O Senhor de Gondor
1 Capítulo 1 - A Queda de Gondor
Era uma noite fria e chuvosa. O cenário era familiar, mas carregado de terror. A Cidade Branca, outrora símbolo de pureza e grandeza, agora estava tingida de vermelho, banhada pelo sangue de seus habitantes.
Wallor observava o pai. O rei mantinha-se sério; a barba grande e grisalha caía sobre o rosto marcado pelos anos e pelas batalhas. Com um gesto solene, retirou a coroa e a colocou de lado, substituindo-a pelo elmo metálico. Os olhos negros, vazios e quase lacrimosos, revelavam uma dor profunda e uma certeza amarga.
Do lado de fora, os estrondos nos portões ecoavam mais altos que os trovões que rasgavam os céus. Gritos de agonia misturavam-se ao choque de espadas e ao silvo das flechas cortando o ar. Era um som pesado demais para os ouvidos de uma criança de apenas oito anos. A guerra, que já durava dias, consumia lentamente o povo.
Tambores ribombavam além das muralhas, acompanhados de gritos que pareciam ecoar dentro da mente do menino. O rei, já com o elmo posto, ergueu a espada e dirigiu-se aos homens reunidos no vasto e dourado salão:
— Homens! A morte pode chegar para todos nós esta noite, mas não deixem que algo precioso morra dentro de vocês: a honra. Espadas podem cair, escudos podem ser destruídos, nossas almas podem ser roubadas, mas a nossa honra jamais perecerá!
Wallor olhou para os guerreiros ao redor. A falta de esperança era evidente em seus olhos, mas nenhum recuava. Sabiam que não venceriam, mas permaneciam por amor ao rei, ao povo e às vidas que haviam construído. Todos tinham consciência de que aquela noite seria a última para muitos, e ainda assim ninguém abandonava o próprio posto.
O rei aproximou-se do filho. O sorriso era quase forçado; os olhos se fechavam por um instante, tentando esconder a dor.
— Viva, garoto. Não seja tolo como seu pai foi.
Em seguida, entregou o menino aos braços de Dalma, a criada que o criara desde bebê. Voltando-se para os homens, o rei bradou:
— Por todos que morrerão hoje, por todas as gerações que perderemos, por nossa honra! Podemos não vencer, mas não cairemos antes do nascer do sol!
Dalma conduziu Wallor por um alçapão que levava a outra parte do castelo, onde mulheres e crianças refugiadas aguardavam. Enquanto desciam pelo corredor vazio, os sons dos portões sendo destruídos ecoavam atrás deles. Wallor ainda conseguiu ver, pela última vez, o pai correndo para o combate, espada erguida.
Ao alcançarem o jardim, a luz do sol feriu os olhos do menino. Ele abraçou Dalma com força enquanto lágrimas quentes escorriam pelo rosto. A dor da perda, o medo do desconhecido e a impotência de ser apenas uma criança pesavam sobre seu corpo frágil.
De repente, Dalma caiu, arrastando-o ao chão. Wallor rolou para o lado e se levantou num salto, acreditando que ela havia tropeçado. Ao encará-la, porém, viu uma flecha negra cravada em suas costas. Os olhos sem vida confirmavam o inevitável.
Ele procurou a origem do disparo. No alto do paredão que cercava o jardim, dois orcs e um homem desciam apressados os degraus em sua direção. O medo o paralisou. Eles o alcançaram rapidamente.
Um dos orcs apontou a espada para o garoto, zombando:
— Olhem só, o filhinho do rei!
Outro o segurou com brutalidade e riu:
— Vamos cortar a cabeça dele e levar como prêmio.
O homem forçou a cabeça do menino para baixo. O orc ergueu a lâmina, cuspindo desprezo:
— Não vai doer nada.
Antes que o golpe fosse desferido, uma flecha atingiu o peito do orc, que caiu de joelhos, rugindo de dor. Um homem alto, de cabelos longos e barba por fazer, surgiu à frente de Wallor. Carregava o símbolo do povo e movia-se com precisão mortal. Derrubou o segundo orc num golpe certeiro e avançou contra o homem, que fugiu em pânico.
— Você está bem, príncipe Wallor? perguntou, aproximando-se.
O menino o abraçou, soluçando, incapaz de conter o alívio.
— Obrigado… obrigado por me salvar.
O Guardião percebeu o desespero estampado no rosto da criança.
— O que você faz aqui fora? Não me diga que tomaram o salão principal!
— Sim… eles destruíram o portão.
O homem hesitou, fitando o chão antes de erguer novamente o olhar.
— E o rei? Onde está seu pai?
— Está lá dentro… lutando com seus homens. Uma luta suicida.
A dor misturou-se à resignação nos olhos do Guardião. Ele deixou o escudo cair ao chão.
— Então este é o fim de Gondor… o fim do nosso povo.
Respirou fundo e se recompôs.
— Mas não vou deixar você morrer. Ainda há algo que posso fazer.
Colocou Wallor sobre os ombros e correu em direção à floresta. Orcs e homens tentaram detê-los, mas foram derrubados com golpes precisos. Mesmo assim, o número de inimigos crescia como uma maré escura.
Ao chegarem à beira de uma cachoeira, o Guardião colocou o menino no chão e lhe entregou uma pequena faca.
— Use isto, se for necessário.
Ele voltou-se para enfrentar os inimigos com coragem feroz. A espada cortava o ar, desviava flechas, rasgava carne. Ainda assim, os oponentes não cessavam.
Quando um orc avançou contra Wallor, o menino segurou a faca com mãos trêmulas, incapaz de se mover. O golpe fatal não chegou. O Guardião colocou-se à frente da lâmina e recebeu o impacto.
O sangue respingou no rosto de Wallor. O homem cambaleou, segurando a mão do garoto junto à faca.
— Sobreviva, Wallor… você é a última esperança de Gondor.
Com o último esforço, empurrou o menino em direção à queda d’água. O vento rasgou-lhe o rosto enquanto caía. A visão escureceu, e a consciência se apagou como uma chama engolida pela noite.
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