O Sonho

4 Quando o Deus desperta


Fui em centro, e lá estava o corpo da Nic, queimando no fogo, cheio de pássaros mortos em volta. Então eu entendi o por quê de na sala ingredientes ter pássaros mortos. O Deus da ilha naquele momento estava de costas pra mim, mas ele se virou, com sua cara de louco, com sua cara de maníaco. Eu estava morrendo, MORRENDO de medo. Ninguém imagina o medo que estava sentindo. Aqueles olhos azuis, aquela barba... O Deus começou a correr atrás de mim, enquanto eu gritava por socorro, mesmo sabendo que não havia mais ninguém naquela ilha além de mim e do Deus.

–Onde acha que vai, Matt? HAHAHA!! -disse o Deus, com uma voz rouca. -Seu passado te condena, sua vida agora é a ilha, não adianta correr, não há onde se esconder!

Até que eu achei uma casa, que seria uma esperança, minha única esperança me se salvar do Deus. Eu abri a porta da humilde casa, dei meu primeiro passo e comecei a cair, o ar todo batia em meu rosto, e eu caí no mar, junto com a Nic, quase me afogando. Haviam golfinhos do meu lado. Tinha muitas árvores, e do lado havia até um vulcão. Ou seja, era a mesma ilha. Eu fui correndo até a areia, comecei a correr loucamente, pois sabia que o Deus estava em algum lugar, me perseguindo, e eu podia dar de cara com ele a qualquer momento. Já haviam se passado algumas horas, até que eu me lembrei da Nic. Quando eu caí no mar pela segunda vez, Nic estava comigo, ou seja, ela estava lá atrás. Eu fui voltando, naquele frio extremo, a procura da Nic. Teve aquele super-sol, choveu novamente, anoiteceu novamente, amanheceu novamente, e depois de muito tempo, eu cheguei lá, e Nic já havia morrido devido a aquele super-sol. Estava toda derretida, parece que agora ela não havia escapado, Nic morreu de uma vez por todas. E parece que era aquela a realidade em que Nic havia morrido com o super-sol, era aquela a realidade que eu envelheceria e conversaria comigo mesmo após muitos anos, era aquela a realidade que eu morreria com um graveto encravado em minha cabeça. Tudo que eu mais queria era achar aquela casa e recomeçar. Achar a casa, entrar, cair no mar e ficar lá com a Nic, sem correr, e se o Deus nos achasse, nós morreriamos logo, e acordariamos, ou eu morreria junto com a Nic, sem acordar. Então, eu fui correndo para achar aquela merda daquela casa, me machuquei muito durante a procura, haviam corpos pra todo lado, provavelmente de pessoas que ficaram presas no sonho e foram mortas pelo Deus. Mas, eu finalmente achei a casa de madeira. Eu abrí a porta da humilde casa, fechei os olhos, dei meu primeiro passo e não caí, dei meu segundo e não caí, então eu abri os olhos, e vi que não havia nenhum buraco, sei lá, nada que reiniciasse minha vida na ilha. Eu estava dentro da casa, que só de andar fazia barulho. Até que ouvi passos. Fechei a porta, peguei a chave que estava encima de uma mesinha e tranquei, joguei a chave num buraquinho que havia no chão, parece que aquela casa tinha porão. Olhei pela janela e lá estava o Deus, com sua cara de louco, com sua cara de maníaco. Eu fiquei olhando a maçaneta sendo virada, o Deus estava tentando abrir a porta trancada. O barulho parou, eu olhei pra trás e notei que havia uma cama, com uma garota deitada. Ela, sem mostrar o rosto nem fazer nenhum movimento, apenas pediu ajuda. Eu, muito idiota, fui até ela, ver se estava bem. Eu a virei para mim, pois ela estava deitada de costas. Ela já estava morta, era uma armadilha. Foi nesse momento que eu ouvi a porta abrir, me virei e o Deus já tinha entrado, aquele maldito estava olhando pra mim, sem fazer nenhum movimento.

–Você precisa de ajuda? O único jeito de sair da ilha é se redimir com seu passado, voltar atrás. Mas no seu caso não há volta, o que você fez é imperdoável, agora não há como voltar atrás. Eu lembro... eu lembro dela. Ela era linda, tinha cabelos loiros e olhos verdes. Era o sonho de um homem. Mas você passou dos limites... Você destruiu tudo isso, você destruiu a vida de vários, você destruiu a vida dela. -ele disse.

–E agora? Me diga, tem como eu sair dessa ilha? -eu perguntei ao Deus.

–Sair? Eu já te disse, não há mais volta, você destruiu tudo. Eu a amava, eu a amava, eu a amava, eu a amava, eu a amava, eu a amava... -e ele ficou repetindo isso. Eu aproveitei a distração do Deus e fui de fininho até a porta, virei a maçaneta e a porta não abriu. Porque ela não abriu? Porque o idiota aqui jogou a chave no porão da casa. Eu arranquei um pedaço de madeira do chão e desci lá. Estava escuro, eu não enxergava nada. Fui tropeçando em muitas coisas, a procura da chave. Até que finalmente tropecei em algo bom, tropecei numa lanterna. Aí sim, Matheus! Liguei a lanterna e logo achei a chave, na minha frente. Peguei a chave e subi. O Deus continuava dizendo "eu a amava", sem parar. Até que ele deu a louca.

–EU A AMAVA E VOCÊ A DESTRUIU! -disse o velho, me dando um chute na cabeça que me fez desmaiar. Eu acordei com o Deus me arrastando pelo chão, o melhor a se fazer agora era me fingir de morto, quem sabe o que ele podia fazer se eu acordasse. Notei que o céu estava vermelho, eu estava surtando de medo. Comecei a pensar na minha família. Na minha mãe, em como ela me deu amor e como eu a maltratei na festa. Acontece que no dia da festa eu maltratei minha mãe pois ela estava me envergonhando na frente dos meus amigos, da minha namorada e tudo mais. Mas ela estava fazendo apenas seu papel, estava apenas sendo mãe. Eu não devia ter feito aquilo. Mas quem é a mulher loira de olhos verdes que cujo a vida eu destruí? Eu não lembro de nada disso. Comecei a chorar ao pensar na Nic, ao lembrar de como ela morreu. Voltando a história, o Deus me jogou naquele buraco que tinha as salas. Ele me jogou na sala centro, foi até a sala ingredientes, e trouxe pássaros mortos. Pegou um giz branco e fez um simbolo satânico no chão. Me jogou naquele simbolo satânico, envoltou de pássaros mortos e estava prestes a jogar fogo. Mas eu lutei, me levantei sem que o Deus me visse, e saí do buraco, escalando. Foi aí que me deu desespero, pois provavelmente o Deus já tinha percebido que eu não estava mais lá, e já estava me perseguindo. Eu corri, sem pensar em mais nada, apenas em correr, correr e correr. Me escondi atrás do vulcão, e o Deus nem havia saído do buraco, parece que estava demorando pra perceber que eu tinha saído. Até que ele saiu do buraco e ficou parado em pé, me olhando com uma cara de "você acha que eu não tô te vendo?". Aquilo me assustou tanto que de algum modo (que nem eu sei como) eu bati a cabeça numa pedra. Eu havia novamente desmaiado, e quando acordei, estava na mesma posição, parece que o Deus nem tinha me tocado. Eu olhei pro buraco e ele havia sumido. Fui andando, olhei pra cima e lá estava ele, encima do vulcão. Eu tremi de medo, e fiquei pensando o porquê do Deus não vir pra cima de mim e me matar. Pois é, eu estava esquecendo de seus poderes, seus poderes de me matar sem precisar nem me tocar, igual fez comigo velho. Eu só estava rezando para que ele não jogasse um graveto em minha cabeça. Até que eu fui correndo para a floresta, e encontrei alguém.

–Erh... você é do futuro? Pode me dar informações sobre o que fazer e o que não fazer pra eu me dar bem? -a pessoa disse. Na verdade não era apenas uma pessoa, era eu, usando minhas roupas, só que rasgadas. Parece que tem muitas versões de mim nessa ilha. E isso foi bom, assim eu podia recolher informações sobre meu futuro, e assim eu podia saber o que não devo fazer e o que devo fazer! Isso foi ótimo, cara.

–Eu não sou do futuro não... Acho que pra você eu devo ser do passado ou sei lá. Eu tô fugindo do deus da ilha, me ajuda e não atrapalha, cara. -eu disse.

–Passado? Então quero te ajudar a me ajudar. Não reze, pro seu e meu próprio bem. O Deus se alimenta das orações, dos pedidos de ajuda, a cada pedido de ajuda, oração ou algo assim que você faz, ele toma 1% de sua energia, e no fim ele fica totalmente forte. E outra dica: Nunca, jamais entre numa estrutura desconhecida, como aquela casa. Ela reinicia sua vida na ilha, ou seja, se entrar em alguma estrutura desconhecida, você cairá no mar junto a Nic, ela morrerá e aí é você quem decide o que acontece depois. É uma dica do futuro, eu sou seu futuro. Cuidado com a ilha, por favor, tome muito cuidado. — ele disse.