massa.

— Eu imagino. — respondeu cansado. Ele também fora consumido pela saudade e dor: — Deixe-a, por enquanto.

Aproximou-se do ombro do rapaz com uma chave inglesa. Apertou, girou e depois aquiesceu à si mesmo.

— Mexa. — pediu ao rapaz.

Levantando o braço, Ryan deslumbrou as peças mecânicas ocupando o espaço de seu braço perdido. Era pesado, maciço, mas discreto ao mesmo tempo. O peso não incomodava o rapaz, dando liberdades ao ciborgue em construir o aparato com os melhores e mais resistentes materiais para que pudessem suportar o estilo de luta Tamaraniano.

— Muito legal. — comentou admirado. Era realmente incrível poder sentir um membro ali, mesmo sabendo que não era verdadeiramente seu e sim de Victor.

— Que bom que gostou. — apreciando a reação do garoto, Victor guardou seus utensílios aprontando-se para deixar a casa do Anders.

Batidas constantes na porta chamaram a atenção de Ryan. Desceu da maca para atender a porta. Garfield se mostrou do lado de fora. Sua aparência não era das melhores, mas o garoto pode reparar que estava milhares de vezes melhor do que sua irmã.

Deu passagem fechando a porta na sequência.

— Quanto tempo, verdinho. — cumprimentou Victor apoiando sua mão no ombro esquerdo do Logan: — Veio ver o estado da Kory?

— Soube que ela está aceitando isso pior do que eu, ou a família do Dick. — comentou em tom baixo. Victor concordou retirando a mão.

— Não sai do quarto à três dias para quase nada. — afirmou Ryan sério. Passou pelos dois sentando-se no sofá de modo exausto.

Estava cuidando dela à exatos sete dias, e nesse meio tempo a mais velha se comportava como uma infantil criança — mesmo tendo um real motivo para agir de tal modo — criando em Ryan bolsas negras sob os olhos as quais não deveria ter aos quatorze anos.

Garfield pediu para subir ao quarto dela. Não foi encorajado a fazer isso, mas também não foi impedido. Subiu para o segundo andar batendo na porta da garota duas vezes.

Esperou pela resposta para entrar, mas não ouvia nada a não ser a fraca respiração da alienígena. Abriu vagarosamente a porta deslumbrando o sono da garota.

Não estava serena, pois momentos de sono como aqueles só serviam para descansar o corpo. A mente continuava trabalhando e remoendo as memórias, criando dores em seu subconsciente.

Ajoelhou-se ao lado da cama acariciando seu rosto. Estava pálida. De uma pele outrora bronzeada e brilhosa, agora se encontrava opaca e sem vida; sob seus olhos grossas bolsas negras se apossavam de seu rosto, inchadas e recém formadas.

Suspirou levemente resolvendo ir embora. Por mais que quisesse tirá-la daquele quarto sabia que não existiam palavras que a reconfortassem. A diferença única entre os dois era que Garfield não tinha facilidade para chorar, mesmo agora.

Saiu de seu quarto e voltou à sala. Victor já havia saído e Ryan preparava um desjejum para Kory. Acenou ao mais novo deixando a casa dos Anders.

***

O metamorfo entrou em casa indo diretamente à seu quarto. Em cima da cama ainda jazia seu uniforme de combate rasgado e sujo. Não soube explicar o porque de guardar aquilo, mas sentia como se houvesse um significado por detrás dele; uma espécie de saudade.

Sentou-se na cama fitando o chão pensativo. Queria saber como ajudar Kory, mas antes disso precisava se ajudar, e esse talvez fosse o pior tópico.

Era tão surreal. Bem em seu íntimo ele não acreditava que ela estava morta. Ele pensava que a qualquer momento veria a namorada ligando para seu celular pedindo para que passasse um tempo consigo, mais necessariamente afugentando o medo dos dias difíceis.

Mais uma vez observou o manto roxo. Algo ali não mais o agradava. Como se aquelas cores, de algum modo, não fizessem jus ao que fora batalhado uma semana atrás.

Decidiu fazer algo a respeito, talvez concertando e resolvendo o incômodo que sentia sobre ele. Antes disso, involuntariamente, deitou-se na cama permitindo-se relembrar alguns momentos, para ele tão bobos e significantes ao mesmo tempo.

Em seu peito algo ardia, doía e rasgava com algumas imagens que sua mente lhe mostrava. Imagens dela sorrindo, lendo, ficando irritada; seus pedidos tímidos e sem jeito, seu rosto rubro pela vergonha de algo que ele lhe dissera; a timidez com as carícias ousadas do rapaz...

Não demorou muito para começar a sentir uma solidão gigantesca. Era como se um buraco negro se abrisse em seu peito, absorvendo tudo que um dia lhe foi precioso e essencial à vida.

Mordeu o lábio negando-se a chorar por mais tempo. Ela não iria querer vê-lo assim, e sabia muito bem disso.

Levantou-se, pegou seu antigo uniforme já desgastado o guardando na bolsa, e saiu para o corredor de sua casa. De frente, deslumbrou a porta de Tara semi aberta. Inspirou fundo entrando por ela sem sequer bater.

Tara mirou a porta curiosamente:

— Gar? — chamou em tom baixo.

O rapaz levou seus olhos ao braço enfaixado da amiga. Não havia quebrado nenhum osso, mas precisou enfaixar para evitar que inflamasse. Um pequeno remorso o consumiu.

— Ignore isso, Gar. — pediu Tara sabendo bem por onde sua mente vagueava: — Como está?

— Mal. — a resposta saiu seca, mas compreensível por parte da Markov: — Queria te pedir um favor, mesmo sabendo que estou abusando de você.

— Qualquer coisa. Depois de tudo é o mínimo. — respondeu tentando amenizar aquele clima fúnebre.

Retirou sua mochila das costas colocando sobre a mesa o uniforme rasgado.

— Quer que eu concerte? — indagou menos preocupada. Pois uma costura era rápida e fácil de se fazer.

— Não. — respondeu Garfield: — Queria que me ajudasse a modificar. Você me ajudou a fazer o primeiro uniforme, nada mais justo do que costurarmos o próximo modelo também.

Tara nada respondeu. Somente suspirou um pouco menos aliviada que antes. Não entendia bem o motivo da mudança, mas não estava em posição de questionar.

Pegou o uniforme visualizando todas as costuras, pregas e o modelo.

— Que mudança você quer?

— Apenas alterar algumas cores. — sua frase saiu fraca, mas carregando algum sentimento forte e oculto: — Algo simbólico.

— Como simbólico?

— Você verá.

***

— Kory, por favor desça um pouco. — implorou Ryan sentado no chão do lado da irmã.

Ela se mantinha deitada de lado segurando a mão do irmão caçula. Não queria sair daquele casulo, pois uma vez fora se sentiria vulnerável e com a necessidade de seguir em frente; e — naquele momento — era o que menos queria.

— Vou ficar te devendo essa. — respondeu rouca beijando as costas da mão de Ryan. Ele suspirou deitando a cabeça no colchão ficando encostado no rosto de Kory.

— Eu preciso de você. — pediu suplicante: — Por Favor, reaja.

Kory não respondeu, e nem o faria. Somente sentiu-se ainda mais inválida. Estava fazendo seu irmãozinho sofrer, e bem em seu interior isso era tão ruim quanto qualquer coisa; mas seu corpo não parecia querer colaborar com sua consciência.

Fechou os olhos pedindo desculpas várias e várias vezes seguidas para Ryan, que somente dizia que estava tudo bem, e que ele cuidaria de tudo para ela; seria seu pilar para que não desmoronasse e desaparecesse.

***

Se o clima entre os titãs não estava bom, na casa dos Wayne não parecia melhor.

Diferente de um clima ácido, lá se encontrava terrivelmente silencioso. Cada morador da casa em seu próprio canto, remoendo seus sentimentos cravados em seus corações.

Na sala de treinamento, Damian cortava, socava, chutava os sacos de areia extravasando toda a raiva, frustração e dor. No fundo, ele sentia falta de Dick. Diferente de todos os moradores daquela casa — salvo Bruce —, Dick era o único com uma relação mais saudável com Damian.

Mesmo com brigas tão comuns como o ato de respirar, Damian o via como um irmão, e aquela lacuna criada em sua nova rotina o fez repensar e muito sobre o quanto aquilo o abalou.

E para descontar esses sentimentos cortava coisas.

E funcionava; aparentemente.

***

Mais dois dias correram. Ryan ainda tentava tirar Kory de dentro de casa a todo custo, mas o máximo que conseguiu de seu árduo esforço foi fazê-la descer para comer das refeições.

Considerou aquilo um avanço, e preferiu esperar um pouco mais antes de uma nova investida, já que a irmã descera por vontade própria depois de Ryan praticamente desistir de chamá-la naquele dia.

Sentou-se a mesa olhando para o prato de comida instantânea. Sentiu-se mal. Ela sabia que o caçula não sabia cozinhar, mas não imaginou que ele tivesse passado dias comento só alimentos congelados ou de rápido preparo.

Inspirou fundo comendo um pouco sob o olhar de Ryan. Ele a encarava um tanto estupefato — pois fora pego de surpresa com sua iniciativa de descer pra a cozinha — e também aliviado. Sorriu à irmã, confortando-a silenciosamente.

Não comeu tudo, mas o pouco que bateu em seu estômago foi de alegrar o dia de qualquer um. Kory levantou-se disposta a voltar ao quarto e trancar-se lá até a janta, contudo Ryan a impediu segurando seu pulso.

Ela não disse nada, e nem ele.

Ficaram em um silêncio tenso, quebrado pelas lágrimas que ousaram sair do rosto da mais velha. Um soluço seguido do outro, em um desânimo incontável.

Ele só pode acudi-la, e fazer promessas que nunca cumpriria; pois ele conhecia bem o forte sentimento que seu povo sentia, e sabia também que aquela dor não passaria.

Nunca.

***

— Depois de três dias terminamos. — sibilou Tara segurando o uniforme em mãos.

Garfield soltou um riso, um tanto cansado pelas noites em claro, sentindo que fizera a coisa certa.

— Me diria agora o motivo dessas cores tão "diferentes"? — insistiu Tara pela terceira vez naquele dia. Garfield negou.

— É algo pessoal. — respondeu dando de ombros: — Para de insistir, isso é chato.

— Tá, tá. — resmungou irritada: — Só queria tentar saber o porque de tanta mudança. — Tara sabia bem o que desencadeou as mudanças, mas não conseguia entender plenamente o que se passava na cabeça no ex.

— Conseguiu ver a Kory? — perguntou Garfield ignorando a afirmação infundada da amiga.

— O Ryan me expulsou me chamando de traidora. — sorriu forçadamente lembrando-se do dia anterior e da falha investida.

— Por que não insistiu?

— Ele ameaçou me rasgar ao meio se eu o fizesse. — comentou temerosa. Conhecendo bem o monstrinho, não era de se duvidar. Antes mesmo de saber que ele era tamaraniano, Garfield já tinha receio de ficar muito tempo sozinho com o rapaz.

— Entendi. — afirmou guardando o novo uniforme: — Não se sinta abalada com o que o Ryan disse, mas sinto dizer que você não muda a opinião dele, não agora.

Tara somente aquiesceu, entendendo o recado. Garfield deixou seu apartamento entrando no próprio.

Tentaria mais uma investida com Kory e depois, se a coragem lhe batesse, iria atrás de Damian.

***

Sentou-se no sofá da casa de Karen apoiando a cabeça entre suas mãos. Estava cansado, exausto. A carga psicológica era tamanha que esquecera duas vezes de recarregar-se.

Inspirou pesado torcendo para que estivesse tudo pronto, e que pudesse enfim mostrar o projeto que vinha arquitetando à dois anos. Era um segredo até mesmo de Richard, e por isso sentia-se mal por não ter dito antes.

Pois, agora, nem ele ou Rachel veria enfim seu trabalho dar frutos. Desceu suas mãos ao pescoço tenso soltando uma lufada de ar derrotado. Aquela semana havia sido uma das mais complicadas nos últimos tempos. O corpo doía, o coração palpitava angustiado aquecendo o corpo metálico de Victor.

Ele conhecia bem a dor da perda. Se tinha uma coisa da qual Victor poderia compreender era os momentos de desespero vividos por Kory e os outros. Saber que nunca mais poderá ver aquela pessoa cria um grande vazio em seu corpo, como se uma das peças do quebra cabeça fosse rasgada e nunca mais pudesse ser recolocada ou substituída.

Levantou o olhar à mesa, fitando o comunicador Titã de Karen. Amarelo, com um T maiúsculo na tampa do visor. Dois botões laterais, um para abrir o visor, e outro para a chamada.

Pegou entre seus dedos metálicos analisando a pequena peça nostálgica. Sorriu ao lembrar-se da sugestão de Dick em fazer aqueles comunicadores para facilitar o relacionamento entre os membros dos Titãs. Claro que Dick havia entregue um à Batgirl caso precisassem contatá-la.

Mais um sorriso ao lembrar da única vez que precisou chamar a famosa Batgirl e vê-la entrando em ação da forma mais profissional que já havia visto, para — na sequência — bronquear Robin por chamá-la fora de hora.

"Como se houvesse horário para vestir o manto", a resposta de Dick fora seca, mas com uma pitada de divertimento nas palavras. Recebeu um tapa, com ela prometendo bater-lhe mais quando aparecesse na Bat-carverna.

Abriu o visor do comunicador apertando o botão de chamada segurando-o por exatos dez segundos. A configuração se abriu, dando-lhe liberdade para digitar alguns códigos e depois fazer uma chamada coletiva.

Todos os comunicadores tocaram simultaneamente — até mesmo o da Gordon, mesmo que não tenha ouvido o toque do pequeno aparelho.

Garfield foi o primeiro a responder:

— Algum problema, Vic? — perguntou preocupado e ao mesmo tempo desgostoso com a ideia de sair em missão.

— Nenhum. Só uma reunião importante. — avisou inspirando fundo: — Algo que deveria ter mostrado antes.

— O que? — perguntou Wally ao chegar em seu comunicador na cabeceira de sua cama.

— Venham para cá que eu conto. — barganhou Victor sorrindo dos resmungos de ambos rapazes.

— Que horas? — Lucky foi a próxima a se pronunciar. Tinha a voz baixa e "amassada", como se tivesse acabado de acordar de um pesado sono.

— Assim que Ryan conseguir convencer Kory de aparecer aqui. — Victor sabia que seria uma árdua batalha, mas não poderia dar uma noticia particularmente boa sem todos os integrantes juntos.

— Então me chame daqui cem anos, por favor. — resmungou Lucky deixando o comunicador de lado na cama. Sim, realmente estava dormindo.

— Acho que consigo fazê-la sair. — Ryan se manifestou chamando a atenção de todos: — Mas precisa ser agora.

— Feito. — concordando, Garfield desligou o comunicador pegando suas coisas e saindo de casa, sem uniforme ou máscara. Assim, todos se aprontaram para ir à casa de Karen.

Sorrindo satisfeito, Victor se levantou:

— Agora é avisar a abelhinha sobre nossas visitas.

***

Ryan entrou no quarto da irmã. Ela não mais dormia, porém seu olhar perdido para a janela não mostrava nenhuma melhora. Seus olhos estavam inteiros avermelhados, exceto pela íris esverdeada, agora opaca e sem brilho.

Não se pronunciou, somente sentou-se a seu lado pousando sua cabeça no ombro desnudo da irmã mais velha. Ela não demonstro nada, a não ser levantar sua mão e alisar os desgrenhados cabelos do caçula.

— Victor nos chamou para uma reunião. — avisou Ryan sem rodeios: — Ele disse ter algo muito importante para dizer. Talvez fosse melhor ir.

Esperou um pouco. Não poderia pressioná-la demais, portanto aguardou pacientemente por sua resposta. Kory suspirou disposta a recusar ir à reunião, mas lembrou-se do pedido de Ryan: "Eu preciso de você. Por favor, reaja".

Não poderia ficar para sempre naquela lástima sem fim. Com muito custo respondeu que iria, criando no irmão um sorriso deslumbrante e belo. Kory se deixou abater, sentindo um sentimento bom ao ver o sorriso de seu irmão tão raro nos últimos dias.

Bem, quem era ela para falar algo?

Ele a ajudou a se vestir. Simplesmente uma roupa de primavera casual. Penteou seus cabelos longos e ondulados amarrando-os em uma trança — não muito bem feita, mas o suficiente para melhorar o aspecto da irmã.

Ela olhou-se no espelho espantada. Aquela mulher não era ela. Pálida, com grossas e arroxeadas olheiras sob seus olhos; lábios rachados e olhos tão vermelhos quando fogo em brasa.

Decepcionou-se com a visão.

"O quão fraca eu sou?", perguntou-se Kory abandonando o espelho e saindo do quarto na companhia de Ryan.

***

Aos poucos, os Titãs foram se reunindo na casa de Karen. A garota resolveu sair mais cedo do trabalho alegando ter problemas familiares a resolver. A ligação de Victor fora uma surpresa, mas ao mesmo tempo seu álibi para sair daquele ambiente morto do laboratório.

Arrumou alguns copos, preparando uma jarra de suco e dispondo na mesa de centro junto de uma travessa de pães doces que comprara no caminho. O clima não era bom, mas um prato de comida ajuda qualquer um.

Garfield chegou juntamente de Wally. Ambos calados, mas serenos em relação à Lucky que chegara minutos depois totalmente transtornada. Não que estivesse a sofrer em demasia pela morte de ambos membros, mas por tudo que acontecia ao seu redor. Toda aquela carga negativa não fazia bem a nenhum deles.

Demorou certa de meia hora até Ryan e Kory darem o ar da graça. A garota parecia um fantasma de tão pálida que se encontrava; já Ryan mostrava um imenso cansaço em seu rosto juvenil, mas em nenhum momento demonstrando fraqueza.

De todos, talvez ele fosse o mais forte ali.

Sentaram-se de frente à Victor. Karen tomou seu lugar ao lado do ciborgue.

— Bem, não estamos no melhor clima para conversas ou embromações, mas eu não teria outro momento para falar sobre o projeto. — iniciou Victor calmamente, acompanhando o clima e a possível mente dispersa e cansada de todos.

— Que projeto? — indagou Wally sem muita curiosidade.

— Nossa sede. — respondeu sem delongas. Garfield ajeitou a coluna olhando o amigo curioso. Até mesmo Kory fez menção de ouvir o resto: — À dois anos, quando formamos o grupo, eu comecei a pensar em um projeto que envolvesse todos as nossas necessidades. Moradia, reuniões, treino, trabalhos, conforto. Um lugar só nosso.

— Algo como a famosa Bat-caverna? — comparou Lucky tentando imaginar como e onde estava a tal sede Titânica.

— Melhor. — respondeu: — Algo mais como a "torre da liga".

—Não me diga que vai nos mandar pro espaço? — indignado, Garfield exaltou-se fazendo Victor rir.

— Não tenho dinheiro para isso, verdinho.

— Então? — Ryan cuspiu, irritado com tanta embolação, diferente de Kory que mostrava um pouco de deslumbre em seu rosto apático.

— Uma torre. A Torre Titã com exatamente o mesmo formado da letra em nosso comunicador.

A informação chocou todos, até mesmo Karen que até o momento ouvia calmamente as informações.

— Um torre? — sibilou Lucky descrente: — E onde você escondeu ela?

— Em Jump City. — Victor riu da cara de espanto de todos na sala. Afinal, nenhum deles estava preparado para saber que a tal magnífica sede seria em outra cidade, à duas mil milhas de distância de Gotham City.

— Califórnia? Sério isso? — ralhou Lucky estupefata. Victor aquiesceu: — Do outro lado do país? O país é imenso, e você escolhe logo a outra costa? Porque não Massachusetts ou Nova Jersey que são aqui do lado?

— Lá tem uma ilha em um ponto estratégico, de onde dá para ver toda a cidade de Jump City, além de um ponto distante do resto da cidade para evitar que possíveis ataques a prejudiquem. — explicou calmamente.

— Eu curti. — pronunciou-se Garfield: — Eu não iria conseguir ficar por aqui nem se quisesse.

— Nem eu. — a voz de Kory foi baixa e fraca, mas todos conseguiram ouvi-la. Ryan sorriu orgulhoso.

— Concordamos. — explicou o ruivo pela irmã. Victor não deixou de sorrir, afinal de contas aquela sempre foi sua intenção: tirá-los da tormenta que Gotham criava nos emergentes debaixo das grossas asas do Morcego.

Os outros três mantiveram-se em silêncio, como se pensassem muito bem na resposta que dariam, e realmente precisavam. Nem todos eram órfãos como Kory, Ryan e Lucky. A família seria o primeiro obstáculo.

— Quando ela fica pronta? — pronunciou-se Kory mais avivada do que horas mais cedo. Algo naquele projeto lhe despertou algo que não soube decifrar.

— Já está. — delicadamente pegou um papel extenso o colocando na parte livre da mesinha de centro. No desenho, facilmente se identificava a torre em formato de T, os vidros azuis cintilantes e a localização estratégica da ilha: — Eu os chamei porque amanhã cedo estarei partindo para lá. A S.T.A.R. me emprestou um jato com piloto para me levar.

— Já? — Karen exaltou-se. Era muito cedo para uma repentina mudança.

— O que precisamos levar? — Kory estava decidida a ir, e estava mais do que óbvio.

— Itens pessoais: roupas, escova de dentes, maquiagem, secador... Coisas do tipo. A Torre já está mobiliada, então o resto não precisa levar.

Aquiescendo, olhou para Ryan que somente sorriu concordando com a decisão da irmã.

— Desculpe, mas não tenho a intenção de sair daqui, Vic. — Karen respondeu: — Tenho um bom emprego na S.T.A.R. e pretendo continuar nela. Na Califórnia não existe uma sede, e eu acabaria perdendo uma grande oportunidade.

— Entendo. Ninguém aqui é obrigado à ir, mas também não são proibidos de passar lá de vez em quando. — zombou fechando o projeto: — E claro, continuarão sendo Titãs mesmo que não convivamos sob o mesmo teto.

— Também não irei. — Lucky respondeu séria: — Não pretendo ir para tão longe.

— E nem eu. Não agora, mas posso tentar prestar para UCLA e morar na Torre enquanto faço faculdade. — respondeu Wally apreensivo. Ele tinha pais, e abandoná-los daquela forma não seria indicado.

— Por que não Stanford? — perguntou Garfield curioso, afinal a faculdade também fica na Califórnia.

— Não queria dar uma de metido intelectual, mas é mole mole Stanford. — zombou tirando alguns risos, risos super necessitados.

— Bem, então estamos em seis pessoas para nos mudar pra torre. — a conclusão de Victor foi estranhada por todos. Seis?

— Acho que você não contou direito, homem de lata. — comentou Wally.

— Não contei nada errado. Além de nós quatro, outros dois membros concordaram em se mudar para lá. — respondeu.

— Espera! — Garfield levantou-se: — Como assim outros membros?

— Dick saiu recrutando alguns jovens heróis em algumas de suas viagens. Esses dois já estavam planejando vir se encontrar conosco e se apresentar, mas nem receber a notícia de que Gotham estava sendo atacada eles receberam à tempo.

— Estavam aonde então? No Polo Norte? — inquieta, Lucky descruzou as pernas as cruzando novamente em outra posição mais confortável.

— Em missão especial com a Liga. — disse: — Mas agora estão definitivamente no grupo.

— Liga? — Karen indagou: — Quem são?

— Superboy e Moça-Maravilha.

Silêncio.

— Mas eles não fazem parte da Liga! — disse Wally pasmo.

— Mas seus tutores sim. E resolveram levar não só os dois, mas outros jovens heróis não oficiais da Liga da Justiça com eles em missão. — emendou Victor sério.

Eram conhecidos heróis. Tão conhecidos quanto o garoto prodígio ainda o era. Eles seriam como um gatilho para o crescimento rápido do nome " Titãs".

— Não vejo problema. — Kory manifestou-se: — Quanto mais pessoas no grupo, melhor.

— De acordo. — salientou Garfield meneando a cabeça como se pensasse em algo.

— Já que estão todos resolvidos — comentou Lucky levantando-se lentamente: —, irei para casa. Mas me deixem informada sobre tudo, ok?

Victor aceitou o pedido vendo a amiga de cabelos rosa sair do pequeno e acomodado apartamento de Karen.

— Irei também. — Wally pronunciou-se suspirando: — Não se preocupe, eu irei para a Torre, mas não hoje, e nem amanhã. Mas irei.

— Não se preocupe com isso, ruivinho. — com um terno olhar, Victor garantiu que o esperaria; e realmente o faria.

Assim, ficaram somente os cinco na sala. Karen disse que iria deixá-los a sós para conversarem sobre alguns assuntos mais delicados, caso o quisessem. Retirou-se para seu quarto deixando a silenciosa sala para trás.

Nenhum deles pronunciou sequer uma palavra. Estarem ali, os únicos três originais do grupo sozinhos, sentados frente a frente dispostos nos três sofás negros da sala, era doloroso.

Kory fez menção de desabar, mordendo com força seu lábio já ferido. Garfield levantou-se envolvendo-a em um fraterno e compreensivo abraço. Conseguia sentir o calor do corpo da amiga e as lágrimas molharem sua camiseta.

Ajustou-se em seu corpo beijando o topo de sua cabeça com ternura. Vic sorriu para a cena esticando-se para pegar os pães doces que Karen havia comprado no caminho. Tal gesto foi repetido por Ryan.

Kory ficou um tempo com o amigo pronunciando palavras das quais Garfield não conseguiu identificar. Eram lamuriosas, cheias de dor e desespero envoltas pela perda.

Sussurrou ao ouvido da amiga que tudo ficaria bem, e que ele a ajudaria a tapar — pouco a pouco — o buraco em seu coração frágil. Ela sorriu, dizendo que também o faria.

Entendendo o recado, Garfield separou-se dela alisando suas costas.

— Vou para casa arrumar as malas. — disse olhando para Ryan e Kory: — Também devem ir. E decidirem se realmente é isso que querem.

— Iremos. — Ryan levantou-se ajudando a irmã debilitada: — Se cuida, Logan.

— Vocês também!

Garfield e Victor ficaram sozinhos na sala. Mas também permaneceram calados, pois palavra nenhuma precisava ser dita para entenderem um ao outro.

***

Um dia nós aprendemos a compreender as coisas da maneira que nos são mostradas. Muitas vezes os acontecimentos podem parecer estranhos ou desnecessários, os quais poderiam muito bem nunca terem acontecido.

Sentimos um vazio gigante quanto nos deparamos com situações das quais não estávamos preparados para encarar. Os corações se quebram, as lágrimas transbordam; o choro rasga-lhe a garganta em um lamento doloroso.

Descobrimos uma dor nunca antes sentida, uma dor da qual nunca gostaríamos de ter experimentado. Sentimos medo. A perda é o maior dos medos da humanidade, e o mais difícil de se lidar. Não há cura, não há tratamento; não há conforto.

Cada um lida do seu modo com a dor, sendo alguns mentalmente mais fortes que outros, conseguindo guiar-se pelo novo caminho que se abrem; mas todos — um dia — partiram de um mesmo ponto: o ponto do desespero agudo.

Um ponto do qual alguns nunca mais irão sair.

Pois esses já desistiram de viver.

Cansaram de tentar.

Morreram.

***

O dia seguinte raiou.

Olhando pela janela de sua casa, Garfield estava determinado a seguir em frente e partir para um novo começo. Vestia seu novo uniforme, nas cores branca e vermelha, tão simbólica quanto sua própria existência. Ao seu lado, uma mochila bordô aguardava para ser carregada para sua nova casa.

Inspirou profundamente olhando-se no espelho. A pele caucasiana que uma vez tanto desejou, agora lhe enojada. Não conseguia mais se ver como um Logan. Agora ele via somente um rapaz fingindo ser alguém que abandonou à muito tempo.

Retirou com brusquidão o colar revelando a pele esverdeada e tão nostálgica. Sorriu fraco saindo do quarto e caminhando até a cozinha. O cheiro de café fresco encheu suas narinas atiçando seu estômago guloso.

Deixou sobre a bancada seu colar e uma carta destinada à seu pai, pois a coragem não era muita para enfrentá-lo naquele momento.

Tomou um caprichado gole de café e abandonou a antiga casa.

***

O mar azul cheirava à sal.

Parece um tanto óbvio afirmar isso, mas para Garfield foi bem expressivo conseguir identificar algo além da dor. Inspirou profundamente drogando-se com o pequeno aroma tão inebriante.

Ainda era meio dia quando a nave da S.T.A.R. pousou no Heliporto da torre Titã. O sol ardia sobre as cabeças dos mais novos moradores daquela monstruosidade de casa. Kory ainda estava apática, não melhorando nem mesmo uma única gota desde o dia anterior; Ryan podia afirmar que piorara, pois recusou-se a jantar ou tomar café.

Aproximando-se curiosa da beirada, a bela mulher ruiva deslumbrou-se da vista da cidade de Jump City. Tudo tão diferente que avivou a curiosidade infantil da tamaraniana. Esticou os braços espantando toda a preguiça que sentira durante a viagem tediosa e calada.

Arrastou o olhar ao amigo esverdeado à alguns metros de si. Estava tão relaxado e bem disposto que sentiu inveja. Como ele conseguia ficar bem depois de tudo? Não sentia a mesma dor que ela? Uma raiva a embalou deixando-a entorpecida pelo sentimento ruim e atroz.

Resolveu entrar na casa, por onde Victor e Ryan já haviam o feito, deixando Garfield sozinho mais uma vez. Ele sentiu o olhar vítreo e mortal em suas costas. Claro, como não sentir alguém com uma aura mortal olhar-te com tanta avidez?

Inspirou fundo virando-se até a porta do terraço; negra, de um metal maciço e aparentemente resistente ao fogo. O ambiente ali em cima era tão espaçoso que ele não soube dizer o quanto deve ter custado todo aquele mirabolante projeto do amigo robótico; e na verdade não tinha interesse em perguntar.

Aguçando os ouvidos, podia-se escutar nitidamente as gaivotas cantarem sentadas nas rochas à beira-mar. Era um ambiente tão confortante que por certos segundos conseguiu esquecer um pouco de suas dores dilacerantes.

— Será que você iria gostar daqui, Rae?

Perguntou ao vento, sabendo que não receberia a resposta. Sorriu tristonho apertando as mãos juntas em um gesto de conforto.

— Eu... — sua voz saiu rasgada e pausada, o fazendo engolir o bolo que formara em sua garganta seca: — ... não sei se consigo. Não mais. Estava tão confiante ontem quando recebi a proposta que não imaginei sentir esse imenso peso. Essa culpa toda.

Conversava casualmente, desabafando para uma mulher que não mais poderia reconfortá-lo. Nunca mais.

— Sabe, eu não sou bom para enfrentar meus próprios medos. Eu sou fraco de todos os modos. — disse entrecortado: — Você sabe muito bem disso.

Sorriu com a frase. Sim, ele sabia muito bem que ela o conhecia — talvez até mais do que ele mesmo —,sempre sabendo como reagir ou aconchegá-lo.

Ela era perfeita à seus olhos. Tão perfeita, mas também tão problemática. Uma joia rara a qual pretendera guardar e cuidar para sempre, sem nunca abandoná-la. Contudo, parece que ela pensava o contrário.

— Se estiver olhando por nós, esteja onde estiver, dá um empurrão na Kory. Eu sinto que ela vai ruir a qualquer momento... Ela é muito sentimental.

Mordeu o lábio sentindo as lágrimas arderem sua garganta. Apoiou-se sentado na mureta no terraço permitindo-se — depois de tantos dias calado — soltar o que estava preso.

Desceram quentes e dolorosas por seu rosto, cortando mortalmente seus sentimentos em dois pontos: a dor e a saudade.

— Eu preciso de você.

Quanto mais falava, mais sentia o vazio em seu peito. Mais e mais acreditava no insuportável.

— Eu amo você. Tanto... Tanto....

Soluços se prendiam em sua garganta, ansiosos para desabafar contra aquele inebriante cheiro de sal ao redor. O calor do sol o embalou, como um abraço reconfortante que nunca seria dado.

Murmurou palavras sem nexo, afundando seu rosto contra suas pernas dobradas. Ficou quase dez minutos nessa posição, acalmando-se lentamente.

Tocou sua mochila retirando dela um livro, o mesmo o qual Rachel escrevia seu diário antes dele descobrir sobre tudo. Capa vermelha, letras douradas; palavras que outrora não tinham um significado e que agora pareciam pulsar em sua mente turva.

Linha do tempo.

Toda linha tem um começo e fim. Não são infinitas, não são eternas. Por mais que o tempo permaneça sempre constante e infindável, a junção desses dois elementos torna ambos com começo e fim.

Um início e um término. Um nascimento e uma morte. Passou os dedos pelas letras douradas abrindo o livro delicadamente. Correu para o fim, onde lera o ultimo relato escrito pela Roth:

"(...) Me apaixonei perdida e loucamente por um humano. Não posso deixar esse mundo morrer, pois ele morrerá junto. Nem que eu me sacrifique para isso eu garantirei que ele continuará vivo, com aquele olhar provocante e penetrante e, ainda por cima, com aquela voz que me amolece.(...)"

Garfield soltou um riso caloroso. Ele amava saber que a provocava de todas as formas, mesmo ela nunca tendo dito exatamente o que escrevia no seu diário.

"(...) Portanto vou simplesmente dizer o nome do homem com o qual meu coração palpita como seu fosse uma grave arritmia, o homem pelo qual no dia de meu aniversário, morrerei por sua vida: Garfield Logan.(...) "

Apertou a capa com força. Por mais que ele tenha dito que não a deixaria morrer, prometido a si mesmo que não permitiria que a mesma se fosse, ele falhara. Aquele livro zombava dele, pois desde o começo sabia o que ela iria fazer.

Inspirou fundo evitando pensamentos inadequados; evitando dúvidas desnecessárias. Levantou-se segurando o livro em mãos. Pegou impulso lançando-o no mar gélido daquela tarde. O livro caiu minguante, demorando alguns segundos até colidir com a superfície da água e afundar-se completamente.

Ele não precisava daquilo. Não precisava de palavras dolorosas e cortantes. Precisava das lembranças, dos sorrisos, dos belos olhos cianóticos tão expressivos.

Deu meia volta pegando sua mochila e descendo para onde deveria ser a sala de estar. O sol reluziu contra sua roupa avivando o vermelho e branco tão contrastantes de sua roupa.

O vermelho que demonstra paixão pela sabedoria, e o conhecimento necessário para a meditação; e o branco que resguarda a alma daquele que deixou o plano físico, adentrando em um plano espiritual mais puro e desprendido.

A verdadeira e preciosa liberdade alcançada por Rachel, o mundo tingido pela placidez da morte.

***

— Finalmente desceu, verdinho. — provocou Victor assim que Garfield entrou no imenso e exagerado cômodo.

— Estava disperso. — respondeu somente jogando sua mochila em cima da bancada de uma pequena cozinha na sala.

Sentou-se em uma das bancadas percebendo, enfim, os dois membros a mais entre eles: Superboy e Moça-Maravilha. Retesou-se fitando ambos com certa desconfiança.

— Essa é a Cassandra Sandsmark, ou Cassie. — Vic apresentou a garota loira ao metamorfo. Ele sorriu à ela apresentando-se na sequência: — E esse é Conner Kent.

— Um prazer recebê-los nos titãs. — disse por fim o rapaz verde sorrindo: — Espero que nos demos bem nos próximos anos.

— Também esperamos. — disse Cassie sorridente: — Vamos fazer o nosso máximo.

— Com certeza. — reforçou Victor como se fosse para salientar a afirmação da novata.

Garfield riu:

— Já que todos moramos juntos, eu posso fazer mais alguém comer tofu. — comentou virando-se à bancada.

— Ah! Mas na minha casa não. — gritou o ciborgue: — Nada de carne artificial, não envenene os membros novos.

— Eu estou salvando a vida de animais, e não matando outros.

Superboy arqueou a sobrancelha:

— Ele nos chamou de animais?

Cassie riu: — Todos somos... certo?

— To falando, sai pra lá com essa porcaria branca! — bradou Victor inconformado por Garfield ter tofu na sua bolsa.

Kory riu da cena inspirando fundo:

— Então, em comemoração à nossa nova casa farei uma comida tamaraniana das mais refinadas. — avisou a amiga. Não se ouvia muito ânimo em sua voz, mas já era um começo para que se propusesse a algo do tipo.

— Comida... tamaraniana? — indagou Cassie um pouco preocupada.

— Vão ter olhos ou essas coisas? — perguntou Garfield.

— Não olhos, mas vísceras de Spudlings.

— Esse é dos bons. — comentou Ryan animado pela comida prometida.

Garfield ficou, incrivelmente, mais verde que o normal.

— Onde você vai conseguir isso? — perguntou Victor receoso.

— É fácil conseguir essas coisas no mercado. — respondeu como se fosse óbvio.

Superboy imaginou o estilo de mercado o qual a garota provavelmente frequentava, com várias partes de corpos dispersos em mesas com panos brancos suspeitos, como um mercado para tráfico de órgãos.

Achou estranho. Muito estranho.

O dia seguiu-se desse modo, tentando quebrar o fúnebre clima que estava cravado nos corações dos titãs.

Aos poucos o tempo foi passando, e feridas que um dia acharam impossíveis de se fechar cicatrizavam-se aos poucos. Dia pós dia, ano pós ano, a dor se mostra mais suportável.

O nome do grupo fora trocado de Jovens Titãs para "Novos Titãs". Tempo de mudanças, inovações e descobertas. O rápido crescimento do grupo foi bem reconhecido pelo mundo, tendo como conselheiros os três membros originais dos Titãs.

Mesmo com o passar dos anos, Kory não conseguiu se manter na Terra por muito tempo, abandonando de vez o mundo pacifista do planeta e retornando a Tamaran. Ryan já havia deserdado bem antes da irmã mais velha.

Garfield e Victor mantiveram-se firmes, aconselhando e guiando os novos membros que vinham e iam durante todos os anos que passavam-se. Aquilo serviu como distração à eles após o trauma, mas no início não apagou feridas que ardiam ao deitar-se na cama e retornar ao passado.

Contudo, o tempo passou e machucados se cicatrizaram. O que um dia foi chamado de amor incondicional, tornou-se um amor infantil deixado no longínquo passado. A dor curou-se com o tempo, e a superação tomou espaço no coração de todos.

Para quem um dia acreditou que a perda dos heróis resultaria em dor e tragédia, na verdade criou a salvação e novo começo para quem estava mergulhado em seu próprio caos.

Pois a vida é curta de mais para prender-se ao passado, dores não são insuportáveis, e palavras podem aconchegar a quem quiser ouvir. Mas a verdadeira paz vem com o tempo, moldado pouco a pouco, escolhida grão à grão.

Pois a verdadeira felicidade ainda irá aparecer, mas o dia que ela chegará, bem... Isso, meu caro, só o tempo dirá.

Notas finais
Então? Curtiram? Espero muito que sim, do fundo do meu coração de lata. Foi muito bom escrever ela. E foi interessante saber que algumas pessoas perceberam que essa fanfic tinha falhas. E sim ela tem, pois ela foi feita ao acaso. Eu simplesmente quis escrever, e postei logo depois de terminar o capítulo um. Não tinha uma base, ou roteiro a seguir, foi tudo no improviso. Ou seja, se viram algo estranho durante a fanfic, ou um acontecimento sem explicação, isso se deve há falta de roteiro inicial. Desculpem por isso, de verdade, mas a próxima fanfic que virá: "Insólito Ardor", está totalmente roteirizada. Mais uma vez, obrigada lindos da minha vida!!!! Por fazerem dessa fanfic o sucesso que é! AAAH!!!!!, Quem quiser saber quando a fanfic Insólito Ardor será postada, comentem no começo do seu comentário: "Quero ser avisado da fanfic nova quando for postada", ai eu aviso, mas irei avisar NÃO respondendo seu comentário agora. "Ah, como assim? Não vai nos responder justo agora no final?" Eu irei responder vocês sim, mas por Mensagem Privada, e irei salvar todas as respostas que eu der no meu arquivo e, quando eu postar a fanfic, respondo o comentário de vocês com o link dela e a resposta que dei a vocês por MP. Assim é mais fácil, pois o Nyah barra comentários repetitivos considerados como Spam. Muitos dos meus autores favoritos já fizeram isso. Mas mesmo sendo respodidos só por MP, serão todos respondidos!!! Não se preocupem, não deixarei de responder ninguém!!! Grandes beijos meus amores, e não se esqueçam de mim, como não me esquecerei nenhum de vocês. Um agradecimento especial à Finholdt, por sempre me ameaçar de morte quando demoro ou faço alguma cagada na fanfic e por me aturar em conversas sem sentido no Face; uma grande amiga. Ao Beehive por ajudar essa fanfic a evoluir com dicas e acompanhamento fiel desde o primeiro capítulo; se tornou um amigo muito especial para mim {preciso do seu face também}. Ao Névoa entre os Mortais, por sempre vir com seus comentários maravilhosos e animar meus dias; te adoro muito. À AuroraSwetswan, ainda que sumida, ajudou essa fanfic a crescer com a primeira recomendação dela {além de trocarmos dicas sobre nossas fanfics sempre}. E claro, à todo o resto de vocês que foram especiais para mim, cada um à seu modo. Eu lembro o nome de todos vocês, em!!!! Mas se fosse escrever aqui eu levaria anos, pois são 316 comentários ruehruehrhue :v Bem, é isso. Ave Atque Vale, Saudações e Adeus!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!