O Sexto Comando
23 Capítulo 23
Notas iniciais
— Espero que você vá para o inferno e queime eternamente, sua filha da puta – dizia para ela enquanto se remexia desesperadamente. Lince queria impedi-la de fazer tal crueldade, mas acabou deixando após olhar Onze morto. Hugo gritava no canto para que Mirella parasse, mas não conseguia se mover, não podia fazer nada.
Dani aos poucos parou de se mover, morrendo de olhos vidrados para cima. Mirella fez questão de tirar sua máscara para vê-la perder a cor.
Mirella levantou-se chorando, mas tentava se recompor. Lince foi até Onze, evitando olhar seu corpo massacrado e segurou seu pulso. Realmente o sangue não corria mais ali. A vespa já estava ao lado de Bixano – já acordado –, ajudando-o a se levantar devagar.
— Você tem muito o que explicar – Mirella disse tentando sorrir.
— Vocês duas também – ele respondeu olhando ao redor.
— Espera – Lince pediu aos dois. Retornou alguns passos e olhou para Hugo -, a gente precisa descobrir sobre a Patrulha.
— Vamos sair daqui, pelo amor de tudo – Mirella suplicou.
— Lince, precisamos ir. É sério – Bixano também insistiu.
Lince bufou, mas saiu do cômodo acompanhando os outros dois.
— Precisamos... – Bixano tentou dizer com dificuldade e pausadamente enquanto buscava ar para alimentar seu corpo entre soluços de baforadas – correr o mais... longe que pudermos...
As duas garotas não contestaram, apenas obedeceram. As pernas dos três jovens ardiam com o cansaço e exaustão da corrida. Lince ouvira uma vez que os músculos apenas crescem depois de atingirem a fadiga, quando começam a doer e latejar durante o exercício. Se fosse realmente assim, era para suas pernas estarem inchando um monte nesse exato momento; os latejos chegavam a doer mais que os cortes que ela mesma fizera nos membros para tentar salvar a vida de Onze. O sangue começou a escorrer novamente depois de um tempo correndo e molhava a calça da garota; precisava limpar a ferida urgentemente.
Correram tão intensamente que não viam nada ao redor. Ainda estava escuro, mas o sol lançava seus primeiros raios sobre o céu. Mirella perdeu a conta de quantos quarteirões ultrapassaram. Sua cabeça ainda estava na sala escura da garagem, em Onze. Não podia aceitar deixar o corpo do amigo para trás, sozinho. Já tivera um destino bem trágico, agora teria que ficar sozinho; jamais seria enterrado com as pessoas que gostavam dele ao redor lamentando sua morte.
— Os Patrícios... – Bixano continuou pausadamente durante a corrida – São muitos. Muito mais que aqueles... Podem vir atrás de nós.
As garotas recordaram que foram filmadas o tempo todo. Se os demais do grupo vissem a transmissão ou pesquisassem um pouco mais, acabariam chegando nas duas, além de Hugo e o outro garoto, Douglas, estarem aparentemente vivos. Hugo poderia ser um problema maior; Mirella matou sua companheira de uma maneira bem aversiva na frente dele.
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O local era escuro, sujo e mal iluminado. As quatro paredes não possuíam janela e a umidade saía por elas e pelo chão, criando uma camada de lodo num tom entre preto e verde por cima do cimento antigo, espalhando um cheiro forte no ambiente. Havia somente uma lâmpada no centro irradiando luz no ar.
— Mandou chamar, Senhor? – disse a pessoa entrando pela única porta da sala.
— Senta – o garoto respondeu ao cumprimento apontando para a cadeira de ferro disposta na frente do sofá vermelho em que estava sentado.
A pessoa rapidamente obedeceu, nervosa. Suas mãos tremiam levemente, mas tentava disfarçar segurando-as o tempo todo com a outra mão. Suor escorria de sua testa por causa do calor molhado que o quarto tinha. A respiração fluía um pouco descontrolada em uma tentativa de ficar calma.
— O que quer, Senhor? – a pessoa nervosa quebrou o silêncio tentando eliminar a tensão. Sua voz saiu fraca, como se tivesse com medo do que iria ouvir.
— Te chamei aqui pra dar seu último serviço na missão que tá encarregado – o garoto disse sério com uma voz tão pesada e quente que fora capaz de preencher o ambiente todo, atingindo até com um arrepio a espinhada pessoa. Ele encarou nos olhos a pessoa a sua frente, desafiando-a com as grossas sobrancelhas levantadas. Baforou ar pelas narinas largas e se aconchegou no sofá ajeitando as tranças de seu enorme dread em um coque mal arrumado no topo da cabeça.
— Pois não? – a pessoa também se ajeitou na cadeira. Arrumou a postura, ficando ereta e mais firme, demonstrando mais interesse no assunto. A nova posição também ajudou a conter e disfarçar melhor o nervoso.
— Primeiramente, queria te parabenizar pelo seu progresso, X — o garoto disse ainda sério. – Sua missão parecia ser fácil, mas sabemos que enfrentou diversos... ahn... empecilhos.
— Obrigado, Senhor. Realmente, não foi um processo muito simples.
— Bem, o próximo passo será a cartada final. Se infiltrar no local inimigo colaborou muito pra nos trazer informações valiosíssimas, mas agora vamos ao ponto principal – o garoto negro levantou-se e caminhou até um armário do lado direito do quarto úmido. Abriu as portas de madeira vagarosamente e retornou com algo acinzentado na mão do tamanho de um livro.
— Isso é uma bomba — finalizou a fala entregando o dispositivo para a pessoa.
— Explodir... tudo lá, Senhor? – a pessoa perguntou quase deixando o nervosismo consumir suas expressões corporais.
— Exatamente. Lembra que pedi para estudar a estrutura? Você deve instalar em um local que ninguém possa encontrar. Depois, continue infiltrado, agente. Enquanto isso, outros estarão ocupados com a próxima e última fase. Quando for a hora, quando acabarem, lhe avisaremos para sair.
— Acho que eu consigo, Senhor.
— Acha? – o garoto respondeu um pouco irritadiço. — Muita gente importante carregou esse codinome, X. Sei que te escolhi um pouco aleatoriamente entre os soldados do Norte para que se tornasse esse novo agente, mas foi porque senti que seria capaz de fazer o famigerado jus. Não desonre essa nominação, nem a palavra que coloquei sobre você. Eu não admito falhas; Eu não sugiro. Eu mando. E o que mando deve ser cumprido pelos meus agentes, entendido?
— Entendido, Senhor. Me desculpe. Eu cumprirei – foi o ápice do nervosismo.
— Bom isso. Enfim, a sua real missão é fazer com que ela esteja fora prédio na hora da explosão, por isso fazer com que você conquistasse a confiança dela era tão importante. Quero que ela veja tudo ruir. Não importa como, mas faça ela estar no local certo sem que desconfie de nada. Cada movimento desse jogo tem que ser feito com cautela.
— Isso será fácil, Senhor.
— Se não for, faça com que seja. Estou confiando a missão em você como prova definitiva de lealdade. São nessas situações mais extremas que vemos quem é capaz. Se infiltrar foi só o começo, que você cumpriu muito bem. Continue com seu disfarce e, se puder, conquiste mais ainda as pessoas de lá por precaução.
— Mais que entendido, Chefe. Minha função é servir ao Norte a qualquer custo – a pessoa conseguiu dizer com mais firmeza e confiança.
— Sua função é servir ao Norte a qualquer custo – o garoto de dreads repetiu, encarando a pessoa no fundo de seus olhos. Ele era mais alto que a pessoa, porém mais jovem. Era mantido de pé por pernas grossas e fortes, assim como seus braços. Sua pele escura carregava cicatrizes grandes e avermelhadas. Uma delas era em seu rosto. Ao lado dos lábios carnudos fora pincelado um corte até as olheiras do olho direito. Sua orelha esquerda era carcomida, machucada a ponto de aparentar muito estar deformada.
A pessoa observou a bomba em suas mãos. Era pesada e soltava uns fios vermelhos e azuis. Sentiu o peso da potência e responsabilidade de carregar o objeto e realizar o que fora pedido. A pessoa e o garoto se levantaram e ela cumprimentou-o com um aperto de mão.
— Está na hora de acabar com o oeste e aquela branquela metida. Conto com você para isso, Agente X.
— Não vou decepcionar, Senhor.
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Logo já estavam na margem do bairro Chinês com a avenida comercial do oeste. Eles pararam na esquina de uma pequena praça bem arborizada para retomar o fôlego. Lince cambaleou para trás e jogou o corpo em um banco de concreto para descansar as pernas que ardiam como fogo. Mirella fez o mesmo e Bixano pegou a faca da cintura de Lince para cortar um pedaço de pano de sua camiseta.
— Vou procurar água – ele disse indo rodear a praça em busca de uma torneira, que estava na outra extremidade. Entregou o pano molhado para a formiga, que limpou o excesso de sangue de seu ferimento e depois limpou-o. A praça estava deserta, mas algumas pessoas passavam pelas ruas perto rumando aos seus trabalhos.
— Não está tão fundo – a garota comentou enquanto olhava seu machucado. – Não consegui enfiar a faca mais fundo que isso.
Deixou o pano pressionado por um tempo, depois limpou-o na água novamente e amarrou sobre o corte.
— Lince – Mirella interveiu com voz mansa e preocupada -, você tá bem?
Ela respirou fundo antes de responder:
— Estar, não tá. Mas passou. Tá passando.
Se não fosse pela adrenalina em continuar encontrando a Patrulha, talvez estivesse bem pior agora porque sua mente não iria conseguir se desligar totalmente de todo o medo.
— Bem, Bixano – ela prosseguiu olhando para o garoto sentado no chão na frente delas. Precisava mudar de assunto – Agora já pode explicar como conseguiu passar pela puberdade de novo em menos de três horas e ter pelos de novo.
— Eu não sei ao certo... – ele contou um pouco reflexivo – Depois de uma hora mais ou menos que vocês saíram da ala hospitalar eu piorei muito. Meu coração tava palpitando, dava uns solavancos, parecia estar morrendo. Eu achei que já era minha hora, que meu corpo já não estava mais suportando as vacinas que os cientistas testaram em mim. Mas, do nada, a minha visão voltou. Eu fiquei feliz, mas ao mesmo tempo triste. Tinha recuperado a visão apenas para ver a minha própria morte.
— Que horror... – Lince deixou sair. Ela virou para Mirella rapidamente e ela estava com uma feição muito deprimente.
— Bem, e depois tudo começou a doer mais ainda, mas era a mesma dor que eu senti quando injetaram em mim o primeiro líquido lá na Patrulha, quando meus músculos cresceram de uma hora para outra. É horrível, eles incham de repente e parece que a pele precisa se esticar na medida que eles crescem, mas ela não suporta. Enfim, depois da onda de dor eu senti firmeza em todo o meu corpo novamente. Senti que conseguiria sustentar meu próprio peso e ficar de pé. E consegui. E daí olhei para o espelho ao meu lado e vi meus cabelos, minhas sobrancelhas. Olhei para mim e não faltava mais nenhum pelo em meu corpo, minha pele não tava mais flácida e tinha um aspecto saudável. Eu conseguia andar, enxergar, correr. Eu desci para me arrumar e ir atrás de vocês. Sentia que a qualquer momento eu poderia voltar ao meu estado anterior e cair mole no chão, mas ainda não aconteceu. E teve algo mais incrível. Eu corria rápido, muito mais rápido que qualquer um. Parecia um atleta que treinou a vida toda. Estava saudável, disposto e bem mais forte que antes. Resumidamente, seja lá o que a Patrulha esteja testando nesses soros funciona. Eles chegaram no sucesso.
— Não é à toa que você conseguiu desviar da bala de uma arma de fogo...
— Sim! Eu me sinto ótimo, modificado. A Patrulha deve buscar isso, a saúde 100% e um corpo capaz de fazer tudo que é permitido fazer ao máximo.
— O que importa é que você está bem e, meu senhor... Todos juravam que você estava condenado. – Mirella disse – Os médicos do Vespeiro nunca haviam visto alguém no estado que você estava.
— Mas há um porém – Lince relembrou. – Eles não sabem disso, que conseguiram. Esses testes parecem funcionar depois de muito tempo. E nesse meio tempo você estava muito ruim, quase morreu umas duas vezes e eles mesmos acharam que você estava morto e se livraram de você. Antes e depois poderiam ter feito isso com várias outras crianças.
— Então se aquelas outras crianças desovadas no rio Tatuí também não estavam mortas — Bixano completou – e conseguiram de alguma forma escapar do saco, temos várias crianças de rua geneticamente modificadas soltas por aí. Que bizarro dizer isso...
— Mas agora o que importa é que você pode me levar de volta onde acha que foi solto. Você consegue? — Lince pediu esperançosa. Depois de ter passado pelos horrores que passou nas últimas horas, precisava de um progresso significativo para não ficar fodida da cabeça e frustrada.
— Acho que sim. Eu me recordo mais ou menos da direção que vim.
— Eu posso levar vocês até a casa da senhora que eu achei ele, e de lá ele tenta algo – a segunda garota ofereceu. — A gente tem que encontrar a Patrulha ou pelo menos descobrir algo novo para valer tudo o que passamos. E Onze.
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