O Sopro da Morte

1 Capítulo único


Notas iniciais
Apenas um texto pequeno, presente para uma amiga. Ainda preciso praticar mais. Espero que gostem mesmo assim :3

Um tom velho e cansado de amarelo envolvia o ambiente, misturado com um branco mais puro que as nuvens. Nos móveis, nos tapetes, nas cortinas. O ar cheirava a solidão, e um miado fino, quase como o som de um sino, ecoava e preenchia o espaço vazio.

O gato desfilava pelo carpete, suavemente, mas ao mesmo tempo com um ar feroz. Quase como uma onça. Ele pulou, subiu no piano e se deitou. Seus olhos azuis se fecharam lentamente, e seu ronco envolveu a sala, que estava quase vazia. Alguns minutos depois, uma velha senhora entrou na sala. Muitas rugas cobriam seu rosto, mas com uma delicadeza rara. Cada traço parecia uma lembrança, um momento vivido, um livro lido, uma risada que contagiou outras pessoas. A senhora tinha aquele jeito que encantava à todos, transmitia bondade e sinceridade. Era a energia de quem teve uma vida muito boa, apesar de todas as dificuldades.

Usava um vestido florido, antigo, que parecia se fundir ao seu corpo mirrado. A velhice não poupara nem os mínimos detalhes, mas era possível imaginar como ela havia sido bonita quando jovem. Apesar da idade, tudo parecia suave, em paz.

A idosa se aproximou do piano e se sentou no banquinho de madeira que se encontrava em frente a ele. Pousou seus dedos gentilmente sobre as teclas, sentindo a harmonia. Então, suas mãos finas começaram a dançar pelo instrumento, formando uma melodia. O gato, com a cabeça envolta no rabo, ficou só ouvindo.

A melodia era triste, quase como um choro. Parecia contar uma história de solidão, abandono e perda. Mas era bonita, e tocava o coração de qualquer um que a ouvisse. No meio da música, o tom mudava. Deixava de ser melancólico e se tornava feliz, alegre. Parecia uma música de amor.

E a senhora tocava.

E o gato ouvia.

E tudo parecia estar em seu lugar.

Até que a música parou.

A senhora, sentindo um súbito cansaço a envolver-lhe, foi deitar-se. O gato levantou-se e a seguiu, seu fiel companheiro. Enquanto a idosa desdobrava lentamente a coberta, o gato a observava. Ele era a única coisa que lhe restara naquele mundo. Todo o resto, seus amigos, seu amante, e sua familia, já haviam partido. Mas o gato, fielmente, se recusava a partir. Continuava ali, com ela, a seguindo aonde fosse.

A idosa deitou-se, se enrolando nas cobertas, e sua respiração ia se tornando lenta e pesada.

Ela adormeceu. Para sempre. Foi se encontrar com aqueles que não via há muito tempo. Sua família, seus amigos. Seu amante, que morrera lutando pelo país, mas que a esperou por todo aquele tempo. Começava ali o resto de sua vida: a eternidade.

E o gato, ao lado de seu corpo vazio, ronronava. Sua missão ali estava cumprida.

Fechou os olhos e relaxou, esperando que o manto fino da morte o cobrisse, para que voltasse aos braços de sua dona.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!