O Sonho
1 Acordei
Foi um dia normal, então eu me pergunto o que ocasionou minha noite horrível. E devo dizer, a memória transmuta, apaga, refaz lembranças com o tempo então talvez eu já tenha esquecido partes importantes.
Na parte de cima da beliche, eu dormi.
A primeira coisa que me lembro foi a imagem de um homem vestindo uma manta branca me segurando pela parte de trás da minha cabeça, me forçando a ir para frente, para de encontro ao que se parecia com um... rosto? De longe eu não via, mas com a proximidade que fomos adquirindo da figura emblemática entalhada na parede, eu tive uma confirmação terrível. Era um rosto, de olhos fechados e expressão tensa. Não estava entalhado e sim petrificado na parede. Era como se tivessem concretado uma pessoa e só o rosto tenha sobrado para fora. Porém estava vivo, respirava, e eu sabia que estava e o homem que me empurrava também sabia e queria que eu encarrasse até que os olhos do rosto se abrissem. Eu lembro do pânico. Da ansiedade e medo se intensificando.
— Não quero... – disse, sem forças para me opor as forças dele – Para!! Não, eu não quero!! – repeti, em vão. A figura não falou desde o começo, então só se ouvia eu implorando para que qualquer pessoa, alguém, me tirasse daquilo. E o rosto se aproximava e eu percebia a sua humanidade. Estava vivo, eu não tinha dúvidas. O meu desespero era palpável. Eu não queria ver o que se seguiria com o abrir dos olhos.
E a uma respiração de distância do rosto, eu...
Acordei.
Estava de pé em meio à uma multidão, mas sentia algo estranho, diferente. O corpo no qual Eu habitava não era o meu. Eu era espectadora da vida de outra pessoa.
— Vó!!! – gritei – Por favor sente-se, a senhora vai cair.
E nessa hora Eu percebi a senhora tremulante ao qual eu me dirigia. Ela estava visivelmente enferma, debilitada, tremia e sacolejava. Em volta havia uma multidão agitada; concentrada no palco a frente. E a senhora tremia cada vez mais e eu não entendia o por que dela estar assim. A minha agonia foi, se transformando de desconforto a desespero, enquanto pensava “porque ela não se senta”. E ela tremia cada vez mais. Ate que ela quase caiu e tive de segura-la e me fazer de apoio para o seu corpo tremulante e débil. Ate eu perceber que Eu não conseguia ver ser rosto.... alguém caiu do palco, na plateia, e foi se instaurando uma súbita algazarra... e Eu...
Acordei.
Era eu, dessa vez tinha certeza de quem eu era. Uma lutadora feroz que estava numa corrida para salvar crianças de algo.... muito ruim. Esse é o sonho mais vago e eu sinto que ele explodiu. Mas voltando, eu ia a frente do grupo, liderando, quando fomos encurralados n’um beco pelo inimigo e sem ter o que fazer eu pensei em me sacrificar para proteger as crianças e dá-las alguma chance de sobrevivência... fui, então, espetada múltiplas vezes sem nenhum tipo de piedade ou aviso e fui morta sem muita demora, de modo a não possibilitar qualquer reação da minha parte. E no momento de mais dor...
Acordei.
Estava de volta a minha cama, petrificada de medo por que foi um sonho horrível e essas foram só as partes do sonho que me lembro, dias depois. Temo que minha mente censure boa parte afim de trancar lembranças indesejadas e me poupar de certa maneira. Enfim, na minha cama, não me mexi por um tempo, de terror. Recuperei certa estabilidade física e tive uma súbita e anormal, vontade de saber as horas, mas por algum motivo meu celular não estava ao meu alcance (o que achei estranho, mais tarde). Resolvi virar e perguntar a minha irmã que estava acordada.
— Bela, que horas são? – Perguntei olhando para a figura de minha irmã que se estava sendo iluminada pela luz do celular. Mas o que virou para mim não foi minha irmã — e eu até agora não sei dizer o que foi aquilo. O que virou para me encarar revirou os olhos ate a branquidão total dos globos oculares e esboçou um sorriso sádico desconfigurado. Esticou o pescoço de forma não natural envergando e entortando ate virar em minha direção, e eu, aterrorizada... Despertei.
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