O Semideus Solitário
16 O Baile parte 1
Alice POV's on É sexta a noite, por volta de sete e vinte, o baile já começou, mas eu não vou.
Estou sentada em meu quarto, os cotovelos apoiados na mesa e o rosto escondido nas mãos. As lagrimas rolavam pelo meu rosto e eu tentava impedir-las de molhar o livro a minha frente.
Não pense que o motivo de eu estar chorando é que não vou ao baile. Tem um baile todo ano, que diferença faz eu não ir esse ano? Pra mim não tem nenhuma. Algumas meninas se importam, mas eu não, já fui no baile do ano passado e posso ir no do ano que vem.
Estou chorando por causa do livro que estou lendo, é o último da série e meu personagem favorito morreu por causa de um plano que ele mesmo inventou. Ele sabia que havia chances de ele morrer mas executou o plano do mesmo jeito. Sei que "foi pelo bem maior", mas não tinha como ele salvar a humanidade e continuar vivo?
Sequei o rosto com a manga da blusa e marquei a pagina do livro quando ouvi uma das aberturas de Naruto Shippuden que é o toque do meu celular. Peguei o celular jogado em cima da cama, embaixo de algumas folhas de papel rabiscadas. O identificador de chamadas dizia que Nico que tinha me ligado, deslizei um dos dedos pelo botão verde para atender e coloquei o celular perto do ouvido.
– Alô?- Perguntei, minha voz saiu um pouco mais chorosa do que eu pretendia.
– Oi Alice,- Nico disse do outro lado da linha- Eu sei que é meio em cima da hora, mas você ainda quer ir ao baile comigo?
Bati a mão na testa em silencio.Em cima da hora? O baile começou a quase meia hora! A maioria das meninas estava se arrumando desde meio dia e algumas ainda não estão prontas, mas eu não sou como elas, em vinte minutos no máximo estarei pronta.
– Claro que quero.- respondi.
– Ótimo- Nico disse feliz- Vou te buscar ai daqui a trinta minutos, ok?
– Ok.
Desliguei o telefone e abri o armário, abri as gavetas e mexi nas roupas penduradas , não tenho nada para vestir. Sério mesmo, não tem nenhum vestido no meu armário, o vestido que usei ano passado foi doado porque achei que nunca mais iria precisar dele, eu iria de saia, mas todas elas estão gastas e minha mãe mortal não me deixaria sair de casa com elas nem de calça jeans sabendo que eu iria ao baile da escola, acredite, eu já tentei.
Corri escada a baixo para falar com minha mãe que estava sentada no sofá vendo uma série de TV qualquer com meu pai.
– Mãe! Preciso de um vestido!
–Pra quê?- Meu pai perguntou arqueando uma sobrancelha, ele sabe que eu não gosto de usar vestidos
. — Nico me convidou para o baile.
– Pensei que vocês não iam mais.- minha mãe disse ainda olhando para a tela da TV.
– Mudamos de idéia.
Minha mãe mortal suspirou se levantando do sofá e indo até um dos armários que tinha na sala, Ela tirou da gaveta uma caixa branca e me entregou. Dentro da caixa havia um vestido tomara-que-caia preto com um laço na lateral da cintura, na bainha tinham desenhos de chamas azuis brilhantes. Ele devia bater nos meus joelhos.
– Fiz esse vestido pra você quando disse da primeira vez que ia ao baile esse ano. Vista ele com aquela sua blusa arrastão do seu .... como era o nome? Cosplay.- Mamãe disse sorrindo, ela sempre esquece o nome do meu hobby .- E Antes de sair eu quero te mostrar uma coisa, mas vista o vestido antes.
Minha mãe trabalha desenhando vestidos para uma loja de roupas da cidade, ela vive fazendo roupas para mim. Agradeci e subi de volta para o quarto.
Coloquei a blusa arrastão e o vestido, depois escovei os cabelos e prendi um laço preto na parte de trás da minha cabeça. Vesti botas de couro pretas até o joelho.
Minha maquiagem foi simples, já que eu detesto maquiagem. Passei lápis nos olhos e um batom claro. Peguei uma bolsa pequena e coloquei dentro dela dinheiro e meu celular.
Me olhei no espelho e senti que tinha alo faltando, abri algumas gavetas do armário ate que achei o que procurava: um colar prateado de coruja e um par de luvas pretas, daquelas que não cobrem os dedos. Agora estou pronta.
O relógio da mesa mostrava que eram sete e trinta e cinco , pronta para o baile em 15 minutos! Eu venci! Alice Thompson é a menina mais rápida em se arrumar para o baile da escola! E a multidão vai ao delírio!
Ri de mim mesma e me sentei na cama, minhas piadas são horríveis e eu sei disso. Continuei a ler o livro enquanto esperava Nico chegar. Faltavam menos de quarenta paginas para o livro acabar e consegui ler por volta de dez paginas.
Ouvi a campainha tocar e sai do meu quarto, meus pais e Nico me esperavam no pé da escada. Os olhos de Nico brilharam quando ele me viu e ele sorriu.
Nico estava todo de preto como sempre, ele usava botas, calças jeans pretas rasgadas, um paletó escuro, a blusa social e uma gravata branca.
Minha mãe segurava meu florete e me chamou para cozinha, para que pudéssemos conversar a sós. Nico pareceu entrar em pânico por ter que ficar sozinho com meu pai, mas não disse nada.
Entramos na cozinha minha mãe me entregou o florete.
– Sabe filha, eu sei que você é uma semideusa. Quando me casei com seu pai você já tinha nascido e eu nunca me importei com o fato de que você é filha de outra mulher. Seu pai me pediu para fazer esse vestido para você com um detalhe em especial que os outros vestidos não tem.
Mamãe puxou o laço sem fazer muita força e ele saiu, mostrando um buraco pequeno, era um bolso, na verdade...
– um vestido com um lugar para minha espada? Isso é fantástico!- Eu disse tirando a florete da bainha vermelha original e a coloquei na bainha do vestido, cobrindo o punhal com o laço em seguida. Abracei minha mãe e sorri.
– Obrigada. Mas, por que o papai achou que eu ia precisar da minha espada?
– Ele sabe que seu amigo também é um semideus, e que existem monstros na escola. Como um semideus, ele sabe que o perigo pode aparecer em qualquer lugar.
– O papai é um semideus?- Perguntei atônita.
– Sim, ele é filho de Apolo. Quando você nasceu Apolo disse que você teria um futuro bom como artista e te abençoou como presente, por causa disso que você sabe desenhar tão bem.- Minha mãe se inclinou e falou baixo no meu ouvido- também é por isso que você tem aqueles sonhos.
Apolo era deus da arte e responsável pelo oráculo, tenho sonhos com o futuro por causa dele.
Lembrei do que Hestia disse quando nos conhecemos, que eu deveria falar com Nico sobre o primo dele.
– Obrigada pela explicação.- Eu disse enquanto saia da cozinha e minha mãe me seguia.
Nico segurou minha mão , entrelaçado seus dedos nos meus e saímos da minha casa. Tenho certeza que vi meu pai olhar feio para Nico antes de sairmos.
Enquanto cruzávamos meu jardim, Nico chegou mais perto de mim e beijou minha bochecha.
– Você está linda.- ele sussurrou em meu ouvido. Nico fitou o chão parecendo culpado e sua voz voltou ao volume normal- Desculpe-me pelas últimas duas semanas, não deixei de falar com você por que quis.
– Tudo bem.- Respondi sorrindo.
Mesmo que Nico tenha parado de falar comigo sem motivo algum por duas semanas, ele não parece feliz por ter feito isso, se eu mostrar a ele como me senti de verdade apenas deixaria ele mais triste.
A moto de Nico está estacionada na frente da casa do vizinho. A espada de ferro escuro está sobre o acento. Toco o laço do vestido, consigo sentir o punhal da espada sob o tecido, porque ele trouxe a espada?
Nico prendeu a bainha no cinto e montou na moto.
– Por que a espada?- perguntei me sentando atrás dele.
– No tempo que passamos sem conversar eu encontrei alguns monstros, talvez eles apareçam hoje no baile. Nico deu a partida e em alguns minutos estaríamos na escola.
O vento bagunça meus cabelos. Afundo o rosto na curva do pescoço de Nico e sinto o coração dele bater.
– Qual era mesmo o tema do baile?- Nico perguntou descendo da moto quando chegamos na porta de escola.
– Não sei, provavelmente "Noite nas estrelas" ou "viagem ao fundo do mar".
Nico riu e concordou. Entramos na escola, indo na direção do ginásio, onde seria a festa. Eu estava certa, o tema do baile era "noite nas estrelas". A iluminação fraca vinha de luminárias com forma de estrelas amarelas que iluminavam as paredes que normalmente são amarelas, mas que estavam da cor do céu noturno.
Havia um palco, onde seria a premiação da rainha do baile, que os alunos iriam escolher. Os alunos dançavam músicas que eu não conheço, dois professores, o de matemática e o de ciências, tentavam acabar com uma briga entre três alunos, alguns poucos estudantes estavam sentados nas mesas, conversando ou comendo.
Eram oito e quinze da noite, perdemos mais de uma hora da festa. O baile deve acabar depois da meia noite.
– Você conhece essa música?- Nico perguntou.
– Não, nem a que tocou antes.- Respondi.
Sentamos em uma mesa vazia e começamos a conversar sobre assuntos variados. Aproveitei a oportunidade e perguntei:
– Nico, por que os semideuses vão para o acampamento meio sangue?
– É um lugar seguro, com barreiras magicas, sem monstros. E lá os semideuses treinam para lutar com os monstros do lado de fora. A maioria só fica lá nas ferias, mas tem alguns que correm perigo demais e ficam lá o ano todo.
– Você gosta de lá?
– Gosto sim. Mas evito ir para lá, tenho outras coisas mais importantes para fazer.
Eu não respondi e ficamos em silencio por um tempo, ate que ele foi quebrado por um menino de rosto angelical loiro que se sentou ao lado de Nico. O menino usava calça jeans azul, uma blusa social branca e all stars preto.
–Oi Nico! Então essa é a sua amiga?-Perguntou o loiro.
– É sim.- Nico falou como se o menino fosse seu melhor amigo.
– Alice, esse é o Andrew, filho de Atena. Adrew, essa é Alice.
– Semideusa também? — Sim,- Respondi- Filha de Hestia.
– Como está Annabeth?- Nico perguntou para Andrew cruzando os braços.
– Não muito bem.- Andrew respondeu suspirando.- Depois que Percy sumiu ela ficou bem magoada e está procurando ele dês de então, quando estive lá da última vez pude ouvir ela chorando baixinho na cama a noite.
Annabeth deve ser a namorada de Percy, me doi saber que ela está procurando por ele e que todo o esforço dela será em vão, quem irá acha-lo é Nico e levará muito tempo para isso acontecer.
Tenho que falar pro Nico sobre Percy. Não posso me esquecer, mas também não posso falar com isso na frente de Andrew, que se descobrisse iria falar para Annabeth, coisa que, segundo Hestia, não pode acontecer.
Conversamos por um tempo, Andrew é um menino legal. Como filho de Atena as notas dele são excelentes e ele tem muito bom gosto para literatura.
Um dos professores anunciou que a votação para rainha do baile tinha acabado e que em dez minutos seria anunciado a ganhadora.
– Quem você acha que vai ganhar esse ano?- Andrew perguntou.
– Não sei,- respondi- pouco me importa quem vai ganhar, mas eu diria que talvez a Lucia do oitavo ano.
Nico olhou para Andrew com aquela cara de "Não conte para ela em hipótese alguma".
– Ela não veio para o baile.- Nico se debruçou na mesa e olhou ao redor como se procurasse uma pessoa.- Mas a irmã e as amigas vieram.
Andrew e Nico trocaram olhares nervosos, pareciam ter uma conversa silenciosa.
Eu queria perguntar o que estava acontecendo, mas uma voz me dizia para ficar quieta. "É assunto deles", dizia a voz, "não se meta, se fosse para você saber , eles já teriam lhe contado", e eu obedeci a voz. Eu gosto da voz, chamo ela de "bom senso".
– É melhor irmos agora,- Andrew disse quebrando o silencio.- ou não vamos conseguir um lugar bom para ver o palco.
– Por que iríamos querer ver o palco?- perguntei.
–Para ver quem vai ser a rainha do baile esse ano.- Andrew sorria como uma criança na disney.
Eu e Nico olhamos na direção do palco, havia uma multidão de alunos na frente dele , especulando sobre quem seria a ganhadora. Eu e ele afundamos na cadeira, não queremos sair de nossos lugares.
Andrew colocou as mãos atrás das costas e olhou para baixo, fingindo estar magoado.
– Por favor.-Ele disse com a voz choroza.
Nico e eu nos levantamos relutantes e Andrew afastou o cabelo do rosto sorrindo.
– Sempre funciona.- Andrew falou andando na nossa frente na direção do palco.
Ficamos no fundo, não havia ninguém atras de nós.
O diretor da escola começou um discurso sobre um assunto que não me importava e ninguém da platéia prestava atenção.
– Eu vou pegar alguma coisa para beber.- Nico falou após os dois primeiros minutos do discurso.
– Eu vou com você.- Andrew disse seguindo Nico- quando voltarmos o diretor ainda vai estar falando.
O discurso continuou por um tempo, eu ia atrás de Nico e Andrew para pegar um copo de suco para mim mas fui impedida por uma mão que cobriu minha boca e meu nariz com um pano úmido.
O dono da mão começou a me puxar para longe da platéia. Eu estava começando a ficar inconsciente e apaguei pouco depois de ser arrastada para fora do ginásio.
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