O Sol.

1 Capítulo Único.


" — Eu... Eu gosto de você, Paul..
– Esqueça esse sentimento, eu não me importo, isso nunca vai ser correspondido.


Aquelas palavras a atingiram como pedras lançadas com toda a força em direção dela. Palavras secas, que não deram importância aos sentimentos da garota em sua frente. Ele deu meia volta e saiu do centro pokémon em que eles se encontravam, sem ao menos olhar para trás, não vendo as lágrimas que agora escorriam sem parar pela pele alva daquela que expôs seus sentimentos e foi rejeitada com rudes e dolorosas palavras. "


Sem Ash e Brock ao lado, Dawn tentou retomar seus passos e após algum tempo de estadia em sua casa, voltou a viajar apenas com seus companheiros Pokémons. Havia um bom tempo em que ela estava na estrada sozinha e não se importava tanto com essa solidão, até que um belo dia reencontrou Paul, participando de um torneio avulso dos que ele costumava participar. Apesar de não ter muita convivência com o garoto de cabelos roxos, a mesma ficou até o fim para ver os resultados e após a vitória do mesmo, foi cumprimentá-lo em busca de saber como estava se saindo agora que recomeçara sua jornada após a liga de Sinnoh.


Obviamente, ele não foi tão amigável como ela imaginara. Pra começar, o mesmo nem lembrou-se dela, muito menos do nome, o que a deixou brava. Segundo que, como sempre, foi rude, arrogante e deixou-a falando sozinha, o que fez ela ficar mais brava ainda, porém, como era teimosa, foi atrás dele e até que o mesmo pedisse desculpa, não iria embora. Ele não iria pedir desculpas de jeito nenhum, e então ali, foi onde inicou-se uma pequena jornada que ambos compartilharam juntos. Meio estranho de se iniciar tudo, mas por incrível que pareça, depois de um tempo, os dois nem se importavam mais em viajar na companhia do outro, e até ele, que tinha um jeito mais fechado e solitário não a mandou embora.


Havia se passado mais ou menos oito meses, em que os dois continuavam caminhando juntos nessa jornada. Ela, apesar de ser meio difícil conversar com ele, tinha aprendido a conviver com o mesmo e vice e versa. Já haviam passado por tantas coisas juntos, e ele até concordara em assistir alguns torneios em que a garota participara, enquanto ela, torcia para o garoto assim como torcera por Ash há tempos atrás. De certa maneira, compartilharam emoções, batalhas, algumas intrigas que depois eram cessadas de alguma forma, e várias aventuras, as quais uniram-os de modo que jamais imaginariam, e com o tempo, da parte dela, estava crescendo algo a mais nisso tudo.


"Eu queria lhe dizer, Paul... Eu queria lhe dizer o que sinto... Mas tenho tanto medo da sua resposta... É por isso que... Prefiro ficar calada... Eu não quero me afastar de você..."


Convivendo com isso, Dawn passava os dias mais calada, mais afastada, mais triste. E não demorou muito para que o garoto percebesse isso, já que, era ela quem sempre vivia falando alegremente, e tudo o que ela observava de novo em sua frente era motivo para alarde e muitas vezes, era daquilo que sempre vinham as confusões em que ambos se metiam. Mas, na verdade, ele não queria admitir que era sempre ela que animava seus dias, e era ela que havia o libertado daquela prisão solitária na qual sempre viveu. Realmente, ela foi a luz que ele viu, e mesmo a ignorando, sendo rude e mal, no fundo ele gostava daquela energia em que a mesma proporcionava, ela era tudo o que ele tinha de bom agora. Ou pelo menos... Era.


Cidade de Snowpoint, dia 28 de junho, 16:00.


Era um dia frio. Não era novidade, já que naquela cidade era sempre assim, e mesmo que existisse um ponto de sol, o vento gelado habitava o local, fazendo as pessoas muitas vezes baterem o queixo. Dawn, olhava da janela do centro Pokémon direto para o treinador que estava treinando novas técnicas para usá-las em batalhas que estavam por vir. Ela até se disponibilizou a ajudá-lo, porém, ele virou as costas, e conhecendo-o bem isso significava que não precisava de ajuda nenhuma. Se encontrava pensativa naquele momento, ainda pensando naquilo. As batidas de seu coração sempre desregulavam quando estava perto dele, e o chão era totalmente perdido, deixando-a desequilibrada e aquilo muitas vezes a atrapalhava, inclusive em suas batalhas de torneio. Estava se tornando meio incomodativo, então, ela decidiu que ia falar tudo o que sentia. De certa forma, convivendo com o mesmo, criou esperanças de que ele sentia algo por ela também, e isso dava alguma força, mas infelizmente ela deixou-se levar pelo sentimento e escolheu o caminho errado. Ela esqueceu que ele era o Paul, o garoto no qual era rude, arrogante, e acima de tudo orgulhoso, e não admitia as coisas fácil assim. Ela esqueceu que, poderia ser ignorada e não se preparou totalmente pra isso. Não se preparou totalmente para o pior.


Passou-se um bom tempo e logo, Paul estava vindo de seu treino. Ainda treinava do jeito duro, mas havia parado de maltratar seus pokémons. Ele mudou muito, inclusive, depois que ela apareceu em sua vida. O relógio marcava seis e meia. O tempo estava começando a escurecer, e o frio já tomava conta do lugar, acompanhado de uma pequena nevasca que fazia os treinadores e visitantes se acolherem no Centro Pokémon. Os olhos do rapaz ao entrar, buscou no lugar procurando alguma pista de onde estaria sua companheira de viagem, logo notando a mesma escondida no canto da mesa, ainda olhando para a janela, parecendo estar contando os flocos de neve que caiam. Quando o viu, ela levantou-se e caminhou em direção a ele, ficando frente a frente com o mesmo. Não entendo-a bem, o treinador ficou olhando-a, tentando descobrir o que estava acontecendo, e o porque de ela estar tão ofegante e totalmente corada. Quando foi dialogar para quebrar aquele clima de silêncio, ela o olhou nos olhos e se declarou. "Eu... Eu gosto de você, Paul.." foi tudo o que a mesma conseguiu falar naquele primeiro momento, mas foi o suficiente para deixa-lo surpreso e sem palavras.


Vendo a reação dele, ela de certa maneira ficou feliz. Conseguiu deixá-lo sem palavras e levou isso como ponto positivo. Apesar de estar corada e sem graça, mal olhando para o rosto do rapaz, esboçou um sorrisinho contente e quando ia terminar de falar, foi cortada com a resposta que saiu diretamente dele. Ao vê-lo saindo do Centro Pokémon depois de dizer aquilo, correu para seu quarto, não impedindo que as lágrimas se derramassem ainda mais sobre seu rosto. Quando deitou em sua cama, as palavras que ele dissera ainda ecoavam sobre seus pensamentos em vários tons e repetitivamente, fazendo-a chorar mais ainda, sentindo seu coração quebrar lento e dolorosamente.


"Esqueça esse sentimento, eu não me importo, isso nunca vai ser correspondido."


Andou pela neve grossa que agora se formava no chão e enfrentou a nevasca que aumentara de intensidade, até chegar a uma caverna qualquer e ali se abrigou. Depois de ser tão direto com as palavras, resguardou-se novamente em um casulo de dor e silêncio. Afastou-a, talvez agora, para sempre. Não quis ao menos entendê-la, não quis ao menos dar uma resposta mais sensata. Foi arrogante, foi bruto, e foi mal. E não era porque não gostava dela, era porque tinha medo de mostrar isso enfrentando diretamente sua fama de "rapaz sério e sem coração". Porém, ele tinha sim um coração, e batia por aquela que iluminou seu caminho, aquela que animou seus dias, aquela que agora estava sofrendo por causa dele. Só dele. O tempo que passou na caverna, apesar de poucos minutos, já mostrava ao mesmo como era terrível ser solitário novamente. Ambos já estiveram em situações assim, mas havia uma diferença. Eles estavam juntos. Não tinha sentindo ele estar sozinho novamente ali, sendo que poderia estar com ela, poderia compartilhar coisas com ela, e agora, poderia amá-la. Sim, poderia amá-la, poderia tê-la, mas preferiu ficar na solidão, e assim se manteve, até amanhecer.


O dia ficou totalmente nublado naquela manhã. Nem um raio de sol quis aparecer, fazendo o frio permanecer no local. Paul acordou, meio atordoado ainda, mas agradecendo a si mesmo por ter um casaco quente o qual o fez sobreviver a nevasca. Levantou-se, e foi até a entrada da caverna dando uma olhada ao redor, e quando lembrou motivo pelo qual estava ali, mirou em direção do Centro Pokémon, pensando em como Dawn estaria agora. Ele voltaria pra lá, ou seguiria em frente sem ela? Perguntas como esta ficaram girando em sua cabeça por um longo tempo, até que tomou uma decisão. Se foi ela que o salvou de tudo no começo, então agora, salvaria a mesma daquilo também. Não seria covarde, não mais. Iria lá, iria pedir desculpas e se conseguisse, agradeceria por tudo, e falaria que seu coração batia pela mesma também. Não queria perdê-la, realmente não queria, e depois de respirar fundo, seguiu o caminho que levaria ao centro, e que levaria até ela.
O chão estava com uma grossa camada de neve, enquanto tudo ao redor estava congelado. Foi uma das nevascas mais fortes da cidade, e ao horizonte a imensidão branca era muito vasta. Ele andou na monótona paisagem devagar, mas não por muito tempo. Parou de repente. Paralisou por segundos, olhando em sua frente algo caído no chão. Algo ou alguém.


"Não, não pode ser ela, pode?"


Correu em direção ao corpo, e quando estava mais perto, pode ver os longos cabelos de cor azul espalhados na neve. Seu coração parou. Estava totalmente sem movimento, sem respiração, sem batimentos cardíacos e acima de tudo, gelada como a neve que agora havia começado a cair. Sem casaco algum, apenas com a roupa habitual que usava em suas jornadas. Rapidamente, em uma solução quase inútil no momento, tirou o casaco que estava usando e abaixou-se para cobri-la, em seguida, abraçando-a o mais forte o possível. Sua voz estava trêmula, mas ainda chamava por ela em busca de resposta, mas não obteve nenhuma. Apesar de não querer admitir, ela estava morta, em consequência do frio.


"Porque? Não, você não pode me deixar, não pode! Volte para mim, Dawn, por favor.."


Essa, foi a primeira vez em que ele lembrou o nome dela. A primeira vez em que ele a abraçou e a sentiu em seus braços. A primeira, e a última. Estava desolado, e de seu rosto escorreu uma primeira lágrima, uma lágrima verdadeira. De repente, o vento soprou um papel que estava ao lado da mão dela. Ele notou e rapidamente o pegou. Seus olhos marejados não conseguiram ler muita coisa, mas mesmo assim forçou-se a aquilo.


"Eu... Eu gosto de você, Paul... Muito, e mesmo se não corresponder aos meus sentimentos agora, eu sempre vou estar ao seu lado. Sei que vai ser rude, vai ser arrogante, ou algo do gênero quando eu falar isso para você, e sei que vou ficar triste e talvez chorar, mas eu não vou desistir de você, afinal, eu já consegui lhe tirar da solidão em que você se aninhou, não é? Meu próximo passo vai ser conquistá-lo e algum dia eu irei ouvir de seus lábios "Eu gosto de você, Dawn" e nesse momento eu lhe abraçarei forte, pois saberei que consegui aquecer seu coração a ponto de de fazer todo esse frio que estou sentindo ir embora e se tornar apenas uma recordação de inverno que lembraremos juntos quando tudo isso passar. Volte logo Paul, estou te esperando, como sempre fiz."


Após ler aquelas palavras, não evitou que mais algumas lágrimas caíssem de seu rosto. Ela teria vindo atrás dele, na tentativa de tentar encontrá-lo e não conseguiu. Imaginou o frio em que ela passou, imaginou ela caindo na neve e não conseguindo mais continuar. Imaginou o último suspiro, congelando na neve, na tentativa de achar o cara que havia sido rude com a mesma. Ele se sentiu culpado, se sentiu arrependido e assim continuou a abraça-la fortemente enquanto suas lágrimas cairam sobre o corpo da mesma. Agora era tarde, tarde demais para ele falar o que sentia por ela. Tarde demais para tudo.


Por um momento o sol apareceu. Apareceu abraçando-o, e o envolvendo calorosamente, de forma bondosa e gentil. Tinha asas, e lhe aquecia o coração de uma maneira que ninguém jamais vai aquecer. O sol que secou suas lágrimas, o sol que o acomodou em seus braços no momento de tristeza. O sol que o acalmou no momento de raiva e arrependimento, e agora encostava seus raios nas costas e ombros dele para acalentá-lo naquele momento de solidão.


"E apesar de nunca ter ouvido-o falar, suas lágrimas já me mostraram o quanto você gostava de mim. Não se sinta culpado, e lembre-se, eu estarei aqui, sempre do seu lado. Eu sou o sol que lhe abraçará nos dias de frio, eu sou a luz que ilumina seu caminho, eu sou a garota que lhe tirou da solidão, e agora sou o anjo, que sempre estará lhe guiando para o caminho certo. Eu te amo, Paul, e sempre amarei."

Notas finais
Well, sei que ficou meio triste, mas eu tive essa ideia e quis postá-la para vocês.. Uma das minhas primeiras oneshots que mostro por aqui, heh. Espero que gostem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!