O Sussurro da Academia
4 Capítulo 4: Ressonância do Medo
O dia seguinte nasceu cinzento e úmido, o céu coberto por um manto de nuvens que parecia sugar a cor do mundo. Para a maioria dos estudantes da Academia Konoha, era apenas uma terça-feira monótona, um prelúdio para as aulas e o café requentado do refeitório. Para Hinata, era o primeiro dia num território inimigo.
Ela não tinha dormido. Cada vez que fechava os olhos, a imagem da figura disforme na tela do celular explodia atrás de suas pálpebras. O quarto, seu antigo santuário, tinha se tornado uma cela de tortura. Passou a noite encolhida na cama, com o edredom puxado até o queixo, ouvindo os sons do dormitório com uma atenção febril. Cada passo no corredor, cada porta se fechando, era o prenúncio de uma invasão. O amanhecer não trouxe alívio, apenas uma luz pálida que pintava as sombras de formas novas e igualmente ameaçadoras.
Sair do quarto foi um ato de coragem. O caminho para sua primeira aula, um trajeto que ela fazia no piloto automático todos os dias, tornou-se uma caminhada pela corda bamba. O campus, antes um lugar de tranquilidade, era agora um campo minado de gatilhos para seu pânico. Seu celular, que ela se forçou a levar, parecia pesar uma tonelada no bolso do casaco, um dispositivo hostil que podia voltar a atacá-la a qualquer momento. Ela resistiu à vontade de o desligar, sabendo que isso só a faria parecer mais estranha.
Cada reflexo era uma ameaça. Sua própria imagem, pálida e com olheiras profundas, refletida numa janela, a fez saltar. Um grupo de estudantes rindo mais à frente pareceu-lhe sinistro, como se estivessem rindo dela. Quando o relógio da torre soou, marcando as nove horas, o som metálico e profundo a atravessou como uma lança, fazendo-a se encolher e apressar o passo, sem se atrever a olhar para cima. Ela se sentia exposta, como se a coisa que lhe tinha enviado a mensagem estivesse agora a observando de cada janela, de cada sombra, de cada tela de celular que passava por ela.
Do outro lado do pátio, sentado num banco de pedra com um livro de shogi aberto no colo, Shikamaru não estava lendo. Ele observava. Depois de uma noite em claro pesquisando, o mundo parecia diferente para ele. Mais nítido. Ele não procurava fantasmas; procurava padrões, anomalias no comportamento humano. E Hinata era uma anomalia ambulante.
Ele a viu quase correndo pelo pátio, os ombros encolhidos, o olhar assustado varrendo tudo ao seu redor. Viu-a desviar-se bruscamente de um estudante que quase esbarrou nela, como se um simples toque pudesse quebrá-la. Não era a timidez habitual dela. Era medo. Puro, destilado.
Sua suspeita se solidificou quando viu Sakura e Ino saindo do dormitório, a alguma distância. Elas também olhavam na direção de Hinata, as cabeças juntas, cochichando. A expressão no rosto de Sakura era de pura preocupação; a de Ino, uma mistura de curiosidade e pena. Shikamaru não precisava ser um gênio para ler a situação: Hinata tinha tentado contar o que quer que tivesse acontecido, e, tal como ele, tinha sido recebida com ceticismo e tratada como uma coitada à beira de um ataque de nervos.
Padrão número um: A vítima vê algo impossível, pensou ele, fechando o livro. Padrão número dois: A vítima tenta contar e é desacreditada. Padrão número três: A vítima fica isolada e aterrorizada.
Ele era a prova do padrão. E Hinata também.
A lógica era fria e irrefutável. Não era uma coincidência. A mesma força que lhe mostrou a mão dentro do relógio tinha feito algo a Hinata. E se ele estava certo, deixá-la sozinha naquele estado não era apenas cruel, era perigoso. A história de Hayate Gekko, o rapaz que ouvia "sussurros", pairava em sua mente. O isolamento era o terreno de caça perfeito para aquela coisa.
Tomar uma decisão era problemático. Abordá-la diretamente podia assustá-la ainda mais. Ignorá-la podia condená-la. Ele suspirou, o vapor de sua respiração se dissipando no ar frio. A inação era a jogada mais estúpida no tabuleiro.
Ele passou o resto da manhã a observando de longe. A viu entrar na biblioteca, mas em vez de se sentar numa das mesas comuns, ela se escondeu numa das cabines de estudo individuais no fundo, um pequeno cubículo onde podia manter as costas contra a parede. Era o esconderijo perfeito.
Shikamaru esperou. Deu-lhe uma hora para se instalar, para que sua adrenalina baixasse. Depois, levantou-se e caminhou lentamente para a biblioteca.
Encontrou-a exatamente onde esperava. Ela não estava lendo. Os livros estavam abertos à sua frente, mas seu olhar estava perdido, fixo na parede. Ela saltou quando ele parou na entrada da cabine, sua sombra caindo sobre a mesa dela. — Shikamaru... — a voz dela era fraca.
— Desculpa, não queria te assustar — disse ele, sua voz calma e deliberadamente preguiçosa, tentando projetar normalidade. — Só reparei que você estava aqui sozinha. Está tudo bem? Você parecia um pouco... tensa, hoje de manhã.
Hinata baixou o olhar para os livros, seus dedos brincando com o canto de uma página. — Estou só... cansada. Muitas provas.
A desculpa padrão. A mesma que ele quase tinha usado. — Pois é, um saco — ele concordou, encostando-se no batente da porta da cabine, sem entrar, para não a fazer sentir-se encurralada. — Este campus consegue ser pesado, às vezes. Parece que tem... uma energia estranha.
Ela não respondeu, mas ele viu os nós dos dedos dela ficando brancos enquanto ela apertava o livro. Ele estava no caminho certo.
— Especialmente à noite — continuou ele, o tom casual. — Perto dos edifícios mais antigos. Como a torre do relógio.
Foi como se ele tivesse tocado num nervo exposto. Hinata se encolheu visivelmente. Seu queixo tremeu e ela ergueu o olhar para ele, os olhos se enchendo de lágrimas de pânico e confusão. A reação dela foi a confirmação final.
Shikamaru olhou diretamente nos olhos dela, sua voz baixando para um sussurro sério, carregado de um significado que só os dois podiam entender. — Não foi um sonho, não é, Hinata?
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