O Som Que Me Leva Até Você
8 Melodia do Fim
Notas iniciais
O som do violoncelo ecoava pela sala de música da mansão, mas a melodia saía truncada, desafinada em algumas transições e visivelmente desconexa. Hinata parou o arco no meio de uma nota, soltando um suspiro pesado e baixando a cabeça.
Tenten, que acompanhava a aula encostada no piano de cauda com os braços cruzados, ergueu uma sobrancelha. Ela conhecia a técnica da cunhada melhor do que ninguém — Hinata nunca errava uma execução básica por falta de habilidade.
— Você errou essa mesma passagem três vezes, Hina. — A voz de Tenten quebrou o silêncio da sala de música, suave, porém marcada pela precisão de quem conhecia cada hábito da garota. Ela encostou a lateral do corpo no piano de cauda, cruzando os braços. — Onde é que está a sua cabeça hoje?
Hinata manteve os dedos pousados sobre as cordas de aço do violoncelo. O arco permanecia suspenso no ar, paralisado no meio de um compasso que ela já havia executado com perfeição centenas de vezes. Por anos, a resposta automática seria um encolher de ombros, um pedido de desculpas quase inaudível e a postura curva de quem se preparava para repetir o movimento exaustivamente até os dedos sangrarem.
Mas o ar na sala parecia diferente.
Lentamente, Hinata descansou o arco sobre a estante de partituras e ergueu os olhos, encarando a cunhada sem vacilar.
— Eu estava pensando em como o ar aqui dentro é pesado, Tenten — Hinata disse. A voz saiu baixa, mas a articulação era limpa, desprovida da hesitação costumeira. — Em como a minha vida inteira foi desenhada em uma folha em branco por mãos que nunca foram as minhas, enquanto eu só tinha permissão para assistir.
Tenten estancou. A postura descontraída deu lugar a um imobilismo absoluto. Ela conhecia a rotina dos encontros secretos, acobertava as saídas e gerenciava os álibis com maestria, mas sempre enxergara as ações de Hinata como atos de um desespero jovem e impulsivo. Jamais a tinha ouvido articular aquela dor com tamanha lucidez. Para a família, para o pai e até para a sociedade, Hinata sempre fora a herdeira perfeita, a jovem talentosa que aceitava o peso do sobrenome Hyūga sem contestar.
— Hina... — Tenten deu um passo lento em direção a ela, o tom irônico desaparecendo por completo. — Eu nunca vi você colocar as coisas dessa forma.
— Eu nem conseguia — Hinata deu um sorriso pequeno, um toque triste, mas estranhamente denso. Ela encarou as próprias mãos no colo. — Eu fui ensinada a acreditar que a fartura desta casa, a proteção e o status cobravam um preço justo: a minha obediência cega. Achei por muito tempo que aceitar os limites que meu pai impunha era o meu único papel. Mas quando eu olho para o Naruto... quando vejo o jeito como ele e os meninos existem no mundo, com tanta verdade, sem pedir licença para sentir ou criar... eu percebo a profundidade do abismo em que fui criada.
Ela olhou diretamente nos olhos de Tenten, sustentando o olhar.
— Eu não estou mais cega, Tenten. E o pior não é saber que estou numa prisão... é perceber que passei a vida inteira tentando me convencer de que as grades eram para o meu próprio bem. Eu não aguento mais fingir que este lugar é a minha vida.
Tenten aproximou-se devagar, ajoelhando-se ao lado da cadeira de Hinata e cobrindo as mãos frias da garota com as suas. O olhar da cunhada não trazia a postura da tutora de música, mas sim o afeto cru de quem acompanhara de perto cada marca invisível deixada pela cobrança de Hiashi.
— Eu sempre enxerguei esse abismo, Hina — Tenten confessou, a voz grave, transbordando uma sinceridade dolorosa. — Desde o primeiro dia em que entrei nesta casa para lhe dar aulas e vi a forma como o seu pai se posicionava na porta da sala, avaliando até a sua respiração. Ver você acordar para isso... ver você querer colocar os próprios pés no chão é tudo o que eu mais desejei. Mas o preço da liberdade aqui dentro é alto.
— Eu sei qual é o preço — Hinata respondeu, e o brilho que surgiu em suas pupilas era de uma convicção que Tenten nunca vira antes. — Mas pela primeira vez, eu prefiro pagar o preço de existir do que o custo de continuar morta por dentro.
Tenten encarou a cunhada em silêncio por alguns instantes, absorvendo o peso de cada palavra. A determinação no olhar de Hinata era inédita, mas trazia consigo uma tempestade iminente.
— E o que você pretende fazer, Hina? — Tenten perguntou, a voz baixa, quase como um sussurro temeroso. — O seu pai não vai simplesmente aceitar uma mudança de atitude. Quando ele perceber que perdeu o domínio sobre você, a pressão vai triplicar. Você tem um plano?
Hinata soltou um suspiro longo, o peito subindo e descendo devagar. Ela desviou o olhar para a janela alta da sala de música, de onde era possível ver a imensidão fria dos jardins da propriedade.
— Eu não sei, Tenten — admitiu, sem disfarçar a incerteza. — Eu não tenho todas as respostas e nem sei como vou enfrentar o meu pai quando o momento chegar. Mas de uma coisa eu tenho certeza absoluta: eu não vou mais deixar que ele decida o meu futuro. Eu não vou aceitar um casamento arranjado, não vou viver a vida que ele projetou para mim e não vou abandonar o que sinto.
Tenten apertou as mãos da jovem com carinho, sentindo o misto de orgulho e apreensão que apertava seu próprio peito.
— Você sabe que estou com você, não importa o que aconteça — disse Tenten, esboçando um sorriso cúmplice. — Mas precisamos ter cautela. O Neji já está desconfiado e o seu pai tem olhos em todos os lugares.
— Eu sei... e vou tomar cuidado — Hinata concordou, mudando suavemente o tom de voz. O peso da conversa pareceu dar lugar a um brilho genuíno de entusiasmo em seus olhos. Ela se inclinou para pegar a bolsa que repousava ao lado do violoncelo e tirou de lá um pequeno caderno de capa de couro. — Na verdade, há mais um motivo para eu estar tão distraída hoje. Eu... eu estou fazendo algo que nunca imaginei que teria capacidade de fazer.
Tenten ergueu as sobrancelhas, curiosa.
— O que é isso?
— É uma composição — revelou Hinata, os nós dos dedos apertando o caderno contra o peito antes de entregá-lo à cunhada. — Não tem nada a ver com o meu repertório habitual, na verdade é uma mistura. É algo que escrevi pensando no som da banda e dei meu toque pessoal. A letra é uma surpresa para o Naruto.
Tenten abriu o caderno com cuidado. Suas pupilas percorreram as pautas desenhadas à mão, onde o violoncelo se entrelaçava de forma audaciosa com linhas de guitarra e divisões de ritmo dinâmicas. Um sorriso encantado se formou nos lábios da mais velha.
— Hina... isso é maravilhoso — Tenten elogiou, surpresa com a complexidade e a emoção evidente nas notas e na letra — É completamente diferente de tudo.
— Eu vou encontrar com eles no estúdio mais tarde — Hinata disse, a timidez voltando em uma nuance doce enquanto guardava o caderno de volta. — Quero mostrar a eles hoje. Pela primeira vez, não quero só assistir ao ensaio, Tenten. Eu quero tocar junto com eles.
...
O céu do fim de tarde já ganhava tons alaranjados quando Hinata cruzou a porta do estúdio. Tenten havia dado uma desculpa por ela como sempre e ela conseguiu escapar. O aroma familiar de café passado e o som baixo da guitarra de Sasuke marcando um ritmo solto a acolheram de imediato. Naruto, que estava sentado na borda do palco improvisado ajustando o pedestal do microfone, ergueu o olhar assim que ouviu o barulho da porta. O sorriso que se abriu em seu rosto apagou qualquer resquício da tensão que ela trouxera da mansão.
— Você chegou — ele disse, caminhando até ela com passos largos e puxando-a de leve, depositando um beijo carinhoso em sua testa. — Sentiu minha falta?
— Sempre — Hinata sussurrou, sorrindo e o abraçando de lado.
— Ei! Hinata! Veio pronta pro combate hoje? — brincou Shikamaru.
— Na verdade... sim — respondeu ela e olhou diretamente para Naruto. — Eu escrevi algo.
A declaração fez o estúdio desacelerar. Sasuke parou de dedilhar a guitarra e ergueu os olhos com curiosidade genuína. Eles se aproximaram devagar, pegando as folhas do caderno que ela estendia.
— É uma ideia... Tentei pegar a força e a energia do som de vocês e misturar com a melancolia do meu instrumento. Começa dramático, denso, mas abre espaço para o vocal e a banda entrarem depois.
Todos percorreram a pauta em silêncio. Sai soltou um assobio baixo pela fresta dos dentes, impressionado com a precisão, técnica das divisões de tempo e letra. Mas nenhum deles sentiu mais que: Naruto. A letra era brilhante, era sobre um amor destinado a se encontrar, não importa como, não importa quanto tempo leve...
— Podemos tentar? – Sem perder tempo, Hinata acomodou-se na cadeira no centro da sala, posicionando o violoncelo entre as pernas.
— Deixa eu ver uma coisa... — Naruto puxou um violão que estava no suporte ao lado, sentando-se no chão, de frente para ela. Ele dedilhou as notas da introdução devagar, acompanhando os versos que ela tinha rascunhado no canto da folha. Testou um tom mais baixo, depois subiu a oitava, buscando a conexão entre a voz dele e o som do violoncelo. — Se a gente puxar por aqui, a sua entrada fica mais limpa, Hina. O que você acha?
— Fica perfeito... dá o tempo exato para o arco respirar — ela respondeu, acertando a posição dos dedos na escala do instrumento.
Shikamaru acompanhou o ensaio, batendo a baqueta levemente no próprio joelho para marcar o tempo.
— Se vocês mantiverem esse ritmo lento no começo — o baterista opinou, ajustando a postura —, eu posso entrar só no prato de condução, bem suave, até a virada. Sem atropelar o violoncelo.
Eles começaram a testar. Na primeira tentativa, a transição ficou truncada; na segunda, o tom da guitarra de Sasuke engoliu o som grave da madeira. Mas eles continuaram ajustando. Sem pressa, sem fórmulas prontas. Cada um colocando um tijolo na construção daquela ideia.
Quando finalmente encontraram o encaixe, a música fluiu.
O violoncelo de Hinata abriu a melodia de forma solene, carregada de uma beleza melancólica que parecia ressoar direto da sua alma. Pouco a pouco, o dedilhado do violão e a marcação sutil da bateria foram criando uma cama de som acolhedora. Quando Naruto se aproximou do microfone e soltou os primeiros versos — a voz baixa, crua, cheia de intenção —, o contraste entre o erudito e o visceral se transformou em uma coisa só.
Não era apenas uma execução técnica; era a história deles traduzida em notas.
Quando o som da última corda vibrou e se apagou no ar, o silêncio que ficou no estúdio era de pura absorção.
Shikamaru largou as baquetas no bumbo, olhando para o teto:
— Caralho... isso foi absurdo.
— É... nós definitivamente temos uma música nova — concluiu Sasuke, guardando a palheta e olhando para as folhas com a música. Ele deu a Hinata um aceno de respeito silencioso.
Naruto deixou o violão de lado e caminhou até ela. Não havia exageros, apenas um orgulho imenso brilhando nos olhos azuis. Ele se curvou ligeiramente, apoiando as mãos nos joelhos para ficar na altura dela, com um sorriso leve e verdadeiro nos lábios.
— Você transformou o que a gente faz aqui, Hina — ele disse baixo, a voz cheia de carinho. — Essa música ficou incrível.
...
Conforme o ensaio chegava ao fim, a movimentação normal do estúdio foi diminuindo. Shikamaru e Sai foram os primeiros a juntar as coisas, trocando farpas amigáveis sobre o horário do jantar, enquanto Sasuke arrumava os cabos e se despedia com um aceno de cabeça direto para o casal antes de fechar a porta.
O silêncio que caiu sobre o estúdio intimista era denso, aquecido pelas luzes amarelas penduradas no teto e o cheiro suave de madeira e café.
Naruto ajudou Hinata a guardar o violoncelo no case com cuidado absoluto. Quando fecharam os fechos de metal, ele não se afastou. O loiro segurou a mão dela, puxando-a devagar até que ela ficasse de pé à sua frente.
— Você tem noção do que fez hoje? — a voz dele saiu mais grave, baixa, num tom terrivelmente íntimo.
Os olhos azuis de Naruto fixaram-se nos dela com uma intensidade que fez o pulso de Hinata acelerar no ato. Ele levou a mão à nuca dela, os dedos embrenhando-se na maciez dos cabelos escuros, e a puxou para perto.
— Eu quase enlouqueci ouvindo o som do seu instrumento se misturando com a minha voz — ele murmurou contra os lábios dela, a respiração quente e pausada. — Você é absurda, Hinata.
Antes que ela pudesse responder, Naruto a beijou.
Não foi um beijo contido ou hesitante. Foi um beijo profundo, faminto e carregado de uma paixão reprimida por dias de encontros roubados. A mão dele desceu para a cintura dela, apertando-a contra o seu corpo, enquanto Hinata se entregava por inteiro, os braços envolvendo o pescoço dele e os dedos se cravando na jaqueta de couro do loiro. A sensação de pertencer àquele momento, àquele homem e àquela liberdade fez o chão sob seus pés desaparecer.
Quando se separaram em busca de ar, as testas continuaram coladas, os dois arfando suavemente na penumbra do estúdio.
— Eu não quero mais me esconder, Naruto — Hinata confessou num sussurro rouco, encarando as pupilas dilatadas dele, sem nenhum rastro de timidez. — Tocar aquilo com você hoje... me fez ver que eu não consigo mais voltar para quem eu era.
Naruto sorriu, um sorriso bonito, firme e terrivelmente apaixonado. Ele roçou os lábios no canto da boca dela, selando aquela promessa silenciosa:
— Então não volta. Porque eu não vou deixar ninguém te tirar de mim.
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