O Segundo Antes do Sol Voltar
15 Capítulo 15
Remus abriu a porta da casa dos Potter em Godric Hollows, não se surpreendendo com a superlotação da casa do Monitor Chefe e Capitão do Time da Grifinória. Passou a mão nas madeixas ralas, colocando as mãos nos bolsos do casaco jeans surrado, desviando de alguns colegas alterados, conversando animadamente na espaçosa sala de estar dos Potter.
Sorriu enormemente quando encontrou Peter em um canto, abastecendo seu copo, e aproximou-se:
— Até que fim, sumido — comentou Remus, também pegando um copo de cerveja amanteigada. — Mandei umas duas cartas pra você essas semanas.
— Desculpa cara, eu estava ocupado, quase não consigo vir — Peter parecia desinteressado enquanto se explicava para Remus. — E você? Como está? Sabe… Com James sendo o-
— Sem problemas — Remus interrompeu Pete, sabendo que ia responder essa pergunta pelo menos umas sete vezes naquele dia. Ficara sabendo por Lily que James era o novo Monitor Chefe, já que Remus não recebeu nenhuma carta naquele verão, chegou até mesmo a pensar que a carta havia se perdido, já que estava de mudança para um vilarejo mais afastado, próximo dos Weasley.
Para além do isolamento social que estava enfrentando com sua família por conta da tensão política cada vez pior que os assombrava, Remus aceitou que não seria o Monitor Chefe da Grifinória e sua suspeita foi confirmada quando Evans lhe escrevera, dizendo que pensava que Remus seria nomeado com ela, e não James.
Pete o olhou desconfortável e Remus forçou um sorriso amarelo depois de tomar todo o conteúdo em seu copo, desejando morrer.
— Sério, eu já sabia — justificou-se, enchendo seu copo novamente. — Monitores Chefes tem qualidades que infelizmente não tenho.
O Pettigrew assentiu lentamente, dando um gole em sua bebida parecendo se lembrar de algo rapidamente, apertando o braço de Remus.
— Você não vai acreditar em quem está aqui — sussurrou ele, de olhos arregalados.
Remus não compartilhara com seus amigos que sabia quem com quem James estava trocando cartas, mas ver aquilo acontecer em público era demais para Lupin, ele e Peter, de mãos dadas tamanho nervosismo, assistiam Lílian Evans rir e conversar animadamente com James, ambos encostados no para-peito da escadaria, como se não houvesse ninguém na sala para se preocupar.
— O mundo está mesmo de cabeça pra baixo. — arfou Remus, em completo êxtase.
— A homossexualidade realmente está em alta. — declarou Charlie Smith ao ver Peter e Remus de mãos dadas, assustando os dois, que se afastaram agora irritados com Charlie. — Por favor, eu não sou homofóbico.
— Por que ainda te convidam? Ninguém gosta de você! — questionou Peter.
— Pettigrew, quem é detestado e arrastado é você, não eu. — O garoto tirou um distintivo de Monitor Chefe de seu casaco — Isso é algo que você pode apenas ver, mas para ter, teria que nascer de novo.
— Isso diz muito sobre os critérios para Monitor Chefe não serem mais popularidade e ser bem querido pelos alunos — debochou Remus, fazendo Charlie rir e apertar o ombro de Remus, animado.
James finalmente desceu as escadas, aparecendo na porta da cozinha lotada, apontando para Charlie.
— Você fez aulas de verão. — acusou James, Charlie sorriu.
— É claro que eu fiz Potter, e de Poções, você devia fazer o mesmo caso realmente queira ser um Curandeiro sério como eu.
— Como você se aguenta? — perguntou Sirius, enojado, assustando os garotos que não perceberam que ele era o cara parado encarando a geladeira aberta há pelo menos vinte minutos. Antes que Charlie pudesse retrucar Sirius, ele notou Lily entrando na cozinha e mudou a postura.
— Senhorita Evans, que prazer imensurável… — Remus quase vomitou quando mesmo beijou a mão de Lily, não medindo esforços ao admirá-la da cabeça aos pés. — O que te traz à essa espelunca minha mais nova Monitora Chefe-
— Não me toca, você é nojento — cortou Lily, fazendo o grupo rir de Charlie.
— Por favor, você namora com James, seus padrões são bem baixos — replicou, fazendo Remus e Peter se tocarem novamente, tensos. Sirius tinha olhos arregalados, James estava vermelho como seu suéter e Lílian ria de nervoso, maneando a cabeça negativamente há quase dois minutos.
— James e eu não estamos namorando — explicou, visivelmente ansiosa.
— Charles, sai daqui, você é inconveniente pra caralho, essa é a última vez que te convido pra qualquer coisa… — James o direcionou para fora da cozinha, sumindo com o mesmo.
Os três ficaram em silêncio com Lily como se tivessem acabado de presenciar um assassinato. A ruiva tentou buscar apoio em Remus, mas o mesmo estava tão tenso que não conseguiu falar nada para a amiga, que apenas respirou fundo e deu um sorriso amarelo.
— Bem… Eu vou procurar Mary...Eu… Eu já volto — e saiu quase correndo, finalmente deixando os garotos respirarem. Peter tomou o conteúdo inteiro de seu copo e Sirius pediu encarecidamente um bom gole da garrafa de vinho de uma garota próxima a ele.
— O que foi isso? — arfou Remus de olhos arregalados para Sirius.
— Cara, eu nem sei por onde começar. — riu Padfoot. — James tem passado tanto tempo trancado no quarto que no começo eu achei que ele tinha conseguido uma Playboy nova ou algo do tipo e não interrompi, mas não, era muito pior que isso. — Sirius encheu sua taça de vinho até o topo, como se fosse contar a cereja do bolo. — James comprou uma televisão e um telefone Ele estava assistindo uma temporada inteira de Doctor Who e comentando com Evans no telefone! No telefone!
Led Zeppelin — Since I’ve been loving you
— Meu Deus… — murmurou Remus, apavorado.
— Pior que isso, eles enviam livros um para o outro. Espera, isso nem foi o pior — — Sirius estava tão próximo de Peter e Remus que os três podiam se beijar. — Eles foram no cinema ver War Star!
— É Star Wars — corrigiu Peter.
— Importa, Peter? Sério? — replicou Sirius, desesperado.
— Vocês vão beijar? — indagou Marlene, fazendo os três se afastarem, assustados. — Não que eu me incomode, a amizade de vocês é estranha.
— Eu estou contando a eles. — explicou Sirius, aceitando o copo d’água que Marlene lhe oferecia, enquanto a mesma negava a taça de vinho de Sirius — Ele diz que só são amigos, mas eu duvido. Eu não diria que estão transando, pois são dois nerds, mas…
Sirius não precisava dizer nada, era claro enquanto os dois conversavam e dançavam na sala de estar, não conseguindo ficar muito tempo longe um do outro. Remus ficou sozinho temporariamente na cozinha enquanto Sirius namorava Marlene não muito longe dele e Peter conversava com Mary, visivelmente apaixonado. O Lupin sorriu para seu copo, indo para a sala, conhecendo muito bem aquela sensação que o dominava, e não pode segurar seu coração de se machucar ao ver Emmeline também sozinha, em uma poltrona não muito longe.
O fim de tarde parecia intensificar a música de Led Zeppelin naquela sala cheia de bruxos jovens e cheios de vida para gastar, mas Remus não era um deles. Quando os olhos densos de Emms encontraram os dele, ela lhe cedeu um breve sorriso triste, levantando-se e indo até ele, com suas roupas gastas de sempre, com o cabelo recém cortado na altura do maxilar, sempre atrás das orelhas.
Ela colocou as mãos nos bolsos de seu casaco furado de exército, três vezes o seu tamanho e finalmente lhe sorriu de verdade.
— Como foram as férias, Moony? — ele não conseguiria suportar, ele amava Emmeline, e seu corpo, e de certa forma sua mente, se negar a querê-la lhe dava dores de cabeça intensas.
— Não muito boas — ele não precisava mentir para ela. — Você?
Emmeline suspirou, maneando a cabeça negativamente.
— Sinceramente eu sequer sai de casa desde que cheguei de Hogwarts. Eu estou… — ela olhou ao redor, aflita. — Apavorada, Remus. Eu só quero terminar essa escola logo e sumir desse mundo, eu realmente só vou sumir.
O garoto assentiu, quis tocar o ombro dela, mas se segurou. Ainda assim, o olhar de peso de Remus a acalmou. Se fitaram por um momento até a mesma desviar o olhar, engolindo seco.
— Eu vou indo. Não estou muito no clima de qualquer forma… Você viu? — ela sorriu, apontando para James e Lily rindo junto feito duas hienas. — O mundo está ficando doido, hein?
Remus riu com a garota, coçando a cicatriz brevemente. Emms apertou seu braço levemente.
— Te vejo em Hogwarts. — Remus quis se oferecer para levá-la, mas antes que pudesse falar, Emmeline já havia saído da casa e aparatado, surpreendendo Remus.
Sempre inteligente, pensou, de coração quebrado. Antes que pudesse deixar seu copo e também ir embora, James apareceu, mais alto do que nunca. Remus apertou sua mão, lhe dando o melhor sorriso.
— Senhor Monitor Chefe e Capitão do Time-
— E chefe do Clube de Duelos — terminou James, sorridente. O Lupin não conseguiu olhá-lo nos olhos, mas manteve o sorriso.
— Claro. — murmurou. James e Remus eram diferentes demais, mas por algum motivo que às vezes não era processado por Remus, ambos se davam bem. O luxo, o privilégio, a inteligência e a aparência do Potter gritavam seu local na sociedade: Um bruxo de puro-sangue, seu nome aparece em livros de história como o grande filho de Fleamont Potter, Grande Feiticeiro, parte do Ministério da Magia.
E Remus… Bem, Remus era mais um coitado da classe trabalhadora bruxa, fodido e mal pago.
Àquelas diferenças sempre vinham à tona quando James — e não que ele se esforçasse, longe disso — se enchia de glórias e títulos enquanto Remus tentava passar por mais um dia de vida sem querer se matar.
— Cara, me desculpa. Eu queria ter te escrito sobre mas… Eu fiquei tão chocado quanto todo mundo. — James parecia sentir-se culpado, olhando Remus com pesar. — Eu realmente pensei que seria você.
— Está tudo bem, — apaziguou o Lupin, — sinceramente eu sabia que seria você. Você preenche o requisito, Prongs. De verdade.
— Você é o cara. — James apertou o ombro de Remus, voltando para o grupo que ele animava não muito longe dali. Lupin tentou sentir-se parte do mundo por alguns segundos, mas aquilo era demais, a bebida não estava conseguindo fazê-lo diminuir a distância entre ele e o mundo.
Pousou seu copo em uma mesa lotada e saiu da casa, aparatando.
...
— Caralho as saias diminuíram? — murmurou Sirius para Remus, antes de arrancar o caderno de anotações de James e jogar o chão — Ops, Emmeline, pode pegar pra mim?
— Claro — quando a garota se abaixou, Remus arregalou os olhos com a visão, assim como Sirius, James e Peter, que gritavam e aplaudiam. Emmeline se tocou do que Sirius fez e jogou o livro na cara do garoto. — Seu idiota!
— Não é minha culpa, reclame com Dumbledore! — Sirius acariciou o próprio nariz, segurando o nariz. Os quatro continuaram no corredor lotado, confusos assim como os outros estudantes, ansiosos para assistirem logo a Seleção, mas a porta principal estava fechada.
— Vocês acham que Mary está saindo com Charlie de novo? — confidenciou Peter no barulhento corredor. Sirius rolou os olhos, desfazendo a gravata.
— Wormtail, hipoteticamente, vamos dizer que Mary quer sair com você, mas muito hipoteticamente.
— Por que hipoteticamente?
— Se olhe no espelho, Peter. — replicou Sirius. — Uma garota que já se submeteu a chupar o pau de Charles Smith por acaso teria um padrão alto? Se poupe de tanto estresse e só a chame pra sair.
— Você é um monstro — retrucou Peter, maneando a cabeça negativamente.
— Eu menti? — indignou-se Sirius. — E eu tomaria cuidado, eu já quase peguei herpes ouvindo Charles falar os lugares onde ele andou enfiando a boca.
— Pelo amor de Deus, vamos mudar de assunto. — pediu Remus, desesperado de fome.
— Eu vou no banheiro, — anunciou Sirius.
— Não podemos sair daqui, Padfoot, por favor, nos dê um pouco de paz. — implorou James, exausto.
— Eu só vou mijar! — explicou-se, mas sorriu ao ver que não convencia ninguém. — Ok, eu vou fumar uma pontinha. Mas é rápido.
— Uma pontinha? — questionou Emmeline, aproximando-se do grupo, interessada.
— Ninguém vai fumar nada, pelo amor de Merlin, foi uma ordem direta de Dumbledore para todos ficarem aqui! — insistiu Remus, um pouco claustrofóbico.
— Calma cara, você estressado. — Sirius sorriu dissimuladamente. — Muito tempo sozinho? — sussurrou, debochado, fazendo movimento de masturbação.
— Por favor, deixem ele sair daqui. — pediu Lílian Evans, irritada. — Ele não cala a boca!
— Um homem não pode mais se expressar nesse lugar? — retrucou Sirius. — Eu não estou fazendo nada demais, estou tão agoniado quanto vocês, acham que eu quero ficar perto de vocês também?
— Merlin — gemeu Marlene, batendo na porta do Salão. — Pelo amor de Merlin, abram logo, isso é tortura!
— Ele é seu namorado! — esganiçou Lily.
— Eu sei! — gemeu Marlene.
Antes que alguém pudesse dizer algo, aparentemente as batidas na porta que Marlene deram surgiram efeito, e o Salão Principal se abriu, mas não se encontrava como das últimas vezes. A última Seleção que Remus assistiria em Hogwarts era sombria, sem velas flutuantes, e pela primeira vez, sem uma lotada mesa de professores. O banco principal de Dumbledore também se encontrava vazio, o que causou palpitação em Remus, que andava lentamente com os alunos, todos chocados e temerosos com a recepção fria que os encontrava.
James e Lílian ficaram para trás, para buscar os mais novos, conforme orientação corrida que McGonagall dava para os dois. Antes que Remus se fechasse, ele pôde ver os amigos na entrada, tensos, olharem o Salão quase desconhecido, e se virarem para buscar os mais novos que enfrentariam a fria recepção.
Pela primeira vez em anos, Remus vira McGonagall assumir o posto de Dumbledore na recepção de boas-vindas, nada receptiva como o professor, parecendo se lembrar repentinamente de ligar as velas em um feitiço que para a mesma era simples, mas que levaria dias para que Remus e até mesmo James fizessem.
— Boa noite à todos, espero que tenham tido boas férias. — ela cedeu um sorriso breve e amarelo para os alunos mais velhos. — Eu… — ela apoiou-se no palanque de Dumbledore, parecendo receosa. — Bem, vocês podem ver que o Salão não está como sempre esteve para bem recebê-los, isso é porque esse ano letivo quase foi cancelado-
Remus não conseguiu reagir da mesma forma que os outros, mas a alta de murmúrios foi tão brusca que McGonagall sequer aumentou o tom de voz, apenas silenciou-se. Sirius e Remus se olharam, e o medo parecia algo que compartilhavam.
— Nem todos aqui sabem, pois o acontecido foi durante a viagem de vocês para cá, mas a Ministra Jenkins foi assassinada e os indícios são muito claros que foi por Lord Voldemort e seus seguidores- — Os gritos de horror que se espalharam pelo Salão mais uma vez abafaram a voz de McGonagall. Remus queria ir embora, chegou até mesmo a ter o impulso de levantar: pensou em seus pais, e no mundo, o que estaria acontecendo enquanto os ele estava no Castelo? Sirius cobriu o rosto e Marlene forçou Remus a sentar, segurando seu braço, visivelmente abalada. — Não consigo falar isso de forma mais clara: estamos caminhando para uma Guerra Civil, e por mais isolados que estejamos, não estamos isentos. Professor Dumbledore infelizmente teve que se ausentar essa noite para tratar de cuidar de formas de proteger o Castelo para que possamos ter um ano letivo decente. Então encarecidamente eu peço para que respeitem os Monitores, respeitem os Monitores Chefes, professores e funcionários, não saiam andando pelo Castelo desavisadamente fora dos horários permitidos, as visitas à Hogsmeade estão proibidas até segunda ordem, o que estou falando é muito sério.
— Professora — Remus virou-se para a mesa da Corvinal e seu coração quase quebrou a caixa torácica quando, trêmula, Dorcas Meadowes levantou-se da mesa, de mão erguida. — Me desculpe, mas… Nascidos trouxas e mestiços estarão seguros nesse Castelo?
Sirius segurou um sorriso ao olhar de Meadowes para McGonagall, que parecia tão chocada em ter sido interrompida que demorou um tempo para raciocinar. A mulher cedeu um breve sorriso para Dorcas.
— Senhorita Meadowes, ao ser uma das alunas mais brilhantes desse Castelo deveria saber que essa é nossa prioridade. — Dorcas sentou-se, não parecendo satisfeita. Quando ela olhou para Remus, ele desviou, quase sem ar. — Novos alunos, mais novos que vocês, entrarão por essa porta, cheios de felicidade e ansiedade por finalmente estarem em Hogwarts. E por mais que as circunstâncias não sejam perfeitas, eu quero dar a eles uma Seleção digna de boas memórias. Espero que possam me ajudar.
Os professores se levantaram com suas varinhas, decorando o Salão rapidamente com as cores das casas, velas enfeitiçadas, era semelhante às decorações habituais, mas faltava algo. Remus estava tão assustado que não conseguiu falar nada até o fim da Seleção dos alunos, sentia pena de vê-los serem selecionados, felizes e pequenos, sendo que a probabilidade de Hogwarts ser fechada estava cada vez mais eminente.
Quando James e Lily finalmente e sentaram, pareciam aliviados de finalmente poderem parar de fingir empolgação e distribuir sorrisos para os mais novos. Remus nunca vira o rosto de James parecer tão velho.
— Esse ano não vai ser fácil — James fitou o nada brevemente, e então olhou os amigos, tenso. — Estou com medo.
Remus conhecia James há sete anos… Ele nunca vira o sempre confiante e corajoso James Potter temer.
Então quem era ele para não temer igual?
…
HAROLD MINCHUM É O NOVO MINISTRO DA MAGIA
Será ele a conseguir controlar a crise causada por Você-Sabe-Quem?
James continuou lendo a matéria do Profeta Diário, mas Remus dissociou pela quinta vez no dia. Na primeira semana de aula, uma leva inacreditável de alunos partiram do colégio, temendo por suas famílias, algumas foram retiradas por seus próprios familiares, com medo de que o Castelo não fosse seguro o suficiente.
O que era apenas um incômodo no sexto ano, tornou-se regra no sétimo ano, onde alunos sangue-puro que não tivessem uma família politicamente bem posicionada eram perseguidos e vítimas de armadilhas e feitiços violentos por parte dos mestiços e nascidos-trouxas, até mesmo Emmeline foi pega azarando um Carrow e recebeu uma dura detenção de uma semana antes de declarar que estava saindo de Hogwarts.
— Não vou esperar que venham me matar — declarou, de braços cruzados. — Eu nem queria essa merda toda, preferia que tivessem me deixado na miséria de Stheatram onde eu provavelmente ia morrer usando crack ou de violência policial, mas isso — Emmeline parecia decidida, olhando sua própria varinha — Isso é loucura.
Sirius jogou seu cigarro longe, e mesmo com protesto de todos para que Emmeline não desistisse, ele a apoiou, a levando para a sala de Dumbledore, a ajudando a pedir sua saída.
— Se eu fosse nascido trouxa eu também daria o fora. — explicou mais tarde, mesmo com a fúria de Marlene contra ele.
— Ela é uma bruxa, Sirius, não tem como ela voltar a fingir que não é.
— Foda-se. — replicou ele. O grupo ficou desconfortável com a briga de casal que estavam assistindo, mas não tinha muito pra onde correr na Sala Comunal. — Foda-se, Marlene. Ela pode fugir e se proteger, ela tá certa. Você queria que ela fizesse o que? Tem um bando de sociopata literalmente falando que quer matar gente como ela.
— Eu-
— Não, vai se foder. — Sirius se levantou, irritado. — Cala a boca, de verdade. A garota tem medo da gente. Ela tem medo de ser quem ela é e a culpa é nossa que deixou essa merda crescer, é minha culpa de ter deixado essa merda crescer.
— Sirius, você era uma criança. — cortou James, tentando acalmá-lo. Lily continuou impassível ao ouvir Sirius, mas não parecia discordar.
— Não importa! — gritou Sirius. — Se eu não conseguia antes, eu consigo agora! Eu não vou deixar esses filhos da puta falarem quem pode e quem não pode viver, isso é fodido, eu não vou deixar isso acontecer, eu não vou ser conivente com isso!
— Não estamos sendo coniventes, Black — cortou Marlene, também se levantando. — Você que não está sendo realista, pessoas vão morrer, Sirius.
— Você que não é realista! — retrucou, agressivo. — Se eu tiver que pegar essa varinha — e sacou sua varinha do bolso. — E matar um Comensal da Morte com minhas próprias mãos, é o que eu vou fazer, porra. Eu não vou viver no mesmo mundo que esses vermes, eu vou mandá-los de volta pro esgoto em que saíram!
Sirius não olhou para trás ao sair da Sala Comunal, deixando todo mundo estático. Remus finalmente respirou após o acontecido e ninguém tinha muito o que falar, além de remoer o silêncio que Sirius deixara, pois, por mais que todos temessem o futuro, ele se dividiria nos que fugiriam e nos que lutariam.
Apenas no mês seguinte, viram Professor Dumbledore andando brevemente pelo corredor, visivelmente cansado, o que apavorava Remus. Mudou de corredor para não ter que passar por ele, mas o homem o viu antes que pudesse fugir:
— Senhor Lupin — cumprimentou, fazendo Remus se virar no corredor quase vazio. O garoto lhe deu um sorriso nervoso, se aproximando, tentando não parecer torto pela mochila pesada. — Como vai, ansioso pelo último ano?
— Sem dúvidas — riu Remus, nervoso. Não conseguia olhá-lo nos olhos, sentia muita vergonha de Dumbledore, e até mesmo medo dele questionar a incapacidade de Remus de evitar que seus amigos ajam como um bando de macacos enlouquecidos.
Mas o homem estava decidido a fitar Remus profundamente com seus olhos azuis que pareciam saber tudo.
— Certo… — Dumbledore pegara em seu ombro e Remus sentiu-se calmo, mas ainda assim culpado. — Aproveite o ano, senhor Lupin, porque às vezes acho que nada pode ultrapassar essas grossas paredes, por mais que ultrapasse…
Ele lhe cedeu um sorriso carinhoso e continuou seu caminho rumo Gabinete, deixando o Lupin respirar enfim, olhando os primeiranistas correndo pelo jardim.Os dias pareciam os mesmos, por mais que todo dia Remus ganhasse mais um trabalho de dois pergaminhos para fazer. Estava em um nível de estresse tão grande que ia se dedicar à ler um pouco enquanto espera James e Sirius voltarem do treino, mas passou quase quarenta minutos fitando o nada, fritando o cérebro dentro do crânio.
— Nós vamos perder. — anunciou James, entrando na Sala Comunal de madeixas molhadas tamanho suo. — Eu menti, só falei aquilo para incentivar o time, mas nós vamos perder feio, estou com vergonha de estar vivo e jogando com um time tão ruim.
— Você queria que estivesse todo mundo jogando bem com o céu craquelando de cinco em cinco minutos? — indagou Marlene, ensopada, empurrando James para fora de seu caminho, abrindo uma garrafa d’água — Me sinto dentro de um aquário, não quero voar tão cedo!
— Foda-se, se perdemos, fazemos uma festa pra que eu entre em coma alcoolico, se ganharmos, fazemos uma festa pra que eu entre em coma alcoolico. — interrompeu Sirius, jogando-se na poltrona perto da porta, atrevendo-se a acender um cigarro na frente dos primeiranistas, mas sendo interrompido por Lily Evans, descendo as escadas do dormitório e apontando a varinha para a boca de Sirius, fazendo o cigarro explodir.
— Menos um ponto para a Grifinória pela petulância. — disse, terminando de descer as escadas.
— Educação não é seu forte, Evans. — levantou-se Sirius. — Sem problemas, vou fumar no dormitório, quero ver você entrar lá.
— Senhor Monitor Chefe? — indagou Lily, de braços cruzados para James. — Ele pode fumar no dormitório?
— Com toda certeza não, senhorita Monitora Chefe, se ele o fizer, serão menos dois pontos para a Grifinória, com toda certeza — replicou James, entrando na brincadeira. Sirius olhou os dois com uma forte expressão de nojo e exaustão.
— Vocês me enojam — declarou, indo guardar suas coisas. Marlene assistiu o namorado subir as escadas e olhou para James e Lily conversando, segurando um sorriso e buscando apoio de Remus. Os dois estavam tão entretidos com a presença um do outro que sequer perceberam quando Marlene simplesmente subira as escadas do dormitório masculino atrás de Sirius.
The Mamas & The Papas — Dream A Little Dream of Me
Por mais que ambos negassem qualquer romance, Remus ficava fisicamente envergonhado de estar ali enquanto os dois conversavam de forma tão íntima. No fim da semana, Remus conversava com uma monitora quando se separou da mesma para supervisionar rapidamente a Torre de Astronomia, onde ouvira murmúrios. Subiu as escadas lentamente, pronto para anunciar uma detenção, já que às 18h não era mais permitido a circulação de estudantes.
Remus segurou-se ao reconhecer a voz e subiu lentamente, conseguindo ver o Monitor Chefe e a Monitora Chefe da Grifinória, apoiados no para-peito rindo e confidenciando coisas com o céu alaranjado os assistindo. Remus tapou a boca, não conseguindo controlar o sorriso que crescia em seu rosto. Meu Deus, está acontecendo, gemeu, descendo as escadas rapidamente o mais silenciosamente que conseguia. Quando encontrou a Melanie no fim das escadas, mentiu descaradamente ao dizer que estava vazio.
Alguns dias depois, Remus estava discutindo com Sirius pela autoria de um feitiço quando o mesmo congelou ao olhar a porta do Salão Principal, onde James deu um breve beijo em Lily antes de ir de encontro com os garotos, sentando-se e servindo-se como se fosse mais um dia comum.
Lupin tentou agir com naturalidade, mas não conseguiu, deu alguns tapinhas nas costas do amigo e James Potter riu para sua torta, como se os três compartilhassem uma antiga piada, assim como Sirius, desacreditado, quase batendo palmas de felicidade.
Não precisavam falar nada.
“Lily,
Você já pensou em mim nessa noite fria?
Estou escrevendo esta carta para você há horas e já descartei tantos pergaminhos que vou ter que encomendar um rolo novo. Minhas costelas doem depois de horas praticando Poções, e mesmo com as dicas que você me dera, continuo péssimo.
Terminei o livro que você me deu, não sou um homem de poemas, Remus é mais familiarizado nesse assunto do que eu, mas tenho que assumir que aquelas foram as coisas mais lindas que já li na vida. Estou te enviando minha cópia do livro de Niccoló Klein, e espero que você goste da literatura bruxa tanto quanto estou gostando da trouxa.
Sinto vergonha de sentir tanta empolgação com tudo que gira ao seu redor, mas é que realmente nunca me senti conectado à alguém dessa forma. Digo isso de forma respeitosa, não quero ultrapassar seu tempo, eu quero esperar. Eu consigo esperar.
De alguma forma, tudo que aconteceu em minha vida parecia uma série de fases para se passar, para que eu pudesse chegar até você. Lily, você é minha melhor amiga. Quantas noites passei naquela torre a… amando em silêncio? Quando o pôr-do-sol ilumina seu rosto, eu juro que quase perco o ar.
Só você pode derreter essa rocha. Você vai voltar?
A tempestade já passou, agora o horizonte está num tom rosa alaranjado e eu me lembro das noites em que conversamos até o céu estar dessa exata cor.
Não consigo mais pensar em você, sinto dor de vontade de te ver e conversar te olhando
Suas fotos estão aqui comigo, mas não é a mesma coisa. Ainda há tantas coisas que quero te dizer, compartilhar com você.
Você diz que sou ansioso, que temos uma vida toda pela frente.
Vou tentar manter isso em mente.
Com amor, James”
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