Senhora Crallford já estava em sala quando eu e Adam entramos num papo alto e animado – por parte dele.

A professora nos olhou torto e mandou-me sentar do lado de um garoto moreno e bonito.

— Você tem o livro? – Ele perguntou, simpático.

— Sim. – Eu disse, tirando o tal livro da mochila.

— Acho que eu não te conheço. É nova no colégio?

Fiz um aceno positivo com a cabeça.

— Sou Matthew. Prazer.

— Prazer, Maxine. – Apertei a mão que se estendia até mim, embora relutante.

Tentei me fixar na aula, mas não conseguia. Matthew era lindo demais! A pele muito morena, o corpo um pouco musculoso (eu reparei sim, e daí?) e o rosto tinha feições bonitas e harmoniosas. Meu Deus, eu tinha de parar de olhar para ele! Mas eu não conseguia de jeito nenhum!

Ele tinha cabelos castanhos espetados para o alto e um sorriso de conquistar. Era canhoto e escrevia de um jeito super fofo que deixava a letra inclinada para a direita.

Pisquei várias vezes assim que o sinal tocava anunciando o horário de almoço. Como assim, já tinha passado tão rápido?!

Mas eu saí da sala junto com o restante dos alunos, carregada de livros e cadernos nos braços.

Era quinta-feira, e nas quintas-feiras eu ficava sozinha no turno da tarde no colégio, porque eu fazia aulas de Francês e Teatro (Para tentar superar a timidez, mas eu sempre ficava no canto do palco ou então, relendo o texto com alguém, sempre o mais baixo possível). Não que eu não gostasse de ficar em casa – na verdade, eu odiava era ficar rodeada de pessoas – mas em casa, eu não pensava em outra coisa a não ser a escola. Fico sempre estudando. Sempre, sempre, sempre a mesma rotina. Minha mãe às vezes acha que eu estudo demais e que me preocupo demasiadamente com a escola e que eu devia sair com minhas amigas – que ela não conhece, porque nenhuma delas jamais fora até minha casa.

Eu ia andando pelo refeitório fechado, dirigindo-me ao pátio perto das árvores e mesas compridas, e uma das quais eu certamente sentaria na ponta – e sozinha. O iPod tocava Aerosmith e eu ia cantarolando internamente até que ouço me chamarem.

— Maxine! – A voz repete e uma mão se materializa leve sobre meu ombro e eu me viro quase que obrigada – pela surpresa. Eu me desacostumei a ouvir meu nome na voz de outras pessoas a não ser os professores e meus próprios pais.

Não sei porque não me senti pasma ao ver que era Matthew. Porque na verdade, eu quase morri. Ele! Um cara como ele, lindo, falando comigo! Uma “Mariya-ni” (* Termo ucraniano para dizer “Maria-Ninguém”) que nem eu!

Meu sangue gelou nas veias, mas o coração batia um milhão de vezes por segundo.

— Oi – Ele diz com sua voz naturalmente sexy – Você está sozinha?

— Já é um hábito. – Digo, dando de ombros e segurando a bandeja que quase escorregava de minhas mãos suadas. Tento esboçar um sorriso, mas este pareceu tímido demais.

— Quer uma companhia hoje? – Ele abre um lindo sorriso torto e eu perco o fôlego com essa seqüência.

Eu tento dizer um “sim”, ou um “claro”, mas minha boca aberta só gagueja e não diz nada condizente.

Algum sentimento passa por seus poços escuros que se denominam olhos quando eu desisto de falar qualquer coisa e simplesmente assinto que sim com a cabeça, balançando os cabelos quase loiros numa frenética tentativa de esconder o sorriso radiante que ameaçava transbordar meus lábios.

Ele não levava nada em mãos enquanto eu carregava uma ridícula bandeja vermelha com um pote de salada e suco.

— Acho melhor deixarmos isso por aqui mesmo, Maxine. – Ele tomava o copo e o pote, ambos de plástico com uma mão e com a outra, depositava a bandeja em cima de uma pilha de semelhantes na lixeira.

Ele nem me dá tempo de dizer nada. Antes que eu raciocinasse a ideia de Matthew, ele já a tinha executado com graciosidade e leveza tão naturais que pareciam sobrenaturais.

Seguimos para o lado de fora do colégio e o sol transbordava quente, o que é até um pouco incomum no final de Setembro. A brisa agradável fazia a baderna dos alunos se tornar algo tão longe que chegava a ser quase inexistente quando Matthew estava ao meu lado. Apesar do quê, eu tinha acabado de conhecer Matthew. O dilema era que eu nunca fora muito acostumada a ter companhia masculina ao meu lado.

Até porquê, eu estudava num colégio de meninas na Ucrânia. Um colégio que demandava uniforme e tinha normas rígidas.

Aqui em Columbus High School, era o caos. Todos gostavam de fazer besteira! Talvez fosse até por isso que as outras garotas não gostavam tanto de mim, ou até mesmo minhas “amigas” – isso para não dizer, companheiras de almoço ou, ainda, colegas.

As garotas aqui gostam e saias curtas e blusas da Abercrombie & Fitch enquanto eu continuo usando meus vestidos rodados de verão que minha finada avó costurara à mão só para mim. Ok, é certo que eu os encurtara – só para ficar um pouco acima do joelho. Mas isso não é pecado, ou é?

Já estávamos sentados numa mesa redonda abaixo de uma frondosa árvore, um de frente para outro, mantendo minha área de conforto ampla o suficiente para minhas mãos pararem de suar. Eu fugia o olhar do dele, mas ele parecia brincalhão enquanto seu olhar corria por mim à procura do meu.

— Você não é americana, não é? – Ele pergunta, o rosto apoiado na mão esquerda e os olhos cravados em mim.

— Não. – Eu digo, dando uma última garfada em minha salada.

— Eu sabia que você era estrangeira. – Ele diz, estalando o dedo e depois apontando para mim. Hãn?

— Acho que dá pra notar... – Solto uma risada abafada.

— Na verdade, foi um chute. Seu inglês é muito bom.

— Acho que você não é o único que diz isso. E... Chute? O que você quis dizer com isso? Quer dizer, eu não conheço essa palavra.

— Ah, é que você é bonita demais pra ser americana mesmo.

“Como é que é?!”

Eu quase caio do banco quando ouço as palavras de Matthew.

Ele abafa um riso e vai se esgueirando pelo banco redondo até chegar ao meu lado. Por “meu lado”, entende-se “invadindo minha zona de conforto”.

— Mentir é pecado, Matthew. – Eu começo, sarcástica, pela primeira vez agarrando meus olhos aos dele. – Tem certeza que quer ir pro Inferno?

— Eu não acredito nessas coisas. – Ele dá de ombros. – Além do quê, eu nunca minto. Isso é pecado.

Eu ia balbuciar alguma coisa confusa, mas ele me interrompe assim que eu abro a boca.

— Max, eu posso te chamar assim, não posso? – Ele continua assim que assinto. – Max, você é tão sozinha. Por quê isso?

— E-eu não sou so-s-sozinha.

— Verdade. Não é. – Matthew olha para os galhos acima de nós – Agora você me tem.

— Hãn? – É a única coisa que consigo dizer.

— Eu sou seu mais novo amigo, Maxine.

Ele de repente me toma em seus braços num abraço apertado.

“Droga, isso não é costume! Quando é que esses americanos vão entender que contato não é a melhor coisa do mundo?”.

Não encosto minhas mãos em suas costas, mas meu rosto continuou aninhado em seu ombro quente e confortável com uma expressão de nojo – ou ao menos de desconforto ou desconcerto. Não entendo como não relutei ou o empurrei para longe – tal como eu faria como qualquer outro garoto que tentasse me abraçar. Mesmo que ele fosse lindo, maravilhoso e charmoso que nem Matthew.

Ou não.

— Matthew? – Uma garota perguntava atrás de mim.

Ele se separa rapidamente de mim e quando olhamos, vemos que é Autumn.

— Tudo bem? – Ele pergunta para ela, como se fosse muito natural o que estávamos fazendo.

— Vocês se conhecem? – Eu pergunto, esquivando do braço que pesava ao redor de meus ombros e ficando entre Autumn e Matthew, já que ela tinha se sentado à frente do garoto.

— Claro. – Autumn responde a pergunta com os olhos cravados em Matthew, não em mim. – Nos conhecemos há muito, muito tempo.

Fiquei em silêncio, observando como meus dedos frios escondidos embaixo da mesa se mexiam quando eu estava nervosa.

— Amhn... Autumn, você... Não devia estar em casa essa hora? – Eu levanto a cabeça, de repente me lembrando daquele simples detalhe.

— Não, eu não devia. – Ela continua estática, o olhar agora atravessando Matthew. Ela estava distante demais. Ele, por sua vez alternava um olhar entre nós duas. Ele parecia particularmente sarcástico para Autumn.

— Adam deve estar te procurando. Acho melhor irmos embora. – Eu termino, deslizando pelo banco afora e pegando (Sim, pegando) o braço de Autumn enquanto ela acordava de seu transe. Olho para ela como se estivesse dando-lhe uma ordem “Vamos embora AGORA”, embora nunca tivesse realmente feito ou ao menos desejado aquilo.

Bom, na verdade, eu só queria sair daquela saia-justa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.