O Senhor das Florestas
22 Aqueles que vinham de fora
Notas iniciais

A lâmina em uma mão refletia a luz da tocha na outra. Jurgis não era tolo de entrar ali desarmado, e sua intuição se provou certa. A faca fora sua salvação diante de cada criatura que encontrou. Mas quanto mais forças da Floresta ele derrubava, mais pareciam existir, brotando de qualquer sombra. Quando encontrou os irmãos quase os atacou de imediato, pensando que fossem mais dos artifícios daquele lugar maldito. Não estava tão errado assim.
Hernan falava em tom hesitante, claramente tentando convencê-lo a livrar-se da tocha e da faca. Será que ele não enxergava as criaturas ao redor, que só se mantinham distantes por causa do medo do fogo, rondando-os com olhares predatórios? Não, havia uma única explicação para Hernan querer impedi-lo de extirpar aquela terra até que só restasse o pó. O garoto era a própria Floresta em um corpo novo, lutando pela própria preservação.
Hernan viu no rosto dele uma sentença: uma ameaça. Apesar de tudo o que a Floresta era e fazia, tentar destruí-la era impensável. Era um sentimento novo que via na raiva de Jurgis, não apenas autopreservação, mas também vingança.
— Afaste o fogo, você vai matar todos nós. Talvez vença alguns deles, mas e depois?
Sem entendê-lo, Jurgis manteve-se cauteloso. Porém, algo atrás de Hernan capturou sua atenção. A dríade que atacara Ascian.
— Svajone…
Era tarde. Svajone agora pertencia apenas à Floresta. De que adiantava ter ido até ali? Havia perdido para sempre sua família. Mas se era a Floresta que o observava pelos olhos da dríade, era a Floresta que sangraria por seus ferimentos.
— Não! – Hernan gritou, entrando em seu caminho, todo o seu corpo reverberando com a estranha urgência.
Jurgis, que também já o enxergava como apenas outro corpo roubado pela Floresta, avançou com a faca. A dríade agarrou seu braço, impedindo que acertasse Hernan. Ela não deu mais que um olhar para o rapaz, antes de atravessar a garganta de Jurgis com os galhos retorcidos de seus dedos.
Hernan ouvia o próprio coração acelerado. O ferimento em seu braço queimava com a vontade da Floresta. A Floresta se defende. Assim como Jurgis, a dríade o enxergava como um deles. Quanto tempo ainda tinha, se a própria Floresta já o via como parte dela? Se já a ouvia sussurrando-lhe desejos em seu íntimo? O medo que tanto evitava finalmente retornou. Seu tempo estava acabando. Hernan tentou impedir Jurgis por lógica, porque ele e os irmãos sofreriam as consequências daquela insanidade. Mas não podia negar a revolta que a luz daquela tocha lhe provocara. Ousadia daqueles que vinham de fora, achar que tinham o direito de tentar destruí-la…
Ele mudou sua atenção para Ascian e Eiren. Aqueles que vinham de fora. Hernan ouvia seu coração bater em sintonia com os demais. Não! Ele ainda tinha tempo. Recusou o instinto que lhe era sussurrado. Recusou o que lhe instigava a fazer.
Não contra seus irmãos. Contra eles, jamais.
Correu na direção deles carregando a faca caída de Jurgis, no mesmo momento que a dríade. Ambos caíram, mas apenas Hernan levantou. As outras criaturas hesitaram, confusas, sem discernir se ele era homem ou Floresta.
— Corre! – gritou para Ascian e pegou Eiren nos braços. As criaturas despertavam do torpor, decidindo que ele também era o inimigo. Eles não conseguiriam… – Ascian, sobe!
O irmão entendeu rápido, escalando velozmente a grande árvore indicada até alcançar seus galhos como quando brincavam perto de casa. Hernan lhe entregou Eiren, e depois Ascian estendeu a mão para que ele subisse também. Mas não funcionaria daquela forma.
— Prometi que não me tornaria uma daquelas coisas. Agora me prometa que vocês vão para casa.
— Hernan, não faz isso, por favor!
As criaturas os cercaram, alternando os olhares predatórios dele para os outros. Elas avançaram, ele também. Ferir a Floresta era uma sentença de morte, mas ele já estava condenado. Não deixaria que os alcançassem.
Ele ainda tinha tempo… Era o que importava.
Então ele caiu. Então ele perdeu. Então ele se foi.
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