O Sorriso de Toshinori
1 O Sorriso.
O mundo hoje é o que muitos consideram uma utopia, eu herdei do meu ídolo, o herói que me inspirou toda a determinação e até mesmo os poderes que me fazem ser conhecido hoje como o símbolo da paz, sou conhecido por manter o sorriso no rosto e por nunca desistir, o herói número um do nosso tempo, o que mantém viva a chama nos corações da raça humana. Fui achado como uma criança perdida e sem peculiaridade e preenchido com o poder que carrega a vontade de muitos antes de mim, cresci juntamente com essa determinação e com o poder que me foi confiado, me chamo Deku, mas hoje não vou contar a minha história e sim a história que ouvi de meu mestre em seu leito de morte, a história de como ele foi inspirado, a história de como ele despertou a chama, deu o primeiro passo para se tornar o poderoso e lendário All Might.
Eram tempos sombrios aquele em que o robusto Toshinori nasceu, a vilania espalhava o caos, pessoas morriam todos os dias pelas mãos vis e cruéis desses criminosos, pessoas que usavam os seus dons para benefício próprio, para sobrepujar a vontade e determinação alheia pela força bruta ou por poderes usados de maneira extrema. Existiam sim heróis, mas eram apenas vigilantes, pessoas sem o menor treinamento, seres humanos que arriscavam suas vidas e aprendiam na prática que salvar as pessoas era uma missão que devia vir de dentro, os que eram motivados apenas pela glória não aguentavam muito tempo, visto que os fracassos eram muito maiores que os sucessos, os vilões eram um número muito elevado e pareciam ser mais organizados.
Os primeiros anos de vida de Toshinori foram duros, mas não eram anos assim para todos? Seu pai era um assalariado, possuía uma peculiaridade mediana usada na construção civil, onde ele podia transformar areia em concreto sem o uso de demais ingredientes. Sua mãe era uma mulher divertida e alegre, possuía uma individualidade singela de levitação, podia andar sem encostar seus pés no chão, o que fazia com que seu pai a chamasse de “meu pequeno anjo”, somada a sua individualidade aos seus traços frágeis, a pele clara e o corpo magro. Ela era vendedora em uma loja de equipamentos utilizados por muitos vigilantes, seu poder de leve levitação ajudava muito na hora de carregar os pesados produtos que vendia. Formavam um casa destoante, ela era frágil e bela, já ele era um homem castigado pelo serviço braçal, mas tinha um corpo musculoso e atlético, ambos eram pessoas de bom coração e apesar das dificuldades financeiras que o mundo inteiro passava como um todo, eles davam a melhor criação ao seu jovem filho.
O menino era inteligente e aos oito anos já demonstrava não somente uma forte aptidão para a escola, como também fisicamente, infelizmente nenhuma peculiaridade despertou em seu corpo, mas a sua genética havia sido generosa com o resto, ele era um exemplo de atleta e tinha muita facilidade em aprender qualquer modalidade. Aos onze anos sua vida mudou completamente, não somente por ter entrado no clube de artes marciais da sua escola, o mais jovem já aceito na história, mas pelos eventos que se seguiram, esse ano que vou contar pra vocês.
Toshinori saiu de casa para o seu primeiro dia no clube de artes marciais, os seus pais estavam orgulhosos das aptidões do filho, era um aluno acima da média e fisicamente disputava de igual para igual com jovens que tinham até mesmo peculiaridades de força despertadas, ele poderia ser alguém na vida, poderia conseguir um bom emprego e mais importante, poderia ser feliz utilizando o seu próprio esforço, nada de se tornar mais um vilão neste mundo corrompido. Ao chegar na escola o jovem foi recebido com satisfação pelos seus veteranos, por mais habilidoso que fosse ainda tinha muito a aprender e todos eram solícitos com ele, conseguia se dar bem com os instrutores e principalmente, depois de alguns poucos meses ele já era capaz de executar diversos golpes de jiu-jitsu, boxe, karatê, tae-kwon-do e muitos movimentos do tai chi chuan, arte usada para acalmar a sua mente e manter seu foco. Em um dia especialmente cinza, onde seus movimentos pareciam mais lentos e seu corpo mais pesado o seu instrutor, um dos veteranos do curso lhe disse para ir pra casa mais cedo, não estava conseguindo manter o foco, sua cabeça estava em outro lugar, por algum motivo pensava muito em sua mãe. Toshinori voltava para casa pelo caminho mais longo, era imponente e mesmo com apenas onze anos já tinha um metro e oitenta e dois de altura, dera o estirão de crescimento muito cedo e sua musculatura bem definida o fazia passar facilmente por um homem de vinte anos. O motivo do caminho mais longo era infantil, precisava confirmar que sua mãe estava tranquila, este caminho em especial o faria passar em frente ao seu emprego antes de ir para casa, uma simples curiosidade para ser sanada por um filho preocupado, uma criança preocupada. As ruas eram perigosas para uma criança andar sozinha, mas ele não parecia uma criança e muito menos indefeso, mesmo assim andava atento e ao longe sempre era possível ouvir lutar de vigilantes e vilões, sempre cercados por sirenes da polícia, bombeiros e ambulâncias.
Os estrondos que ele ouvia agora, porém, eram perto demais, talvez a umas cinco ou seis quadras de onde ele estava, seu coração logo gelou, sua respiração acelerou e ele resolveu correr ao encontro do tumulto, as quadras passavam rapidamente, seu condicionamento físico era impecável, menos de quatro minutos foram necessários para o mundo de Toshinori virar de pernas para o ar, tempo que ele levou para chegar na loja onde sua mãe trabalhava. Seu pai havia sido avisado que a loja estava sob ataques de vilões que queriam roubar equipamentos, foi avisado que a sua mãe havia sofrido uma perfuração no peito e que as ambulâncias não conseguiam chegar onde estavam, visto que um grupo de vigilantes e vilões lutavam arduamente, poderes eram exibidos a todos os lados, civis precisavam fugir para não serem atingidos. Toshinori encontrou seu pai na calçada, uma cena que ele jamais esqueceu, um dos vilões estava caído e seu pai tinha um bloco de concreto em sua mão, fruto de seu poder, ele batia sem piedade no vilão caído, o sangue estava por todo lado e mesmo assim ele não via seu pai mostrar nenhum sinal de que ia parar de bater. Seu pai havia matado uma pessoa, não importava se era um vilão, seu pai se tornara um assassino, assim seria visto aos olhos da lei, assim seria visto aos olhos dos outros vilões, um assassino de vilões, alguém caçado e morto por eles. Esses pensamentos sumiram de sua mente quando a mais aterradora das questões lhe veio a mente: O que poderia ter acontecido para tirar o controle de seu pai? Onde estava sua mãe?
— Papai! Pare! Esse homem está morto! – Toshinori gritava e tirava seu robusto pai de cima do homem.
— Ele perfurou sua mãe! Ela está por um fio, Toshi, ELE É UM MONSTRO! – Seu pai chorava aos berros – ELE PERFUROU O PEITO DO MEU ANJO.
Desesperado o jovem procurou sua mãe no interior da loja, a achou escorada em um canto, coberta com um lençol sujo de sangue, ainda respirando e consciente.
— Mamãe, o que aconteceu? – As lágrimas vertiam de sua face como chuva quente de verão, poderosa e em grande quantidade.
— Meu filho, você está aqui? Tudo bem, a hora da mamãe chegou, sinto a vida escapar diante dos meus dedos, mas tudo bem, eu vivi uma vida feliz, seu pai...ele vai precisar de sua ajuda. – a mulher tinha lágrimas nos olhos, mas pareciam de preocupação com seu marido e seu filho, não por causa de seus ferimentos – Ele perdeu a cabeça quando me viu assim, eu sei que ele matou aquele homem, cuide do seu pai, meu filho, seja um homem honesto. Nunca deixe-se levar para o lado dos crimes, não se torne um vilão...não se torne um vigilante, se torne um cidadão preocupado com os outros, seja um ser humano digno, mantenha a cabeça erguida, mantenha o sorriso em seu rosto, com o sorriso sempre aberto as coisas não podem deixar de melhorar...
Essas foram as últimas palavras de sua mãe, o menino em prantos perdeu as forças, mas iria cuidar de seu pai, iria fazer o seu melhor, iria leva-lo embora dali o mais rápido que podia, nem que para isso tivesse que usar a força. Ao sair da loja percebeu que o que restava de sua estrutura recebeu um fortíssimo golpe, desmoronando de vez. Seu pai estava atirado no chão, ao lado do corpo do vilão que havia matado, um outro homem, outro vilão, parceiro do morto havia cortado seus braços para que ele nunca mais pudesse usar sua peculiaridade, cortado suas pernas para não fugir, cortado seu peito para não resistir, o pai de Toshinori estava morto e o menino estava sozinho. O menino estava desesperado. O menino estava fora de si.
Com um movimento rápido ele foi para cima do homem, o vilão usava uma espécie de facão e não viu o garoto chegar, garoto esse que para o vilão não era apenas um garoto, mas um homem forte, ágil, rápido e muito habilidoso, o vilão teve seu pulso torcido e quebrado, logo em seguida viu muitos chutes lhe acertarem, até que caiu de joelhos e começou a sentir seu rosto sendo acertado. Toshinori ia matar este homem. O homem que matou o seu pai, assim como seu pai fizera matando o homem que matou sua mãe. O silêncio no ambiente era ensurdecedor, as sirenes haviam cessado, as lutas também, todos haviam ido embora, porém Toshinori não notava isso, também não notava que estava sendo observado por um homem que estava parado em cima de um prédio do outro lado da rua, ele observava o rapaz com cuidado, parecia estar avaliando alguma coisa, um vigilante experiente.
A medida que desferia os socos o rapaz sentia-se pior, o que esperava era ter o alívio, cada soco seria um pouco da sua ira, seria um pedaço de vingança, mas quanto mais acertava o vilão totalmente subjugado, mais sentia tristeza, até não aguentar e começar a chorar, logo seu pranto foi justificado a si mesmo, ele lembrou das palavras da mãe, ele devia ser uma pessoa direita, ser feliz, manter o sorriso em seu rosto. Aos poucos os golpes foram ficando mais fracos, aos poucos as lágrimas pararam de verter, ele parou de bater, exibiu um sorriso em seu rosto, sorriso exibido pelo homem que desceu do prédio e ficou parado em sua frente.
— Você tem futuro, rapaz, vejo que não quer vingança, vejo que não quer matar, podia te-lo feito, mas não o fez. Qual sua peculiaridade? – O misterioso homem o questionava.
— Não possuo nenhuma. – a resposta veio com um sorriso vazio, mas sim, ele exibia um sorriso.
— Deixe-me treina-lo, deixe-me passar a você o poder para combater os vilões.
Toshinori lembrou das palavras de sua mãe.
“Não se torne um vilão...não se torne um vigilante”
— Eu não vou ser um vigilante, senhor. – Respondeu ao misterioso homem.
— Não é isso que eu quero que você seja. O mundo precisa de algo a mais.
— Tudo bem, aceito a proposta. – O menino respondeu entrando na loja e pegando o corpo sem vida de sua mãe, carregando-a para junto de seu pai, colocou-os lado a lado, esforçou ao máximo para sorrir, limpou as lágrimas e falou. – Eu não serei um vigilante, mamãe, eu serei um herói.
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