O Sétimo Ritual

2 Por Trás do Espelho


Notas iniciais
Aqui está a última parte da história de Branca de Neve, e não demore mais, leitor(a)! Corra com a princesa e descubra o que vai acontecer!

A passagem era uma longa e estreita escadaria, com degraus de pedra gasta e úmida. Por duas vezes deparou-se com baratas, e num momento cruzou com uma enorme ratazana em seu caminho, o que a fez gritar de medo. Vez ou outra voltava a cabeça para trás, na esperança de encontrar Matil vindo ao seu encontro. Não aconteceu. Ela estava só, tendo por companheiros bichos asquerosos e as sombras que o castiçal projetava nas paredes. Depois de inúmeros lances de escada, o caminho finalmente tornou-se plano. Estava no que parecia ser um calabouço, com dezenas de entradas, cada uma apontando para um lado, umas fechadas com barras de ferro, outras, decoradas com teias de aranha. Todas, porém, apontavam um mesmo destino: a incerteza. Branca lembrou-se que a passagem estava em seu quarto, e, pelo caminho que seguira, deduziu estar sob o antigo Salão de Festas. Se seguisse as passagens à direita, era provável que saísse no pátio interior, e novamente para as garras do pai. Escolheu a esquerda, que, ao que pensava, poderia levá-la à muralha exterior, ao alojamento dos guardas, onde seria mais fácil obter ajuda. Não estava certa de nada, mesmo assim adentrou a abertura, rezando para estar no caminho correto.

...

Branca ainda lembrava-se do ritual. O pai estava de pé ao lado da mesa onde jazia o corpo de Vitória, ricamente adornado. O rei vestia-se como um bruxo, conhecedor de mistérios ocultos, e todo o seu porte assustou a menina de nove anos. Estava altivo, sua cabeça erguida, e seus olhos brilhavam com um majestoso orgulho.

O coração quase saltou-lhe pela boca ao deparar-se com uma figura à sua frente. Era um pequeno homem, barbudo, que trajava um manto negro que o cobria até os pés. Assemelhava-se a um mago, e logo que abriu a boca, a prepotência jorrou de sua voz grave.

— Filha de Vitória! Não há como fugir de nós. Seu destino está traçado. Daqui não sairás com vida.

— Quem... é... – A garota temia o anão, que a encarava com olhos famintos, como os do pai.

— Cale-se! – O homem gritou, erguendo a mão ameaçadoramente. Apesar de ser bem menor que a moça, tinha um jeito imponente, algo como uma realeza maligna, que a assustava. – Não é de meu interesse sanar suas dúvidas. Apenas saiba que eu sou um mestre. O Mestre. Aquele que lidera os outros e espera a volta da Rainha.

O anão aproximou-se lentamente. Cada passo seu era uma demonstração de orgulho, e seus olhos fitavam-na, cheios de indagações secretas. Quando chegou próximo dela, encarou-a dos pés à cabeça, fuzilando-a com o maior olhar de desprezo que já recebera. A princesa não foi capaz de opor resistência àqueles olhos, que, magicamente, torturavam e feriam-lhe a alma. Sentiu-se envergonhada e diminuída, e o anão parecia-lhe muito maior do que ela própria.

— Vá. – O homem disse secamente, saindo do caminho e dirigindo-se à direção oposta, sem encará-la de volta. Ao desviar o olhar, o encanto chegou ao fim. A cabeça da garota pendeu para a frente, e uma massa invisível de tristeza condensou-se em seu peito. – Você é ridícula e inútil, vergonha para sua mãe.

Branca estava abalada. O poder da fala do anão era assombroso. O tom de voz dele era cruel, e cada palavra pronunciada era como uma lâmina afiada a destruir seu orgulho de princesa. Sentiu como se todos os elogios e galanteios que recebera fossem nada mais que pó e mentiras, e ela, uma completa idiota por acreditar neles. O anão desaparecera e ela teve vontade de permanecer ali, nas sombras, não mais desejosa de viver, tamanhas eram as aparências e ilusões do mundo. No entanto, olhou para o corredor que estendia-se à frente, envolto em escuridão; porém, trazendo a promessa de liberdade. Continuou o caminho.

...

Vitória encontrava-se bela como sempre, e não parecia morta. O corpo não havia se deteriorado. Estava pálida, sim, mas esta era sua cor desde o nascimento. Era como se dormisse; e o rei precisava acordá-la de seu sono. Carlo entoou a canção, doce e suave, como quem canta para um recém-nascido. Aumentou o tom gradativamente, até que Branca pôde ouvir a sinistra melodia, cantada numa língua que não conhecia.

Correu pelas vielas subterrâneas, até que avistou, ao longe, uma bifurcação. Antes que pudesse escolher que rumo tomar, tropeçou em algo macio e caiu no piso frio e rochoso. O castiçal deslocou-se no ar, mantendo três das cinco velas acesas. Tocou o braço e sentiu-o raspado, e um filete de sangue corria por ele.

— Quem oooousa... – Sentiu um arrepio ao ouvir a voz arrastada. – me acooordaaar?

Branca correu até o castiçal e iluminou o chão, na direção do que a fizera cair. Encontrou um homem sentado, bocejando, de mesma estatura que o presunçoso anão que vira antes. Aquele não lhe causou medo, e ela aproximou-se dele.

— Me desculpe, senhor. Não tinha visto você. – Observava-o com curiosidade. Não parecia capaz de fazer-lhe mal, tamanho era o sono que sentia.

— Ahh... Conheço você. – O anão soltou um longo bocejo – Igualziiiinha à mããããeee.

Branca revirou os olhos, aborrecida. Outra vez sentiu-se mal. Não quero me parecer com ela, pensou em responder, mas decidiu não render discussões. Apenas deu meia volta e disse:

— Com sua licença, tenho que ir. Pode dormir sossegado, não voltarei a incomodar...

— Espere! – Branca sentiu o homenzinho agarrar-lhe o tornozelo. Tentou desvencilhar-se, mas para sua surpresa o anão já não parecia sonolento e, além disso, tinha mais força que aparentava. – Fique comigo, uma companhia para dormir não seria nada mal.

Branca gritou para que ele a soltasse, porque agora já a estava machucando. O anão relutava e parecia cada vez mais acordado. A garota, pelo contrário, sentia-se amolecer, como que prestes a dormir. Sua visão estava embaçada e as paredes giravam ao redor. Os joelhos já fraquejavam, quando um súbito grito de criança fez-se ouvir, vindo da entrada à esquerda. Aquilo abriu os olhos de Branca e assustou o anão, que soltou-a por um momento. Foi tempo suficiente para a princesa correr para a entrada à direita, a fim de fugir de mais encontros inesperados. O homem gritou para que ela voltasse, mas logo cansou-se e pareceu voltar a dormir. A garota seguiu o corredor, agora com dificuldade. Seu tornozelo estava dolorido, com marcas roxas de pequenos dedos destacando-se na pele branca.

...

Depois da canção veio o silêncio. A mais completa quietude invadira o quarto. O rei permanecia em pé, imóvel como uma estátua, tendo o olhar fixo na amada. Branca enxugou uma lágrima do rosto, com medo de ter perdido também o pai, que não parecia mais vivo do que a mãe sobre a mesa. Queria ouvir algo, nem que fosse a música medonha novamente, mas o silêncio permaneceu, como um indesejado visitante.

Mancando, seguiu seu caminho, temerosa de que estivesse perdida. Já tinha caminhado tempo demais, e, se estivera certa na sala inicial, o alojamento dos soldados não era assim tão distante. Sem alternativa de escolha, continuou andando, sempre em frente, até que distinguiu, ao longe, uma sombra. Quase começou a chorar ao perceber que se tratava da silhueta de um anão. Outro não, por favor. Decidiu afastar-se até que o homem fosse embora, mas ele já caminhava em sua direção. Trajava uma túnica bem maior que ele, e vinha correndo aos tropeções. Branca não teve alternativa senão voltar para o local donde saíra, e pôs-se a fugir do perseguidor. A princesa se virou como pôde, movimentando-se com dificuldade, devido ao tornozelo machucado. O anão entrou na sua frente, e ela deixou-se cair, cobrindo o rosto com as mãos, esperando o pior. Ao perceber que nada acontecia, abriu os olhos e gritou ao ver o rosto do homem.

Estava coberto de sangue, e seus dentes afiados guardavam pedaços de carne que, pavorosamente, parecia ser humana. Ele não sorria, apenas a encarava de forma mórbida, com a boca escancarada. Branca tremia, sentindo o hálito fétido da criatura, e lembrando do destino miserável que seus guardas receberam. Fora ele. Tinha certeza disso, ao ver, em seu ombro, um pedaço ensanguentado da capa de um dos soldados, antes azul. Com dificuldade, levantou-se e resolveu por voltar à direção que julgava correta. O anão mudo impediu sua passagem, e ela teve que retornar ao caminho anterior. Andava apressada, tendo por companhia o macabro homem e aquele horrível silêncio.

Alguns passos e sentiu algo ser lançado em suas costas. Virou-se e sentiu o estômago revirar. O anão tinha uma bolsa, e lá guardava pedaços de suas vítimas. Tinha jogado a cabeça destroçada de um dos guardas, e já preparava-se para lançar um pé calçado com bota de couro. Branca corria, enquanto partes humanas eram lançadas em sua direção. Ficou manchada de sangue, e, ocasionalmente, tinha tripas envoltas no pescoço, que retirava apavorada, dando gritos de horror. Para a sua sorte – se é que havia algo de bom naquilo – a criatura parou quando estavam próximos à sala do anão dorminhoco. Contudo, um pedaço humano atingiu-a em cheio na cabeça, e o que viu foi tão horrível que a voz não saiu de sua boca. Tudo o que fez foi chorar amargamente enquanto via, aos seus pés, o braço cheio de joias conhecidas por serem somente de uma pessoa. Matilde, sua mãe adotiva. Após sua jogada final, o mudo voltou para as sombras, deixando a garota sozinha com a lembrança da pessoa que mais amara. A voz, de fato, não retornou, e Branca admitiu uma dura realidade. O assassino roubou minha voz e minha madrasta. À frente tinha o outro anão, dormindo profundamente. A entrada ao lado era sua nova escolha. Não vou deixar que os outros roubem a minha vida.

...

Subitamente a rainha abriu os olhos, opacos. Seu corpo ergueu-se até que estivesse sentada. A pequena princesa observava espantada a mãe voltar a viver. O pai aproximou o ouvido do rosto da morta-viva, e esta sussurrou algo que o deixou corado. Mais algumas palavras, e agora o rei Carlo abraçava a esposa, todo dengoso, como se esta fosse um bebê. Para espanto de Branca,o cadáver retribuiu o sorriso. Seria aquilo algum elemento integrante do ritual? Ou algo à parte, causado pelo espírito da mãe? O que quer que fosse, surtia efeito. A Rainha Vitória retornava ao mundo.

Ouviu novamente o grito de criança. Branca corria feroz pelo corredor, sem dar atenção ao medo que a invadia ou à dor em seu tornozelo. Apenas continuava o trajeto, e não se assustou ao ver novamente um anão no caminho. Tinha uma barba negra e parecia velho, mas sua voz era a de um menino de sete anos. Ele correu até Branca, estendendo os braços e abraçando suas pernas, enquanto dizia que a amava e a queria por perto. Branca socava sua cabeça sem piedade, mas ele insistia, agora dando beijinhos afetuosos em seu joelho. Quase sentira compaixão, mas não cairia em truques novamente. E, mesmo se estiver sendo sincero, pouco me importa. Não tenho recebido tanto amor. Quero que todos eles vão para o inferno! Branca seguiu em frente, arrastando aquele incômodo consigo. O anão começara a chorar como um menino birrento, dando gritos que ecoavam pelo labirinto e faziam a cabeça de Branca martelar. Ele vai me enlouquecer, pensou. Olhou para o castiçal que carregava. Não devia estar longe da saída, e ainda teria duas velas...

Sorriu de prazer quando o anão soltou sua cintura e gritou de agonia com a vela acesa atolada na orelha. O homem ganiu e rolou aos seus pés, chorando de dor enquanto a cera quente feria seu ouvido. Branca chutou sua barriga; em seguida, voltou a caminhar pela escuridão, satisfeita por dar cabo a um daqueles demônios.

...

Carlo dispôs novamente o cadáver sobre a mesa. Vitória estava imóvel, mas os olhos continuavam abertos. O rei entoou o cântico novamente, com voz grave, e agora sombras saíam de todos os cantos da sala. Mãos feitas de escuridão agarravam as pernas do pai e envolviam-no. Na mesa, a cor voltava ao rosto da rainha, que parecia quase viva. O rei, pelo contrário, pareceu envelhecer dez anos. Branca tremia, apavorada, vendo a saúde do pai migrar para o corpo da mãe. Não sabia o que fazer e tinha medo de que ele morresse. Queria sair dali, mas os pés pareciam ser feitos de concreto. Continuou assistindo, horrorizada, o macabro ritual.

O caminho serpenteou inúmeras vezes. O lodo nas pedras, porém, diminuíra, e os encontros com baratas eram menos frequentes. Devo estar chegando, Branca não conteve o sorriso. Podia estar livre dos animais nojentos, mas o mesmo não podia dizer dos estranhos monstros que a perturbavam. Outro anão surgiu no caminho. No entanto, este parecia moribundo. Coberto apenas com um fino e rústico tecido, seu corpo magro repousava em torno de uma poça de sujeira. As fezes e urina contornavam o doente, que espirrava de forma contínua. O mal-cheiro era insuportável, além do enorme zumbido de moscas que ali havia. Branca não deu-lhe importância. Passando à sua frente, entretanto, o anão levantou-se, enrolado na manta desbotada, e clamou por ajuda.

— Atchim! Por favor! – Sua voz era rouca, seu rosto, magro e marcado por infecções. Um fluxo de pus amarelo saía de seus olhos, como lágrimas, e não existia um dente saudável em sua boca. – Me leve a um médico, estou morrendo. Atchim!

Mas Branca não parou. Ela própria sentia-se mal: dolorida e com uma enorme dor de cabeça. Seguiu seu caminho, ao que o doente manifestou-se.

— Maldita seja! – O anão livrou-se da coberta, e correu nu até alcançá-la. Agarrou a princesa, que já não tinha voz para gritar. Apenas um ruído ininteligível saía de sua boca, enquanto debatia-se contra o monstro. Lembrou-se da investida do pai, e pôs-se a chorar. O anão, porém, não a violentou. Ele apertou seus pulsos, esfregou o rosto purulento em seu corpo, enquanto espirrava sobre ela. Branca sentia-se prestes a vomitar, enojada, e, de fato, assim o fez, sujando a si mesma e ao anão. Depois daqueles minutos pavorosos, ela própria começou a tossir, e sentiu-se tremendamente fraca, velha e doente. O anão, pelo contrário, era agora um jovem gordo e sorridente. Deu-lhe um beijo no rosto e correu para a escuridão. As duas velas apagaram-se, e a princesa teve que seguir tateando pelas sombras, suja, fraca e acompanhada de um maldito séquito de moscas zombeteiras.

...

— Pare! – Matilde surgiu na extremidade oposta, entoando seu cântico benevolente. As sombras se dissiparam, o cadáver permaneceu onde estava e Carlo dirigiu-se à cunhada, com faíscas de ódio nos olhos. Puxou-lhe os cabelos e a esbofeteou. A raiva que o rei sentia parecia quase palpável. Branca estava assustada, mas não deixaria que o pai maltratasse quem salvara-lhe da morte. Entrou correndo no quarto, pegou uma garrafa de vidro e a quebrou na cabeça de Carlo, que caiu imóvel. Por um momento ela pensou tê-lo matado, mas a madrasta abraçou-lhe e a consolou, retirando-a do local amaldiçoado.

Andou por mais alguns minutos, envolta na escuridão do corredor. Quase pensou em desistir, pois sentia como se fosse morrer pela doença contraída, além de que tropeçava e caía constantemente. Numa das quedas, sentiu uma pequena mão agarrar-lhe o tornozelo, já ferido, e arrastar-lhe novamente para o interior da passagem. Me solte— era tudo o que queria gritar, mas apenas um som rouco fez-se ouvir de sua boca. Branca debateu-se como nunca, e o anão começou a espancá-la, como se fosse uma delinquente. Toda a sorte de xingamentos foram-lhe dirigidos, palavras que a machucaram tanto que sentiu-se a pior pessoa a pisar na terra. Ela lutava com o homem, sem, no entanto, vê-lo, tamanho era o negrume que os encobria. Unhas avançavam sobre seu rosto e seus cabelos eram brutalmente arrancados, enquanto a voz maligna não cansava de cuspir-lhe ofensas e palavras de ódio. Zombou de sua aparência e de sua inteligência, e culpou-lhe pela morte da mãe. Incriminou-lhe, também, pela morte de Matilde, desejou-lhe sofrimento e nomeou-lhe com palavras impossíveis de serem transcritas.

Branca já não via sentido em continuar viva. Apenas chorava e sentia a alma gritar dentro de si. O que eu fiz? Por que isso aconteceu comigo?Por que eles não me matam de uma vez? As lágrimas quentes mesclavam-se ao sangue que corria em seu rosto, e o corpo machucado implorava por se ver livre. Como que atendendo a seu pedido, o monstruoso anão a pôs de pé, guiando-lhe pela escuridão, até que a luz do dia surgiu, bem ao longe. Só então percebera que passara a noite inteira naquele pesadelo. O anão correu com ela, que logo caiu, exausta. Branca foi arrastada pelas pedras, gemendo de dor a cada baque. Por fim, o homem deixou-lhe a cerca de cinquenta metros da saída, e foi embora gritando-lhe palavrões. A jovem encolheu-se, angustiada, até que uma mão tocou-lhe o ombro. Seu pânico apenas aumentou, ao ver diante de si outro anão, que sorria.

...

A mãe costumava sorrir para ela. Em alguns sonhos, até mesmo o pai estava feliz, junto de Matilde. Nestes momentos, Branca era realmente uma criança como as outras, tendo o coração alegre por ver sua família bem. Mas acordava e, para sua tristeza, tudo não passara de fantasia. Sua mãe estava morta, seu pai era um louco, Matil, desprezada, e ela, apenas uma cópia da Rainha Vitória, que sequer tivera a chance de conhecer.

Branca estava fraca demais para reagir. Deixou-se ser arrastada pelo anão, que dirigia-se à saída. Não ousou, porém, pressupor seu tormento como acabado. Nada mais certo. O homem sorridente a puxou pelos braços, e, gargalhando, disse:

— Vamos dançar, minha jovem! Hoje é um dia feliz, muito feliz! Olhe para lá! – O anão apontou-lhe algo distante, que Branca reconheceu ser um esquife de vidro. Não queria imaginar para quem estava reservado, embora estivesse certa disso. – Não é para você! Hahaha. – respondeu-lhe alegremente, como se tivesse lido seus pensamentos. – Sua mãe está ali e a espera com grande alegria! Mas antes, venha, dancemos pela sua felicidade!

O anão puxou a princesa pelos braços e rodopiou com ela pelo corredor, agora iluminado pelo dia lá fora. Seu corpo doía, fraco e doente, mas o anão parecia não se importar. Como se não bastasse, dançaram até bem perto do esquife, sendo separados apenas por brasas no chão.

— Hoho! – riu o velho. – Espero que não se importe! Eu detesto o frio, e gosto de me sentir aquecido. – O homem indicou-lhe os pés, que eram grossos e marcados por queimaduras. Branca perdera os sapatos na luta contra o anão furioso, e apenas gemeu enquanto dançava, ao sentir os pés serem queimados. Ela saltava loucamente pela brasa, e teria caído, se não fosse o risonho anão para segurar-lhe os braços. Giraram mais algumas vezes, até que o maldito homem empurrou-a para longe e saiu correndo, como os outros.

A princesa já não chorava. Estava fraca demais, machucada, humilhada, e sentia a presença da morte. No entanto, teve esperança de ver a mãe retornar à vida, e arrastou-se penosamente rumo ao esquife.

...

O que seus olhos presenciaram encheram-na de tristeza. Sua mãe, de fato, lá estava, ricamente vestida, com os longos cabelos escovados emoldurando o rosto deslumbrante. Mas o esquife era de vidro e nele pôde ver a sua imagem. A maior parte dos cabelos havia sido arrancada, e o que sobrara, estava grisalho e quebradiço. O rosto estava vermelho e ferido, a boca sangrava e faltavam-lhe vários dentes. O corpo cheio de hematomas estava pálido e doente. Sua roupa, suja e rasgada. Não sentiu-se nem um pouco parecida com Vitória. Para seu espanto, uma figura masculina surgiu na entrada da passagem, fazendo-a encolher-se de medo: Carlo, o rei. A rainha abriu os olhos, negros como a noite. Seus braços ergueram-se e ela retirou a tampa do esquife. Vitória, enfim, libertara-se da morte. Branca sorriu tristemente para a mãe, estendendo-lhe as mãos feridas. Seu riso, porém, converteu-se numa carranca de dor ao ver que a rainha ignorara sua presença. Tudo o que fez foi deitar-se, sentindo as lágrimas embaçarem sua visão, já escurecida. A mulher caminhou até o rei, sensual e graciosamente. Os olhos de Carlo brilharam, fitando sua esposa rediviva. Ela tirou da manga do vestido uma maçã, vermelha como seus lábios, e, sorrindo, deu ao marido. Este abocanhou a fruta, mastigando um bom pedaço. No entanto, ainda não terminara de comer quando as pernas começaram a tremer. Ajoelhou-se aos pés de Vitória, que assistia a cena, maravilhada, até que os olhos do rei reviraram e este caiu, por fim, morto.

A última coisa que vira fora a mãe caminhando rumo à saída, sem olhar para trás. O coração de Branca encheu-se de amargura, enquanto o ar abandonava-lhe os pulmões. Resignada, fechou os olhos, sentindo o frio da morte tocar-lhe o peito. Agora dormiria para sempre, sem jamais ter seus sonhos interrompidos pela cruel realidade. Nos sonhos, sua mãe era sempre bela.

Notas finais
O que acharam dessa história? Como reagiram aos acontecimentos? Desde já, muito obrigado a todos os que se dedicaram a ler "O Sétimo Ritual"!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!