O Sereno Canto de um Anjo.
3 Sword & Cross, reencontros.
Notas iniciais
- Então se lembrem: PPP, pílulas, pijamas e polícia, que carinhosamente chamamos de vermelhos – disse uma mulher – não pera, ela era mesmo uma mulher? Precisei olhar fixamente para então poder reconhecer qual o sexo daquela pessoa que ditava as regras para os novos estudantes – Lembrem-se do essencial e ninguém vá se machucar. –Mulher! Constatei quando pude ver melhor o corpo da moça pela claridade fraca que aparecia de uma das janelas. Randy era o nome dela. Depois que terminou de nos instruir, a mesma recolherá tudo que ela julgava ser perigoso. Inclusive uma pinça de modelar sobrancelhas que eu sempre carregava. Os celulares também foram recolhidos, e antes que eu depositasse meu aparelho na pilha em que era exigido, deu mais uma olhada para ele. “Sentirei sua falta bebê”. Mas o que é isso Izzy? Pare de ser tão fresca. Você sobrevive sem isso. Enquanto estava perdida em meus devaneios, e meu diálogo interno, os outros alunos que antes estavam ao meu lado já havia saído. Olhei em volto, e me encontrei sozinha.
- Ótimo! Comecei bem.- reclamei enquanto pegava uma de minhas bolsas jogando-as em meus ombros. Não era as malas que continha minhas roupas, essa já tinha sido colocadas em meu quarto. Era uma bolsa que nunca se separava de mim. Comecei a caminhar lentamente, observando cada canto daquele – repugnante lugar – de todos os reformatórios que já passei, nunca imaginei ver um como aquele. Era tudo negro, frio, sombrio.
- Olha por ande anda! – uma voz alterada soou pelos corredores depois que eu trombei com algo.
- Desculpa! Eu não tinha visto, estava distraída. – comecei a me explicar enquanto me levantava. Vamos recapitular as coisas, tem menos de meia hora que eu estou aqui, e já me encontro sozinha, perdida, com a bunda doendo por conta do tombo, e fazendo uma possível inimiga.
- Isabela? – a voz era um tanto familiar. Mas o impacto do tombo não permitiu que eu o reconhecesse. Olhei para cima, e vi uma figura loira, com o estilo mais rock que poderia ter.
- Molly? – perguntei.
- Não, é a Cleópatra. – Respondeu irônica. – Cada milênio que passa, você fica mais burra em Izzy. Afinal o que está fazendo aqui?
- Eu, er. Eu fui condenada a passar uma temporada aqui! – despejei tudo. Os olhos de Molly se semicerraram me avaliando. – É sério, não vim atrás de você, antes que pense. Nem sabia que você estava aqui. – disse por fim.
- Relaxa menina. Vem, vou te ajudar a conhecer o paraíso – desse por fim. Estar na companhia de Molly era muito bom. Fazia tempo que não via a amiga, e saber que não estaria sozinha ali naquele lugar era reconfortante.
- Então, a quanto tempo ta aqui? – perguntei depois que o silêncio preencheu o lugar.
- Ah um tempinho. Um pouco mais do que o Cam e a Gabbe eu acho. – Ela respondeu.
- O Cam e a Gabbe estão aqui? – a frase dele repetia em minha mente. Olhei para o lado, quase como se só com a menção do nome deles, algum iria aparecer ali.
- Está! E olha que surpresa, a sua primeira aula é com ele e com o bolo de carne. – disse com um falso empolgamento. Tinha me esquecido que faltava menos de uma hora pra minha primeira aula ali. E a forma como Molly havia dito, fez com que eu percebesse que não estava pronta pra enfrentar uma aula.
- Bolo de Carne? Quem é bolo de carne? – perguntei. Mas não houve tempo de resposta, quando dei por mim, já me encontrava d’frente a porta de onde seria meu primeiro horário. E Molly acenando de longe, dizendo que nos víamos depois. A sala a essa altura já devia estar completa. E a única coisa que me fazia querer entrar naquela sala era a chance de reencontrar com Cam, que foi, é, e sempre será um grande amigo.
Respirei fundo, abrindo a porta – que estava em um estado caótico. – As pessoas não notaram quando eu entrei – ou melhor, a maioria das pessoas. Olhei para o lado onde tinha um grupo de garotos que pareciam alheios aos outros. Era o tipo de grupo que Cam estaria. Mas não encontrei. Sentei em uma das mesas mais perto, sem olhar pros lados, ou pra trás ou até mesmo pra frente. Estava centrada em terminar um desenho que tinha começado. Quem sabe assim, as horas naquele inferno passariam rápido.
- Isabela? – uma voz feminina me chamou. Olhei e vi a figura de Ariane parada em minha frente, um tanto surpresa por eu estar ali. Mas pelo trono, será que eu encontraria todos ali?
- Ariane? – o nome dela saiu como uma pergunta. Coisa meio idiota. Afinal, era Ariane ali. A menina abrirá um dos seus sorrisos mais exagerados, e logo lançou seus braços em um abraço apertado. Tive que fazer um esforço para não ficar sem ar. – Er, bom te ver também Ari. – disse ofegante depois que a menina me soltara.
- Mas, o que está fazendo aqui?
- Longa historia. – não era a hora para falar disso, não quando tinha reencontrado mais um anjo da qual eu sentia muita falta.
- Ora, ora quem é vivo sempre aparece. – olhei para trás para ver quem falava comigo. Claro que eu não precisava disso pra reconhecer a voz um tanto rouca, e arrastada de Cam. Mas, bom eu virei. Quando enfim avistei a imagem de Cam, eu me permitir sorrir. Cameron era meu amigo desde... bom creio que desde antes da queda. Não tem condições, não tem outra explicação. Sem me preocupar com as pessoas da sala, ou com quem que pudesse ver essa cena, corri e logo envolvi o garoto em um abraço e dizendo o quanto sentia a falta dele. A resposta não demorou, e veio quando os braços fortes dele me envolveram em um abraço. – Também senti sua falta pequena. – ele disse rido, e bagunçando meus cabelos. Ficamos um bom tempo assim, apenas nos abraçando e matando a saudade que me consumia por pelo menos alguns séculos. – Então, o que você fez para estar aqui? – ele perguntou quando a euforia tinha acabado. Ariane não tinha nos deixado. Pelo contrário. Apesar da carranca que ela mantinha para o Cam, não tinha saído do nosso lado. Sei que ambos esperavam uma resposta minha. Afinal, quando eles imaginariam que eu fosse parar ali?
- Ér, meio complicado sabe. – tentei enrolar, mas a cara que ambos tinha para mim deixava claro que eu não fugiria desse assunto. A porta da sala se abrindo chamou minha atenção. Estava de costas para a porta, mas o calor, e o perfume que viera junto com a brisa me fez imediatamente encarar a porta. E lá estava ele. A alma mais quente, mais pura e luminosa de que eu me lembrava. Lá estava ele, com seus drads, e com o mesmo sorriso de que eu me lembrava. Roland Sparks! O anjo que decretou minha queda, a alma que prendeu a minha. Fazia tempo que eu não o via. Pra falar a verdade, desde que eu descobrira do seu amor para uma dama chamada Rosaline. Desde então, nenhum noticia, nada. E vê-lo ali, tão perto era algo inacreditável. Os olhos castanhos do garoto logo se encontraram aos meus. E como impulso eu baixei a cabeça. Nunca soube como lidar com os meus sentimentos, para com aquele garoto. Na verdade, vivia fugindo e evitando qualquer contato com ele.
- É alguém perdeu a linha. – Ariane comentou rindo, fiz careta pra ela e antes que aquela situação constrangedora pudesse prosseguir voltei ao meu lugar. Durante o resto da aula eu não encarei mais nada, que não fosse o bloco branco em minha frente.
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