O Sonho da Borboleta
1 O Sonho da Borboleta
Os dormentes acordam no seu sono,
Quando ficam alheios ao transtorno
Que o seu acordar tanto lhes provoca.
É a verdade dentro da mentira,
A dor quente que a todos nós fugira
E que já nem a solidão recorda.
Fugiu. Mas só ela nos relembrava
Do tom dessa gritante voz calada
Que os nossos corações chamaram “vida”.
No fundo, ninguém quer recuperá-la,
Essa mera escravidão desolada.
Pelos seus morta, pelos seus esquecida.
A Borboleta sonhava que era Homem.
De um céu azul bebem e da terra comem.
Liberdade a quem livremente viva.
Mas seria a Borboleta o que ela era?
E se o Homem sonhasse a Borboleta
E então o mundo fosse visto ao contrário?
No fundo, a Borboleta não existe,
Nem o seu suave bater de asas triste,
Nem as cores e o seu semblante altivo.
E o Homem? Esse também faleceu,
Já há muito, com a dor que em si morreu
E furtou a memória da paixão.
Foi tudo um sonho dentro de si próprio.
Língua falada por seu próprio elóquio.
E no final, o acordar. A salvação.
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