O vento quente da noite arrastava consigo o cheiro acre de fumaça, madeira queimada e pólvora. Konoha, vista do alto das muralhas externas, parecia um mosaico de sombras e clarões, como se a própria vila respirasse em espasmos, oscilando entre a escuridão e o brilho das explosões que ainda ecoavam ao longe. Orochimaru observava tudo com um deleite doentio. Seus olhos estreitos, reptilianos, cintilavam com uma fome abrumadora; uma fome que nenhuma conquista, nenhum experimento, nenhum corpo roubado foram capazes de saciar.

— Finalmente… — Sua voz arrastada serpenteou pelo ar, quase um sussurro, quase um gemido de prazer — … a cortina se abre.

Atrás dele, um dos seus subordinados aproximou-se apressado, arfando; era um dos ninjas do Som que serviam como mensageiros e vigias. Um homem magro, de rosto pálido e expressão nervosa, claramente abalado pelo que vira.

— Orochimaru-sama…! — Ele se ajoelhou, a respiração irregular — O grupo responsável pelos detonantes iniciais… não respondeu ao chamado. Fui verificar… e… e…

Orochimaru virou lentamente o rosto, o sorriso desaparecendo.

— E…? — Exigiu.

— Eles estavam mortos, senhor. Todos. E Kabuto… Kabuto não estava em lugar algum. Não retornou. Não enviou relatórios. Não deixou rastros. É como se tivesse… desaparecido. — Trêmulo e temeroso, o homem informa com os olhos fortemente fechados.

Orochimaru estreitou os olhos. Kabuto não desaparecia. Kabuto não falhava. Kabuto não desobedecia. Aquele silêncio… aquela ausência… Aquilo era um insulto.

— Desaparecido? — Orochimaru repetiu, a voz baixa demais para ser segura — Ou capturado?

— Não sabemos, Orochimaru-sama. Mas… algo está errado. Muito errado. — O subordinado diz, engolindo em seco — As explosões… não foram como planejamos. E os outros grupos… começaram a agir por conta própria.

Orochimaru ergueu a mão, interrompendo-o.

— Já basta. — A voz cortante fez o outro encolher-se acuado.

Ele voltou a olhar para Konoha, o sorriso retornando; mais fino, mais cruel, mais perigoso.

— Não importa mais. O caos já começou. E no caos… eu prospero. — Um estremecimento de puro prazer percorreu seu corpo, antecipando o sabor do doce banquete à sua frente.

Ele ergueu a mão novamente, e quatro figuras emergiram das sombras atrás deles, como espectros chamados por um necromante. O Quarteto do Som. Jiroubou, imenso como um paredão de carne e músculos. Kidomaru, com seus olhos múltiplos e sorriso torto. Tayuya, mascando o chiclete invisível de sua própria arrogância. Sakon — e o segundo rosto adormecido em seu ombro, Ukon — ambos sorrindo com uma malícia silenciosa.

— Vocês sabem o que fazer. — Orochimaru disse, sem olhar para eles — Konoha está vulnerável. Quero os alvos secundários. Todos. E tragam-me qualquer coisa… interessante.

— E os civis? Não vimos nenhum até agora. A vila parece um maldito cemitério. — Tayuya bufou.

— Então procurem melhor. — Orochimaru respondeu, indiferente — Konoha não desaparece assim. Eles estão escondidos. E vocês vão encontrá-los.

O quarteto assentiu, cada um à sua maneira, e desapareceu entre as árvores, movendo-se como predadores soltos em uma reserva de caça. O subordinado permaneceu ajoelhado, tremendo.

— Orochimaru-sama… e o senhor? Qual será seu primeiro alvo? — Surpreendendo-se com sua própria ousadia.

Orochimaru virou-se lentamente, e o sorriso que surgiu em seus lábios era tão frio quanto o aço de uma lâmina recém-forjada.

— O Hokage. Sempre o Hokage. — Seus olhos ofídicos cintilando na escuridão.

***

Escritório do Hokage — Minutos depois

O silêncio ali dentro era quase antinatural. Nenhum som de explosões, nenhum tremor, nenhum grito. A sala parecia suspensa no tempo, como se aguardasse algo inevitável. As janelas estavam abertas, deixando entrar a brisa carregada de fumaça. As cortinas balançavam suavemente, como véus de um funeral. E no centro da sala, sentado calmamente na cadeira do Hokage, Uchiha Itachi. A máscara ANBU repousava sobre a mesa, ao lado de uma xícara de chá ainda quente. Seus olhos — os olhos que tantos temiam — estavam fechados, como se meditasse. Atrás dele, encostado na parede, Jiraya observava a Vila através da janela, os braços cruzados, o semblante sério como raramente se via.

— Ele está vindo. — Itachi disse, sem abrir os olhos.

— Eu sei. — Jiraya respondeu, a voz grave — O Chakra dele… é impossível de ignorar.

— E você está preparado? — Itachi pede em monotonia.

— Preparado? — Jiraya soltou um suspiro pesado — Itachi, garoto… eu já lutei contra monstros, deuses, demônios, e até contra a própria estupidez humana. Mas Orochimaru… Orochimaru é outra coisa.

— Ele não sairá vivo desta sala. — Itachi abriu os olhos.

O Sharingan brilhou como brasas acesas, havia naquele olhar, o desejo imparável, a força digna e a presença buscada entre as qualidades exigidas de todos os Hokages anteriores. Jiraya sorriu de lado; se aquele garoto não estivesse carregando o destino de muitas vidas em seus ombros, teria, certamente, assumido o lugar de Minato, como o Godaime.

— Gosto da sua confiança. — O mais velho sorrira pela primeira vez desde que o ataque iniciara — Mas não subestime o desgraçado.

Itachi não respondeu. Somente virou o rosto para a porta.

— Ele chegou. — Sua voz sempre tão tranquila, soara um pouco expectante.

A maçaneta girou lentamente. Um rangido suave ecoou pela sala. E então, a porta se abriu. Orochimaru entrou como se fosse o dono do lugar. O sorriso estampado no rosto, o olhar percorrendo cada detalhe, cada canto, cada sombra.

— Que recepção calorosa… — ele disse, a voz escorrendo veneno — … para um velho amigo.

— Amigo? — Jiraya deu um passo à frente — Você perdeu esse direito há muito tempo, Orochimaru.

— Ah, Jiraya… sempre tão sentimental. — Orochimaru inclinou a cabeça, teatral; seu olhar deslizou até Itachi — E você… o prodígio que Konoha tanto idolatra. Que honra encontrar você aqui.

— Orochimaru. — Itachi levantou-se devagar, cada movimento calculado, preciso, letal — Sua invasão termina agora.

Orochimaru riu. Uma risada baixa, perturbadora.

— Vamos ver. — Provocativo, preparando-se.

A sala explodiu em movimento. Itachi avançou primeiro, rápido como um raio; era impetuoso como qualquer jovem habilidoso, contudo, a diferença dos demais, sua experiência e talento inato colaboravam para que pudesse usar esse traço de sua juventude a seu favor. Jiraya usando o modo sábio parcial, o chakra natural envolvendo seu corpo como uma aura viva, era a prova de sua determinação ferrenha; agora, que recuperara parte da família que outrora tivera, a defenderia com sua vida de ser necessário. Orochimaru abriu a boca, e uma serpente gigantesca saiu disparada, quebrando a mesa do Hokage em pedaços; se eles estavam sendo sérios, poderia entretê-los um momento, divertir-se até obter seu prêmio. O choque inicial fez o chão tremer. E então, a batalha começou.

***

Ruas de Konoha

O Quarteto do Som avançava pelas ruas vazias, irritados, confusos, famintos por combate.

— Não tem ninguém! — Jiroubou rugiu, chutando uma porta que se abriu com estrondo — Nem um civilzinho para esmagar!

— Isso tá errado. — Kidomaru murmurou, seus olhos múltiplos girando — Muito errado.

— Konoha não evacua assim. — Sakon rosnou — Eles esconderam todo mundo.

— Mas onde? — Tayuya estalou a língua — Dane-se. Vamos achar algum ninja para matar, então.

E encontraram. Ou melhor; foram encontrados. Uma kunai passou zunindo entre eles, cravando-se no chão.

— Quarteto do Som! — uma voz áspera gritou — Vocês não vão dar mais um passo!

Os quatro sorriram.

— Finalmente. — Tayuya murmurou.

***

Setor Norte de Konoha

Naruto e Hinata surgiram no topo de um prédio destruído, as máscaras ANBU reluzindo sob a luz das chamas.

— Setor limpo. — Naruto disse, a respiração controlada — Próximo ponto?

— Equipe Tora está sob ataque no distrito leste. — Hinata tocou o rádio no ouvido — E há sinais de luta intensa perto da torre de comunicações.

— Vamos. — Naruto assentiu.

Eles saltaram juntos, desaparecendo na escuridão; seus amigos, seus aliados necessitavam que mantivessem-se em movimento, dando suporte, ao menos, até que sua verdadeira batalha iniciasse; então, enquanto o Sannin não contactasse seu alvo mais almejado, estariam entre o corpo Shinobi, lutando juntos por sua preciosa Konoha. Mas antes que pudessem avançar muito, um ANBU ferido surgiu cambaleando de um beco, a máscara rachada, o sangue escorrendo pelo braço; seguramente entrara em algum confronto em seu caminho até eles.

— T-Tenentes…! — Ele arfou — Problemas… no bunker 498… é urgente!

Hinata congelou, o coração errou uma batida e o arrepio agourento estremecera-a; Naruto virou-se imediatamente, os olhos azuis cintilantes de preocupação brilhando através da máscara de raposa, a voz fria da morte sussurrando maldições em seus ouvidos.

— O que aconteceu? — Controlando o pânico que apoderara-se dele, o Uzumaki consegue perguntar.

— A mãe de Hyuuga Neji… está em trabalho de parto há horas… os médicos… não conseguem mais… ela está morrendo! — O jovem informa pesaroso.

Haviam sido instruídos de não utilizar os rádios do interior dos bunkers, para que o inimigo não interceptasse o sinal e os descobrisse; por isso mesmo, destruíram as redes elétricas durante o chamariz de explosões, mas agora, essa decisão arriscada estava cobrando um preço. Hinata levou a mão ao peito, o coração agonizando, as lágrimas querendo estalar e um nó sufocante na garganta impedindo-a de respirar corretamente; Naruto suspirou, buscando calma e lucidez, segurando a mão de sua amada, amparando-a enquanto sua mente trabalhava a milhão, tomando as seguintes decisões.

— Busque Neji e Hizashi. Agora! — Naruto ordena, a voz tingida de pavor — Eles estão na torre de vigilância oeste com Hiashi.

O ANBU assentiu e desapareceu, correria o mais que seu corpo cansado pudesse aguentar, exigir-se-ia além de suas capacidades, e cumpriria as ordens desesperadas que recebera; Hinata já corria, se não fossem seus olhos especiais e tão cobiçados, não conseguiria encontrar o caminho, não entre o choro torrencial e silencioso que banhava seu rosto de porcelana, chegando a transbordar através de sua máscara de gato. Naruto a seguiu igualmente desesperado, preocupado e temeroso, rezando com toda sua fé no divino, que chegassem a tempo, que pudessem fazer algo. A luta lá fora podia esperar, sua família clamando por socorro, não.

***

Bunker 498.

O corredor subterrâneo do bunker 498 parecia mais estreito do que realmente era, parecia mais sufocante, amedrontador como não deveria ser. As luzes de emergência piscavam em intervalos irregulares, lançando sombras que se moviam como espectros pelas paredes reforçadas; o ar estava quente, abafado, carregado de suor, medo e desespero contido.

Quando Naruto e Hinata atravessaram a porta principal, os ANBU’s que guardavam o local endireitaram a postura imediatamente, mas seus olhos denunciavam o pânico silencioso; aquele era um mau sinal em seu plano, que até então, estava correndo a perfeição.

— Tenentes! — Um deles exclamou, a voz trêmula — A situação é crítica.

— A senhora Natsume… ela… ela não tem mais forças. — O outro continua — Os médicos… já tentaram tudo.

Hinata sentiu o coração apertar, ficando cada vez menor; Naruto percebeu e tocou seu ombro, firme, silencioso, presente.

— Você consegue. — Ele disse, a voz baixa, mas carregada de certeza.

Hinata respirou fundo e entrou. O ambiente estava lotado, abafado, tenso. Famílias inteiras se encolhiam contra as paredes, tentando dar espaço aos médicos que se moviam freneticamente ao redor da maca improvisada no centro do abrigo. Natsume Hyuuga estava deitada ali. Pálida. Suada. Ofegante. Os cabelos longos grudavam em sua testa, e seus olhos — tão parecidos com os de Neji — estavam semicerrados, lutando para permanecer abertos. Hizashi chegara primeiro, fitando-a em pânico, segurando sua mão com uma delicadeza desesperada; Neji estava logo atrás, rígido como uma estátua, mas com o rosto devastado, os olhos marejados, o corpo inteiro tremendo. Hiashi estava ali também, como assistente, como apoio, como irmão; sentia o coração comprimido ao ver o desespero dos dois, ele que vinha reaprendendo o significado de família, acabara abalando-se mais que qualquer um dos presentes, ao ver aquela agonizante cena.

Quando Hinata entrou, todos se voltaram para ela, retirando a máscara do gato, surpreendendo os civis presentes, mas ela não dava a mínima para isso, sua atenção estava completamente concentrada em sua tia, sofrendo e se contorcendo em dores insuportáveis, com os batimentos e o Chakra mantendo-se por pura força de vontade; Hinata tensionou-se mais, ao verificar sua situação, seu rosto tornou-se rígido e a pouca esperança que tinha, começa a escapar de suas mãos.

— Hinata-sama! — Um dos médicos exclamou, aliviado — Graças aos deuses…

— Nós… nós não conseguimos mais. — Outro apura-se e esteriliza as mãos da garota — O bebê não nasce. E ela… ela está muito fraca.

Hinata se aproximou, o coração batendo tão forte que parecia ecoar pelo bunker inteiro.

— Tia… — A garota sussurrou, ajoelhando-se ao lado da mulher.

Natsume abriu os olhos com dificuldade.

— H-Hinata… — Sua voz era um fio de ar — Minha… pequena…

— Estou aqui. Vou ajudar. Prometo. — Hinata segurou sua mão, e respirando profundamente, prepara-se para informar a complexa descoberta — Mas tia, são dois bebês, um estava escondido atrás do outro, por isso não vimos. Chegados a esse ponto, temos que retirá-los de outro modo, e no seu estado, não posso te anestesiar, seu coração pararia…

Um murmúrio de choque percorreu o bunker, a surpresa, a compreensão, o pavor; tudo ocorreu em milésimos de segundos. Hizashi levou a mão à boca, os olhos arregalados; seu medo tornando-se maior, mais real. Neji deu um passo para trás, como se tivesse levado um golpe no peito; aquilo significava que teriam de escolher? Natsume sorriu; um sorriso fraco, mas cheio de amor.

— Eu… eu sabia… senti… dois corações… desde o início… — Ela murmurou; e logo, uma força impressionante surgiu em seus olhos nebulosos — Faça… salve-os…

Hinata engoliu em seco; em suas mãos, três vidas dependiam dela para seguir vivas, e outras duas, para não partir-se em dor e luto. Hinata assumira o comando, seu tempo era curto, eles estavam sufocando, estavam presos, estavam levando sua mãe; sem que ela pedisse, Naruto já abria seu estojo, seu tenebroso estojo de interrogatórios, que fez os três homens Hyuuga’s estremecer ao reconhecê-lo, mas que tinha o necessário para o que a garota faria.

— Segurem suas mãos e pernas, não deixem que se mova, se ela mexer, vou cortá-los! — Hinata instrui o primo, o tio e seu pai, e volta seus olhos para os médicos — Estejam preparados com panos limpos.

As pessoas se moveram rapidamente, obedecendo, preparando-se, tentando ajudar; antes que ela pedisse, Naruto já havia posto na boca de sua tia, uma mordaça improvisada com compressas, e com um carinho gentil, prometia a ela que tudo terminaria rapidamente, e em suas mãos acariciando os cabelos da mulher, distraindo-a da dor absurda, seu Chakra passava dele para ela. Hinata começou o procedimento, o bisturi cortando a carne com precisão, e os primeiros gritos abafados ecoando; Natsume queria colaborar, para tudo acabar rapidamente, mas seu corpo enfraquecido reagia à dor, tentando afastar-se, tentando proteger-se, obrigando seu filho, seu marido, seu cunhado a impor mais força em seu agarre, para contê-la. Era difícil, uma camada após a outra, Hinata precisava cortá-las nem a mais, nem a menos, e a cada corte, precisava deter-se e limpar a área até que finalmente, após sete paradas tensas e preenchidas de medo e incertezas, alcançara o útero; Naruto, sempre atento e em sincronia com sua parceira de vida, posicionou-se ao seu lado, as mãos já esterilizadas, mantendo as camadas de tecidos abertas em lugar dos afastadores que não tinham, para que Hinata pudesse alcançar os bebês.

A este ponto, Natsume estava fraca demais, aguentara bravamente aqueles minutos sentindo sua carne ser cortada, esticada e aberta, agora seu Chakra oscilava como uma chama prestes a se apagar; estava cansada. Hinata suava, respirava fundo, dava instruções rápidas aos médicos, enquanto Naruto mantinha firmemente o corte grande no abdômen da mulher grunhindo num fiapo de voz; os outros três, assim como ambos os médicos e os civis presentes, assistiam a tudo aquilo com um pavor enjoativo desestabilizando-os. E então…O primeiro choro ecoou pelo bunker. Um choro forte. Vibrante. Vivo.

— É uma menina. — Hinata sorriu, lágrimas escorrendo por seu rosto, entregando a pequena ao médico a postos.

Hizashi desabou em lágrimas silenciosas e por pouco, não deixara sua posição; Neji levou uma mão à boca, os olhos arregalados, o peito arfando. Mas Hinata não parou, suas pequenas e ágeis mãos voltaram a invadir o corpo de sua tia, tateando, posicionando e acomodando o segundo bebê, para poder puxá-lo à vida com segurança; e logo de segundos intermináveis, um segundo corpinho ensanguentado apareceu diante dos olhos de todos. Era menor que a irmã, não chorou, estava quieto, aterrorizando a família que ansiava ouvi-lo chorar. Usando o corpo da tia como suporte, Hinata agiu um instante depois, com uma firmeza absurda, apesar de seu temor e nervosismo, limpou as vias aéreas, desobstruindo-as, e com muita delicadeza, soprou ar, preenchendo os pulmões minúsculos, enquanto seus dedos faziam uma massagem cardíaca ritmada e suave, com cuidado com aquele frágil ser; naquele momento angustiante, todos prenderam a respiração, como se isso ajudasse o bebê a respirar, e então, o segundo choro soara, mais fraco e baixo, mas fez-se presente.

— Bom garoto, você tem que lutar! — Massageando as costas do bebê, aquecendo-o e terminando de atendê-lo antes de entregá-lo ao segundo médico, Hinata verificava seus sinais, suspirando aliviada ao final — Vai ficar tudo bem, vamos cuidar de você agora, tia!

Mas Natsume… Natsume estava morrendo, seus olhos que estavam brilhando preocupados há instantes, tranquilizaram-se ao ver que seus filhos estavam bem, seu corpo relaxara e a tensão abandonara-a, dando lugar a uma leveza perigosa, um formigamento atrativo; Naruto voltou ao mesmo instante a infundir seu Chakra nela, usando inclusive o de Kurama, mas a mulher já estava muito debilitada, seu coração enfraquecido pelo esforço infrutífero de antes de sua chegada, seu corpo já fragilizado pelo parto de seu primogênito não resistiria aquilo. Natsume sabia disso assim que o parto iniciara horas atrás, soube que não suportaria e rezara para que somente pudesse ter forças para deixar aquela vida; seus lábios ressacados, desidratados pela perda constante de líquidos, sorriram tristemente, vendo os rostos preocupados e chorosos de sua família amada. Seu marido, companheiro fiel de todos aqueles anos, tão amoroso quanto no início, seu filho precioso, razão de seu orgulho constante, tão íntegro e protetor quanto o pai, sua sobrinha doce e gentil e seu amado par, que ela sabia, a amaria eternamente; seus olhos quase desfocados pousaram até mesmo em seu cunhado, ali consternado e petrificado, Hiashi estava redefinindo seu caminho e isso tranquilizava Natsume, agora, seu amado teria o amparo de um irmão verdadeiro, a família que deixaria, estaria unida, e protegeria aquelas duas vidas que ela gerara. Por último, a mulher fita seus pequenos anjos, as vozes assustadas e angustiadas dos outros já sendo apenas um zumbido, se arrependeria apenas de não vê-los crescer, de não niná-los e aconchegá-los em seus braços, ao menos lhes dera o maior presente, a vida e o amor incondicional de mãe, capaz de negociar com a morte pelos filhos.

— Tia… — Desesperada, Hinata segurou sua mão, chamando-a — Tia Natsume, mantenha os olhos abertos, fique comigo!

Natsume sorriu. Um sorriso tão doce, tão cheio de amor, que partiu o coração de todos ali; ela não os via mais, seus olhos estavam focados em outro lugar, muito distante. Hizashi caiu de joelhos ao lado dela, segurando seu rosto com as duas mãos.

— Natsume… por favor… — Sua súplica dilacerante quase não se ouvia — Não… não me deixe…

— Meu amor… você me deu tudo… — Natsume ergueu uma mãe vaga ao ar, agarrada em seguida por Hizashi.

— Mãe… — Neji aproximou-se, ajoelhando-se ao lado da mãe; sua voz quebrou — Por favor…

— Meu menino… meu orgulho… você vai ser um homem maravilhoso. Um pai maravilhoso.

Neji chorou; pela primeira vez desde criança, recebendo pela última vez, o carinho da mãe, enquanto Hinata e Naruto ainda batalhavam por mantê-la com vida entre o choro e orações. Mas os olhos dela não estavam neles, Natsume continuava encarando o vazio, como se visse a maior beleza do mundo; por um instante, apenas um instante, ela viu o que seu coração ansiava para descansar em paz. Neji adulto, sorrindo amorosamente a duas crianças em seus braços. Correndo ao redor deles e brincando, os gêmeos — crescidos, fortes, lindos — gargalhando pelo pátio do clã. Hizashi, mais velho, rodeado de netos, rindo para os filhos e seu irmão ao seu lado, com uma suavidade que nunca teve no olhar. Hinata…Hinata sorria ao lado de Naruto, com um bebê nos braços, enquanto Hanabi e Konohamaru faziam-lhe caretas. Natsume tocou o rosto dos dois — Hinata e Naruto — mesmo que eles não percebessem em seu desespero por salvá-la.

— Vocês… vão ser tão felizes…

Uma lágrima escorreu. E então… Ela partiu. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Hizashi caiu sobre o corpo da esposa, chorando como um homem que perdeu metade da alma. Neji abraçou os irmãos recém-nascidos, tremendo, tentando ser forte, mas falhando miseravelmente. Hiashi colocou a mão no ombro do irmão, os olhos marejados, o rosto devastado. Hinata chorou em silêncio, as mãos ensanguentadas ainda tratando a hemorragia interna na ferida. Naruto a abraçou por trás, apoiando-a, sustentando-a. A batalha lá fora continuava. Mas ali, naquele bunker, naquele instante… o mundo daquelas pessoas havia parado.

***

O bunker 286 estava mergulhado em um silêncio até que tranquilo, quebrado apenas pelo som abafado das explosões distantes e pelo tremor ocasional que fazia poeira cair das vigas reforçadas; as luzes de emergência lançavam um brilho avermelhado sobre os rostos preocupados dos moradores, aguardando que pudessem voltar às suas vidas, sem saber o que encontrariam do lado de fora. Gaara estava sentado no chão, encostado na parede, as pernas cruzadas, as mãos apoiadas sobre os joelhos; Temari e Kankuro estavam ao seu lado, atentos, vigilantes, mas tentando manter a calma para não alarmá-lo. Konohamaru e Hanabi estavam sentados diante dele, o álbum de fotos ainda aberto entre eles, como se tentassem manter o clima leve; mas o ar estava pesado demais para isso. O Hokage observava tudo de perto, sentado em um banco improvisado, o cajado apoiado ao lado, o olhar atento e preocupado; então, Gaara respirou fundo, inquietamente, o ar mudou.

O primeiro sinal foi sutil no início, um inofensivo tremor leve na ponta dos dedos, um arrepio subindo pela espinha, um calor estranho no peito; Gaara levou a mão ao rosto, apertando os olhos, torcendo, implorando que fosse apenas cansaço.

— Gaara? — Temari chamou, a voz baixa — O que foi?

Ele não respondeu, tinha receio de dizer algo e assustar as crianças, sentia aquela opressão tão conhecida, Shukaku estava agitado, forçando sua liberdade e vira a oportunidade naquele ambiente caótico e rodeado de pânico; o Chakra começou a vazar, devagar e intenso, trazendo ao local fechado, uma brisa anormal, uma ventania de mau presságio. Como uma névoa escura. Como fumaça saindo de uma fogueira prestes a se tornar incêndio.

— Temari… isso não é bom. — De olhos arregalados, Kankuro murmura.

O Hokage levantou-se imediatamente.

— Gaara… — Hiruzen chamou, com a calma de quem já enfrentou monstros antes — Olhe para mim, meu jovem.

Gaara tentou, genuinamente queria ser ele, mas o Chakra da Bijuu pulsou; uma onda densa, raivosa, sufocante. As crianças sentiram primeiro e encolheram-se temerosos, sentindo os dois irmãos afastando-os com cuidado; Hanabi levou a mão ao peito, assustada e Konohamaru engoliu em seco, os olhos arregalados.

— Gaara… respira. — Segurando o braço do irmão, Temari pede-lhe — Respira, por favor.

Mas ele não conseguia, os tranquilizantes que lhe deram mais cedo, para evitar crises durante o confinamento, agora o deixara vulnerável, suscetível ao poder monstruoso da besta faminta em seu interior; estava fraco, sem resistência e a Bijuu sentiu, Shukaku despertou. Gaara caiu de joelhos, as mãos no chão, o corpo tremendo.

— N-não… — Ele sussurrou, a voz quebrada — Não aqui…

A areia começou a mover-se sozinha, escorrendo de seu corpo como se tivesse vida própria; terrorificamente lenta. O ANBU que guardava a porta deu um passo à frente, a mão indo ao rádio.

— Hokage-sama… o Chakra dele está instável! — Hayabusa desesperou-se — Precisamos tirá-lo daqui!

— Não podemos. — Hiruzen respondeu, firme — O bunker está lacrado. Lá fora ainda é zona de combate.

Gaara ergueu o rosto e seus olhos… não eram mais seus; naquela expressão angustiada, ainda lutando por ter seu corpo de volta, um olhar frio e animalesco estava visível.

— P-por favor… — O garoto implorou, a voz embargada, desesperada — Me deixem sair… não quero machucar ninguém… por favor… por favor…

Temari chorou, o sofrimento de Gaara era o seu sofrimento; ela o vira definhar por anos, e agora que finalmente tinha um pouco de normalidade, o terror voltava a atormentá-lo.

— Gaara! — Kankuro segurou o irmão pelos ombros, tentando contê-lo — Olha para mim! Você consegue! Você consegue!

Mas o Chakra da Bijuu explodiu, Shukaku não permitiria que lhe tirassem seu banquete tão facilmente, a Bijuu estava furiosa, queria vingar-se por ter sido contido daquela forma um mês atrás, os faria pagar por tratá-lo como um animal; uma onda de energia varreu o bunker, fazendo as luzes piscarem violentamente, as pessoas gritaram, algumas se encolheram contra as paredes, outras tentaram proteger as crianças, o ANBU sacou a arma.

— Hokage-sama! — O terror em sua voz era palpável; sabia quão imparáveis eram os Jinchuuriki’s em seu descontrole, seu Tenente era um recordatório constante do perigo — Se ele perder o controle, teremos que…

— Baixe essa arma. — Hiruzen ordenou, a voz dura como aço — Agora.

O ANBU obedeceu, ainda que o medo predominasse e alertasse-o para manter a guarda; contudo, não desobedeceria a seu Hokage. Gaara estava chorando. Chorando de verdade.

— Eu não quero… não quero machucar ninguém… — Seus murmúrios sofridos misturando-se ao lamento das pessoas amedrontadas.

E então… uma mão pequena tocou a dele, era cálida e suave, como um pequeno botão de rosa e ainda em sua fragilidade, transmitia segurança, amparo; o pequeno Sarutobi segurou a mão de Gaara com força, sem hesitar, sem medo.

— Vai ficar tudo bem. — Ele afirma, repetindo as palavras que Naruto lhe ensinara — Tô aqui, a Hanabi tá aqui, a gente não vai deixar você sozinho.

Hanabi se aproximou também, com passos pequenos, mas firmes; era delicada e graciosa como sua irmã, e tão forte quanto. Ela segurou a outra mão de Gaara com carinho.

— Você é nosso amigo. — Sua voz doce e infantil transmitia uma paz indescritível — E amigos ficam juntos.

Gaara arregalou os olhos repletos de lágrimas, sua consciência ganhando espaço gradualmente; o Chakra oscilou, a areia parou. Com um instinto que muitos adultos não possuem, Hanabi começou a cantar, uma canção infantil de ninar, a mesma que sua irmã cantava para ela todas as noites; Konohamaru a acompanhou, desafinado, mas sincero, era tudo que podiam fazer, no entanto, aquele gesto simples era tão genuíno e inestimável, que encantava, emocionava. Temari levou as mãos à boca, chorando. Kankuro desviou o rosto, engolindo o choro. O Hokage sorriu; um sorriso triste, mas cheio de esperança. E Gaara… Gaara respirou. Devagar. Profundo. Doloroso. Mas respirou; o Chakra da Bijuu recuou, a areia caiu no chão, os olhos dele voltaram ao normal, eram seus outra vez, e ele desabou, exausto, mas consciente.

— Obrigado… — Gaara sussurrou, olhando para as duas crianças — Obrigado…

Konohamaru sorriu, como Naruto ensinou-lhe, fora corajoso e protetor, sabia que sim; Hanabi apertou sua mão cheia de alegria, sentia-se um pouco mais como a irmã, forte e gentil, e por um instante tudo ficou bem.

O ANBU na porta levou a mão ao rádio, aliviado e relaxado, e por trás daquela máscara ocultando sua identidade, uma admiração iluminava suas feições.

— Aqui é o posto 286. — Hayabusa informa no canal utilizado apenas pela divisão — O Jinchuuriki está estabilizado. Repito: estabilizado. Situação sob contro…

Foi quando a porta explodiu, literalmente, com um estrondo ensurdecedor que sacudiu o bunker, arrancando a porta reforçada de suas dobradiças e arremessando o ANBU contra a parede oposta; as pessoas gritaram, as crianças choraram, a poeira inundou o ar, e entre a fumaça quatro sombras surgiram.

— Achamos vocês. — Tayuya sorriu, a flauta já em mãos.

— E achamos o Bijuu também. — Kidomaru lambeu os lábios.

— E olha só… o Hokage veio de brinde. — Sakon riu.

— Hora de brincar. — Jiroubou estalou os dedos.

A poeira ainda não havia assentado quando o Quarteto do Som atravessou a abertura onde antes existira a porta reforçada do bunker; o ar ficou pesado, sufocante, carregado de Chakra hostil. As pessoas recuaram instintivamente, encolhendo-se contra as paredes, protegendo seus filhos, tentando desaparecer. O ANBU que guardava a entrada estava caído no chão, o peito subindo e descendo com dificuldade, sangue escorrendo pelo corpo.

— Fiquem atrás de mim! — Ao mesmo instante, o Hokage avançou.

— Olha só… o velhote ainda tem coragem. — Tayuya sorriu zombeteira.

— Chakra suprimido… paredes reforçadas… — Kidomaru inclinou a cabeça, analisando o ambiente com seus múltiplos olhos — Então é aqui que esconderam os ratinhos.

— Só aqui há prêmio triplo, Orochimaru-sama ficará contente. — Sakon riu, e Ukon abriu o segundo rosto no ombro, sorrindo grotescamente.

— Vamos acabar logo com isso. — Jiroubou avançou.

No instante seguinte o Hokage avançou contra eles rapidamente; muito mais rápido do que qualquer um esperaria de um homem de sua idade.

— Katon: Karyū Endan! — Um dragão de fogo rugiu pelo bunker, iluminando tudo com um brilho infernal.

Tayuya saltou para trás. Kidomaru ergueu uma barreira de fios dourados. Sakon desviou com agilidade. Jiroubou recebeu o impacto de frente, protegendo-se com uma camada de Chakra denso. O fogo explodiu contra eles, mas não os deteve.

— Velho desgraçado! — Jiroubou rugiu — Eu vou te esmagar!

Ele avançou como um touro. Hiruzen girou o cajado, ampliando-o com Chakra, e o golpeou no queixo com força suficiente para fazer o gigante cambalear. Mas Jiroubou não caiu.

— Você não é páreo para gente. — Ele sorriu.

Temari puxou Gaara para trás, enquanto Kankuro se posicionava na frente das crianças.

— Fiquem atrás de mim! — Ele gritou para sobressair-se ao caos.

Konohamaru tremia, mas não soltava a mão de Gaara; Hanabi estava pálida, mas firme, os olhos arregalados. Gaara tentava se levantar, mas o Chakra da Bijuu ainda oscilava dentro dele, instável, perigoso.

— Eu… eu preciso ajudar… — O garoto sussurrou.

— Não! — Temari o segurou com força — Você não pode perder o controle agora! Se Shukaku sair… todos aqui morrem!

Gaara fechou os olhos, lutando contra a onda de Chakra que ameaçava explodir novamente, precisava urgentemente controlar-se e voltar a ser útil, precisava proteger as preciosas pessoas que seus amigos amavam.

Kidomaru disparou fios de ouro, tentando prender o Hokage; Hiruzen cortou-os com o cajado, ele era o Sandaime Hokage, fora sensei dos Três Sanins Lendários, não seriam aquelas crianças imprudentes que o deteriam com tanta facilidade. Percebendo que o velho daria trabalho, Tayuya tocou a flauta, invocando três demônios ilusórios que avançaram com garras afiadas; queria cumprir suas ordens rapidamente, antes que seu mestre se impacientasse.

— Doton: Doryūheki! — Uma parede de terra ergueu-se, bloqueando o ataque.

— Te peguei. — Sakon surgiu por trás dela, rápido como uma serpente.

Hiruzen girou o cajado, bloqueando o golpe por milímetros; o impacto fez seus braços tremerem.

— Você está lento, velho. — Sakon zombou.

— E você fala demais. — Hiruzen respondeu, e o cajado se estendeu, acertando Sakon no estômago.

Ukon viu-se forçado a sair do corpo do irmão, atacando por outro ângulo; o Sandaime desviou, mas não completamente, a lâmina de Chakra cortou seu ombro, o sangue jorrou.

— Hokage-sama! — Temari gritou; tudo que podiam fazer, era proteger os civis dos ricochetes da luta, e manter Gaara estável.

Hiruzen não recuou, apesar do espaço reduzido, da dificuldade de lutar sem atingir ninguém, tentando protegê-los enquanto buscava uma chance de levar a luta para longe dali, para um lugar onde pudesse invocar Enma, ele avançou; Jiroubou aproveitou a abertura, ele ergueu um bloco de pedra com Chakra e o arremessou como se fosse um brinquedo, Hiruzen desviou, mas Kidomaru já estava pronto. Uma flecha de chakra dourado atravessou o ar. Rápida demais. Precisa demais e atingiu o Hokage no abdômen; o impacto o jogou contra a parede, o bunker inteiro pareceu tremer.

— Vovô! — Konohamaru gritou, tentando correr até ele.

— Não! — Kankuro o segurou, não estavam seguros ainda — Fica aqui!

Hiruzen caiu de joelhos, seu sangue escorria pela túnica branca, manchando-a de vermelho, sua respiração estava irregular, cansada; mas seus olhos… ainda estavam firmes, determinados.

— Eu… ainda não acabei. — Ele tentou se levantar.

Tayuya tocou a flauta antes que pudesse firmar seus joelhos trêmulos, e os demônios ilusórios o atacaram ao mesmo tempo; três golpes, três cortes profundos, três explosões de dor, o Hokage caiu.

Hanabi gritou quando Sakon a agarrou pelo braço, aproveitando-se da distração que o horror daquela cena de pesadelos dera-lhes; pressentiam mais Shinobis aproximando-se, certamente atraídos pela batalha intensa que aquele velhote travara, e não queriam ficar presos em lutas sem-fim e monótonas, já ganharam diversão suficiente por aquela noite.

— Solta ela! — Kankuro avançou, recuperando-se de seu lapso.

Ukon saiu do corpo do irmão e o chutou no estômago, arremessando-o contra a parede, Temari tentou atacar com o leque, mas Kidomaru a prendeu com fios de ouro, imobilizando seus braços; aquelas habilidades desconhecidas e imprevisíveis deixando-os em completa desvantagem, assim como as pessoas inocentes chorando encolhidas pelo bunker.

— Hanabi! — Konohamaru correu para Hanabi.

— Quieto, pirralho. — Tayuya o segurou pelo colarinho.

Gaara tentou se levantar, mas o Chakra da Bijuu, com o qual ainda lutava arduamente pelo controle do corpo e da mente, explodiu dentro dele, derrubando-o de volta ao chão; os sons da luta, o cheiro de sangue, o terror presente e palpável, tudo aquilo atiçava e estimulava Shukaku a forçar sua libertação.

— N-não… não eles não… — Gaara ergueu uma mão, a areia moveu-se.

Utilizando o poder de sua marca da maldição, Jiroubou absorveu o Chakra dele, obrigando-o a recuar, antes que não sobrasse nada; Sakon ergueu Hanabi no colo como se fosse um saco de farinha.

— Essa aqui vem com a gente. — Indiferente aos gritos, protestos e os puxões de cabelo que recebia, Sakon caminhou para a saída.

— O pirralho também. — Tayuya o arrastou pelo braço — Vamos logo, antes que os monstrinhos da ANBU cheguem.

Konohamaru chutou, mordeu, lutou, mas era inútil, eles eram apenas crianças assustadas, incapazes de pensar corretamente no pouco que sabiam; seus olhinhos amedrontados fixaram-se em seu vovô, estendo um braço debilmente em sua direção, enquanto os irmãos Sabaku’s tentavam passar pelos outros dois, que ficaram mais atrás para detê-los e ganhar tempo de fuga, e seu coraçãozinho tremeu. Hayabusa, ferido no chão, mal conseguindo manter a consciência que recém recuperara, levou a mão ao rádio, com o último fio de força; podia não ser capaz de ajudar, mas informaria quem sim poderia, cumpriria seu dever até o último suspiro.

— A… qui… é o… bunker… 286… Hokage… ferido… crianças… capturadas… — A voz quebrada, esguichava sangue com suas palavras — Tenentes… ajudem…

Gaara rastejou até o Hokage, seus olhos arregalados girando de um ferimento a outro, sem saber o que fazer, sem encontrar o raciocínio coerente naquele momento; ao seu lado, Temari ajoelhava-se, tratando de aplicar os primeiros auxílios, depois de verificar que o ANBU deixara de respirar, Kankuro vasculhava o bunker em busca de algo que pudesse ser útil.

— H-Hiruzen… — Sua voz tremia — Eu… eu sinto muito… não consegui… não consegui…

— Não… é sua culpa… meu jovem… — O velho sorriu; um sorriso fraco, mas cheio de ternura.

As pessoas no bunker estavam em choque, algumas feridas, outras em pânico; Gaara segurou o corpo do Hokage, desesperado.

— Eu… eu vou trazer eles de volta… — Gaara murmura, apertando muitas compressas que o irmão conseguira em seu abdômen, repousando as mãos do Sandaime sobre elas, para mantê-las ali — Eu prometo… prometo!

— Eu sei… que vai… — Hiruzen levantou a mão trêmula e tocou o rosto dele — Você… é um bom menino…

Gaara chorou, lembrou-se do rosto ensanguentado de seu tio Yashamaru naquele dia horrível, seu coração congelou; queria ir em busca dos pequenos, mas sentia que deveria permanecer ali, Hokage sorriu, sua mão caiu, o brilho em seus olhos começou a se apagar.

— Traga… minhas crianças… de volta… — Seu murmuro sumiu.

***

Escritório do Hokage.

Orochimaru avançou com velocidade absurda, a espada Kusanagi surgindo de sua boca como uma lança viva. Itachi desviou por milímetros. Jiraya bloqueou o golpe seguinte com um braço coberto de chakra natural, mas foi arremessado contra a parede.

— Vocês dois juntos… — Orochimaru riu — Ainda não são suficientes.

— Não estamos tentando ser suficientes. — Itachi ergueu o olhar — Estamos apenas ganhando tempo.

— Tempo? — Orochimaru franziu o cenho — Para quê?

— Para Konoha te engolir vivo. — Jiraya sorriu, cuspindo sangue.

Orochimaru abriu a boca para responder, então, um estrondo ecoou ao longe, um Chakra monstruoso, opressor, selvagem, explodiu como um terremoto espiritual; os três detiveram sua batalha destrutiva por breves instantes, conscientes da perigosa atmosfera pairando sobre Konoha.

— … Isso é… — Orochimaru sorriu.

— A Bijuu. — Itachi estreitou os olhos.

— Gaara. — Jiraya empalideceu.

— Parece que encontrei meu próximo brinquedo. — Orochimaru preparava-se para terminar tudo ali.

— Você não vai chegar até ele. — Itachi deu um passo à frente.

— Vamos ver. — Orochimaru lambeu os lábios.

***

O rádio preso ao colete de Naruto chiou com violência, interrompendo o silêncio pesado que pairava sobre o corredor do bunker 498; Hinata ainda estava ajoelhada ao lado do corpo de Natsume, as mãos trêmulas, o rosto molhado de lágrimas silenciosas. Hizashi chorava acariciando os cabelos da esposa, Neji permanecia imóvel, segurando aqueles dois bebês, como se eles fossem sua salvação, sua lucidez; quando voz fraca, quase irreconhecível, ecoou pelo transmissor.

— A… qui… é o… bunker… 286… Hokage… ferido… crianças… capturadas… — A voz moribunda informara — Tenentes… ajudem…

Hinata ergueu o rosto imediatamente, a própria personificação do medo, querendo descobrir o que ele ouvira, para deixá-lo naquele estado; Naruto congelou, por um segundo — apenas um — deixou-se abalar, então, Naruto sentiu a fúria correr em lugar do sangue em suas veias, levantou-se tão rápido que o ar ao redor dele pareceu explodir.

— Hinata. — Sua voz era baixa, grave, perigosa — Eles levaram Hanabi.

Hinata ficou pálida, o Byakugan se ativou sozinho, como um reflexo de puro desespero.

— Não… — Pondo-se em pé ao instante, sua voz doce logo tornou-se um grunhido — Não… não… não…

— Eles levaram Konohamaru também. — Naruto termina de compartilhar a informação com ela, ao mesmo tempo que sacava suas Ninja-tō’s — O vovô… está ferido.

Hinata endureceu suas feições delicadas, não havia tempo para luto, não havia tempo para medo, não havia tempo para nada, deveriam reagir e reverter aquilo, deveriam esmagá-los com um golpe mais letal; Naruto apertou o rádio, ordenando rapidamente, instruindo e montando uma estratégia para voltarem ao caminho da vitória.

— Aqui é Kitsune. Localização do bunker 286 imediatamente. — A voz gélida do Uzumaki fez os presentes arrepiarem-se — Todas as unidades próximas, preparem-se para suporte!

Hinata enxugou as lágrimas com as costas da mão; quando ergueu o rosto, a Hyuuga não era mais a menina gentil que acabara de trazer duas vidas ao mundo. Ela era Neko. A Tenente ANBU. A sombra que caçava monstros.

— Vamos. — Ela disse, a voz firme, fria, afiada como uma lâmina — Agora.

***

O ar estava pesado demais, quente demais, cheirava a sangue, poeira e desespero; Gaara ainda segurava o corpo do Hokage, tremendo, chorando, tentando impedir que o velho homem escorresse por entre seus dedos como areia. Temari e Kankuro tentavam estancar o sangue, mas era inútil; as pessoas estavam em choque, algumas feridas, outras paralisadas pelo medo. E então, um som cortou o ar, um deslocamento de vento, um impacto suave no chão; duas figuras surgiram na entrada destruída do bunker. Neko. Kitsune.

As máscaras brancas refletiam a luz vermelha das lâmpadas de emergência; os olhos — um par de pupilas azuis incandescentes e um par de olhos perolados brilhantes — varreram o ambiente em um segundo. Naruto foi o primeiro a se mover, correu até o Hokage, ajoelhando-se ao lado dele.

— Hokage-sama… — Sua voz falhou — Me desculpe… chegamos tarde…

— Naruto… meu menino… — Hiruzen abriu os olhos com dificuldade.

— Gaara, respira. — Hinata se ajoelhou ao lado de Gaara, tocando seu ombro — Estamos aqui agora.

— Eles… levaram… — Gaara ergueu o rosto; os olhos dele estavam vermelhos, inchados, desesperados.

— Eu sei. — Enquanto aplicava o Ninjutsu médico em seu vovô, Hinata o tranquiliza — Tenta se acalmar, nós vamos resolver tudo.

— Quem fez isso? — Naruto segurou a mão do Hokage.

— O… Quarteto… do… Som… — Hiruzen respirou com dificuldade.

Naruto fechou os olhos, quando os abriu novamente, não havia mais humanidade ali; apenas fúria. Hiruzen apertou sua mão, queria dizer-lhe que não se deixasse levar, que não deixasse de ser o Naruto que ele vira crescer, mas já não tinha forças; o velho Hokage desmaiou, ainda vivo, mas por um fio. Naruto levantou-se devagar e Hinata acompanhara-o, encarregando a equipe médica que acabara de chegar de assumir seu lugar. Os dois olharam-se, e como sempre, chegaram a um entendimento mudo, e a energia que emanara de suas presenças era horripilante; a caçada começara. Naruto tocou o rádio.

— Aqui é Kitsune. O Hokage está gravemente ferido. Hyuuga Hanabi e Sarutobi Konohamaru foram capturados pelo Quarteto do Som. — Sua voz soou como um rosnado — Todos os esquadrões ANBU: prioridade máxima. Bloqueiem todas as rotas de fuga.

— Aqui é Neko. Ativem o protocolo de cerco total. — Hinata completou — Ataquem em grupos, cuidado com os reféns, conduzam os desgraçados para a floreste a noroeste!

As máscaras ANBU brilharam sob a luz vermelha. E então desapareceram. Como sombras. Como fantasmas. Como a morte.

***

Kakashi recebera a mensagem primeiro, seu corpo paralisou, suas reações há instantes tão precisas e perigosas foram interrompidas, retornando apenas quando a compreensão fizera um arrepio estremecê-lo, a tempo de esmagar a cabeça de um Nukenin contra uma parede; seus olhos varrerem as ruas, buscando seus alunos, ele não hesitou.

— Sakura. Sasuke. Kiba. — A voz de Kakashi sobressaíra ao caos — Comigo, agora!

Sakura já estava correndo ao seu lado antes mesmo de Kakashi terminar a frase, logo, Kiba e Sasuke também reagiram e os seguiram alguns instantes tarde; não sabiam por que abandonariam sua posição de chamariz, mas eram espertos o bastante para saber que algo grave ocorrera. E então, eles sentiram, seguindo-os de perto, muitas presenças que identificaram imediatamente; o time de Sai, o time de Shikamaru, e até mesmo, o time de Suna. Todos convergindo para o mesmo ponto. Todos prontos para matar ou morrer.

Havia uma seriedade intensa pairando sobre os Jounins, dando a certeza que os Chunins e Genins presentes precisavam para deduzir que algo no plano dera errado, e deveria ser algo muito inesperado, para tantas equipes serem mobilizadas ao mesmo tempo; quando Kakashi iria iniciar uma breve explicação dos fatos, outros juntaram-se ao seu grupo. Eram Gai e Asuma.

— Kurenai e Ibiki? — Kakashi pergunta, sem saber se queria uma resposta.

— Kure está ferida, Ibiki está por um fio. — Asuma conta enraivecido — Antes de chegar ao bunker, os quatro entraram em confronto com eles.

— Anko está com o Hokage. — Antes que o Hatake questionasse, Gai explica — Deixei Lee e Tenten com Neji, ele precisa de suporte agora.

— Não me diga…? — Kakashi quase erra um passo.

— Sim, a senhora Natsume morreu ao dar à luz. — Dessa vez, é Shikamaru quem compartilha as informações obtidas com a central.

Depois de manter-se em silêncio por um instante, em respeito a falecida, o Hatake volta-se a missão que recebera, explicando as funções de cada um, e ressaltando a imprevisibilidade dos Jutsus dos inimigos; neste ponto, os irmãos Sabaku’s foram de muita ajuda, os viram lutar e tinham as informações necessárias para que seu ataque tivesse alguma eficácia. Sai e Shikamaru ressaltaram que deveriam ter cuidado, ou seus adversários usariam os reféns como escudo para escaparem, que sua missão era fazê-los parar, até que a segunda equipe de suporte os cercasse.

— Eles virão? — Inesperadamente, é Sasuke quem questiona.

— De que adiantaria? Sem deter a fonte, isso nunca termina. — Compreendendo a quem o Uchiha referia-se, Shikamaru fala sugestivo.

— É por isso que nos encarregaram essa tarefa, confiam tanto em nossas habilidades, que nos encarregaram sua família. — Sai complementa — Estão logo à frente.

Mais uns poucos passos, e logo, o grande grupo alcançara seus alvos, que obviamente, os aguardavam com sorrisos zombeteiros, confiantes e desafiadores; o Quarteto do Som estava cercado, mas estranhamente, estavam tranquilos com relação a sua desvantagem numérica. A razão era clara, sua marca da maldição, o poder supremo com que seu mestre os presenteara, e que fazia-os eternamente gratos a ele; os Nukenins não temiam morrer, nem cogitavam essa possibilidade. E quando sua segunda batalha iniciaria, eles se deixaram envolver, entusiasmados como se estivessem brincando em um parquinho, poderiam desviar seus ataques, desferir golpes que perturbariam seus perseguidores, provariam sua superioridade naquele divertido jogo de gato e rato; os times de Konoha por sua vez, estavam atentos às ordens recebidas, mantê-los-iam ali, trabalhando em equipes e pela primeira vez, agindo como um só.

— Gaara! — Sakura estava ao lado do garoto e o chamou. — Me dá suporte!

Ele assentiu, os olhos arregalados, tentando entender o que a garota faria, no instante seguinte, areia se ergueu levando a Haruno junto, e logo avançando rapidamente contra os inimigos; os punhos dela, envoltos em Chakra bruto, foram envoltos por areia densa, tornando-se um Kanabo, Gaara era o Oni, Sakura o Kanabo. No momento em que seus punhos tocaram o chão, destruíram árvores, quebraram ossos, e o grito agonizante de um dos quatro preencheu a floresta naquele início de dia; Kidomaru quase perdeu um braço. Tayuya foi arremessada contra uma rocha. Sakon e Ukon foram separados à força. Jiroubou caiu de joelhos, cuspindo sangue. E como pretendido, os quatro foram separados, e a cabaça onde, provavelmente, as crianças estavam presas, fora afastada deles; rápido como um raio, Gai afastara-a do seu alcance, quatro de seus oito portões internos abertos, liberando uma abrumadora quantidade de Chakra.

— Desgraçada! — Tayuya xingou enraivecida.

— Olha a boca, Tayuya. — Jiroubou adverte.

Assim que ergueu-se recuperado, o enorme sujeito fizera de Gai seu alvo e tencionando roubar-lhe seu Chakra, atacara-o; o Nukenin apenas não contava que do lado de Konoha também tinha alguém capaz de absorver Chakra, e quando Madoka usou nele sua chuva rancorosa, o homenzarrão perdeu as forças, caindo de joelhos, sendo aprisionado por sombras estranguladoras. Ao perceber que os times enviados para persegui-los e capturá-los não eram amadores, apesar de claramente terem Genins entre eles, os outros três decidiram mudar sua postura, agora lutariam a sério; desta forma, Sakon e Ukon atacaram a Kiba e Akamaru, Kakashi Sasuke e Sai, enquanto Tayuya enfrentava Gaara, Sakura, Temari e Kankuro com seus três monstros Doki, e Kidomaru enfrentava Gai, Asuma e Chouji, Shino encarregara-se de ajudar Madoka a manter o inimigo sob controle, usando seus insetos devoradores de Chakra, reduzindo assim a carga de Shikamaru, que necessitava muita força para conter aquele enorme sujeito, tudo isso, enquanto protegiam e mantinham a “prisão” dos pequenos longe de seus raptores.

Aquele terreno rapidamente transformou-se em uma zona de guerra, Jutsus utilizando Katon, Doton, Suiton, Fuuton eram vistos em todos os focos de confrontos, dos mais variados e poderosos; graças a prevenção do time de Suna, as equipes estiveram prevenidas contra as flechas extremamente resistentes lançadas por Kidomaru, assim como para a divisão e endurecimento corporal de Sakon e Ukon, e as medidas contra eles eram Sakura e Gai com sua força bruta, as marionetes de Kankuro, e os escudos de areia e Doton criados por Gaara e Kakashi. Contudo, contra o Genjutsu de Tayuya eles foram pegos desprevenidos, e estavam quase sendo fatiados por seus demônios, quando Shikamaru interviera, combinando ataques Fuuton de Temari e Asuma para repelir o som da flauta, além de tencionar destruí-la; fora nesse instante que a estranha habilidade daqueles gêmeos grotescos fez-se presente, e como um parasito, a cabeça de Ukon apareceu no ombro de Kiba, assustando-o de morte.

— Ah, que divertido, que corpo mais saboroso, não é, Sakon? — Ukon diz sinistramente.

— Guarde um pouco para mim, Ukon. — Desferindo um chute poderoso em Akamaru, Sakon responde.

Em seu desespero por livrar-se daquele parasita, que ele sentia drenar-lhe a vida, Kiba crava a kunai no próprio corpo, atingindo uma região um pouco abaixo das costelas do lado esquerdo, lodo de seu corpo onde aquela cabeça tenebrosa surgira; sua estratégia funciona, embora, ele não tivesse como saber ainda que isso condená-lo-ia. Agora receosos de atacar diretamente os gêmeos estranhos, Sasuke, Kakashi e Sai se reagruparam, realizando ataques de longa distância enquanto pensavam em uma nova estratégia para detê-los, e usando os humanoides de tinta de Sai, tencionavam fazer algum selamento forte o bastante para prendê-los; neste momento, Sakura deixara a garota da flauta com seus companheiros e fora atender seu colega de equipe, aplicando Ninjutsu médico em Kiba e Akamaru ao mesmo tempo.

Fora nesse instante que uma nova presença surgiu, aproximando-se de seu local de batalha calmamente, cheio de confiança, com uma frieza letal; os quatro, pareciam respeitá-lo e temê-lo, pois mesmo atentos aos seus próprios confrontos, inclinaram as cabeças minimamente diante dele, eles sabiam, era graças a Orochimaru-sama, Juugo e Kimimaro que fortaleceram-se. A presença desconhecida para os Shinobis deixara-os em estado de alerta, ainda mais, quando podiam sentir nitidamente a força abrumadora daquele homem; Kimimaro não parecia interessado neles, ele caminhou entre os destroços do chão como se estivesse passeando por um jardim, pegou a cabaça onde Hanabi e Konohamaru estavam presos, e quando Shino e Chouji precipitaram-se para impedi-lo, uma barreira intransponível de ossos interpôs-se em seu caminho.

— Orochimaru-sama ordenou que terminemos aqui. — Uma voz monótona abandou seus lábios — E partamos imediatamente.

E tão repentino como surgira ali, desapareceu, deixando os times estáticos, completamente sem reação diante da insanidade daquilo, o psicológico já abalado pelas ressentes descobertas a respeito das famílias de seus companheiros, seus companheiros e seu venerado Hokage, começava a ruir diante da irracional força inimiga, que os estava aplastando impiedosamente, mesmo com todos os seus preparativos incansáveis; em cheque, os times não sabem o que fazer, não podiam dividir-se, estavam feridos, Kiba já inconsciente sendo tratado por Sakura, e agora que a garota concentrava-se com a ajuda de Madoka para aplicar o Ninjutsu médico, eles tinham apenas Chouji com suficiente força bruta para fazer frente a um dos quatro, os Shinobis então começavam a abalar-se, quando alguns deles os sentiram indo em seu socorro, e sabendo que poderiam retomar sua missão tranquilamente, voltaram a concentrar-se. Sasuke e Kiba eram os únicos que não sabiam, mas este último ainda estava inconsciente, então apenas o Uchiha esteve confundido e perplexo diante da reação dos outros, que voltaram a lutar arduamente, concentrados apenas nisso, como se um quinto Nukenin não tivesse acabado de sair carregando tranquilamente a razão de estarem ali.

Esse fora o primeiro abalo de Sasuke, o segundo viera logo em seguida, quando ele sentira aqueles Chakras, dois deles muito conhecidos, um terceiro que ele recordava vagamente; Sasuke congelou-se com as mãos a meio caminho de fazer os selos, começando pelo do tigre para mais um Katon, a técnica da grande bola de fogo, quando seus olhos vermelhos viram as três figuras parando diante deles. Itachi estava ali, ao seu lado esquerdo, a garota que Sasuke sabia, fora sua namorada quando a vida deles ainda era normal, Uchiha Izumi, ao seu lado direito alguém que o jovem Uchiha acreditava estar morta, Uchiha Mikoto, viva, inteira, respirando. Sasuke deixou de respirar, deixou de piscar, não moveu-se, petrificado em choque, ao ponto de Kakashi ter de intervir e defendê-lo de um ataque de Sakon, que aproveitara-se de sua distração; durante esses segundos infinitos, Itachi usara seu Magekyou e atingira Ukon com o Amaterasu.

— M-mãe…? — Sasuke chamou num múrmuro estrangulado, querendo certificar-se que aquilo não era um Genjutsu.

— Sasuke. — Chamando o nome do filho pela primeira vez em anos, Mikoto sorriu tristemente, vendo impressionada, o quanto seu caçula crescera — Depois explicamos tudo, prometo!

— Kakashi, Sakumo está vindo mais atrás com um esquadrão maior. — Fixando seus olhos carmesim no Hatake, Itachi informa — Iremos atrás das crianças, Jiraya está perseguindo Orochimaru.

— Certo, nós terminaremos aqui e reagruparemos. — Desviando de mais um ataque de Sakon, agora enfurecido por ver seu gêmeo agonizando, Kakashi concorda.

E enquanto eles conversavam em códigos e lutavam ao mesmo tempo, Sasuke percebe que assim como Sai, Shino, Madoka, Shikamaru e Chouji não aparentavam estar espantados com a presença dos três Uchiha’s — e mais absurdo ainda — que eles estavam a favor de Konoha, Sakura também não parecia surpresa como ele ficara; a garota vira Itachi chegar, e aceitara sem hesitação as pílulas regenerativas que ele lhe alcançara e continuou tratando do colega, e vendo o garoto petrificado, precisando até mesmo ser protegido durante sua inércia estarrecida, Kakashi chama Sasuke à realidade, ordenando que se concentrasse na luta, e logo, os três partem no encalço de Kimimaro. O quarteto até tenta detê-los, mas com Kakashi, Shikamaru e Sai livres de suas preocupações com as duas crianças, tanto por não precisarem mais se conter temendo atingi-los ou que fossem feitos de reféns para obrigá-los a recuar, mudam de postura; agora eram o ex-ANBU letal de seus tempos, e os dois discípulos dos atuais assassinos mais competentes de sua geração.

Longe dali, correndo pela floresta com a cabaça debaixo do braço, Kimimaro sentia a doença cobrando seu preço, sabia que seu corpo trêmulo e exaurido estava em seu limite, ele era mortal, afinal; sentindo a brisa suave da floresta, indescritivelmente com cheiro verdejante, Kimimaro pensou que aquele era um bom lugar para morrer, talvez, se lhe restassem forças, voltaria ali, depois de cumprir sua última missão por seu mestre. As três sombras surgiram diante dele antes que pudesse detectar suas presenças, rápidas e ágeis, uma bola de fogo voou em sua direção enquanto chamas negras o perseguiam pelas costas, e quando começava a reagir no instante seguinte, a prisão fora tomada de seu agarre por uma enorme mão roxa de um Susanoo; o osso da espinha de Kimimaro se transformou em uma lança e ele cortou a bola de fogo, e quando as chamas negras do Amaterasu consumiram sua lança, abandonou-a, rapidamente criando outra.

— Parece que vou demorar um pouco, Orochimaru-sama. — Abandonando sua costumeira calma, disse resignado.

A luta brutal entre habilidosos ninjas usuários de poderosos Kekkei Genkai, é sangrenta e devastadora, mudando drasticamente a paisagem a sua volta, as lanças de ossos e os projeteis de dedos de Kimimaro eram um formidável ataque a longa distância, só que contra isso, os Susanoo’s de Itachi e Mikoto os protegiam, ao mesmo passo que trucidavam com força bruta, as barreiras ósseas criadas pelo último membro do antigo clã Kaguya; e durante os espaços de tempo entre um ataque e outro do servo mais fiel do Sannin das serpentes, Izumi alvejava-o com Katon e buscava prendê-lo em um Genjutsu. A batalha era intensa, acirrada, fazendo Itachi dar-se conta, que se seu adversário estivesse em melhor forma, estariam em problemas; e mesmo doente, Kimimaro estava dando trabalho, ele também era um prodígio, era um guerreiro determinado e impressionante, o único porém em seu caminho, seu corpo mortal e suscetível aos males da natureza humana.

— Orochimaru-sama… falhei… — Caindo de joelhos, cuspindo charcos de sangue, Kimimaro murmura.

— Se ele estivesse saudável, seríamos nós caindo. — Izumi comenta abismada — Vou ter que agradecer a Sakumo depois, graças aos anos de espionagem dele, pudemos estar preparados para vencer esse monstro.

— É uma pena que sua solidão o tenha levado ao caminho equivocado. — Itachi replica pesaroso, empatizara com o pobre homem.

— Vamos nos afastar daqui, não é bom que eles vejam isso, já presenciaram desgraças demais para suas curtas vidas. — Mikoto sugere, e tocando seu rádio, chama — Equipe de resgate reportando: as crianças foram salvas. Estamos retornando agora. Os levaremos para atendimento imediato.

As respostas vieram em seguida, fazendo seu rádio chiar ininterruptamente, as equipes em Konoha, as equipes enfrentando o Quarteto do Som, Jiraya ainda perseguindo seu alvo, a central na sede, todos comemorando, aliviados; ao final da torrencial confirmação de situação, uma voz friamente rouca, que mesmo a quilômetros dali fez os três tensionarem-se, soou com um peso macabro.

Positivo. Retornem e fiquem em segurança. — Naruto ordenou do outro lado, e antes que seu rádio cortasse a transmissão, ao fundo, Mikoto ouvira gritos agonizantes.

***

Orochimaru cambaleava pelo corredor estreito da caverna, apoiando-se nas paredes úmidas como um animal ferido, seu corpo tremia convulsivamente, esgotado; a fadiga de exigir demais daquele corpo imperfeito fazendo-se presente dolorosamente, escapara de Jiraya por pouco, muito pouco, e cada passo ecoava como um lembrete de que estava vivo por pura teimosia.

— Maldito… — Orochimaru sibilou, cuspindo sangue — Sempre… sempre se intromete…

A caverna se abria em um salão enorme, escuro, iluminado apenas por tochas fracas que tremulavam com o vento subterrâneo, Orochimaru, depois de despistar Jiraya muito arduamente, conseguira esgueirar-se para seu esconderijo, onde aguardaria seus prêmios tão esperados; estava cansado, quase sem Chakra, fora obrigado a usar suas habilidades mais poderosas e desgastantes, fora levado ao extremo, e ainda assim, não tivera o prazer de encontrar Hiruzen amedrontado por seu ataque à sua preciosa Vila, tudo que havia naquela sala, protegida por aqueles dois em uma emboscada que ele caíra estupidamente, era um clone incrivelmente real transformado no Hokage.

Konoha sofrera danos, era visível, as casas estavam em chamas, os prédios caindo e desmoronando, mas não havia baixas nos civis, não havia civis caídos pelas ruas, nada de corpos mortos, nada de gritaria e pânico, apenas os Shinobis lutando e resistindo às forças invasoras, reagindo ao ataque já sabendo que aconteceria; tudo era uma emboscada, perdera seus aliados, perdera forças, e tudo que obtivera fora um mísero pequeno espólio, ao menos, teria o neto do velho decrepito como experimento. A pequena Hyuuga, o neto do Hokage, dois tesouros valiosos, dois experimentos perfeitos e com vida abundante; os teria por muito tempo, talvez os tornasse sua versão dos assassinos ANBU’s de Konoha.

— Finalmente… — murmurou, a voz arrastada — Finalmente algo… valeu a pena…

Orochimaru quase sorria, seu rosto ofídico com um suor pegajoso tornando-se horripilante, ao listar tudo que faria ao pequeno Sarutobi, quando detém seus passos solitários naquele grande e vazio salão escuro da gruta; não os sentira até estar perto o bastante, até não haver distância segura para escapar, ali em seu grande e frio “trono” eles o estiveram observando o tempo todo, silenciosos, pacientes, como bestas famintas durante a caçada. As máscaras estavam erguidas sobre suas cabeças, as roupas negras estavam molhadas, pingando um líquido vermelho pelo chão de pedra, emanando um odor férreo, e os olhos cintilantes que o fitavam ininterruptamente, ardiam em ódio e fúria.

Estavam sentados naquela grande cadeira de pedra, como dois monarcas supremos, depois de ter exterminado com todos os experimentos e prisioneiros Nukenins naquele fétido buraco, aguardando pela grande presa, aquela que poriam a cabeça empalhada em sua sala; o olhar frio, superior e desdenhoso que recebera, fez Orochimaru ficar extasiado, excitado, principalmente porque descobria alegremente que os dois alvos que tanto queria capturar, eram também, os dois ninjas que desejava fervorosamente recrutar, os famosos Neko e Kitsune eram Hyuuga Hinata e Uzumaki Naruto.

Naquele infinito segundo em que tudo acontecia e começava a fazer sentido, o rapaz deixa de girar preguiçosamente a Kunai em seu dedo, e erguendo seu corpo em desenvolvimento, atlético, forte, e já em tão pouca idade, robusto, estende uma mão graciosamente, escoltando sua companheira de vida, que parecia flutuar ao erguer-se, esbanjando suavidade; era uma imagem estranha, ao mesmo tempo em que aquilo era belo e cheio de cumplicidade, era aterrador, era uma beleza temível e horripilante.

— Por que encerrou sua visita tão cedo? — A voz doce dela era linda, era suave, era mortal — Nem nos deu tempo de servir o chá.

Ao ouvi-la, Orochimaru sentiu-se estranho, sempre fora ele quem usava da paralisia para capturar suas presas, mas incomumente, estava paralisado, enfeitiçado demais para pensar com coerência e fugir; até o momento, o rapaz a esteve fitando embebecido, no entanto, quando seus olhos pousaram no Sannin, Orochimaru estremecera em antecipação, com aquele olhar inumano encarando-o, hipnotizado pelos olhos pertencentes a uma fera, um rei, um carrasco.

— Você ousou invadir a minha Vila? — Com uma raiva borbulhante e palpável, Naruto exigiu como um ser supremo e autoritário; as Ninja-tōs empunhadas — Ousou tocar minha família?

— Agora vamos retribuir a gentileza. — Hinata afirma, o Byakugan cintilando, os Tessen’s ensanguentados nas mãos.