O Segundo Logo Antes
1 O Segundo Logo Antes
Claro que eu não sabia.
“Mas não é esquisito?,” ele tinha acabado de descobrir uma falha incrível na realidade, “você não sabe fazer barquinho de papel?”
“Que que é tão esquisito?”
“Ah, sei lá. Você faz maquete o tempo todo, não faz?”
“É diferente. Eu sou muito ruim em seguir tutorial.”
Morder copo de isopor é gostoso, mas uma hora eu tinha que parar. Joguei fora. Pedi outro café. Ia me destruir no vôo, mas era melhor do que dormir de novo. Pegar avião tinha perdido quase toda a graça, mas por algum motivo tomar café ruim no aeroporto antes do vôo super cedo ainda me dava uma sensação diferente. Saudade da cama, saudade do dia anterior, saudade da época da escola.
“Eu tenho saudade é de vocês. Da escola? De jeito nenhum.” Ele disse, por gentileza, já que eu tinha deixado escapar.
“Esse seu próximo show é no Rio, mesmo?”
“Não sei.”
“Então por que você vai pra lá?”
“Não sei.”
Ele bocejou igual bocejava antes da aula. A gente chegava mais ou menos na mesma hora. Ele me atrapalhava, me irritava. Ele destruía meu momento favorito do dia.
“Ah. Meu vôo é agora.” Sabe quando a pessoa tá esperando o momento fazia tempo, mas ensaia a surpresa mesmo assim quando ele chega? Foi assim que ele falou. “Irina, bom te ver, viu? A Pipoca precisa continuar fazendo aniversário, né? Se não, a gente nunca se encontra!”
Embora, realmente, ele tava quase atrasado, já. Ele deixou em cima da mesa a nota fiscal do bolo que ele comeu. Dobrada em formato de barquinho. Acho que ele não percebeu que tava fazendo isso, não foi por mal. Ele sempre se distraiu assim.
Depois eu que era esquisita.
Talvez eu fosse. Eu gostava de chegar cedo pra aproveitar o momento calmo antes de o mundo começar a girar. Como agora, com outro copo de isopor na boca. E esse momento acabava justamente quando outra pessoa — no caso, ele — chegava. Mas vai ver foi por isso que ficamos amigos. Um dia, antes da aula, ele tentou me ensinar a fazer dobradura. Não consegui aprender.
Eu gostava do segundo logo antes de a escola encher de gente, do segundo logo antes de o sinal tocar, do segundo logo antes do primeiro som de mochila abrindo, do segundo logo antes do grupo brigar, do segundo logo antes do Júlio se mudar pro Amazonas pra fazer medicina, da Pipoca se mudar pra capital pra fazer direito, de eu me mudar pra Porto Alegre pra fazer rabisco de casa e prédio e do Mariano se mudar pra… onde quer que mandassem ele ir tocar violão, aparentemente.
O café duplo não adiantou nada. No segundo logo antes do meu avião decolar, eu dormi.
***
Cochilar de tarde é horrível. Você acorda com dor de cabeça, parece que perdeu o dia e querendo tomar café da manhã enquanto a sociedade te obriga a preparar o jantar.
Embora as mensagens no celular pensassem diferente.
iri ta ae?
renovaram meu contrato :D +6 meses de vida de estagiaria kkk
vamo na virgem, pizza hj!
pqp c ta dormindo neh kkkkk n acredito
vsf
Deve ser bom, eu pensei. Aí eu pensei no meu contrato expirando na semana seguinte. Vai ser ruim, eu pensei.
“Vai ser bom,” eu pensei, no segundo logo antes de colocar a primeira garfada de pizza goela abaixo.
“Mas e você, Irina-menina-cara-de-vagina? Vão renovar o seu?”
“Imagina, vão nada. Aquele cachorro.” Eu falei, meio sem pensar, meio sem querer.
“Não gosta de paulista, acho que é isso!”
“Mas quem que gosta de paulista, né?” Eu falei, meio sem querer, meio sem acreditar.
“Ah, o paulista que vai tocar no Opinião semana que vem é bonito, pelo menos. Viram isso?”
“Ah, eu vi! O da novela, né? Mariano alguma coisa, não era?”
“Mariano?” Eu falei, meio sem acreditar, meio sem querer.
“É. O da novela. Daquela música que é do casal da Marina Ruy Barbosa.”
“Nossa! Tá sabendo bastante, hein?”
“Moro com a mãe, né?”
Disfarçada, eu usava o dinheiro que eu já tinha planejado pra sobreviver o mês desempregada pra pesquisar e comprar o ingresso do show. Era ele mesmo. Não acreditei. Mandei mensagem.
***
Ninguém gosta de MPB, essa que é a verdade. Menos ainda em Porto Alegre. Mas a casa tava até que cheia. Devia ser por causa da novela. Eu demorei de propósito, pra não me passar por fã. Mesmo porque, eu fui de brava, mais que de curiosa. Ele não contou pra ninguém! Nem na festa da Pipoca, nem me falou que vinha tocar aqui! Que filho da puta, nunca nem ouvi a música dele! Ele pediu desculpa, disse que queria me ver depois do show.
E foi uma coisa esquisita. Ver o amigo da escola ali. O amigo com quem você foi comprar o primeiro violão, o amigo que roubou seu elástico de cabelo uma vez pra treinar a abertura dos dedos. O amigo que só sabia tocar Red Hot e não conseguia cantar junto.
Ele tinha dado certo. A música dele tava na novela. Eu fiquei brava com ele, mas fiquei brava comigo por ficar brava com ele, lógico. E meu contrato pra medir casa e desenhar planta baixa tinha expirado no dia anterior.
E no segundo logo depois de ele terminar de afinar o violão, no segundo logo depois do pigarro que sei lá por que todo mundo que toca violão sentado tem que dar, no segundo logo antes de ele mostrar a música que tirou ele de onde eu, a Pipoca e o Júlio estávamos na vida — no segundo logo antes, ele me viu. E hesitou.
***
“…Foi bom. Pra quem só tocava aquele do Red Hot, você evoluiu.” Eu hesitei, mas era sincero.
“Me obrigaram a aprender todas do Djavan. Você já comeu? Quer comer?”
“Meu contrato acabou ontem, tenho que comer em casa. Acho que eu vou fazer macarrão. De repente era melhor a gente ver alguma coisa amanhã. Café, sei lá. Você deve estar cansado, pode comer qualquer outra coisa hoje.”
“Eu… preferia comer com você. Quer dizer! Não tô me convidando pra sua casa. A gente pode ir em algum lugar. Eu pago, sei lá. Eu empresto.”
“Vai tomar no cu, Mariano. Vai tomar no cu. Eu vou fazer macarrão ao alho e óleo. Se quiser macarrão ao alho e óleo, só vir. Se não, vai tomar no cu.”
“Isso não é macarrão ao alho e óleo,” ele disse quando eu pus no prato dele o macarrão ao alho e óleo. E espinafre. E bacon. E coloral. E na verdade sem alho, porque eu odeio alho.
“Eu vi uma receita, mas sou ruim em seguir tutorial. Aí eu só fiz. Pega uma cerveja.”
“Ah, olha. Você aprendeu a fazer barquinho.”
Eu segui o olhar dele até o canto da mesa.
“Hm… não, esse… esse foi o que você fez.”
“Eu? Quand — ah, nossa! No aeroporto, aquele dia? Meu Deus, Irina. Olha isso. Por isso que você é legal, tá vendo? Você é mó esquisita.”
“Porque eu sou acumuladora e desempregada?”
“Porque você lembra.”
***
“Por que você nunca mostrou essa música aí pra gente?” Eu perguntei depois de tirar do armário o violão que meu ex nunca veio buscar. Meu estoque de cerveja tinha acabado. Por um lado, foda-se, já que eu não tinha que trabalhar no dia seguinte. Por outro, eu não sabia mais como eu ia me entreter nos dias em que eu não ia ter que trabalhar.
“Vocês nunca perguntaram.”
“E tem que perguntar, agora?”
“É que… era um teste. Se vocês soubessem sem ser por mim, ia querer dizer que eu tenho alguma chance, mesmo.”
“Como assim, alguma chance, seu cretino? Você aí, na novela, e o Júlio nem sabe se vai conseguir residência! E eu aqui, fazendo macarrão ao alho e óleo só que sem o alho e quase sem o macarrão também!”
“Mas tava bom.”
Eu fiz questão de pegar o travesseiro e jogar nele. Violão não era meu, mesmo.
“Isso não vai durar, Irina. E você acha que eu tô o quê, ricaço? O caralho! Eu sei como que vai ser isso, daqui dois meses eu tô tocando o que pedirem em guardanapo na Peixoto. Mas eu não falei nada pra vocês porque… ah, vergonha.”
“Vergonha? Vergonha do quê?”
Ele tocou uns acordes soltos, de nervoso, claramente achando que os acordes iam falar por ele. Desistiu quando percebeu que ia ficar esquisito demais.
“É que essa música é sobre a gente.”
Eu tentei lembrar da letra pra ver o que ia poder ter sobre reuniões meio deprimentes de amigos de colégio, sobre quartetos, sobre dormir na casa da Pipoca, sobre a origem do apelido dela, sobre matar aula pra fazer lição de outra aula. Mas não tinha. Eu percebi, no segundo logo antes de ele começar a tocar, que a letra era sobre chegar cedo, a letra era sobre estar ali com alguém antes de o mundo começar a girar, a letra era sobre nunca ter dito nada.
***
“Só assim pra você me ligar,” disse a Pipoca. A voz meio rouca dela, de quem acabou de acordar, fazia até parecer que o fuso horário aqui era diferente.
“Você… tava dormindo?”
“Eu? Eu, não. Dormir de tarde é coisa de vagabundo., tá louca? Tô doente. Mas então — vocês não ficaram, não, né? Pelo amor de Deus!”
“Quê? Não. Não! Claro que não. Ele foi embora, foi esquisito, aí no dia seguinte ele voltou sei lá pra onde, acho que pro Rio, na manhã seguinte mesmo. Mas você sabia de alguma coisa? Alguém sabia de alguma coisa?”
“Não. Eu, não. E aí, sei lá, talvez o Vini soubesse, que ele e o Mariano eram mais amigos, mesmo depois da, enfim… talvez o Matheus, a Cátia — a Cátia não, né, que ela sempre foi burra . Mas aí, não sei…”
“É, não vou perguntar pra eles — peraí. Pronto. Ok. Pode falar.”
Sempre achei esquisito quem segura o celular no ombro. Parece coisa de velho. Com celular pequeno não dá pra fazer isso, ou era isso que eu achava. Mas, naquele momento, eu tava tão entretida dobrando papel que tinha sido um movimento natural.
O problema era que eu ia precisar daquele papel. Nem um mês de trabalho novo e eu já ia chegar com trabalho tudo amassado. Ia ter que passar a limpo. Merda. Pelo menos era efetivada.
“Mas sabe o que é engraçado?” a Pipoca disse, depois de perceber que eu tava me atrapalhando. “Não é nem ele nunca ter dito nada. Ou mesmo ele fazer música sobre isso, bicho sempre foi meio trouxa.”
“É o quê?”
“É ele lembrar daquelas coisas. Sol batendo na cara de manhã e tal. Sei lá. Não quer dizer nada. Quer dizer, cê lembrava antes de ele falar?”
O celular caiu. Mais ou menos sem querer. É que eu tinha acabado o barquinho.
As pontas ainda ficaram amassadas.
***
Morder copo de vidro é gostoso, mas uma hora eu tinha que parar. Enchi de novo. Se não ia ficar esquisito.
“Eu vi você no Spotify,” disse o Júlio, depois de um momento assim de silêncio.
“Baixou as músicas?”
“Não, claro que não. Ninguém gosta de MPB. Mas e aí? Quando que vem outra novela?”
“Ah… estamos trabalhando nisso, né. Vamos ver aí. Tô tocando aí nuns lugares enquanto isso.”
“Red Hot?”
“Não, eu mesmo. E Djavan.”
Não sei por quê, mas aquele aniversário tava diferente. Era como se, finalmente, todo mundo estivesse na escola de novo. Não que a gente não tivesse preocupações, mais. Mas o Júlio tinha conseguido a residência. A Pipoca tava confiante na prova da OAB dessa vez. E eu, eu tinha aprendido a fazer barquinhos de papel. Não era boa, ainda, e ainda tinha medo de ter saudade da escola. Porque se você tem saudade da escola, é porque tem medo do futuro, não?
Mas ali, aquele segundo antes de a gente voltar a conversar, enquanto a gente tava só aproveitando a calma mais rasteira de dor de cabeça causada por cerveja gelada no copo americano e sereno das onze da noite — aquele segundo foi o melhor de todos.
“Já vai, já?”
“Vou, pô. Pego avião amanhã.” Mariano se levantou, já tava ali sofrendo por antecipação. “Pipoca! Feliz aniversário de novo! Ano que vem eu juro que te trago um presente.”
Depois dos abraços, aquele clima meio de indecisão, Mariano olhou pra mim, fazendo o menor gesto possível coma cabeça.
“Vou com ele chamar o carro, tá, gente?”
Não chamamos o carro. A gente não sabia do que falar, embora viéssemos conversando faz tempo. Fui bem sincera. Eu achava aquilo estúpido. Por que ele não tinha falado nada? E era idiota, porque a gente era amigo de longa data e, se não tinha rolado até então, era porque não era pra rolar. Era estúpido, totalmente estúpido. Matar aula pra fazer lição da mesma aula, aquilo era estúpido. Barquinhos de papel eram estúpidos. Se apoiar no passado confortável, em gente que se gosta desde sempre, pra evitar encarar o futuro era estúpido.
E mesmo assim, no segundo logo antes de ele me beijar, eu beijei ele primeiro.
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