Notas iniciais
É, meus caros, já estamos chegando exatamente na metade da Parte I. Uhul! Com introduções feitas e trama apresentada, já podemos desenvolver cada vez mais a história. Boa leitura!

Os dois correram para a parte de trás e imediatamente pularam para o chão. O ferimento de bala de Lince ardeu com o movimento exacerbado do corpo, mas ela tentou ignorá-lo. Correram pelo beco estreito e sujo, quase tropeçando nos moradores de ruas amontoados até alcançar uma rua cheia de lojinhas pequenas e levemente movimentada do outro lado.

— Não posso correr demais – Lince disse analisando o seu ferimento. Um pouco de sangue começou a molhar o curativo. Oliver olhou para ela e depois para um prédio aparentemente abandonado do outro lado da rua.

— Ali – ele disse e os dois seguiram até o edifício de dois andares. A porta principal era de ferro e pesada, então seguiram para sua lateral. Oliver foi até uma das janelas e empurrou o papelão que estava preso nela, abrindo caminho para entrarem.

Seu interior estava úmido, repleto de entulho, tijolos, cimento seco, cobertores e roupas velhas. Um quase insuportável cheiro de urina e fezes subiu aos narizes dos dois adolescentes. Oliver se segurou para não vomitar e sentiu uma tontura de ânsia imediatamente. Notou uma escada e seguiu até o andar de cima com a esperança do odor não o acompanhar. Lá também possuía restos de moradias improvisadas de sem tetos, mas o fedor deu um sossego. Lince surgiu atrás do garoto e sentou-se no chão no que parecia ser um corredor.

— Merda de Patrulha – ela xingou.

Oliver analisou a garota.

— O que é isso? – perguntou.

— Na verdade eu não sei bem, ninguém sabe. Nos últimos tempos alguns de nós andavam desaparecendo, sumindo sem mais nem menos. E dai começaram os boatos – falou pausadamente para recuperar o controle da respiração. — Alguns dizem ter visto os sequestros. Tem alguns rumores bem tongos, mas com o tempo a real foi ficando clara. São esses carros pretos que andam pela cidade. Pelo jeito eles levam a galera que mora nos comandos. Ficam à espreita durante a noite, por isso deram esse nome – explicou.

— Isso parece ser coisa da prefeitura, não? Para recolher os jovens que fugiram do internato e limpar as ruas.

— Não. A prefeitura dessa cidade é suja, mas suja no sentido de não fazer porra nenhuma. Deve ser alguém buscando escravos sexuais, tráfico de órgãos, sei lá. Só sei que temos que ficar longe deles.

— Caramba... Vocês passam por muitos perrengues mesmo.

— Pois é. Por isso a cada minuto que passa eu te acho mais retardado por ter fugido da sua casa.

— Calma aí, Princesa Fodona, não precisa ofender também – resmungou tentando olhar a rua pela fresta dos tapumes que tampavam as janelas para conferir se foram seguidos. Aparentemente estavam a salvo. Tinham tempo de sobra. O velhote demoraria para perceber que fugiram.

— É só a verdade. Num universo paralelo você estaria na mesa do café da manhã cheia de coisa boa pra comer, na segurança de casa, no colo dos papais. Mas tá aqui, fugindo de um chefe do crime e de traficantes de órgãos com uma garota de rua que não conhece. Confesse que também tá se achando meio retardado – Lince disse não aguentando em lançar uma risadela.

— Na teoria tudo parecia mais divertido – Oliver respondeu meio cabisbaixo. – Na real, a ideia não era vir pro centro. Eu fugi e o taxista me enganou, me deixou numa rua desconhecida e fui assaltado. Acho que eles se conheciam, ele e o bandido, só pode.

— Você fugiu de casa de táxi? Meu caralho, até pra fugir de casa você é mauricinho – ela riu.

— Respeita minha história – ele respondeu. No final, também se rendeu a um riso frouxo. – Mas confesso. Já sinto muita falta de casa. Cada hora aparece uma coisa nova aqui. Tudo muda de repente e já estamos fugindo de mais caras que querem nos trucidar.

— Viver nas ruas é um ótimo exercício físico — Lince brincou, mas Oliver não teve nenhuma reação cômica ao comentário da garota.

— Se você vê por esse lado... – disse exaurido. – Até agora apenas quase morri várias vezes seguidas. E o que a gente faz agora?

— Voltar pra casa seria lindo. Aproveite que você tem uma e vá para ela – disse com um tom meio irônico. – Eu vou buscar um lugar bem longe e me esconder.

— Se esconder? Pensei que fosse avisar os seus amigos sobre o que descobriu – Oliver parecia um pouco incomodado.

— Cê não entende. Ainda não captou a filosofia de ser um sobrevivente.

— Filosofia de ser sobrevivente? – ele resmungou – Você está se referindo a pensar somente em si mesma e correr, e correr, e correr?

— Basicamente – Lince concordou cmopletamente segura de si.

— De fodona essa princesa tem pouco. Só pensa em si mesma.

Ela franziu a testa – Pois saiba que me acho fodona pra caralho, sim. E cê tá pensando que é quem para falar assim comigo desse jeito?

— Aparentemente uma pessoa melhor que você. Que pensa no coletivo.

— Ah, ha-ha-ha! Pensa no coletivo? Me diga uma coisa que fez pelo coletivo na sua vida. Que eu saiba, filhinhos de papai da sua laia servem só pra serem iguais aos papais quando crescerem, pra continuarem fazendo as mesmas merdas que eles fazem. Até cinco horas atrás cê nem sabia o que acontecia de bosta na tua própria cidade, rapá. E olha que tem grana. Grana consegue mudar essas coisas, você deve saber disso melhor que ninguém, maurica.

— Cale a boca...

— Me conta, quando cê anda pela rua e passa por um mendigo, cê finge que não existe né? Acha que se der uma moedinha, vai tá sustentando vagabundo.

— Já disse para parar de falar...

— Se não quer ouvir merda de alguém, não fale merda sobre alguém! Então cala você.

Eles se encararam enfurecidos por um tempo e se afastaram. – Não vou ficar aqui ouvindo merda de um filhinho de papai rico e inútil. Se quiser avisar a galera lá, faça o que quiser. Porque se eu voltar, eu vou morrer. Te vira ai, Oliver. Vamos ver quanto tempo consegue sobreviver sozinho.

Oliver ia contestar, mas Lince já tinha descido as escadas e desaparecido de sua vista. No mesmo momento já tinha se arrependido de ter levantado a voz com o menino e abandonado ele numa casa fedida. Ele não conhecia ela, não entendia sua realidade, então obviamente não sabia o que a ofendia ou não. Mas o orgulho não permitiu voltar de imediato até ele.

Ela foi para a rua e estava preparada para ir para outro lugar, mas a sua mente ficava voltando nas palavras de Oliver. Hesitou por um momento e colocou em si de que ele era um babaca falando basbaquices e que ela estava certa. Era uma sobrevivente e faria de tudo para viver, sem pensar em ninguém. Isso era o correto.

Precisava sair dali logo, a Patrulha poderia estar por perto.

Deu o primeiro passo para ir embora, mas uma imagem a fez parar. Do outro lado da rua, uma pessoa andava calmamente e entrava em um beco escuro. Capulgo.

Lince seguiu-o de longe até a ruela fedida, paralela à qual ela e Oliver tinham usado para fugir. Ela acabava em uma porta azul, que parecia ser o destino do garoto. Não soou bem para ela segui-lo até lá dentro, em um local fechado e com rotas de fugas desconhecidas e limitadas. Queria pegar informações sobre ele, mas observá-lo poderia não trazer conclusão nenhuma. Se quisesse descobrir o que ele estava fazendo na sala do Mentor, teria que usar um método menos evasivo antes que ele entrasse na porta.

Lince correu até ele com passos de vento e agarrou-o pelo pescoço, imobilizando-o de surpresa. Ele se assustou, mas não tinha como fugir.

Tampou a boca dele enquanto tentava se soltar, mas estava entrelaçado por completo.

— Oi, bostão – Lince disse no ouvido dele. – Fica calmo, só quero conversar. Será que vai conseguir ter um diálogo comigo sem que aja feito um animal escroto? E se abaixar a mão pra alcançar sua arma, eu quebro teu pescoço.

A raiva fervilhava dentro dela. As tentativas de abuso contra ela giravam sua mente junto com as provocações de Oliver.

Ele resmungou com a boca abaixo da mão que o censurava.

— Você sabe sobre os planos do Mentor – ela continuou sussurrando -, e ele te inclui neles, não é? Vamos, desabafe, seu merdinha. Vou soltar a sua boca e seu corpo pra poder me contar tudo. Sei que vai tentar gritar e fugir, por isso vou te dar um soco bem gostoso nessa sua cara feia pra evitar isso.

Ela cumpriu a promessa. Relaxou seu corpo que o prendia e logo em seguida, no primeiro sopro de liberdade de seu refém, girou-lhe a mão fechada sem eu rosto. Capulgo caiu para trás já com sangue escorrendo pelo nariz.

— Sua puta! – ele gritou tentando se levantar, mas Lince chutou-lhe o joelho, fazendo-o cair novamente de costas. Alcançou seu cinto, onde havia uma pistola. Tomou a arma para si e apontou para o meio das pernas dele.

Ela o encarou com um olhar felino – Eu disse pra me contar tudo. Vamos...

E destravou a arma.

— Tudo bem, tudo bem... – ele disse – Cê já tá morta, tá ligada, né? O Mentor tá te caçando. Cê foi burra pra caralho.

— Eu disse para desembuchar de uma vez! – ela gritou com raiva interrompendo-o.

Ele riu, mas prosseguiu – Você não vai poder fazer nada sobre isso, sua escrota. A guerra, sabe? A que tanto falam desde que os comando surgiram. Ela tá para acontecer de verdade – sua voz tinha um triunfo que irritava imensamente a garota -, e o Mentor vai lucrar muito em cima dela. Sabe quanto custa uma criança de rua pra quem precisa usar, Lince? Muito. Menos você, que é uma puta, desgraçada e morta.

— O que cê tá querendo dizer?

— O norte precisa de soldados. O Mentor vai vender todo o Formigueiro pro norte usar na guerra.

Notas finais
~revelações intensifies~ O que acham que essa informação do final pode alterar na história? :)