O Semideus Solitário
13 Sozinho de novo
Nico POV's on
–É difícil ser parente de tantas pessoas que me odeiam.- Hera disse fazendo biquinho e uma voz doce.- Mesmo sendo uma deusa é quase impossível conseguir o respeito da minha família.
Eu não disse nada, apenas continuei a fita-la.
O silencio me incomoda, então olho ao redor procurando os romanos que estavam nas mesas a minha volta. Não há ninguém no restaurante. Até os garçons tinham sumido. Como se impedidos de entrar, todos os clientes e funcionários estão do lado de fora do restaurante, eles nem sequer olham para o lado de dentro.
–Bem, estou aqui por motivos que os outros deuses desconhecem.- Hera tinha voltado a falar em seu tom de voz normal.
–Vai me contar o que quer ou só veio aqui para tomar um café e ver o tempo passar?
Hera cruzou os braços e sua expressão constante de ódio continuou a mesma.
–Fique longe da menina ruiva.
–Por que eu iria fazer isso? Ela minha amiga.- "Minha única amiga" pensei. Há quem diga que eu sou anti-social, e sou, mas mesmo que não fosse, ninguém alem de Alice quer ser meu amigo.
– Fique longe de Alice o me sentirei obrigada a me livrar dela.
O medo e a raiva impediam as palavras de saírem da minha boca. Alice se tornou, em pouco tempo, alguém muito importante para mim. Não posso perde-la nem deixar que a machuquem. Mas o bem estar dela é mais importante do que a felicidade e o conforto que sinto perto dela.
Volto a olhar para o cardápio, ainda fechado sobre a mesa, assumindo minha derrota. Hera é uma deusa não há nada que eu possa fazer que vá a impedir de matar Alice caso eu volte a falar com ela.
A deusa começa a se levantar com esboço de sorriso no rosto
–Por que?- Minha voz sai rouca e baixa, soa mais como um rugido do que como palavras.
–O que disse?
– Por que a Alice?- Digo quase gritando. Aperto o apoio de braços da cadeira até os nós dos meus dedos ficarem brancos- Que perigo ela traz para você?
– Ela irá descobrir coisas que você não pode saber e caso ela te conte, meus planos podem ser arruinados.
Levanto em um salto, quase derrubando a mesa.
– Me mate então! Se o problema é eu saber demais então quem deve morrer sou eu, não Alice.
Parece exagero morrer por uma garota que conheci a tão pouco tempo, mas na verdade, acho que já estou vivo a tempo demais e que o mundo será melhor sem mim. E eu poderia renascer e esquecer tudo que fiz e que já me aconteceu.
Esperei minha morte chegar, mas ela não veio. Hera apenas começou a rir.
–Até faria isso, mas você é uma parte importante de meu plano.
– Essa coisa que Alice vai descobrir,- perguntei com a cabeça baixa- tem alguma relação com a possibilidade de ela ser uma semideusa?
– Ela é uma semideusa, mas o que me preocupa é uma benção que ela recebeu.- Hera disse se aproximando de mim e colocando uma das mãos em meu ombro- E você deve saber que isso é pelo bem maior.
Estava pronto para dar um soco na cara de Hera quando tudo ficou escuro.
...
Acordei montado na minha moto, estacionada na frente do predio onde moro. Afundei o rosto em meus braços, está frio e quero dormir e esquecer tudo.
Sou como um livro fechado que ninguém pode abrir, menos Alice. Eu deixava ela ler apenas algumas paginas, mas agora isso acabou. O livro deve voltar para seu lugar: a prateleira mais alta da estante, onde está fora do alcance de qualquer um, inclusive de sua leitora favorita.
Subi para meu apartamento, preparei um pouco de miojo e me sentei na mesa.
Queria estar na minha cama dormindo, ou lendo. Mas acho que já está na hora de adiantar minha missão.
Meu pai me disse que haviam três alunos do oitavo ano, cinco professores e o faxineiro na lista de suspeitos da policia, mas ele não tinha mencionado algumas coisas importantes como: A senhora Dotz era um dos professores e havia duas meninas do nono ano na lista, e um dos alunos do oitavo ano era aquele Fred da aula de educação física de alguns dias atras.
As duas meninas do oitavo eram Lucia e Patricia, amigas da duas alunas do nono ano: Rose e Amelia. Na lista as informações sobre elas eram muito poucas, só havia a idade e o ano na escola. Parece que a policia daqui não é das melhores, tudo que sei sobre elas aprendi no corredor da escola e sei mais do que eles. Que eu saiba elas moram juntas e só saem de casa para ir a escola e a algumas festas e que ninguém nunca foi na casa delas.
Peguei meu computador e procurei pelas noticias dos desaparecimentos. Parece que um dos alunos sumidos foi visto pela última vez em uma festa do Fred. Lembro de ter ouvido alguém mencionar essa festa e a presença de Lucia, Patricia, Rose e Amelia nessa festa.
Uma das noticias dizia que se os alunos estavam mortos não havia nenhuma prova, pois nunca acharam o corpo de nenhum deles. Achei o perfil dos desaparecidos em um site da policia e descobri que dois dos quatro alunos não conheciam o pai ou a mãe.
Talvez eu demore por volta de um mês para resolver isso e voltar para casa.
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