O Sexto Comando

22 Capítulo 22


Notas iniciais
AVISO: a partir da semana que vem, os capítulos serão postados aos DOMINGOS. É só isso mesmo. Beijos e boa leitura!

Ela retirou a faca com força e sangue jorrou do ombro de Onze. Hugo filmava tudo de perto, fechando a câmera no ferimento, no rosto da vítima e no sangue escorrendo pelo seu peito. Onze respirava em solavancos. Estava em um estado de desespero ensurdecedor.

— Não! – Mirella gritou estrondosamente.

— Cale a boca, caralho! – Dani gritou em resposta. Mal respirou e continuou gritando – O olho, Lince. Furarei o olho dele. Vamos, aja! Faça algo, ou quer vê-lo gritar mais ainda?

Lince olhou para Dani e Onze estupefata. A garota psicótica nem esperou que ela tivesse uma reação ou pensasse numa resposta. Imediatamente, segurou a cabeça de Onze com a mão direita e aproximou a faca com a direita. Ele gritava, suplicava.

— Decida-se.

— Por favor, para! – Lince gritou para Dani. Ela olhou para a garota na cela. Lince chorava. Era muita pressão. – Para, por favor...

Dani abaixou a faca sem ferir Onze, que respirou aliviado. Esperou uma segunda reação de Lince:

— Você não tem coragem de fazer.

Silêncio. Lince respirou fundo para tentar engolir o choro, mas não conseguia. Ao menos limpou as lágrimas que molhavam seu rosto.

— Mirella – Lince sussurrou apontando a faca dela para amiga na cela. – Me acerte no olho.

Ela não respondeu. Apenas intercalou o olhar da faca para Lince com uma cara de desatinada.

— O-o que? – soltou.

— Pegue a faca e acerte meu olho.

— Mas...

— Faz logo, caramba! – Lince gritou para a menina e começou a soluçar. Mirella continuou congelada sem saber o que fazer. – Prefere ver quem se machucando? Alguém que tem escolha ou alguém sem alternativa?

— Não, mas... eu não posso fazer isso!

— Pode! – Lince em súbito foi até a garota, agarrou pela gola da camiseta e levantou-a para ficar face a face com ela. Em seguida, pegou o braço direito dela, puxou e colocou forçadamente entre seus dedos a faca. – Anda!

Não via outra maneira. Precisava garantir a saúde de seu corpo, mas não aguentaria mais ver Onze sofrendo sem poder reagir. Se deixasse os dois torturadores satisfeitos, talvez aliviassem depois. Confrontar demais poderia deixá-los irritados.

— Lince, pare com isso! – Ela suplicou. O estado era assustador. Estava desesperada.

— Eu não aguento mais... Não consigo...

Ela rapidamente roubou a faca da mão de Mirella, foi ao fundo da cela, segurou a faca com as duas mãos e posicionou-a de frente para seu olho esquerdo. Encarou a ponta da lâmina e começou a fazer respirações intercaladas para se concentrar, mas não estava dando certo. Sua raiva e desespero tomavam conta de seu corpo junto com a adrenalina.

A cada segundo pensava “é agora”, mas logo em seguida hesitava, retornando a pensar no momento em que teria coragem de fazer.

Não aguentava mais.

Onze em suas mãos, Mirella desesperada, Oliver e Mía desaparecidos.

Dani soltou um riso de diversão, e aquilo tirou Lince do sério. A garota trancou os pensamentos e abaixou a faca. Dane-se. Estava no limite.

— Você é uma puta – ela falou para Dani olhando diretamente nos olhos dela.

Lince correu até a grade, agarrando-as para gritar descontroladamente:

— Sua psicopata! Espero que queime no fogo do inferno para sempre!

E arremessou a faca contra. Ela girou, girou e girou. Bateu chapada na parede atrás dela de forma inútil e logo após da colisão caiu no chão.

Dani olhou para trás, onde a faca havia acertado, e desabou a soltar gargalhadas junto com Hugo.

— Parece que alguém está quebrando as regras! – disse em meio as suas risadas estranhas e metálicas. Ela segurou a camiseta de Onze e rasgou-a com sua faca.

Mirella correu até ao lado de Lince e gritou.

— Por favor! Não faz isso!

Dani olhou para as duas garotas na grade e cessou os risos. Assumiu uma voz mais séria.

— Não se meta conosco – disse, por fim.

Foram cinco facadas. No umbigo, no diafragma, no meio do peito, na lateral do tronco e na garganta. Onze gritou durante as três primeiras. Depois delas revirou os olhos e relaxou o corpo. Ele deu seu último suspiro engasgando-se com o sangue que subia de sua garganta, tombando o pescoço para o lado.

Mirella e Lince gritavam juntas a cada facada, mas seus gritos não adiantavam. Quando Onze deu sinal de morte, Mirella jogou-se para trás, chorando descontroladamente. Lince assistira a lâmina da faca que havia escolhido no Vespeiro tirar a vida do companheiro. Ela parou de gritar e ficou calada, afastando-se das grades também.

Hugo filmou cada facada com perfeição, rodeando o corpo do garoto feito um abutre enquanto a namorada esfaqueava-o. Os dois apreciavam estar realizando um ato de extrema e pura diversão. Dani, ao terminar, jogou a faca ensanguentada no chão e ficou olhando o garoto de longe. Havia tanto sangue que escorria ao chão que formava uma poça. Um pouco esguichou nela mesma e para perto da grade da cela.

— Você foi perfeita – Hugo comentou e eles levantaram partes das máscaras para se beijar rapidamente. Ela lançou-lhe um sorriso e virou-se para a cela.

— Poderia ter sido mais forte, Lince. Caso tivesse cumprido com sua parte no olho, certamente eu teria libertado o garoto logo em seguida – comentou rindo.

— Não ouça ela – Mirella disse engasgando com o choro. – Ela não faria isso. Só tá falando pra te torturar.

— É culpa minha... – Lince sussurrou para si mesma.

— Torturar, nós? – Dani riu – Magina, querida. Só gostamos de jogar. Inclusive. O jogo ainda não chegou ao fim!

— O que você quer agora? — Lince levantou a cabeça para encará-la e dizer com fúria.

— Eu? Bem, eu não quero nada. Estou apenas observando uma situação...

Hugo foi com sua câmera para perto de Lince e filmou seu rosto de perto. Ela mostrou o dedo do meio para a lente.

— Ui, nervosinha.

Dani foi até a mesa no fundo do quarto e pegou a chave da cela, balançando-a para as garotas.

— Vocês querem isso, não é? Eu sei... Mas temos uma regra muito rígida de exclusividade. Não podemos tirar o valor do grande sobrevivente. E o nosso público gosta de heróis. E heróis lutam, derrotam monstros, superam seus dilemas e seus desafios, passam por cima de tudo para fazer o bem. Aquela típica pessoa bondosa que encanta e amarra os corações dos espectadores. Mas nosso público não gosta exatamente desse tipo de herói.

— Eles gostam do herói que luta por si mesmo – Hugo completou a garota. — Poxa... Quem é que é bonzinho nesse mundo? Ninguém, não é? Pois então. O mundo é uma selva e somos todos ignorantes passando por cima de tudo e todos para sobreviver apenas a mais um dia.

— E vejo aqui uma grande e divertida situação em nossa frente... Entretenimento de primeira! Uma disputa pela vida! – Dani disse rindo e pegando as duas facas, a que Lince arremessara e a usada para matar Onze. Jogou dentro da cela. Lince e Mirella apenas observaram as armas caírem a seus pés. — Só uma de vocês sairá daí viva. Vocês decidem.

A garota de cabelos ondulados observara a faca estremecer durante sua queda abaixo de seus pés. A cena passara em câmera lenta em seu ponto de vista. A arma parou de balançar após deslizar sobre o concreto e Lince mirou para Mirella. Ela, estupefata, também assistia a outra faca parar a poucos centímetros dela, e chegou a dar alguns pequenos passos para trás para se escorar na parede, onde ficou apoiada. Parecia estar tão chocada que não conseguia manter as forças para continuar de pé.

E depois as duas se entreolharam. Ambas possuídas pelo pavor, sem saber como pensar, reagir, proceder. Lince olhou para Dani e Hugo. Dani admirava a cena contente enquanto Hugo filmava as reações das duas, divertindo-se.

Foi só assim que a formiga notara o local onde estava.

Quando sua atenção retornou para a faca a seus pés, percebera o horror, e um pouco de sentido fora até sua cabeça. Os Patrícios não gostavam apenas de torturar os jovens para filmar tudo e gerar entretenimento para as pessoas que – estranhamente – assistiam seu “programa”. Eles faziam aquilo para, acima de tudo, gerar diversão para eles mesmos.

E era daquela maneira. Sem sujar as mãos, por fim.

O chão da cela estava repleto de sangue antigo. A cor vermelha escura e um pouco marrom parecia ter sido absorvida pelo concreto. As gotas se espalhavam até a parede, várias delas. Ela e Mirella não foram as únicas naquela situação. A aparente situação preferida dos Patrícios. Aquele lugar era um abatedouro.

— Vamos – Dani baforou com a voz mecanizada e girou a cabeça para o lado esquerdo, fazendo o pescoço estalar –, se matem de uma vez.

Lince deu passo a passo vagarosamente para levar seu corpo hesitante até a faca no chão. Mirella recolheu-se com espanto à parede atrás dela, apoiando seu peso estupefato. Por um momento, teve medo da formiga, que desdenhava uma cara fechada, um pouco vidrada; por um segundo acreditou que Lince seria capaz de matá-la para sair dali. Aliás, ela tinha motivos de sobra para reunir força de vontade e escapar daquele buraco; tinha nas mãos a oportunidade de salvar vários amigos e conhecidos.

Mirella sentiu-se preparada e disposta a fazer com que Lince escapasse. Soltou o peso do corpo para os pés, afastando-se da parede em que se escorava e buscou ficar face a face com a sua adversária, que já estava com a faca em mãos. Mirella abaixou a cara em sinal de positivo para a garota.

— Você sabe quem tem que sair daqui – a garota cor de canela construiu uma feição disposta. – Se não fizer, eu mesma faço.

— Não é hora de ser altruísta, Mirella – Lince revidou secamente. – Nós não vamos fazer isso.

Lince abaixou a faca ensanguentada. Não contava que no mesmo momento Mirella avançasse sobre ela, agarrando a arma de suas mãos. As duas garotas começaram a disputar a faca, que ainda estava sob posse da formiga. Mirella segurou o braço esquerdo de Lince para limitar seus ataques e o pulso da mão que segurava a faca, apertando-o. A vespa era imensamente mais forte que Lince, mas ela resistia. O sangue de Onze escorria da lâmina para o punho de Lince, depois para a mão de Mirella.

Mirella caiu para trás com um empurrão que Lince transferira jogando seu ombro sobre o corpo da garota, mas ela se recompôs rapidamente e revidara com uma rasteira. Lince bateu de costas no chão e acabou deixando a faca cair.

— Que enredo interessante – Dani comentou para Hugo.

A porta atrás dos dois Patrícios abriu-se com um estrondo da fechadura sendo arrebentada com força. O som que se seguiu fora de um tiro. Daniela jogou-se para cima da mesa soltando um grito de dor. Lince e Mirella pararam a disputa para dar atenção ao que ocorria do outro lado da cela. Era um garoto. Invadira a sala e atirara contra Dani. Nesse momento, ele foi até a garota e pegou de suas mãos as chaves, arremessando-as dentro da cela.

— Bixano?! – Mirella gritou surpresa.

Era o garoto. Ele estava de pé, firme e forte, como sempre estivera. O cabelo liso preto como carvão estava de volta, e ele até estava usando as roupas que costumava usar: uma camiseta amarela abaixo de uma jaqueta marrom, jeans azulado bem desgastado e colado ao corpo e seus clássicos óculos de aviador estavam pendurados no pescoço.

No meio tempo, Hugo soltara a câmera e correra ao extremo da sala em suas costas para sacar uma pistola de uma bolsa jogada no chão. Levantou a mão e disparou contra Bixano. O garoto, por sua vez, esquivou o corpo para o lado, desviando da bala com uma facilidade absurda. Quase sobre-humano.

Lince correu até onde as chaves caíram e se colocou a tentar abrir a cela por dentro. Uma segunda movimentação surgira pela porta onde Bixano entrara. O Patrício de tênis de basquete e cabelo black power que havia saído do local retornara com um cano de ferro em mãos. Lince até tentou avisar Bixano sobre a aproximação, mas, quando o garoto se virou para trás, fora surpreendido com um golpe metálico na testa, caindo inconsciente no chão.

A cela abriu-se e Mirella correu até Hugo, que apontava a arma para Bixano indefeso no chão. Quando a vespa começou a se aproximar, virou os braços para mudar a mira para ela. Mirella agarrou dois dos tripés com câmeras e empurrou na direção do Patrício, atrapalhando sua vista e a firmeza nas mãos.

A garota estava com um amargo no peito e descontou em seus braços. Rapidamente, segurou a mão da pistola, torcendo o braço do garoto, que gritou algumas palavras esquisitas. Mirella socou o cotovelo do braço torcido com força e o som arrepiante veio antes dos berros de Hugo. Seu braço inverteu-se, quebrando. Ele encolheu-se gritando e olhando para a fratura exposta do braço. Segundos depois, Mirella chutou seu peito, derrubando-o no chão.

Lince avançava contra o outro garoto. Ela desviou com facilidade do primeiro golpe que ele tentou investir, abrindo margem para contra-atacar. Agarrou-o pela gola da vestimenta esquisita de Patrício e empurrou contra a parede, batendo a cabeça dele contra ela. Lince conhecia aquela dor e sua nuca começara a arder. Sabia como doía, mas continuou batendo nele até que ele ficasse abobado e perdesse a consciência, soltando-o no chão.

— Seus desgraçados – Lince não conseguiu deixar de falar. Quando se virou para trás, vira Mirella sobre Dani, ainda viva no chão com um ferimento de bala no ombro esquerdo. Mirella estava sentada sobre o peito da Patrícia, enforcando-a.