O Sexto Comando

21 Capítulo 21


Notas iniciais
Hora de conhecer uns personagens que acho que não serão tão queridos, risos. Boa leitura! PS: com esse capítulo, a história atingiu mil visualizações! Obrigado por todo mundo que acessa e acompanha O Sexto Comando (mesmo você que só lê e não comenta, eu também te amo, hahaha).

Lince abriu os olhos e não conseguiu enxergar nada. Tudo escuro, completamente nas sombras.

Ela estava deitada numa superfície dura e gelada. Quando acordou num solavanco de desespero, pôs-se a sentar, mas seus sentidos confusos não permitiam que raciocinasse direito. Sentiu uma vertigem, tal qual de quem se levanta do sofá muito rápido e é invadido por uma tontura.

Primeiramente lembrou do que acontecera antes. Estava na rua sem saída com Mirella e Onze. Aparentemente foram atacados pela pessoa que havia saído da garagem. Se agora estava em um local escuro, não era bom sinal.

Seu corpo ardia um pouco, os músculos pareciam estar falhos e os nervos estalando. A sensação despertou-lhe a atenção e rapidamente levou a mão na cintura para procurar sua arma ou a faca, mas não encontrara nenhuma das duas. Começou a ficar com medo.

Esticou os braços para ver se alcançava algo na escuridão.

— Mirella... – sussurrou baixinho procurando por uma resposta, mas nada viera.

Continuou tateando com as mãos, mas só sentia o chão gelado. Levou um pouco o corpo para o lado a fim de aumentar o alcance, mas de nada adiantara.

Foi quando as luzes do local se acenderam de repente.

Lince pulou em um susto. A primeira coisa que vira foram duas pessoas paradas uma ao lado da outra em sua frente. Elas vestiam trapos cinzas e pretos entrelaçados aos corpos com equipamentos aleatórios, como uma joelheira em uma perna só ou uma cotoveleira em um braço só. Usavam luvas com os dedos de fora, botas compridas cheias de fivelas e spikes, e lenços pretos ao redor do pescoço. A menor das duas pessoas usava por cima dos panos uma jaqueta de couro e a outra um sobretudo de tecido grosso e escuro que lembrava um cobertor.

Mas o que mais chamava atenção eram as máscaras.

Máscaras de gás que lembravam a de soldados da segunda guerra mundial. Eram velhas, escuras e manchadas num tom entre verde e preto; os olhos eram enormes e redondos. Por cima usavam um capuz que tampava a parte de trás das cabeças. A mais alta das duas segurava na mão direita um facão enferrujado de mais ou menos noventa centímetros.

A da jaqueta levou a mão esquerda à frente da boca da máscara com o indicador levantado em sinal imperativo de silêncio. Lince ficou olhando assustada para eles. Havia uma grade. Estava dentro de uma espécie de cela e elas a observavam. Virou-se para sua esquerda e vira Mirella e Onze estirados no chão ainda desacordados.

Os dois seres de pé retiraram as máscaras. O mais alto tinha um rosto fino, barba rala, olhos pequenos e cabelo escuro cortado bem rente. Ele soluçava frequentemente. A garota ao seu lado tinha cabelos pretos volumosos e ondulados, pele muito lívida, bochechas grandes e esboçava um sorriso largo e um pouco psicótico. Pareciam ter mais ou menos de 20 a 25 anos.

— Adoro a cara de assustados que eles fazem – o garoto disse. Sua respiração era forte e marcante, como de alguém que havia comido quatro pizzas inteiras em menos de vinte minutos. Entre os soluços às vezes vinha uma rouquidão engasgada de alguém que está com refluxo. A garota apenas soltou um risinho abafado.

— Quando virão pegar eles? – ela perguntou abraçando-o e fazendo carinho no seu queixo.

— Não sei. Não temos contato com eles há um tempo, e isso é meio estranho. O Igor tá tentando achar eles.

— Ata. Os últimos eles demoraram pra vir buscar. Talvez demorem de novo.

O local num todo não era grande. Parecia ser apenas um cômodo da suposta garagem. Atrás dos dois haviam umas caixas de madeira, uma mesa com duas cadeiras e um porta.

Lince calmamente se arrastou para perto de Onze a Mirella, sem tirar os olhos dos dois a sua frente. Conseguiu constatar que as vespas estavam vivas.

— Tá com medo, garota? – o homem perguntou soltando um riso. Ele andou até perto da grande balançando o facão. – Qual o seu nome?

A formiga esboçava uma feição de animal assustado no rosto e não respondeu.

— Ei, ele te fez uma pergunta – a companheira fechou a cara.

— Lince – ela respondeu após raciocinar um pouco. – O que querem com a gente?

O homem virou-se para a mulher e os dois trocaram sorrisos. Ele foi até ela e deu-lhe um beijo. Sua boca escorregou até o pescoço dela enquanto ela fitava Lince dentro da jaula com olhos de predadora provocante. Ela empurrou ele para longe de supetão.

Pela porta surgira uma terceira pessoa. Ele tinha as vestes parecidas com a dos outros dois, mas usava uma calça cinza larga e tênis de basquete. Era bem mais baixo, negro e cabelo black power.

— Vocês vão passar a noite aqui? – ele perguntou ao casal. Sua voz era grossa e séria.

— Vamos. Pode ir pra casa – o homem do facão disse.

— Tá bom. Mas, gente, na moral, mesmo, não estraguem tanto com eles – ele respondeu e saiu.

— Por que nos pegaram? – Lince perguntou finalmente. Pela situação, estava muito mais assustada que o normal, mas tentava controlar as emoções para conseguir raciocinar melhor. Já havia analisado todo o local e não constatara nenhuma brecha aparente. Precisava tirar as informações dos próprios sequestradores.

— Porque gostamos – a mulher respondeu séria.

— E o que vão fazer?

Ela caminhou até perto da grade e sentou-se no chão de pernas cruzadas.

— Você quer conversar? Então vamos conversar – disse com uma voz um pouco didática e irônica. Era estranho como entre uma frase e outra sua entonação mudava radicalmente. – Bom, nós vamos machucar vocês. Adivinha o motivo? É o mesmo! Porque gostamos! E depois vamos vender vocês pra uma galera porque eu tô muito a fim de encher meu cu de droga!

— Não que a gente precise desse dinheiro pra encher o cu do que quisermos – o outro completou e eles riram.

— Então por que vendem as crianças de rua? – Lince se controlou para não passar tanto ódio em suas falas e irritar os dois..

— Pelo roleplay, ué. E pela grana conquistada com o nosso próprio suor – riu novamente.

— Nojentos... – não resistiu em falar. Logo depois se arrependeu.

— Óh! Estou ofendidíssima com suas palavras – disse bradando a máscara de gás com a mão em tom irônico. – Acho que terei que te dar um troco pelos comportamento ruim.

— Garota, você é muito chata. Chata pra um caralho – a voz rouca do rapaz estremeceu após um pesado soluço.

— Chata, bem chata – ela concordou. – Tá tudo chato. Sem emoção.

Os dois se entreolharam, comunicando-se com os olhos.

— Está sim, Dani. Acho que não iam ligar se nós brincássemos com um dos três, não é? A Patrulha provavelmente nem vai vir pegá-los mesmo.

— Fodam-se eles.

— Quem você quer?

— O garoto.

— Beleza.

A mulher, Dani, levantou-se e foi até a mesa pegar uma chave. Voltou para a grade e ficou parada na frente dela. Enfiou a mão dentro da jaqueta, tirou de lá uma pistola prateada e imediatamente apontou para Lince. Sua feição agora era séria, extremamente séria.

— Se afaste dos dois. Vá para o outro lado da cela. E se você se mexer, eu estouro seus miolos na hora.

Lince obedeceu e foi para a extremidade da cela. Seu coração começou a bater muito rápido e o medo voltou a tomar conta de seu corpo. Olhava receosa Dani entrar na cela e ir até Mirella e Onze apontando a arma para Lince o tempo todo. Viu que o homem fora da cela também lhe apontava uma pistola. Onze foi arrastado para fora ainda desacordado. Mirella mexia-se e resmungava, prestes e acordar.

Dani fechou a cela e voltou até Onze estirado no centro do cômodo. Ela pegou em cima da mesa a faca que Lince havia trazido do arsenal do Vespeiro e debruçou-se sobre o peito do garoto.

— E ainda acham que saímos do oeste pra nos divertirmos só em festas. Vamos jogar um pouquinho.

A garota com voz psicótica e que mudava de feições constantemente havia colocado Onze numa cadeira de plástico de frente para a cela. O garoto ainda estava desacordado e possuía um corte um pouco profundo acima do olho devido ao golpe que levara atrás da caçamba de lixo. Ele demonstrava sinais de que estava prestes a acordar algumas vezes. Abria os olhos com dificuldades, girava a cabeça de um lado para o outro vagarosamente e suas pernas tinham uns ataques nervosos esporádicos, mas ele sempre retornava a dormir profundamente.

O rapaz amarrou-o à cadeira com força. Uma corda grossa prendia seu peito ao encosto da cadeira e algemas ligavam seus pulsos e tornozelos no plástico da cadeira. E o mais estranho veio depois. Dani saiu da sala e retornou com cerca de cinco câmeras digitais e tripés. Posicionou-os com as câmeras acopladas neles pela sala. Duas ficavam na diagonal de Onze, cada uma de um lado, esquerdo e direito. Outra ficou atrás dele, pegando suas costas e ao fundo a cela. A quarta ficou apontada diretamente para a cela do lado esquerdo. A quinta ficou nas mãos do acompanhante de Dani.

Mirella já havia acordado a um tempo. Estava muito zonza e quando se deu conta da situação, rastejou-se desesperada até Lince, que estava sentada no fundo da cela. Ela agarrou a formiga pelo braço enquanto tremia e não disse nada por muito tempo, apenas ficou assistindo com muito temor os dois Patrícios amarrarem Onze.

— Pronta para começar, amor? – ele perguntou à garota de cabelos negros.

— Claro, Hugo.

— Explique o jogo pra eles.

— Muito bem – Dani disse se aproximando da cela e olhando fixamente para Lince. Ela apontou a faca da garota para ela. – Você vai ser nossa segunda jogadora. A outra magrela aí, se afaste dela.

Hugo chegou perto da cela também apontando uma pistola para Mirella – Ande, saia daí, vá para o outro lado.

Mirella obedeceu e foi para o outro lado. Ela ainda tremia de medo.

— Ok. O jogo é o seguinte: — Dani continuou – Você será o espelho de seu amiguinho ali, mas não literalmente. Hipoteticamente.

Ela caminhou até a mesa no fundo do quarto, pegou outra faca, jogou para Lince e retornou para perto de Onze.

— Pegue a faca. Vamos lá. Basicamente, tudo o que eu ameaçar fazer com o garoto, você deverá repetir em você mesma. Se eu disser que vou cortar o braço dele, você deverá cortar o seu. Mas onde está a emoção? Se você se negar a repetir, eu faço nele algo bem pior, sacou? Se você fizer em si mesma, ele se livra nessa rodada. Entendido?

— Sim... – Lince disse de cabeça baixa. Havia um ódio extremo em seu peito. Odiava admitir, mas ela estava encurralada, sem opções nenhuma de se livrar de tudo.

— Lince... – Mirella sussurrou. Queria pedir para a amiga que salvasse Onze, mas isso significava que Lince e machucaria, então calou-se.

— Se tentar qualquer coisa engraçadinha, leva bala na cabeça na hora, entendido?

— Vocês são doentes. Qual a necessidade disso? – Lince perguntou raivosa.

— Primeiramente, é divertido — ela falou circulando atrás das câmeras ligando uma a uma. Mexia nas configurações também, ajeitava a altura dos tripés, mudava o zoom e foco das lentes e também os quadros. – Segundamente, para produzir conteúdo. É o que fazemos. Porque as pessoas gostam e assistem. Elas precisam disso e nós oferecemos. Estamos sustentando todo um sistema.

— Vocês sabiam que o que alimenta a sociedade é a informação? – Hugo tomou a vez na explicação — Pois bem, se os meios de comunicação não oferecem novas informações às pessoas constantemente, elas não conseguem se manter em relações sociais.

A cada minuto em que algum dos dois mantinha a boca aberta para falar algo, mais bizarra e aleatória ficava a situação. A garota pulou para um assunto totalmente estranho sem mais nem menos.

— Não tem sobre o que falar umas com as outras – continuou -, não tem assuntos em que todas elas estejam a par. Já conversou com alguém que não vê TV, que não tem Facebook? Que não sabe nada? Um porre, né? O sistema não funciona sem conteúdo.

— Entretenimento – Dani completou. Teve muito gosto de dizer aquela palavra. — Nós oferecemos entretenimento e sustentamos os sistemas. Nós os alimentamos com sangue. Gostem ou não, falarão sobre isso. Garantimos que falarão de nós, e assim nos mantemos vivos – ela saiu de frente das câmeras e colocou sua máscara, brandando uma das câmeras.

— Estamos ao vivo – Hugo disse.

— Vamos lá – ela retornou a falar, mas sua voz estava esquisita, mecanizada. Parecia haver um modificador de voz acoplado na boca de sua máscara. Hugo seguia todos os atos da garota com a sua câmera. – Primeiro, a demonstração do exemplo. Cortarei o braço dele, Lince. Você faz ou eu faço?

Lince sabia que, no fundo, não faria nada. Deixaria Onze ser machucado para se poupar, por mais que fosse ruim assistir tudo e conviver com um remorso pavoroso. Mas não podia. Tinha que se controlar para não irritar seus sequestradores.

Ficou olhando para a garota. Queria mesmo era pegar a sua faca e fincar no pescoço dela até que perdesse todo o sangue do corpo. Fez uma cara séria e passou a lâmina em seu braço esquerdo, criando um leve corte sobre a pele que retirara apenas um pouco de sangue. Os pelos do braço eriçaram. A sensação aguda de dor do metal frio ferindo-a era agonizante.

— Ótimo – Dani disse com sua voz modificada. – Temos uma boa jogadora aqui. Vamos para a perna. Desta vez, um corte vertical de um palmo. Você decide.

Dani deslizou a faca do braço de Onze até a perna do garoto vagarosamente. Sem hesitar, Lince obedeceu-a e cortou a própria perna esquerda. Novamente com um corte mais leve, porém comprido. Dani andou até a cela para verificar. O sangue escorria pelo jeans da garota e ela não conseguiu evitar de soltar murmúrios de dor.

— Mais fundo – Dani disse.

— O que? – Lince perguntou abestada.

— Eu disse para cortar mais fundo.

— Mas eu já cortei, sua puta.

— Lince – Mirella disse baixinho no canto da cela. – Por favor, não confronte...

Um tiro surgiu do lado esquerdo da sala e seu som ecoou como um trovão. Lince soltou um grito desesperado pelo susto. Já iria conferir qual parte do seu corpo fora atingida, mas não sentira dor alguma. Logo depois olhou para Onze e Mirella. Ambos estavam bem. Olhou para a parede atrás dela e havia um furo de bala no concreto logo ao lado de sua cabeça. Olhou para Hugo e ele apontava a pistola para ela.

— Obedeça-a. Ela disse para cortar mais fundo— ordenou.

Lince olhou com raiva para ele. Segurou a faca com força e passou-a sobre o ferimento que havia feito antes. A dor fora imensamente pior. O corte já estava ardendo. A carne exposta flamejava enquanto era cortada mais uma vez. Vagarosamente, ela completou o caminho. Uma lágrima escorreu de seus olhos. Queria apenas chorar e gritar de dor, mas se conteve em abaixar a cabeça e xingar baixinho.

— Não se meta conosco, garota – Hugo disse com certa raiva.

— Ótimo... – Dani murmurou retornando até Onze. – Rodada três. Uma facada no ombro.

Ela apontou sua faca para o meio da clavícula de Onze e encarou Lince.

— Você decide.

Lince olhou para sua faca. Devia fazer aquilo, mas... A dor de sua perna ondulava arrepios pelo seu corpo, mandando ondas pelo sistema nervoso. Ainda latejava com força. O sangue escorria agora com menos intensidade, e o corte ainda latejava. Tentou ser racional, num nível acima disso. Se ferisse sua clavícula, mesmo a esquerda, perderia a mobilidade total do braço esquerdo e a facilidade de mover o lado esquerdo do corpo. Não poderia entrar nessa situação. Caso achasse um modo de se livrar daquilo, ter total mobilidade do corpo seria muito importante para escapar de lá com vida, mesmo que parecesse estar no final do caminho.

Tinha que pensar em algo durante o jogo. Fazer tudo lentamente para ter mais tempo e cuidar de seu corpo para não fica limitada ou impossibilitada.

— Não farei isso – Lince disse com pesar.

— Está fraquejando, Lince? – Dani riu e, em menos de um segundo depois, esfaqueou Onze no ombro. No mesmo momento o garoto acordou subitamente e começou a urrar de dor, remexendo-se freneticamente na cadeira, mas estava completamente imobilizado. Ele olhava para a pessoa mascarada ao seu lado fincando uma faca em seu corpo e aumentava os gritos de desespero. Dani continuou com a faca dentro do ombro do garoto e a afundou com mais força. Ainda teve o prazer de movê-la um pouco para os lados e aumentar a dor do garoto. Ela ria, e o riso saia mecanizado, abafado de sua máscara. Como um demônio.

Notas finais
Não esqueça do comentário maroto!