O Tabuleiro

1 Emy e o Tabuleiro.


Notas iniciais
Capítulo único

Faltando apenas 3 dias para meu aniversário de 18 anos, meus amigos e eu decidimos comemorar esta dádiva num acampamento, mas não sabia se era uma boa ideia, porque geralmente não me dou bem com a mãe natural e ando tendo alguns pressentimentos, mas não quero contar isso à ninguém, pois me achariam maluca.

Depois de arrumar minhas coisas, me olho no espelho: os mesmos cabelos loiros com as mechas azuis que fiz dois meses atrás e os olhos azuis quase cinzas. Pego Nick, meu cachorro, e o coloco na “gaiola dos cachorros”, como eu chamo, pois nunca soube o verdadeiro nome dessa coisa. Me despeço dos meus pais, e como sempre acontece, ouço o velho conselho deles:

- Se cuida!

Quando saio de casa, avisto o Audi prata de Stan, ele acena para mim com um sorriso aparelhado e grita:

- Vamos lá Emy! Não temos o fim de semana inteiro!

Entro no carro e cumprimento a todos. Jenif, como sempre está linda, com uma única transa escura caindo pelo ombro esquerdo. Carrie radiante como sol. Jhon parecia ainda mais sarado do que de costume, seus olhos azuis estavam com uma aparência cansada, devido às noites mal dormidas , por causa dos trabalhos da faculdade.

Depois de 3 horas de viagem, ouvir dois cds do Evanescence, chegamos ao destino. A floresta era densa e escura. Lá vem aquela sensação horrível novamente de que algo vai dar errado.

Montamos acampamento e tive a sorte de ficar com Carrie, pois sempre a achei uma ótima companhia. Fiquei com pena de Jhon, que ficou sozinho, mas falei que ele poderia ficar com Nick. Nada animaria mais sua noite do que um filhote de labrador dormindo com ele.

Cheguei à minha barraca e capotei. Tenho mesmo pesadelo das noites anteriores, o quarto e o rosto.

Estou num quarto escuro e ouço um barulho, quando me abaixo, vejo a mesma face horrenda que me acompanha algumas noites em meus sonhos. A boca daquele horrendo rosto fala a mesma frase das noites anteriores:

-Jogue! Jogue!

Desperto do meu pesadelo ofegante com Carrie me chamando. Já amanheceu e vamos tomar café da manhã, que consiste em pão com manteiga e chocolate quente.

Ouço latidos e sei que Nick encontrou algo, pela intensidade dos latidos sei que é algo importante. Todos corremos até onde ele está e vemos um buraco cavado e nele havia uma caixa que parecia ser um jogo de tabuleiro e ouço as palavras : Jogo! “ Jogue!”. Rapidamente eu grito, sem pensar:

- Deixem isso! – grito mais alto de que queria.

- Qual é, Emy? – indaga Jenifer. – Vamos ver como funciona.

Depois de montado o tabuleiro, vejo que ele tem a forma de um rosto e logo percebo que tem as feições vermelhas e olhos íris totalmente negras, aliás, os olhos por inteiro eram negros. Reconheci aquele rosto e lá estava eu de novo naquele quarto escuro, mas alguém interrompe meu devaneio.

- Vamos lá, Emy! – Vejo Carrie sorrindo para mim. Venha jogar!

- Não estou afim. Obrigada.

- Bem, você é quem sabe.

Da barraca eu escuto eles rindo e ouço passos. Todos vem me dar boa noite e para falar o que perdi e que o jogo é muito legal. Só concordo com a cabeça e dou boa noite também.

Duas horas da manhã e ainda nada. Saio para tomar um pouco de ar e sou tomado por uma força maligna que parece me consumir. Fico me remexendo. Quando volta a ficar sã, olho meus cabelos e me assusto ao ver que ele está preto e graças a luz da lanterna, vejo que estou tão pálida que pareço papel.

Quando entro na barraca e vejo Carrie, sinto uma fúria repentina. O que está acontecendo? Deve ser o sono. Deito no meu saco de dormir e mergulho num novo pesadelo, mas que ainda tem o Rosto... aquele rosto.

Estou em uma floresta ainda mais escura e mais densa do que a do acampamento e o Rosto aparece em minha frente e diz algo diferente “puxa até que enfim”:

- Avisei! Avisei!

“Será que essa criatura não pode ser mais clara em suas mensagens?”, penso.

Acordo com os gritos de Jenifer me perguntando o que eu fiz.

- Bem... tive um pesadelo ou será que isso virou crime? – retruco.

Antes dela responder, olho para o lado e saio do saco de dormir tão rápido que fico sem fôlego na mesma hora. Carrie está com um corte profundo na garganta e vejo minha faca ao seu lado. Minha blusa de pijama está com o sangue de Carrie. O que pode ter acontecido? Não fui eu! Mas... se não foi, como o assassino não me matou também?

- Vamos lá para fora. Agora – diz Jenifer com a voz estranhamente calma.

Depois que Jenifer contou a todos o que ela viu, fui encarada por um minuto até que Jhon quebrou o silêncio:

- O que houve na barraca, Emy? Espera... como você ficou morena de repente?

- Jhon, posso explicar tudo a todos! Sentem-se.-Então contei tudo! Dos pressentimentos e dos sonhos que venho tendo desde 2009, quando tinha 14 anos. Contei da sensação de quando saí da barraca e da fúria repentina pela Carrie. Comecei a chorar e sentir uma raiva de Jhon. Só podia me perguntar o porquê da Carrie ter sido morta. Por que ela? Depois do que pareceu um século, Stan disse:

- Acho que você está possuída.

- Não me diga!-As vezes sou a rainha da ironia.- O que você que fazer, Stan? Chamar um exorcista pro meio do nada?

- Emy, pelo que você contou, a voz queria que você jogasse aquele jogo que Nick encontrou. Essa é a única maneira de tirar isso de você. Esperem. Eu vou buscar o tabuleiro.

Depois de montado o tabuleiro, leio as regras. Tudo bem! Eu posso fazer isso!

Jenifer é a primeira a jogar os dados. Ela tira 12 e avança com o peão. É a vez de Stan e ele tira sete. Jhon tira três e para na casa de cartas. Ele pega uma carta e lê:

- “Fique sem jogar por três rodadas com os dois primeiros jogadores”. Como pode isso?

Quando jogo os três dados, tiro 18. Avanço 18 casas e paro numa casa para pegar cartas. Pego uma e leio:

- “Avance mais 15 casas”. Avanço.

Depois de três rodadas jogando sozinha estou perto do final. Jenifer joga os dados e precisa pegar uma carta. A carta diz para ela passar a vez para a última pessoa que jogou os dados, que sou eu. Jogo e tiro dezoito novamente e chego ao final.

- Ganhei. –falo em um sussurro que quase não se ouve.

- Bem... vamos enterrar Carrie e ver se o jogo teve resultado. – diz Staton.

Após o banho no riacho mais próximo e de derramar minhas lágrimas, vou para o enterro de Carrie. Como não há um reverendo ou um padre, Jhon se ofereceu para encomendar o corpo de Carrie.

Depois de nossos elogios fúnebres improvisados, fui para a minha barraca, onde chorei até não querer mais. Depois que me cansei de chorar, caí no meu sono profundo e para não perder o hábito, lá vem aquele rosto.

De volta ao quarto escuro, o Rosto fala:

- Tarde demais! Não adianta e nem adiantará!

Acordo mais suada do que de costume, com o sangue fervendo em minha veias, olho minhas mãos e vejo que tudo foi normal esta noite. Saio da barraca e olho para a árvore do meu lado e dou um grito.

Jhon está suspenso com uma parte da corda amarrada em volta do pescoço e a outra parte amarrada no galho da árvore. Nick está ao pé da árvore e não se mexe. Choro ainda mais. Como pude fazer tudo isso em duas noites?

Stan e Jenifer vem correndo e ambos ficam mais assustados ainda. Stan me pergunta como foi o sonho dessa noite. Lhe contei tudo e a cada sílaba que pronunciava, sentia ódio de Jenifer me fuzilando com os olhos. Por fim, Stan fala:

- Deveríamos leva-la para casa. Talvez possam te ajudar.

-NÃO!!! – digo tão alto que os pássaros que estavam por perto saíram na velocidade da luz.- Não posso ir para casa. E e se eu matar minha família?

- Tem razão. – diz Jenifer – É melhor amarrarmos você durante o sono, assim, provavelmente não acontecerá nada de ruim.

Depois de enterrarmos Nick e encomendarmos o corpo de Jhon, conversamos sobre os dias do colégio e de como eu era antissocial naquela época. Aquilo fez com que eu me sentisse melhor, mas não diminuiu o vazio do meu coração.

Finalmente nos preparamos para dormir e Jenifer se oferece para ficar de guarda primeiro. Após me amarrarem, eu agradeço por estarem do meu lado. A única coisa que ouço é o velho “você faria o mesmo por mim”, o que é verdadeiro. Adormeço e desta vez não há pesadelos.

Acordo na manhã seguinte assustada, pois não estou amarrada. Olho de árvore em árvore e não encontro Jenifer e nem Stan. Depois de quase uma hora de caminhada avisto dois corpos ensanguentados. Olho mais de perto e vejo Jenifer com a barriga aberta e um feto ao seu lado. Ela estava esperando um filho... por isso o humor dela estava instável. Ao ver Stan, penso que Jenifer não teve uma morte tão horrível, Stan sofreu uma abertura no peito e estava sem uma parte do coração. “ Não posso ter feito isso!”

Correndo e ofegando, chego à barraca de Stan e penso o jogo que iniciou tudo isso. Encontro um isqueiro qualquer, pego lenha e faço uma fogueira, jogo a caixa com o tabuleiro do mal e me felicito pelo meu aniversário. Era para estarmos ouvindo músicas agitadas e bebendo vodka até cansar, mas isso não aconteceu e nem acontecerá.

Quando o fogo consumiu o jogo, decidi comer um sanduíche de atum, decido tirar um cochilo e vejo o que aconteceu nessas três noites...

Vejo o jeito como peguei a faca da minha bolsa e cortei a garganta de Carrie, em seguida vejo como chutei meu cachorro até ele não aguentar mais e depois enforquei o Jhon. A pior de todas as cenas foi a como persegui Jenifer, quando a alcancei, cortei sua barriga e tirei o feto colocando-o no chão ao seu lado. Me escondi atrás da árvore, esperei Stan e quando ele se aproximou pulei nele e rasguei seu peito e arranquei um pedaço do seu coração. Quando a imagem se desintegra, vejo o Rosto me falando:

- Agora que destruiu meu jogo nunca mais sairei do seu corpo. Terá que conviver com isso até o fim da sua existência. Quando você jogou, manipulei as cartas de maneira que você ganhasse, mas que notasse que era tarde demais e que a única maneira de eu me desintegrar seria queimando seu corpo.

Acordo mais ofegante e mais suada que de costume, olho em volta e estou no meu quarto em casa, meus pais estão ensanguentados. Desta vez não choro.

Corro até o quarto da minha mãe e piso fundo e dirijo até a floresta.

A lenha está preparada, ainda não sei se é uma boa ideia, mas não quero ser a responsável por todas essas mortes.

Acendo a fogueira e fico nua, antes de me jogar nela, digo para o Rosto e para qualquer espírito que pudesse me ouvir:

- Nunca diga como te destruir-e ao me jogar, sinto o rosto se desintegrando junto à minha alma.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Queria postar em 3 capítulos,mas me aconselharam a postar em capítulo único pra vocês pirarem haha!

PS: Não me matem por ter matado o cachorro.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!