O Senhor de Gondor
3 Capítulo 3 - O Jardim de Isengard
Naquela manhã, Wallor e Barad saíram para cortar lenha a pedido de Karick. Enquanto trabalhavam, conversavam sobre uma antiga lenda, algo relacionado a um Anel de poder.
— Você nunca ouviu falar disso? perguntou Barad, apoiando o machado no tronco.
Wallor negou com a cabeça.
— Não que eu me lembre.
— Dizem que as Antigas Eras giraram em torno desse Anel. Um homem chamado Sauron o forjou para controlar os povos. Houve uma grande guerra, o Anel foi perdido, depois encontrado por um anão, e finalmente destruído na montanha de Mordor por um grupo de elfos e homens. Com isso, os orcs desapareceram da Terra-média… até agora.
Wallor golpeou o tronco mais uma vez.
— Essa história parece bem mal contada.
— Meu pai me contou quando eu era pequeno, antes mesmo de Hildwyn encontrar você. Lembro também que existia um grande rei de Gondor nessa história. Como era o nome? Artor… Aranor…
— Aragorn, disse Wallor, sem pensar.
Barad ergueu as sobrancelhas.
— Como você lembrou disso?
Wallor hesitou.
— Não sei. Esse nome me soa… antigo. Familiar. Como se eu o tivesse escutado muitas vezes quando era criança.
— Olha só, o rei está recuperando a memória, brincou Barad, fazendo uma reverência exagerada.
Wallor lançou-lhe um olhar severo.
— Vai ajudar com a lenha ou vai continuar falando besteira?
Barad ergueu as mãos em rendição.
— Está bem, foi só brincadeira.
Os gritos vieram logo depois, rasgando o ar do vilarejo como lâmina. Correria, choque de vozes, pânico.
Sem perder tempo, entraram em casa, pegaram as espadas e tentaram convencer Hildwyn a ficar. Como sempre, ela recusou. Karick veio junto.
A estrada central estava em caos. O mesmo homem que perdera a mão liderava um grupo ainda maior de orcs. Casas ardiam, gritos ecoavam, pessoas eram arrastadas como presas.
O ódio subiu no peito de Wallor como um incêndio.
Mas aqueles não eram orcs comuns. Eram Uruk-hai. Maiores. Mais fortes. Mais treinados. Os mesmos que haviam massacrado Gondor.
Wallor avançou num grito furioso. O impacto foi brutal. O Uruk repeliu o golpe e o atingiu no rosto, jogando-o ao chão. A espada desceu, mas uma flecha atravessou o peito do monstro antes que o golpe se completasse.
Hildwyn.
Karick ajudou Wallor a se erguer.
— Vá com calma, filho.
Ao redor, os moradores tentavam resistir, mas eram superados. Wallor viu o dono da taberna cair sob a lâmina de um orc. Sangue manchava a terra. Gritos atravessavam o ar.
A dor voltou à cabeça. Imagens antigas começaram a colidir dentro dele: guerra, aço, fumaça, morte. Ele caiu de joelhos, pressionando as têmporas.
Barad e Hildwyn formaram um círculo de proteção ao seu redor. Karick mantinha-se na retaguarda, arqueando flechas junto ao poço.
Então uma flecha negra atingiu Karick no peito.
O tempo pareceu congelar.
— Não! gritou Barad.
Antes que pudessem alcançá-lo, Karick ergueu a voz, firme apesar da dor:
— Ajudem o seu irmão. Ele é a esperança de Gondor!
Uma segunda flecha o atingiu. Karick caiu para trás e desapareceu dentro do poço.
O desespero tomou Barad e Hildwyn. Orcs cercavam o local. A derrota parecia inevitável.
Foi quando uma figura encapuzada surgiu diante deles, empunhando uma espada longa e luminosa. Os golpes eram precisos, implacáveis. Orcs caíam como árvores sob tempestade.
Aratus.
Percebendo a desvantagem numérica, ele apoiou Wallor nos ombros e ordenou a retirada. Fugiram para a floresta, até que o caos ficou distante.
Barad chorava sobre uma pedra. Hildwyn apoiava-se numa árvore, em silêncio quebrado por soluços.
— Aqui estaremos seguros por enquanto, disse Aratus.
Wallor respirava com dificuldade. As palavras de Karick ecoavam como sino em ruínas: esperança de Gondor.
Então a compreensão veio, pesada como ferro quente. Karick sempre soubera quem ele era. Sempre o protegera.
— Eu me vingarei, disse Wallor, com a voz firme.
Os três o encararam.
— Eithor cairá. Gondor será retomada. Por Karick.
Aratus assentiu.
A noite passou lenta e silenciosa. Ao amanhecer, partiram rumo ao oeste, atravessando Fangorn por dias até alcançarem um acampamento de sobreviventes.
Quando Aratus anunciou o nome de Wallor, a esperança acendeu-se nos rostos cansados. O povo chorava, sorria, ajoelhava-se.
Wallor sentiu o peso e a luz daquele momento.
Na manhã seguinte, diante do povo reunido, prometeu lutar pela libertação de Gondor.
Partiram então rumo a Isengard.
Fangorn tornou-se mais densa, mais viva, mais inquietante. As árvores pareciam observar. O ar pesava.
Isengard surgiu como uma cicatriz no mundo: muralhas partidas, pedra negra tomada por musgo, uma torre erguendo-se como um dedo acusador contra o céu.
Decidiram acampar.
O silêncio foi quebrado por um ruído entre as árvores.
Wallor subiu numa árvore para investigar.
No alto, encontrou um olho gigantesco, amarelado, pulsando vida.
O grito rasgou sua garganta antes que pudesse pensar. Ele despencou, caindo entre arbustos.
A árvore moveu-se. Rangia como ossos antigos.
— Hmmm… quem são vocês?
A voz ecoava como vento em cavernas.
— Somos homens, respondeu Aratus.
— Hmmm… pequenos para homens… talvez eu tenha crescido demais…
A criatura apresentou-se como Barbárvore, um Ent, antigo guardião da floresta. O último de sua espécie.
Relatou que alguém havia entrado na torre e deixado algo para trás.
— Eithor, murmurou Aratus.
Com permissão do Ent, avançaram para dentro da torre de Orthanc.
E o destino, paciente como pedra, fechava lentamente seu cerco.
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