Sala de espera

É a primeira vez que me submeto a um experimento como este. Não me sinto à vontade, realmente não tenho desejo nenhum de dar continuidade a isso. Apenas a obrigação do cargo que agora ocupo me faz permanecer aqui.
Continuamente me pego em pensamentos com os quais não dou conta de desenvolver desde a morte de Thomas.
“Meu amigo, que falta sua presença me faz! Você foi o meu grande companheiro e agora me sinto só, vazio e marcado pela dor. Como sinto sua falta! Por diversas vezes me revolto com sua partida tão sem propósito. Não são raras às vezes que sinto você comigo, mas a dor da ausência me faz lembrar a dura realidade.”
Ainda não me recuperei, então, esse certamente é o motivo para estar aqui no laboratório de pesquisas do Doutor Carlo Polaris, na sala de espera, bem em frente ao balcão de atendimento, reservado em meus pensamentos.
“Tibério, esta é a pessoa que me fez vir aqui. Thomas, este é o nome pelo qual estou aqui.”
A sala é aconchegante, encontro-me recostado em uma poltrona térmica de cor avermelhada com extensor anatômico, que envolve minhas pernas e braços. Assim permaneço aguardando ser anunciado, observando o único quadro digital com figuras geométricas em tons quentes pendurado na parede branca, que se obriga a trazer vida a um lugar tão melancólico.
Não fui convidado para esta experiência, na verdade foi Tibério quem me convocou, dizendo que era para encarar como um tratamento benéfico. Tratamento nada! Tratamento só se for no ponto de vista deles! Encaro como uma imposição, talvez como minha primeira tarefa de Coletor. Sinceramente, foi uma ordem, o que não me deixa nada confortável, mas Tibério é o meu mentor e tem garantido recolocar-me no Sistema, então, temo em não o obedecer.
Bem à minha frente encontra-se uma mesa comum, dessas sensíveis ao toque e com controle direcional através do olhar, e operando-a posso ver uma Símbio muito atarefada, controlando alternadamente duas telas de fresnel holográfico posicionadas de forma estratégica para manipulação de informações.
Por vezes seu acento se movimenta de forma inteligente, auxiliando-a na distância das telas e posicionando-a da forma mais adequada para rapidamente comparar, alterar ou tatear em seu teclado projetável.
Apoio à informação — Luiza Ruchbah. —, mostra o display sobre a mesa.
De onde a observo, parece-me acostumada com este ritmo de trabalho, mostrando exímia precisão, dedicação e controle em suas atividades.
Por vezes ela me olha e sorri de modo encorajador, como se a minha presença ali demonstrasse coragem e força, algo para me orgulhar.
Levanto as sobrancelhas em resposta à Símbio, que continua com o sorriso nos lábios.
É muito comum esta preocupação e dedicação a nós por parte dos Símbios. Luiza após receber meu olhar de aceitação, trabalha mais satisfeita, como se tivesse feito algo realmente notável para me encorajar. Mas logo volta sua atenção para as informações que cintilam nas telas à sua frente.
Pode ser significativo para ela, mas não vejo muita relevância nisso.
Sou um coletor novato, não faz muito tempo que aceitei o convite de Tibério. Na verdade, estou me preparando para ser um membro do CCS (Centro de Coleta de Símbios). E para me sair bem, fui obrigado a aderir ao experimento que logo enfrentarei, para aprender a lidar com minhas frustrações, medos e adquirir a blindagem que esta nova ocupação necessita.
Qualquer vulnerabilidade pode ser fatal em uma coleta, saber administrar o foco e desligar sentimentos conflitantes é muito importante. Isto pode definir o sucesso ou o fracasso.
Particularmente, no meu caso, aceitar a perda de Thomas é de extrema necessidade, pois sem um Símbio, me vejo perdido, sem um propósito e travo.
Volto minha atenção para Luiza Ruchbah.
“Onde estará sua humana geradora? Possivelmente, ocupada com atividades pessoais muito mais interessantes. Quiçá, absorvendo sabedoria de alguma ESC (Estação Servidora de Conhecimento), aprendendo virtualmente com realidade aumentada. Faz muito sentido, mesmo porque, sua humana geradora não poderia estar em seu lugar, apenas os Símbios desempenham atividades laborais manuais; já o controle, a análise, a síntese intelectual e de criação cabe aos humanos continuados por seus Símbios.”
Sinto um aperto no peito, começo a cogitar a ideia de abandonar este lugar.
“Talvez seja uma atitude covarde de minha parte, não gosto de me expor e pelo que sei o experimento irá me revirar por dentro. Já presenciei alguns humanos perderem seus Símbios, acidentes acontecem. Entretanto, parecia ser uma transição rápida e indolor, como uma quebra de conexão através de um único toque. Por que comigo é diferente então? Por que Thomas é tão significativo para mim? Quero seguir minha vida, superar isso tudo, ter de volta o controle, mas só de saber que ele não existe mais, me deixa abatido e sufocado. Como gostaria que ainda estivesse aqui comigo.”
Sem perceber, uma lágrima transborda em meu olho.
Imediatamente, levo a mão até ela e a enxugo antes que possa ser percebida por Luiza.
Um flash repentino do fatídico dia da morte de Thomas me invade a mente.
Com uma descarga de adrenalina e um nó se formando em meu estomago, o desespero e a impotência tomam conta do meu ser, um frio me sobe ao rosto, tento conter o desespero apenas em minha mente, mas a angustia é demais em mim e, então, outra vez me culpo.
“Se eu não o tivesse deixado sozinho, isso não teria acontecido.”
Respiro fundo, uma pausa me traz ao controle novamente, tento lembrar-me da vida que tinha antes de sua morte.
“Eu era líder Feneuta, com a responsabilidade de elaborar e coordenar as ações de saúde, as negociações quanto à educação Feneuta, distribuição das habitações e uma infinidade de outros afazeres. Representava o papel executivo, encabeçava a administração do Primeiro Setor, por quatro dias lunares liderava a chegada e o assentamento de todos no período do Solstício de inverno, empreendendo a gestão que me era confiada desde o controle e planejamento. Realizava, determinava e cumpria meu dever. No geral, executava um conjunto de intenções que me era passado por Tibério, este, por sua vez era repassado para os apoios Feneutas e cada um era responsável por uma grande massa de outros Feneutas que nos confiava sua existência. Tudo se desenvolvia através do Sistema de Departamentos. Não podiam faltar alimentos, roupas, móveis, deslocadores, habitações e afazeres para todos. Desde fábricas para manufaturar produtos utilizáveis e consumíveis até a exploração de energia em pequenos núcleos, tudo era organizado em conjunto com o grupo Pretério, visando à geração de pesquisas e novos conceitos aplicáveis. Cada departamento faz sua parte. Os Feneutas executam a gestão e o controle, já os Pretérios desenvolvem novos conceitos e tecnologias para aplicarmos na migração de um setor habitável para o outro. Parcerias e auxílios de todas as camadas, mais o conhecimento necessário para o cumprimento de minha missão como líder do Primeiro Setor me garantiam o sucesso; agora me sinto despreparado para exercer a atual função a mim confiada. Não tenho mais responsabilidade sobre nada e sobre ninguém, sei qual é a minha função, mas, não sei como desempenhá-la para ser útil para o Sistema. Não tenho as respostas para os questionamentos que saltam em minha mente, o meu saber se restringe à antiga função de Líder Feneuta do Primeiro Setor.”
Olho para o alto da sala, meus pensamentos mudam uma vez mais indo ao encontro de Thomas.
“Nada disso se compara com a sua ausência meu amigo, nada se assemelha à solidão. ‘Sua morte foi tão estúpida!’ Por que você não ficou na habitação? Por que saiu? Já havíamos conversado sobre a rejeição dos descontinuados por Símbios. Este assunto lhe era conhecido e mais que óbvio. O ódio que os humanos descontinuados nutrem por não terem mais um Símbio e a certeza da impossibilidade de terem outro, não justifica a agressão, mas explica muita coisa.”
Paro minha reflexão, pois nem mesmo eu concordo com o que acabei de pensar.
“Reconheço que a não adaptação da perda de um Símbio pode resultar neste tipo de comportamento. Não imaginei que Thomas pudesse ser uma vítima, fruto do ódio de um humano descontinuado. É um pensamento muito vago e estúpido. Eu sou um humano descontinuado e em nenhum momento me passa pela cabeça sair por aí matando Símbios. Como o individuo é singular! Eu, muito pelo contrário, estou em um laboratório esperando passar por um experimento que me dará esperança para viver sem meu Símbio, já outros matam porque não o tem. Será que eu conseguiria matar alguém? Pelo que sei os humanos já mataram outros humanos, mas isso ocorreu em um passado muito distante. Humano matando humano por interesses diversos, território, provimento, matéria prima, qualquer um deles era motivo para matança e invasão. Não, de fato, não existe um por que para matar; quem mata, mata e pronto. Não precisa de motivos, apenas ser inconsequente para fazer tamanho ato. Nós fomos agraciados com a chegada da Semente Universal aqui na Terra e com ela a chegada dos Símbios em nossas vidas, em nossa sociedade. Um Símbio para cada indivíduo, um presente para cada um. Matar um Símbio é inadmissível, é completamente insano. E pelo que me parece, é como uma doença entre os descontinuados. Então, volto à raiz de tudo, o ódio.”
Ouço a voz da Símbio Luiza Ruchbah, quebrar meu pensamento de impotência e raiva.
— Pode entrar agora Senhor Mathias Aldebaran, siga pelo acesso à sua direita.
Ponho-me em pé e rapidamente entro pelo acesso chegando á outra sala através de um corredor pequeno. Percebo que pelo caminho eu me acalmo.
“Se esse for o único caminho para me ensinar a viver novamente com a promessa de um futuro bom, onde eu possa suportar a minha perda, então ótimo, farei.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.