O Sexto Comando

17 Capítulo 17


— Pera ai – Lince disse rapidamente. A surpresa foi do tipo que não sabia de imediato se era boa ou ruim. Adiantou um passo para frente até ficar perto de Amely. – Como assim?

— Pois é – Amely disse com certa superioridade. – Temos aqui no Vespeiro um garoto que conseguiu escapar. Está sendo cuidado. Chegou até aqui e pode contar muita coisa.

— Quem é ele? – a garota do leste perguntou afobada. Mesmo que pequenas, poderiam haver chances de ser algum conhecido.

— Não posso falar o nome dele, amiga. Nem o que ele me contou.

Lince queria agarrar a mulher pela gola de sua camiseta e chacoalhar até ela dizer algo de útil e parar de ser metida. Seu lado racional sabia que se fizesse isso seria expulsa do oeste para sempre. Se ela havia degolado o próprio irmão, imagine o que faria com uma guria petulante.

Ao invés disso, insistiu:

— Então por que me falou que ele existe?

— É que não te conheço, né. Se levar em consideração o lugar de onde veio, a situação não melhora. – Amely sorriu e piscou os olhos.

— Sinceramente? Não faz sentido – Lince estava perdendo um pouco a paciência, mas tentava filtrar as palavras e soltá-las com mais sensatez.

— Fingir demência ao invés de raciocinar um pouco... Vou repetir para você sacar: eu disse que eu não posso falar o nome dele; que eu posso falar sobre ele. Agora, se ele quiser falar com você, por que impedir?

Amely deu meia volta, voltou para trás de sua mesa cheia de papéis e sentou em sua cadeira de executiva. Fitou Lince com olhos felinos durante o tempo todo que falava com uma voz lúdica – Mas vamos fechar um acordo. Preciso de algo em troca.

Lince sabia que havia algo no meio. Amely era lisa.

— É sério isso?

— Calma, mana. Você se estressa rápido demais. O favor é simples.

— Ok.

— Escuta bem: para o bem e saúde dessa humilde instalação em que você se encontra, preciso estar atenta a tudo que está ao meu redor e que pode de alguma maneira causar algum transtorno. O garoto não falou tudo pra gente. Não forçamos porque ele tá bem debilitado. Se por um acaso ele falar sobre coisas que possam me interessar, você me diz. Principalmente se envolver os outros comandos. Fechou? Eu acho uma tarefa bem razoável, não?

— Tudo bem – confirmou. Não tinha o que discutir. Estava sendo usada, mas realmente tudo bem. Estava sendo oferecida uma oportunidade importante.

A mulher pegou o walkie talk e apertou um botão.

— Onze, vá até o nosso sobrevivente e diga que uma garota do leste quer falar com ele. Se ele permitir, faça acontecer. Valeu — disse séria e ríspida ao telefone.

Ela voltou-se para Lince: — Pronto, formiguinha. É só esperar o doce.

— — -

O tal de Onze, um garoto gordinho cheio de espinhas, foi buscar Lince no escritório de Amely. Ele não era de muitas palavras, e por todos que passava gerava acenos e cumprimentos respeitosos. O elevador havia parado no décimo andar. Era completamente pintado de branco e limpo. O chão era revestido com um piso pálido e diversas camas se posicionavam em fileiras por todo o canto. Também tinham alas separadas por lençóis azulados nas extremidades. Nas camas repousavam crianças e adolescentes.

— O norte não pegou leve com a gente – Onze comentou, ríspido.

Estavam todas quase cheias deles, e a maioria não possuía um aspecto muito bom. Ferimentos abertos e pontos compridos recém costurados. O local era movimentado. Pessoas de branco, também jovens, zanzavam por lá o tempo todo, de cama em cama conversando com os pacientes e fazendo curativos.

A nuca de Lince doeu subitamente. Lembrou-se das pancadas que o homem do exército da Patrulha havia dado nela contra o asfalto durante a luta. Levou a mão até a parte de trás da cabeça e passou por cima do ferimento. A sensação do sangue banhando seu cabelo veio em sua memória. A dor cessou logo depois, mas voltaria no decorrer do dia.

Lince olhou para o lado direito e notara a escada do prédio. Muita gente entrava e saía do andar por ela.

Onze continuou andando até a parte das alas azuis e Lince foi atrás. Ele parou em frente de uma delas e fez sinal para que Lince entrasse e saiu. A garota ficou nervosa. Queria saber quem era o sobrevivente, tirar o máximo de informações e conseguir pistas para entender a Patrulha e salvar seus amigos.

Ela respirou fundo e entrou na ala. Era pequena e tinha apenas uma cama. Nela, um garoto. Sua aparência era lamentável. Careca, sem pelo algum, nem mesmo sobrancelhas. Sua pele era tão pálida que dava para ver as veias por baixo delas. Ao redor dos olhos, nas mãos e demais articulações ela adquiria um aspecto amarelado e verde claro. Parecia que ele, ou ela, havia sido submetido a centenas de sessões de quimioterapia sem parar. A pessoa virou-se para Lince. Seus olhos eram brancos, perdidos e mortos. A garota se assustou.

— Quem é? – a voz rouca e desgastada saiu do que restou daquele ser.

— Oi – Lince disse receosa, aproximando-se vagarosamente dele -, meu nome é Lince e...

Ele interrompeu a garota de surpresa e disse afobado: — Lince?! Lince! É você?

— Você me conhece? – ela perguntou desesperada. Seu coração disparou e a pele arrepiou-se.

— Sou eu, Bixano!

— Ai, meu Deus... Bixano?!

— Sim... – ele ia prosseguir, mas começou a tossir sem parar. Era uma tosse seca, ardilosa e arrastada. A garota esperou que ele parasse.

— Como?

— Desculpa... Ah, ignore meu visual. Não preciso conseguir me enxergar pra saber que tô podrão. Mas, vem cá, o que cê tá fazendo aqui? É você quem quer saber sobre a Patrulha?

— Sim... Quero saber. Me conta tudo o que aconteceu com você – ela disse. Olhava para ele com tanta pena que quase não cabia dentro dela. Decidira não contar o real motivo por estar ali. Ele estava debilitado e ele não aguentaria saber que o Formigueiro todo fora levado. Tinha tantos amigos lá. – Eu quero saber mais sobre a Patrulha.

— Não é algo simples de contar, mas vamo ai.

Tinha tantas perguntas. Quem realmente era a Patrulha, o que faziam, onde ficavam, o que queria, como faziam...

— Sabe, eles podiam fazer de tudo com a gente – ele disse com dificuldade. Sua mente parecia ir longe. – Quando ouvia falar deles, as histórias e tal, eu imaginava que fizessem umas paradas mais normais, tá ligada? O que a gente espera: assassinos, tráfico de gente, de parte de gente. Mas não. O que eles fazem é um rolê bem louco mesmo.

— O que? – Lince sentiu até certo medo de realmente saber a verdade.

— — -

A mulher estava toda vestida de branco. Cada parte do seu corpo estava higienizada e livre de qualquer resquício do exterior, até mesmo de maquiagem. Ela era alta, magricela e tinha um rosto seco e afinado. Aparentava ter uns quarenta anos em seu rosto extremamente sério e atento ao que acontecia ao seu redor. Seus olhos centrados e pequenos captavam tudo.

Estava em uma enorme sala oval e também branca. De um lado das paredes haviam enormes vidraças para que as pessoas do lado de fora assistissem o que acontecia no interior da sala. Eram homens engravatados. O outro lado das paredes já era repleto de um enorme computador com diversos teclados e monitores diferentes.

A mulher assistia a uma equipe de três homens em volta de uma maca posicionada na diagonal do centro da sala oval. Na maca repousava um garoto jovem ligado a vários eletrodos que seguiam pelos fios até os equipamentos médicos. Eles se ligavam ao computador da parede.

O rosto do menino era seco, fraco, assim como seu corpo fragilizado. Parecia que estava sem comer a dias. No seu peito, um crachá. Escrito “Sujeito A034”.

Um dos homens apertou um dos botões dos monitores e nele surgiu a imagem dele mesmo, iniciando uma gravação de tudo que ocorria na sala. Ele olhou para uma das câmeras do teto e relatou:

— Iniciando experimentos. Teste número cinquenta da fase quatro no sujeito A034.

— Se apresentar os resultados esperados, a fase quatro acaba e daremos início à fase cinco – a mulher atenta anunciou em voz alta para a câmera. — Se os resultados se aproximarem do esperado para o projeto total ou ultrapassarem as expectativas para a fase quatro, a fase Soro tipo um, o momento Delta será iniciada.

— Sujeito devidamente imobilizado na maca para início do teste.

— Relatório sobre o sujeito do teste anterior – a mulher pediu em alto para os médicos.

— O sujeito do teste número quarenta e nove está com quadro estável – outro médico disse. Ele analisava os dados em sua caderneta enquanto o outro médico estava ao lado da maca preparando mais eletrodos no garoto anestesiado. — O sujeito em duas semanas tivera quatro ataques cardíacos, mas o Soro tipo dois vem sendo testado nele e estabilizando sua saúde desde então. Os níveis de força se mantiveram os mesmos desde a aplicação do Soro dois. Os testes físicos estão resultando dados consideráveis.

— Alguma sequela evidente? – ela perguntou novamente. Desta vez sua voz fraquejara um pouco em receio.

— Aparentemente nenhuma além dos efeitos colaterais do início do uso do Soro tipo dois.

— Ótimo. Tudo está ocorrendo como esperado. Teremos certeza sobre a nova versão do Soro tipo um agora. Podem começar o teste cinquenta.

— Sim, senhora.

Após a mulher magricela anunciar, os médicos se prepararam. Um deles retirou de uma cápsula pequena um líquido acinzentado com uma seringa.

— Inserindo 20 mililitros do Soro tipo um.

Picou o garoto adormecido e injetou o líquido.

Meio segundo depois, os olhos do garoto se abriram, revelando um olhar voraz. Ele soltou um grito ensurdecedor. Era um grito de dor, desespero. Remexia-se com afinco e selvageria, mas estava completamente imobilizado na maca. O Soro ardia como fogo em suas veias, espalhando-se pelo seu corpo, e, quando se conectava com suas células, fazia-as urrar de dor, que viajava pelo corpo como uma eletricidade de alta voltagem. Cada movimento que tentava para se libertar fazia com que cada pedaço de seu corpo doesse mais ainda.

Sentia que tinha que fugir dali, fugir da dor que o assolava. Fugir daquelas pessoas. Fugir daquela prisão.

De repente, sua pele ficou tão esbranquiçada que suas veias tornaram-se quase totalmente visíveis, mesmos as menores. Seus músculos incharam, dando um aspecto de corpo marombado, mas logo retornaram ao normal.

— Os músculos aumentaram instantaneamente – um dos médicos comentou enquanto analisava os gráficos que apareciam nos monitores. – A força aumentou em 125%. Sua saúde está OK, 55% melhor que o sujeito do teste quarenta e nove no momento da aplicação do soro, mas é bem provável que...

Ainda se remexia e gritava o mais alto que podia, até que a dor concentrou-se no seu peito. Arregalou os olhos e engasgou seus gritos como se tivesse uma enorme pedra entupindo sua garganta.

— Está tento um ataque cardíaco. – o médico que analisava os monitores disse. – Injetem o Soro dois imediatamente.

Enquanto o segundo médico preparava o soro, o terceiro pegou um bisturi e fez um corte superficial no peito nu do garoto até o seu umbigo, apenas rasgando a pele. O sangue começou a escorrer. O outro médico aproximou-se e implantou o soro amarelado.

O garoto parou de se remexer e fechou os olhos. Do computador veio o famoso som que anunciava que seu coração havia parado de bater.

— Perdemos o sujeito? – a mulher perguntou curiosa e preocupada. Homens importantes assistiam do lado de fora todo o processo. Tudo teria que ocorrer perfeitamente.

O corte no peito do menino começou a se fechar, curando-se em uma velocidade incrível. O som retornou a oscilar.

— Está vivo – um deles anunciou.

Sua pele voltou à coloração normal, mas seus fios de cabelo começaram a desprender-se do couro da cabeça. Em pouco tempo todos estavam no chão. O mesmo aconteceu com suas unhas.

— O Soro dois estabilizou o estado do indivíduo – o médico disse. – Os efeitos colaterais são os comuns do Soro tipo dois: queda do cabelo e das unhas, perda momentânea de cálcio nos ossos e comprometimento da visão e da fala, mas os resultados de imediato são favoráveis: o efeito colateral quatro não foi registrado. Não houve perda da arcada dentária. Sobre os positivos: Agora sua força é 147%. Temos um recorde, rapazes.

— Há esperanças de melhorarmos os efeitos colaterais do Soro tipo dois nos próximos experimentos com indivíduos, senhora – completou.

— Tudo bem. Precisamos progredir na finalidade dos Soros – comentou aliviada.

— Encaminharemos o sujeito para a observação. Em uma semana iniciaremos testes físicos.

— Podemos prosseguir para a primeira fase efetiva. Conforme o protocolo: continuem trabalhando nos Soros um e dois, e comecem os estudos sobre os Soros três e quatro com nossos indivíduos de extração de material genético. Estaremos recebendo mais indivíduos ainda hoje. A fase Delta finalmente será iniciada. Em dois dias – a mulher magricela virou-se e saiu pela porta da sala oval.