Notas iniciais
Este é o prólogo, onde conheceremos nossa personagem principal e como ela iniciou sua jornada.Boa Leitura!

Na parte central das verdes planícies de Pangborn, há uma curiosa formação rochosa que produz um enorme abismo em forma de folha cuja profundidade é completamente desconhecida. É um local inóspito, misterioso e até mesmo melancólico, evitado pelos viajantes impressionados pelas histórias sombrias que circulam entra as bocas tolas, porém criativas. No entanto, em tempos de cheia uma pequena vertente do rio Anduin se desvia de seu curso usual e avança solene, fazendo da sua foz o enorme buraco. Esse acontecimento de curta duração transforma o abismo medonho numa bela cachoeira que, em dias de sol é agraciada pelas luzas brilhantes de um harmonioso arco-íris, contradizendo cada injúria direcionada ao lugar.

Segundo os mais antigos e sábios, o abismo de Pangborn era muito mais que um mistério da natureza. Era o antigo refúgio dos magos onde, em tempos de necessidade, os cinco magos se reuniam para trocar palavras de sabedoria e buscar conselhos com os Valar acerca de decisões importantes.

E para lá, cavalgava a jovem de longos cabelos castanho-avermelhados que com suas pequenas mas firmes mãos, manejava as rédeas de seu fiel Haldir, um corcel de pelo negro.

Callya, que era o nome da jovem, cruzara grandes distâncias desde a pequena vila de Baldrain no norte até Pangborn. Estava cansada e receosa quanto ao que poderia encontrar, mas apesar disso sentia-se satisfeita por enfim ter chegado ao seu destino como assim fora instruída por seu velho pai. As palavras dele, embora ditas há um certo tempo, ainda estavam frescas em sua memória.

“Tome a estrada até o abismo de Pangborn, criança. Procure por Gandalf e lhe conte sua história. Se preciso for mostre-lhe seu colar. Peça ajuda. Tenho certeza que ele a ouvirá e sabendo que estás com ele, partirei muito mais tranquilo.”

A princípio, quando ouvira tais palavras, a jovem não deu muita importância. Estava triste pela doença de seu pai, desacreditada de tudo e de todos por causa de tudo que passara e não achava que havia outra solução para a sua vida senão casar-se com Kirk, o dono do armazém local para saldar as dívidas do pai e viver em meio aquele povo desconfiado e maldoso. Ser mãe, depois avó e morrer sem nunca colocar os pés para fora da vila. Apesar disso, dia após dia, as palavras martelavam em sua cabeça insistentemente e, quando seu pai veio a falecer um dia antes do casamento, ela decidiu arrumar seus poucos pertences e fugir para fazer a vontade de seu pai.

Callya fechou a mão em torno do colar buscando conforto. Não sabia bem o que esperar, pois seu pai falava muito pouco do padrinho misterioso. Dizia apenas que era um homem excêntrico, mas que tinha bom coração. Esporeou o cavalo próximo ao abismo, embora a uma distância que ela considerasse segura e desmontou, aproximando-se em passos lentos até a beirada para espiar lá em baixo, sem conseguir distinguir nada naquela imensa escuridão.

Um nó formou-se em sua garganta. De pé, olhando para aquele negrume sua fé começava a perder a força, dando lugar as dúvidas. Será que seu pai estava enganado? Seriam apenas palavras de um homem delirante? As evidências levavam a crer que sim.

A jovem andou de volta ao cavalo, retirando um pequeno cantil de seu alforje de couro. Bebeu um gole de água e ficou pensando no que fazer. Haldir a cutucou com o focinho retirando-a de seus devaneios.

—Tudo bem ­— disse ela dando-lhe um torrão de açúcar — é melhor aproveitar bastante porque sobraram poucos.

Era verdade. As provisões não eram muitas e mesmo com o racionamento, não haveria o suficiente para uma viagem de volta. De qualquer maneira, não era a intenção de Callya voltar.

Montou novamente e circundou o buraco algumas vezes tentando prestar atenção a cada detalhe que pudesse ter passado despercebido na tentativa anterior. Na quinta volta, acabou desistindo e indo se sentar na grama baixa. Não haviam opções a se considerar. Pela segunda vez na vida, Callya não sabia o que fazer.

—Olá senhorita — saudou uma voz atrás dela — quem és?

Assustada, Callya ergueu-se num pulo procurando o dono da voz e encontrando um homem de vestes cinzentas. Ela olhou em volta, imaginando como aquele homem alto de vasta barba branca e chapéu engraçado havia surgido. As planícies se estendiam até onde a vista alcançasse e não havia como aquele estranho sujeito se aproximar sem que ela notasse. E ainda assim, ali estava ele, seu cenho franzido aguardando uma resposta.

—O...lá — respondeu ainda confusa — meu nome é Callya. Sou de Baldrain.

Ele coçou a cabeça pensativo. Callya chegou a pensar que talvez o conhecesse, mas logo espantou aquele pensamento tolo. Ela nunca vira ninguém como ele.

—Baldrain hein? É muito longe, sem dúvida. O que faz tão longe de casa?

—Estou procurando por alguém. Seu nome é Gandalf.

—E porque procura por Gandalf senhorita? — continuou o homem parecendo intrigado.

—O senhor o conhece? — Callya resolveu perguntar pois não tinha a intenção de revelar detalhes de sua vida sem ao menos saber se aquele homem realmente lhe poderia ser útil.

—É claro que conheço! — respondeu enfaticamente como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

—Poderia me levar até ele? — pediu ela — preciso muito vê-lo.

O velho se apoiou num cajado analisando-a minunciosamente.

—Gandalf não recebe muitas visitas. Pouquíssimas pessoas sabem onde ele vive e é muito...—ele escolheu as palavras com cuidado — curioso que você saiba que ele vive em Pangborn.

—Meu pai me contou — explicou Callya, um pouco impaciente com a resistência do homem em ajudá-la — o nome dele é Tarlok. Ele era um lenhador.

—Era?

—Sim — concordou a moça — ele morreu faz um mês.

A expressão do homem mudou ligeiramente e Callya acreditou que este tenha ficado triste com a notícia. Ela continuou explicando.

—Gandalf é meu padrinho. Meu pai disse que quando eu era pequena, ele me deu este colar como presente — ela tirou o objeto mostrando-o —e disse que, quando eu crescesse ele me ajudaria.

—Vána? — ele sussurrou baixinho mais Callya ouviu bem, surpreendendo-se ao notar que ele a chamara do apelido que seu pai lhe dera.

—É você! Você é Gandalf!

O homem sorriu exibindo seus dentes perolados.

—Sim, Gandalf é meu nome. Eu esperava por você pequena Vána.

—Esperava por mim? — Callya estava confusa.

—Mas é claro! No entanto, todo cuidado é pouco e eu precisava ter certeza se você era mesmo quem diz ser — ele apontou para o colar cujo pingente era uma folha dourada — mas isto não deixa dúvidas. Venha, há muito a ser feito.

—Ir? Para onde?

—Para o refúgio dos magos, menina! Para onde mais seria?

E dizendo isso, caminhou resoluto em direção ao abismo.

Callya não entendia o que aquele homem queria dizer.

—Cuidado! — alertou ela — vai acabar caindo!

Ele a encarou divertido.

—E de que outro modo nós chegaríamos? — e despencou, sumindo na imensidão.

Callya estava paralisada pelo horror daquela cena. Certamente aquele homem era louco. Seu pai a havia mandado procurar um louco suicida que provavelmente estava morto a essa altura.

Mas era estranho, pois ele não ouviu nenhum som. Nem mesmo o ruído surdo do corpo encontrando as rochas que com certeza haveriam lá embaixo. Seria aquele um abismo sem fim?

Haldir relinchou baixinho.

—O que eu faço? — indagou, afagando o animal — é certo que, se eu segui-lo, vou acabar morta.

Ficou parada mais um instante, até finalmente tomar uma decisão.

—Venha Haldir, vamos embora — ela resmungou se ajeitando na sela — isso foi um erro.

Mas, para a surpresa de Callya, o animal não obedeceu. Ela cutucou de leve a barriga do animal para incentivá-lo e ainda assim ele permaneceu quieto relinchando baixo.

—Vamos Haldir! — vociferou Callya.

O tom de voz da moça desagradou o animal que começou a pular e correr a esmo enquanto Callya fazia o que podia para tentar se manter na sela. Eles estavam muito próximos ao abismo, mas o animal não parecia notar. Quando viu que iriam acabar caindo, tudo que Callya pode fazer foi gritar.

Então tudo ao seu redor ficou escuro.

Notas finais
Então, este foi o prólogo. Espero os comentários para saber se fui bem ou não. Beijos e até qualquer momento.