O Sol que me aquece
3 Capitulo 3
Notas iniciais
— Posso entrar? — Era a Camila, tinha mandado mensagem pra ela na noite anterior, dizendo que estava tudo bem. Era uma pergunta retorica, porque mesmo sem eu responder ela entrou e se deitou ao meu lado. — Como tá se sentindo?
— Uma porcaria. — Resmunguei.
— Bianca...
— E sério, como eu pude ser tão arg.... eu estou bem Camila, ao menos eu achava que estava, então por que de novo. Talvez isso seja um sinal de que a dança não e pra mim.
— Um sinal? Você tá se ouvindo? -Se sentou abruptamente.
— A verdade é que eu estou quebrada e não dá pra consertar. — Falei com a voz meio abafada, após me cobrir com o cobertor.
— Chega. — Se levantou de sobressalto. — Eu não vou ficar aqui ouvindo você falar tudo isso de si mesma. — Escutei passos e achei que estava indo embora, mas ela arrancou o cobertor e me puxou pelo braço.
— Aí, o que é isso?! — Falei meio assustada.
— Troca de roupa que nós vamos sair. — Eu iria perguntar pra onde, mas ela estava tão determinada que eu só a obedeci. Meus pais provavelmente sabiam de tudo porque nem questionaram ao me ver sendo arrastada porta a fora.
Chegamos enfim em frente a um prédio.
— Uma escola, pra que isso? — Ela não disse nada, nem precisava.
Ela me levou até uma sala que tinha algumas crianças dançando ballet, e algumas delas eram deficientes. Uma delas estava de cadeira de rodas, era visível o quanto se esforçava pra se sair bem.
A outra só tinha uma perna e dançava de muletas, era impossível não se emocionar quando mesmo com as dificuldades elas estavam lá, alegres.
— Tia Camila. — Uma das meninas, a de muletas, veio ao nosso encontro com o sorriso de ponta a ponta.
— Oi princesa, tá mandando vê hem. — Ela sorriu ainda mais, e sussurrou.
— Quem é essa?
— Essa é a Bianca, ela está meio triste hoje.
— Por quê? — Quis saber enquanto me olhava de canto de olho, achei fofo.
— Ela também é bailarina, mas está achando que não consegue mais dançar, e eu pensei sabe, em trazer ela pra você ajudar, você me ajuda? — Ela fez um olhar pensativo, mas foi bem firme quando respondeu.
— Olha, eu vou tentar, mas vai ter que me acompanhar hem. — Sorri, ela era uma graça.
— Vou dar o meu melhor. — Respondi cruzando os dedos pra ela.
La estava eu, dançando. A garotinha não estava para brincadeira ela era ótima. Eu caí algumas vezes por conta do pé machucado, mas no fim acabávamos rindo.
— Como ela foi?
— Olha, precisa melhorar. Mas como ela está com o pé machucado eu deixo passar. — Fiz cara de chocada. Ela falava tão séria, nem parecia uma criança de sete anos.
— Como assim? — Fiz Córsega nela que saiu gargalhando.
— Ela é uma graça né? — Sorri vendo ela ir de encontro as amiguinhas.
— Sim, ela é. – Disse a olhando com admiração, nos afastamos um pouco.
— Como você conheceu essas meninas?
— A algum tempo atrás, quando você ficou mal, eu me senti impotente por não poder te ajudar. Estão procurei formas de ajudar alguém e achei essa escola que precisava de voluntários. Foi só começar que eu me apaixonei por essas meninas, elas são supertalentosas.
Somente ali a ficha caiu, eu fiquei tão imersa em mim, pressa em minha própria bolha que nem percebi o quanto fiquei ausente pra minha amiga.
— São mesmo. Desculpa, eu não sabia que você se sentia assim. Por que não me contou?
— Não sei, você tinha as suas coisas. — Nossa me senti super egoísta agora, não achei que ela se sentia assim.
— Camila, me desculpa eu...
— Tia Camilaa, olha aquiii. — Uma das garotinhas gritou toda empolgada.
— Tem como não se apaixonar? Volto já.
— Vai lá. — Me sentei um pouco e a observei com as meninas, ela levava jeito com crianças, fiquei um pouco mal por perceber o quanto me afastei dela nesse último ano, costumávamos saber tudo sobre a outra.
Essas meninas pareciam tão felizes mesmo com suas deficiências, que me senti uma garota mimada por reclamar dos meus "problemas"...
— Ei, tem alguém aí? — Estava tão pensativa que nem percebi que chegamos em casa.
— Ham?
— Você não me ouviu né?
— Não, desculpa. O que você disse?
Entramos em casa, e fomos pra cozinha.
— Eu disse, o que você acha de tentar novamente digo, com a dança.
— Eu vou. — Ela me olhou meio estranho, quase sorri.
— Espera, assim tão fácil?
— Na verdade não é assim tão fácil, mas é que vendo aquelas garotinhas tão felizes e mesmo com suas dificuldades conseguindo dançar eu vi o quanto estava sendo pessimista e um pouco mimada. E porque o espanto, não foi pra isso que me levou lá?
— Foi, é que eu já estava preparada pro plano B.
— Plano B? — Franzi o cenho.
— Sim, te obrigar ameaçando postar umas fotos suas bem engraçadas, que eu...
— Camila! — Sorri, jogando um pano de prato que acertou em cheio sua cara. — Opss.
Foi ali que prometi prestar mais atenção as pessoas que eram importantes na minha vida, acho que estava na hora de estourar a bolha em que eu estava vivendo.
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