Remus quase molhou as calças quando viu James e Sirius se falarem pela primeira vez depois de longos três meses tortuosos de caos e calamidade após a fatídica noite.

Aquela noite que não convém ser mencionada.

Veja, Remus conhece Sirius há longos sete anos, ele sabia que Sirius Black era um homem de sua classe social, e por isso ele queria dizer que consequências de suas próprias ações era uma palavra que SIrius raramente se recordava do significado. O dia seguinte da quase morte de Snape foi tão chocante e intensa que Remus levou dias para perguntar a James o que realmente havia acontecido.

— Eu literalmente teria matado Sirius com minhas próprias mãos se isso não fosse dar prazer à Ranhoso em assistir. — declamou James, mortalmente sério. — Eu entrei correndo, puxei o híbrido de urubu e humano — Peter desatou a rir como sempre faz quando James se refere a Snape daquela forma, mas o Potter estava tão irritado que apenas ignorou — e sai correndo, eu nem olhei pra trás. Assim que o joguei no chão, já no jardim, eu-

Sirius desceu as escadas do dormitório da Grifinória, com a touca da capa cobrindo seu olho roxo.

— Eu fiz aquilo — apontou para o olho roxo de Sirius. — E nunca mais falei com ele.

Remus, o que para James era um insulto, decidiu não tomar lados naquilo, que de certa forma, parecia muito mais ser algo entre os dois do que algo sobre os três: James estava puto porque Sirius podia ter colocado a vida de Snape e Remus em risco, e Sirius estava puto porque em suas concepções, Snape não era idiota, ele sabia que ia encontrar um lobisomen e provavelmente não iria se machucar, e caso se machucasse, bem, menos um Comensal no mundo.

Lupin sabia que devia se irritar com Sirius, mas ele tinha outras coisas para se preocupar, e puni-lo mais do que James estava fazendo não iria lhe satisfazer em nada, nem desfazer nada. Além do mais, insistir naquele assunto fazia Remus ter uma crise de ansiedade de horas pois sabia que Dumbledore, de alguma forma, soube de tudo e Remus, saindo do banheiro, acabou vendo o diretor despedir-se com um aperto no ombro de Snape, como se tivesse acabado de lhe dar um alerta.

Quando os olhos negros, conscientes e alertos de Severus focam nos cor de mel, fracos e inseguros de Remus, ele sentia vontade de morrer de ter que dividir um segredo com aquele verme.

E falando em olhares, ele estava fugindo de muitos.

— Você é uma pedra? — questionou Marlene, culpando Remus por continuar existindo após o término com Emmeline.

O garoto se segurava para não retrucar “bem, eu queria, mas infelizmente não sou, aliás eu nem queria estar vivo” por um “desculpe” e nos dias ruins “ok, vou para outro lugar”.

Mesmo sendo de casas diferentes, evitar Emmeline era um trabalho árduo e desesperador que nunca melhorava, pois tinha muitos olhares de julgamento e culpa para enfrentar.

Ele se questionava se realmente tinha sentimentos como as outras pessoas. Talvez o jeito que crescera mudou sua forma de sentir. Talvez seja como uma planta: seus sentimentos foram tão reprimidos que cresceram de formas diferentes. Realmente era consolado por Peter e Sirius, mas James parecia incapaz de compreender o sentimento de culpa e vergonha.

— Você não fez nada de errado, digo, o que estavam achando? Que vocês iam sair daqui casados? Pelo amor de Merlin, é de uma breguice— — James abaixou o tom quando Emmeline passou por eles. — Uma breguice incabível. É um namorinho de escola… Me admira que vocês tenham durado tanto. Eu sinceramente não conseguiria de jeito — — James bateu na mesa, abrindo um sorriso. — Lílian!

Remus segurou o sorriso quando virou-se para algo que ele estava tendo dificuldade de aceitar: Lílian agora sorria para James, e até mesmo acenou de volta, sentando-se perto para tomar café. As coisas estavam mudando tão rapidamente que Remus sequer estava tendo tempo para processar, apenas observou o garoto de óculos apoiar seus cotovelos na mesa, sorrindo para a ruiva, falando sobre o que achara do Little Woman que Lílian havia lhe emprestado enquanto a mesma sorria ao ouvir, empolgada em trocar impressões da leitura.

O sexto ano estava se finalizando da mesma forma que se iniciara: tenso, estranho e por vezes torturante, como sempre, os professores de DCAT tinham a obsessão de integrar os sonserinos e os grifinórios do ano de Remus (e o mesmo tinha que admitir que essa turma tinha um histórico de ser tão difícil para os professores de DCAT que esse era o motivo de ser um professor novo todos os anos) e mais uma vez, os trabalhos maiores de escrita e prática tinham que ser feitos em grupos diversos.

Lílian parecia estar furiosa de ter que fazer um trabalho com Severus, mas o fez e apresentou o estudo de caso com o garoto, e continuou o ignorando mortalmente após o fim do trabalho. Alguns grupos a integração funcionou, como o de Peter.

E foi por esse motivo que James e Sirius estavam falando baixinho um com o outro quando Remus adentrou o dormitório.

Os três pararam de supetão, tensos, se encarando entre si.

— Está tudo bem? — perguntou Remus, ainda tenso, sem conseguir dar um passo e fechar a porta atrás de si.

James empurrou os óculos para a ponte do nariz, descruzando os braços enquanto Sirius arrumava a postura, ainda sério.

— Estamos falando sobre Peter. — explicou James. — Ele tem passado muito tempo com os sonserinos.

Remus rolou os olhos e foi para sua cama, enrolando a toalha na cabeça, pronto para retornar à sua leitura de Orgulho e Preconceito, mas não antes de Sirius ir até sua cama, segurando-se no mastro, o impedindo de fechar as cortinas.

— Você ‘tá brincando que não vai levar isso a sério. — perguntou Sirius, irritado.

— Ele apenas está participando do objetivo das aulas de DCAT: integração, não tem nada demais nisso… — James riu, o que irritou Remus.

Não existe integração com aqueles animais, Moony, para de se fazer de politicamente correto. Estamos falando de simpatizantes daquele lá.

Aquele lá, claro, por um momento, Remus se esquecia do caos político que assombrava a Grã-Bretanha e do certo levante facista que ia acabar com a vida de todos os bruxos.

Olhou Sirius e o mesmo abaixou os olhos, desconfortável. Aquela era primeira conversa longa que tinha com o Black desde o incidente com Snape. O garoto de madeixas cacheadas respirou fundo e cruzou os braços, olhando para os próprios pés.

— Olha… Eu posso ser um idiota em vários aspectos, mas eu sei reconhecer um Comensal, ou um potencial Comensal* quando vejo um, ok? Eu… Eu- — Sirius bufou. — Eu convivi com vários, ok? Eu sei do que eu estou falando. Snape é um verme que adorava chupar o pau da minha família inteira, assim como o Carrows e toda aquela corja que anda com eles. Peter andar com eles é perigoso. Eu sei do que eu estou falando.

Remus assentiu, deixando Sirius mais tranquilo, e então, os três conversaram, pensando no que poderiam fazer para alertar Peter sem afastá-lo, como se ele precisasse de mais um problema em sua vida, além das provas, além do medo dos N.I.E.M’s, além do pavor do futuro que o empurrava e sufocava de uma forma que uma simples dificuldade lhe irritava e rendia coisas quebradas e crises de choro em banheiros abandonados do quarto andar.

Antes de Emmeline, Remus definitivamente não gostava de ser tocado, apesar de ter crescido em uma família afetiva. O toque lhe rendia vergonha, e a vergonha o sufoca toda vez que se expande e o cobre. Remus nunca sentia o toque para além daquilo e quando sentiu, queria ser segurado tão firmemente que nunca pudesse quebrar.

Ele via Marlene e Sirius entre beijos e abraços tão afetuosos e profundos, em uma conexão e intimidade que os tirava dali, que Remus se questionava qual seria o sentimento de ser tocado e não sentir medo. E como se pudesse apenas sentir quando destruía, Remus sentia seu coração doer tão intensamente que sempre se assustava, já que seu coração nunca sentia nada além da apatia.

— Seu livro. — murmurou Emmeline quando o encontrou escrevendo na biblioteca. Ele congelou com o primeiro contato após três meses, mas ela parecia impassível. Remus tocou seu exemplar de Apanhador no Campo de Centeio e assentiu, murmurando um obrigado.

Assistiu Emmeline se afastar sem sequer se despedir e escreveu em seu diário como se pudesse dizer à ela, Emmeline, eu me sinto um fantasma que foi obrigado a ficar na terra para pagar pecados que sequer cometi, e o peso que faço é maior que posso suportar e a terra me chama, mas só consigo flutuar e não ser visto, não ser tocado.

Queria poder dizer que ele lhe fizera um favor em terminar aquele relacionamento, mas não poderia explicar os pormenores.

Lily balançou sua varinha luminosa na última ronda no sexto ano, enquanto caminhavam pelo sexto andar, dando risinhos e saltinhos, animada à meia noite de uma quarta-feira enquanto Remus lutava contra sua enxaqueca, seu sapato arranhando o tornozelo esquerdo e uma prova de História da Magia para a manhã seguinte. Apontou sua varinha para a ruiva, irritado.

— Sua felicidade está me irritando — disse, quase mancando de dor.

— Desculpe.— riu Lily — Desculpa, vamos voltar a repassar a matéria, quando foi que Robert Graeber deu o golpe de estado-

— Lílian, o que você tem? — Remus parou no meio do corredor e apontou a varinha na cara da ruiva, a fazendo tentar proteger os olhos contra o Lumus da varinha de Remus. Ela abaixou a varinha lentamente, segurando o riso.

— Meu Deus, nada! Eu sou tão séria assim? Não posso nem rir à toa?

O riso frouxo de Lílian só foi explicado quando Sirius achou o pedaço de uma carta na Sala Comunal e recitou aos gritos e gargalhadas em cima do sofá, deixando claro para o em breve sétimo ano da Grifinória que.

Só você pode derreter essa rocha. Você vai voltar? — ele gargalhou, quase caindo do sofá, sem fôlego, continuou — A tempestade já passou, agora o horizonte está num tom rosa alaranjado e eu me lembro das noites em que conversamos até o céu estar dessa exata cor. MERLIN, QUE CORNO, MEU DEUS QUE VERGONHA — urrou Sirius, arrastando as gargalhadas com o mesmo, apontou para o fim da carta cortada, mostrando à todos — Com amor, James .— gargalhou, pulando no sofá.

Claro que, após essa humilhação em praça pública, James se negou a falar com quem estava trocando cartas de amor, mas ocasionalmente Remus juntara os pontos e finalmente tivera acesso a primeira parte dessa carta que Sirius achara. Durante a aula de Runas Antigas, viu a garota folhear alguns pergaminhos, deixando cair um que fora rasgado, e Remus não pode deixar de notar a letra de James.

Obviamente seu coração quase parou e ele sentiu a necessidade de gritar, mas isso é assunto para o futuro.

Mas isso é assunto para o futuro.

Nos últimos dias letivos, os três estavam tentando arranjar uma vaga na ocupada agenda de Pettigrew que parecia ainda ter assunto com seu grupo de DCAT.

— Eles são bem legais… Foram legais comigo.

— Se você continuar andando com esses caras, eu nunca mais vou olhar na sua cara. — ameaçou Sirius, arruinando tudo que os três haviam combinado de falar.

— Não! — cortou James, irritado — Não foi isso que Sirius quis dizer… Olha, estamos um pouco tensos aqui cara, não estamos em uma época muito boa para andar com certas pessoas… Sabe?

Peter parecia confuso, então Remus esclareceu, desviando da fumaça do cigarro de Sirius no lotado jardim, onde estavam sentados debaixo de uma árvore.

— Wormtail, você sabe do que estamos falando.

— Sinceramente… Não? — ele deu de ombros. — Acho que ando com pessoas controversas o suficiente para me importar com boatos.

— Quê? — indagou James.

— Você é um panaca com metade do colégio, Remus é esquisito e Sirius… Bem, Sirius também não tem um histórico familiar bom.

Sirius riu de escárnio e jogou seu cigarro longe, fitando os olhos de Peter agora mortalmente sério.

— Cuidado com o que você vai dizer, Wormtail.

— Ou o que? — replicou Peter, tranquilo.

James arregalou os olhos e Remus interviu, vendo que Sirius ia se exaltar.

— Pete, se acalma.



Fleetwood Mac — The Chain



— Eu estou calmo, vocês que estão estranhos. — Ele se levantou e os três o copiaram — Eu sei muito bem do que vocês estão falando e eu já disse que se for me guiar por isso, eu não andaria com vocês três também.

— Você realmente está nos comparando com projetinho de Comensal que você anda? — questionou Sirius aproximando-se perigosamente se Peter, com as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Nenhum deles é um- — Os quatro assistiram a redoma de vidro que protegia Hogwarts se quebrar e se refazer, assustando e silenciando o jardim por um momento. — Nenhum deles é Comensal da Morte coisa nenhuma, inclusive isso sequer foi um assunto deles nesse tempo todo que fiz o trabalho com eles.

— É claro que eles vão falar disso com um pateta que nem você perto deles, qual é sua próxima percepção genial? — ironizou James, também se irritando. Peter riu, dando um passo para trás.

— Minha próxima percepção genial é eles não me tratarem como se eu fosse retardado, que é o que vocês fazem há anos — retrucou, sério. Remus sentiu-se mal ao ver que tudo aquilo servira de nada e inclusive piorou a situação

— O quê? — esganiçou James. — Se não fosse por nós você ainda estaria pendurado naquele armário de vassouras que te salvamos no primeiro ano!

— Ah pelo amor de Merlin, vai se foder. — Peter pegou seu casaco no chão, indo embora. James fitou as costas do Pettigrew de boca aberta em choque, enquanto Sirius acendia outro cigarro e o xingava, sentando-se novamente. Remus sentiu um terrível mal-estar ao notar que, apesar de Peter finalmente ter retrucado os maltratos de James e Sirius, o que o aguardava do outro lado da linha parecia perigoso.

Olhou o garoto cumprimentar os sonserinos e sentou-se com James e Sirius, ouvindo os dois mudarem de assunto. Olhou as carruagens chegarem para levar os alunos para a plataforma e finalmente sentira o peso: A próxima vez que retornasse à esse castelo, seria a última.

Arrancou um pouco da grama, sentindo que seus ombros iam entortar tamanho peso.

Notas finais
* me segurei demais pra não chamar os comensais de facistas kkkkkkk esse capítulo foi foda de escrever porque tive que apelar pra discussoes do reddit do pq o sirius meio que tentou matar o snape no sexto ano kkkkkkkkkk i mean uma explicação que achei MUITO cabível e inclui aqui, é que a dinâmica sirius e snape tem um molho a mais que a dinamica com outros marotos, eu só vi isso na fanfic about sirius black da ster: o snape quer tudo que o sirius tem, ele anda com os familiares do sirius, então eles tem um background muito mais construido do que snape-remus, snape-james, porque o sirius >sabe< que o snape nao é flor que se cheire, se fosse n andaria com seus familiares. enfim, o tópico tem ótimas explicações sobre, mas eu fico com a que sirius só tinha dezesseis anos e um carater duvidoso as vezes: https://www.reddit.com/r/harrypotter/comments/790usi/why_did_sirius_try_to_kill_snape_in_6th_year/ enfim, um dia termino essa fanfic que tanto amo, de verdade, esse eh meu objetivo pq eu realmente gosto dessa fanfic flopada kkkk