O Segundo Antes do Sol Voltar
11 Capítulo 11
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
Todos os quintanistas deverão ter uma breve reunião com a diretora de sua Casa durante a primeira semana do semestre de verão para discutir suas futuras carreiras. Os horários estão listados abaixo.
Remus colocou em lugares estratégicos com a ajuda de Lílian os panfletos de e folhetos de carreiras bruxas pela Sala Comunal, faltando apenas alguns dias para o fim do recesso de Páscoa. Ele pegou um de cada para si, não muito animado. Nunca tinha realmente pensado no que faria, pois ele tinha um problema maior nas costas que fazia tudo parecer impossível e distante. Sentou-se com a amiga no sofá, enquanto ela sorria, mordendo as unhas, com um folheto laranja.
— Ser uma Biobruxa não parece uma má ideia, não? — ela mostrou o folheto animada, com algumas imagens de pessoas fazendo poções em jalecos. — Imagine que sonho! Tudo que eu preciso é no mínimo um Excede Expectativas em Herbologia e Poções. E eu já estou no curso de Alquimia, o que também exige...
— Você combina com a profissão. — opinou Remus.
— Foda-se esses N.O.M’s — disse Marlene, ofegante, andando pela Sala Comunal de cabeça para baixo, apenas com o auxilio das mãos, mantendo um equilíbrio invejável. Ela colocou-se de pé como uma atleta, em um pulo e soltou apertou o rabo de cavalo mais um pouco antes de alongar-se, apoiando-se na poltrona onde Peter estava sentado. — Tudo que eu preciso é ser excelente em Quadribol para entrar em algum time.
— Mas você não vai prestar para nada? — perguntou Lílian, desacreditada.
— É óbvio que eu vou, princesa, eu sou obrigada. — retrucou tocando os dedos dos pés com a mão, reta. — Magizoologista, quero montar em Dragões.
Lílian a olhou de forma estranha e então voltou à seus panfletos.
— Ahhh, ótimo! — comemorou James assim que apareceu na Sala Comunal, procurando seu nome na lista de horários. — Sou o primeiríssimo na lista porque ela sabe que não vai perder tempo! Bom dia, Evans... — ele sentou-se no braço da poltrona, onde Peter estava, empurrando o pé de Marlene, quase a fazendo cair. — Já escolheu sua profissão?
— E você Peter, o que escolheu? — sorriu ela, ignorando James.
— Hum, eu não se-
— Eu escolhi Auror. — atropelou James, não admitindo seu ignorado. Marlene deu uns chutes altos no ar, sem tirar os olhos do garoto de óculos. — Mas eu já tenho excelência em todas as matérias exigidas, então talvez eu preste para Curandeiro. Vou pedir a opinião de McGonagall.
— Você não pode ser um Auror. — exclamou Marlene, limpando o suor de sua testa. James suspirou antes de olhar a garota, inexpressível.
— Por que não, McKinnon? — perguntou quase que a força.
— Porque você é um idiota. Não vai passar no teste de personalidade e caráter. Meu irmão não passou e ele é um imbecil que nem você. — contou ela fazendo Lílian esconder o rosto, mas dava para ver que ela estava rindo. James olhou Marlene por mais um tempo antes de desviar o olhar, parecendo estar tentando controlar sua impaciência.
Remus decidiu que ia prestar para Desfazedor de Feitiços, que segundo o panfleto, era “uma carreira estimulante que oferecia viagens, aventuras e substanciais abonos do tesouro para compensar riscos, sempre com muitas vagas para o exterior”. A matéria exigente além de Transfiguração, Feitiços e Defesa Contra as Artes das Trevas, era Aritmância e Runas Antigas, por sorte Remus tinha as duas e ia razoavelmente bem em ambas.
A rotina de estudos estava insuportável e Poções Calmantes pareciam fazer parte do café da manhã de todo mundo de tão exaustivo revisar e revisar tudo. Remus e Emmeline juntaram as cabeças e ele dedicou-se a ajuda-la com as matérias que tinha dificuldade, o que acaba o ajudando, quanto mais ele explicava, mais ele mesmo acabava compreendendo e gravando a matéria. Sirius estudava algumas horas por dia e então dormia o resto, parecendo não muito preocupado, apesar de ter passado a prestar atenção nas aulas de História de Magia e parado de se atrasar em Astronomia.
Já James tinha estabelecido um trilhão de metas onde ele lia um livro teórico em três dias, quase recitando tudo no dia seguinte, de trás pra frente, lembrando até mesmo o número de algumas páginas. Ele já era muito bom, poderia viver apenas de revisões, mas “bom” nunca foi uma palavra suficiente para James. Após mais uma excelente noite de Lua Cheia para Sirius, e traumática para Remus, James disse que tinha alterado algumas coisas no Mapa e gostaria de mostrar a eles.
— Eu encomendei esse livro mês passado e só chegou ontem! — mostrou ele, jogando o livro grosso em cima da cama de Sirius. Remus leu a capa: “Feitiços Avançados para Documentos Restritos, Oficiais ou Mandatos”. — Aqui explica detalhadamente tudo que queríamos colocar, lembram? Aqui, na página 789, explica como não deixar o documento ser accionado, e na 1.023 explica uma perfeita, que é usada em cartas privadas de bancos, onde só pode abrir com a senha, dá para colocarmos também, assim só a gente consegue abrir.
— Tem um feitiço assim bem melhor na Mundo Bizarro. — disse Peter, pegando sua revista em sua cabeceira. — É de colocar em cadernos, e ofende qualquer pessoa que tentar abrir o caderno.
James o olhou pronto para contráriá-lo, mas pareceu desistir.
— É, parece melhor. — disse ele, fechando o livro.
— Ainda assim precisamos de senha para o Mapa. — replicou Remus, reabrindo o livro. — E para fechar também.
James aplicou o feitiço anti-accionamento e o do xingamento, divertindo-se enquanto tentava abrir o mapa e era ofendido. Já o de senha era complicado, eles não conseguiam pensar em nada coerente.
— Abro, fecho...
— Oh Peter, como você é um gênio, ninguém vai tentar isso! — ironizou Sirius.
— Pode ser assim: Não farei nada de bom. Porque você não vai mesmo, afinal... — brincou Remus.
— Parece boa. — James anotou em uma folha. — E de fecho?
— Malfeito, que nem aquela música do Minor Tragedy. — Sirius fingiu tocar bateria como o baterista da banda bruxa de rock.
— Malfeito, feito. — anotou James.
— Eu não disse isso! Eu disse só Malfeito!
— Eu sei, eu melhorei. — replicou James. — Essa entrada ainda é estranha.
— Vamos fazer a pessoa jurar, como se fosse um objeto amaldiçoado, aí ela vai ficar com medo de abrir. — sorriu Peter, malicioso.
— Boaaaa, Wormtail, aí sim! — sorriu Sirius, erguendo sua mão para que Peter batesse, mas assim que o garoto foi para bater ele abaixou a mão, voltando a se deitar. Remus ficava agoniado quando Sirius falava wormtail, outro apelido que ele inventara, dessa vez para Peter, por conta do rabo longo do rato em que ele se transformava.
— Então pode ser juro solenemente não fazer nada de bom? — perguntou James.
— Soa ameaçador. — opinou Remus. O feitiço foi feito e eles testaram diversas vezes até ter certeza que estava funcionando. O problema é que o mapa estava em branco, eles podia confundir facilmente com qualquer outro pergaminho. Decidiram deixar daquele jeito, mas Remus ficou incomodado o suficiente para pelo menos desenhar um pouco ao redor da capa, tentando fazer um castelo descente e detalhista.
Eles se empolgaram e melhoraram os desenhos até mesmo por dentro do mapa. Peter estava deitado em sua cama comendo um saco de alcaçuz, assistindo de longe. Já Sirius estava roncando.
— Deveríamos colocar nossos nomes. O mapa é nosso. — disse ele, mordendo um alcaçuz.
— Não seja burro, Peter, se pegam isso vão saber na hora que somos nós! — retorquiu James, enchendo a pena de tinta para detalhar uma árvore, deitado no chão com Remus, que escrevia o nome de alguns lugares.
— Mas... Nem mesmo uma assinatura? — insistiu ele.
James pareceu ponderar, desenhando. Alguns longos minutos se passaram e Sirius acordara de sua soneca, um pouco confuso. Ficou alguns minutos assistindo os garotos mexerem no Mapa e foi para a cama de Peter, arrancando o saco de sua mão.
— Vamos chamar o mapa de Mapa Amaldiçoado. — sugeriu Sirius com a boca cheia de alcaçuz. — Assim ninguém pegaria. Podíamos colocar um feitiço de texto introdutório assim: Meu nome é Marie, eu fui a última pessoa a tocar neste Mapa Amaldiçoado. Tenho treze anos (teria se estivesse viva)...
— Para de falar idiotice. — cortou James, segurando o riso, mas Remus e Peter riram, animados. — Vamos só escrever Mapa de Hogwarts, só aparece caso digam a senha.
— Mapa de Hogwarts! — debochou Sirius, sentando-se. — Assim parece quem fez foi sei lá, Dumbledore. Pode colocar nosso nome nisso, fui eu que fiz!
— Talvez a gente possa colocar tipo, Os Senhores P, L, B e P apresentam... Mapa de Hogwarts. — sugeriu Remus, olhando James diante dele, apoiando os cotovelos no chão do dormitório. Ele pareceu ponderar, mas não estava convencido.
— Acho que é muito fácil associar a sequencia de letras à Potter, Lupin...
— Os Senhores Moony, Wormtail... — pulou Sirius, animado. James ergueu as sobrancelhas, feliz, também parecendo empolgado e Remus já achara defeito: Todo mundo sabia que Sirius o chamava de Moony, desde o primeiro ano. — Veado? — sorriu o garoto para James e o Potter apenas voltou para o Mapa, sério. — Ah, James, para!
Ele ainda ficava terminantemente magoado se insistissem chamar seu animago de veado sendo que era um cervo, como ele repetia.
— Pode ser... Prongs, talvez? Pela gralhada. — Remus mexeu os dedos sob a cabeça e James pareceu gostar.
— E eu? — perguntou Sirius.
— Pode ser vira-lata. — retrucou James, ainda chateado, voltando para o Mapa. Eles ficaram quase vinte minutos discutindo nomes para Sirius, só que todos pareciam ruins ou ele odiava. Até que o garoto de óculos levantou-se do chão, indo até sua pilha de livros, pegando um fininho. Ele mostrou a capa para os garotos, que tinha o título de pennydreadful’s: england.
Sentou-se em sua cama e abriu em um capítulo, sorrindo para o título, recitando em seguida:
— Este conto é sobre um cão negro, fantasma, que aparecia durante a noite, certamente enviado pelo diabo, para assombrar não só cemitérios como bairros tranquilos de Yorkshire. Ele era apelidado de... — James sorriu lentamente, olhando para Sirius. — Padfoot, e vivia para aterrorizar os moradores desta pequena vila que conta a história a seguir.
Sirius colocou a mão no peito, chocado.
— Eu vou chorar. — sorriu ele, visivelmente apaixonado. Assim, Remus escreveu detalhadamente: Os Senhores Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs tem a honra em apresentar:
— Fornecedores de Recursos para Bruxos Malfeitores antes... — acrescentou James. Remus não gostou muito da ideia. — Todos os outros produtos tinham!
O Lupin lembrou-se das bombinhas de James para “momentos constrangedores”, que foi um grande sucesso, ou a criação coletiva deles no segundo ano, mochilas voadoras. O problema é que era tão falho quanto capas da invisibilidade fajutas, mas foi um sucesso.
Os quatro se entreolharam e decidiram detalhar mais ainda o mapa antes do nome, pintando algumas partes, desenhando algumas outras coisas, principalmente o Salgueiro Lutador. Terminaram e guardaram tudo, cada um indo para sua cama, em silêncio, pensativos. Sirius ainda estava na cama de Peter, com os pés no colo do menino sentado, lendo suas anotações de História da Magia, quando ele começou:
— Sabe o que eu pensei, o mapa inteiro é apresentado como se fosse para alguém de fora e não para nós. Parece pensado para outras pessoas usarem, além de nós. — comentou, fitando o teto da cama. — Se só pode usar uma pessoa que não vai fazer o bem, então pode ser o Mapa do Malfeitor.
James fechou seu livro, assentindo lentamente.
— É bom, mas... Aí parece algo meio tratante. Seria melhor algo mais...
— Maroto? — perguntou Remus.
— Sim, quais os sinônimos de Maroto? — replicou James.
— Mas Maroto está bom. — opinou Peter, fechando seu caderno. — Mapa do Maroto soa bonito e não é muito agressivo.
Eles preferiram mastigar a ideia e acabaram dormindo, acordando com o sol do domingo em suas caras, já que esqueceram de fechar as cortinas das camas. Remus piscou lentamente para tudo ao seu redor até notar que James, Sirius e Peter já estavam acordados, reunidos na cama do último. O Lupin olhou a cama intocada de Elliott ao seu lado e se perguntou onde ele dormira. Foi até os amigos e viu James bater a varinha no mapa, um pouco sonolento:
— Juro solenemente não fazer nada bom. — recitou, rouco. E desenhou-se gradativamente sob a capa limpa:
Os Srs. Moony, Wormtail
Padfoot e Prongs,
Fornecedores de Recursos para Bruxos Malfeitores
Tem a honra em apresentar:
O MAPA DO MAROTO
O fim de semana da criação do Mapa fora quase um sonho em meio ao caos dos estudos para os N.O.M’s. As aulas pareciam cada vez mais complicadas e Remus não conseguia entender como eles deixavam o conteúdo mais difícil para ser ensinado logo entre provas decisivas. Ele não sabia como estava conseguindo respirar com uma rotina maluca de obrigações como monitor, revisões, trabalhos extensos, revisões práticas de matérias complicadas. Na semana da entrevista, o professor Slughorn deu uma dinâmica que seria semelhante a prova prática de Poções nos N.O.M’s, e Remus ficou por um triz com um Aceitável.
Sirius, que sequer mostrava estresse, finalmente mostrou quando ficou com um Deplorável e acabou soltando um “foda-se” antes do professor passar para outro caldeirão. Ele foi expulso da sala, mas não antes de chutar alguns caldeirões, causando barulho. James ficou com um mero Aceitável e sua inveja era tocável quando Snape recebeu um Ótimo. Já Peter parecia ter feito algo semelhante a veneno, segundo o professor. Remus foi o último de seus amigos a passar pela entrevista vocacional, encontrando a professora McGonagall em seu gabinete após o almoço.
Ela passou alguns minutos sem olhá-lo, mexendo em pergaminhos em papel, finalmente achando sua pasta, analisando seus boletins, entre suspiros e sobrancelhas unidas, passeando o dedo em seu histórico.
— Então, senhor Lupin, hoje teremos que decidir quais matérias o senhor terá que cursar no sexto e sétimo ano, também discutindo suas ideias de carreiras. O senhor tem algo em mente?
Remus engoliu seco, nem um pouco motivado.
— Sim...? — incentivou, olhando sob os óculos meia-lua.
— Desfazedor de Feitiços. — disse Remus sem ânimo. Ela voltou para suas notas e histórico, assentindo lentamente.
— Bem, você parece ter tudo para a carreira, inclusive Aritmância e Runas... Está muito bom em ambas matérias, apesar que eu o aconselharia a preocupar-se um pouco na minha matéria, mas analisando friamente, o senhor parece apto. — ela mexeu em mais alguns papéis. — Vai poder abrir mão de Poções, Astronomia e Herbologia no próximo ano.
O garoto assentiu, ainda em silêncio. A professora tirou seus óculos e o olhou, séria.
— O senhor tem alguma dúvida? Sobre a carreira, como são os testes de resistência matemática...?
— Não, senhora.
— Senhor Lupin, algo me diz que não está muito animado com isso. — começou ela, sem piscar ao fita-lo. — O senhor quer saber algo sobre outras carreiras? Precisa trocar alguma turma...?
— Não, senhora. — ele só queria sair dali. A professora pareceu aceitar seu silêncio e ele foi dispensado, encontrando seus amigos fora do gabinete, ainda com uma vontade terrível de deitar-se e dormir, só acordando em seu último ano. Fora estúpido o suficiente para frequentar Hogwarts por cinco longos anos sem notar que no fim ele não poderia colocar nada em prática. Como ele ia conseguir um trabalho se precisava se ausentar por uma semana inteira toda Lua Cheia? Quando pedissem exames de admissão, iam descobrir na hora quem ele era, sequer poderia esconder.
Jamais seria um Curandeiro, como James decidira prestar suas fichas. Auror, mesmo Sirius não muito esperançoso em como passaria em Poções, até mesmo Peter e sua simples função no Ministério, que tudo que era exigido era comprometimento e bom humor. Remus sequer tinha bom humor! Ele passou algumas semanas pensando seriamente em desistir de tudo, morrendo de vontade de compartilhar isso com Emmeline, mas ela não entenderia, ele teria que explicar tudo.
Nas aulas de DCAT, eles estavam aprendendo o feitiço do Patrono, que era complicado e exigente, sendo a única arma eficiente contra dementadores. James queria exibir-se, dizendo que já tinha praticado o feitiço e conseguia performar, caso a professora quisesse, mas ela negou seu pedido, deixando a aula mais teórica, só dando inicio à prática no fim da aula:
— Na verdade eu não quero que vocês façam aqui, na sala, tudo bem se não conseguirem. — tranquilizou, andando de aluno em aluno, conjurando o feitiço enquanto nada saia da varinha. — O pensamento feliz que precisa ser extraído às vezes pode demorar um pouco mais, a desenvoltura da técn-
— Expectro Patronum! — a varinha de James vibrou e dela saiu um fluído azulado, transformando-se rapidamente em algo reconhecível. Remus abriu a boca em choque quando o cervo saiu saltitando pela sala, com todos impressionados, entre gritinhos e risos, admirados. A professora suspirou, segurando um sorriso, e virou-se para James, assentindo lentamente.
— Parabéns, senhor Potter.
Ninguém além dele conseguiu no dia, apenas alguns jatos frouxos saíram da varinha de Marlene, faltando alguns minutos para o fim da aula. Todos os quintanistas estavam praticando obcecadamente o feitiço, implorando dicas à James, que ensinava a técnica do movimento, mas nada adiantava sem o pensamento certo. No fim daquele dia, Marlene e Lílian tinham conseguido conjurar na Sala Comunal, arrancando aplausos.
O guepardo que saíra da varinha de Marlene parecia determinado a matar a corça de Lílian, que corria pela sala, desesperada.
No dia seguinte, Sirius conseguiu pela manhã, acordando a todos do quarto animado com o cachorro que corria atrás dele, desesperado. No fim do dia, Peter, com um ratinho rastejando-se docilmente, nunca indo muito alto. Remus sempre se lembrava da sua chegada a Hogwarts e no máximo conseguia um fiapinho de patrono. Após uma noite em que sonhou com a chegada de Dumbledore em sua casa, logo pela manhã ele decidiu testar aquela lembrança, do homem lhe dizendo que poderia estudar.
Sua varinha parecia um jato d’agua quando expulsou um lobo feroz, tentando sair desesperadamente do quarto. Ele encostou sua cabeça na parede, apertando seus olhos, o assistindo.
Não sentiu orgulho.
— Eu também não fiquei muito orgulhosa da minha lembrança... — Lílian segurou a varinha iluminada com as duas mãos para baixo, caminhando lentamente durante a ronda. — Eu na verdade fui surpreendida, eu não estava pensando naquela lembrança em especifico.
— Qual é a sua lembrança? — perguntou Remus, curioso.
Lílian, em segundos, encheu os olhos de lágrimas, ficando sem voz. Remus parou, assustado, desculpando-se enquanto ela enxugava as lágrimas, tentando rir, mas só conseguia chorar. Ele apertou seus ombros até ela parar de soluçar e eles recomeçarem a andar.
— É... — Lilian fungou mais um pouco, ainda chorando. — É minha irmã... Me abraçando, no meu aniversário do ano passado, dizendo o quanto me ama. — ela chorou mais ainda. — É tão idiota, eu nem ligo praquela imbecil! — Lily engasgou-se de tanto chorar e eles pararam novamente.
— Não é uma memória boba, é importante. — tentou Remus, ainda assustado. Nunca tinha visto a fragilidade da garota.
— Pra mim é como se eu não me conhecesse. — ela focou seus olhos verdes em Remus. — A minha pior memória é Petúnia me chamando de aberração, jurando me odiar, que nunca mais iria falar comigo... E a melhor também é ela.
Aquela aula despertou o emocional de muitos alunos aparentemente apáticos. A memória de Marlene foi o último aniversário de sua mãe, antes dela morrer. O de Peter, a última vez que viu seus pais. Sirius demorou para revelar, mas em uma tarde de estudos ele de repente disse, que foi seu aniversário de sete anos, a última lembrança que ele tinha de ser genuinamente feliz com sua família. As únicas memórias inocentes pareciam ser a dele, Emmeline, que fora quando finalmente recebeu sua carta e pôde largar seu emprego, e James, que foi quando um jogador famoso do Puddlemore United apertou sua mão na frente de seu pai, e disse que ele era talentoso.
Quando faltava um mês em para o começo dos exames, os professores começaram a revisão e tudo se resumia à treino e exercícios. Sequer pensavam em ir à Hogsmeade durante aquele período, James era o primeiro a entrar e o último a sair da biblioteca, completamente absorto em suas leituras. Ele também dedicara-se a ensinar Peter, assim ele gravaria a matéria mais facilmente, não deixando que o amigo comprasse exilires milagreiros que lhe aumentavam a concentração, atenção ou agilidade. Na véspera do começo das duas semanas de exames, James acordou e colocou suas roupas comuns, penteando o cabelo e passando perfume.
— Tudo isso para estudar? — questionou Sirius, parecendo um mendigo, sem lavar o cabelo a uma semana, com olheiras terríveis. James deu um muxoxo de deboche, colocando as mãos no bolso da calça.
— É óbvio que não, eu já estudei tudo que eu tinha que estudar, agora preciso liberar todo o estresse do meu corpo para que amanhã eu acorde com uma nova alma. — explicou ele, calçando seus sapatos.
— O que você vai fazer? — perguntou Peter, de olhos arregalados após excesso de café.
— Vou comer Jemima, fumar maconha e meditar por no mínimo cinco horas. — ele ergueu-se, alongando-se rapidamente antes de caminhar para fora do quarto. — Tenham um bom dia rapazes.
Remus não viu a hora que James chegou ao dormitório, pois dividiu uma forte poção com os três para que dormissem pesado até o dia seguinte, após um dia exaustivo de estudos. No período da manhã eles tinham os exames teóricos e a tarde os práticos. O primeiro foi o de Feitiços e Remus estava tão nervoso que ele não parava de roer as unhas enquanto anotava tudo que conseguia vir à sua mente. James, ao seu lado, só escrevia e escrevia, parando por alguns minutos, respirando fundo e voltando a escrever, concentrado. Após o almoço, ele sequer conseguia comer de tão traumatizado, com sua mente sabotando cada resposta que ele teve certeza que acertara, o fazendo desconfiar e dar descrédito a si mesmo.
Peter não conseguia parar de falar sobre as perguntas, James colocou protetores de ouvido para ignorá-lo e Sirius olhava o nada, dando garfadas vagarosas, disperso em pensamentos. Remus não aguentou e acabou mandando Peter calar a boca de forma grosseira.
No exame prático, ele e Lily eram os únicos Grifinórios à entrarem com o grupo Sonserino para a sala do examinador. Aquele fora relativamente mais fácil, e ele achou que tinha executado tudo de forma aceitável. Conforme os dias se passavam, ele ficava cada vez mais calmo, familiarizando-se com o sistema avaliativo, com os avaliadores e a rotina. A única matéria que estressou James em sua tranquilidade fora Poções, em que ele acordou tão focado que não tirava seus abafadores para nada, nem mesmo no café. Na teórica ele parecia aliviado, falando de cor todas as respostas, mas na prática...
— Hmm... — o avaliador pareceu ter pena de James.
No dia seguinte Remus teve a prova mais difícil de toda a sua vida, Aritimância, enquanto James, Peter e Sirius tinham de Adivinhação. Ele vacilava entre desistir e insistir no exame em quatro horas de avaliação. Até mesmo Lílian parecia estar tendo dificuldade, contando os dedos de olhos fechados, vermelha, mexendo a perna loucamente. Já exausto tanto fisicamente e psicologicamente, ele teve Runas Antigas, onde a informação parecia estar vazando de seus ouvidos enquanto ele ficava mais de vinte minutos fitando a palavra ehwaz, fazendo uma força descomunal para lembrar a tradução, já que o contexto não facilitava. Os testes de Astronomia foram fáceis para Remus, mas Sirius teve uma visível dificuldade, já que ele simplesmente só via metade das aulas de tão atrasado que chegava. No exame de Trato de Criaturas Mágicas, Remus fez juz à seu apelido de tão disperso, com a cabeça completamente no teste do dia seguinte, de História da Magia.
Ele confundiu-se com a crise de 1887, mas saiu-se relativamente bem, conseguindo lembrar com clareza de absolutamente todas as respostas, abusando um pouco do seu poder da escrita. Após aquela série de traumas, só faltavam DCAT e Transfiguração, finalmente fechando segunda e última semana.
O teste de DCAT foi o mais fácil de todos, principalmente as questões sobre licantropia. Remus teve um insight durante a prova, se perguntando se poderiam associar tudo aquilo à ele. Olhou o local lotado de cabeças abaixadas e sentiu o pânico consumi-lo enquanto ele passava os olhos sob o que escrevera. O professor Flitwick anunciou o fim da prova e os pergaminhos voaram em sua direção, o derrubando. Remus guardou suas coisas na bolsa e respirou fundo, ainda pensando na prática que teriam mais tarde e a prova de Transfiguração no dia seguinte.
— Gostou da décima pergunta, Moony? — perguntou Sirius.
— Adorei. — respondeu. — “Cite cinco sinais que identifiquem um lobisomem”. Uma excelente pergunta.
— Você acha que conseguiu identificar todos os sinais? — perguntou James, fingindo preocupação.
— Acho que sim. — respondeu, sério. — Primeiro: ele está sentado na minha carteira. Dois: ele está usando minhas roupas. Três: o nome dele é Remus Lupin.
James gargalhou enquanto empurrava algumas pessoas ao passar, acompanhado de Sirius, mas Wormtail não riu.
—Eu citei a forma do focinho, as pupilas dos olhos e o rabo peludo — contou, ansioso. —, mas não consegui pensar em mais nada.
— Como pode ser tão burro, Wormtail? — questionou James, impaciente. — Você anda com um lobisomem uma vez por mês...
— Fale baixo! — estrilou Lupin. James começou a falar sobre o quão fácil estava aquela avaliação e daquele jeito todo mundo ia acabar passando. Eles desceram o gramado em direção da árvore mais próxima da Torre Oeste.
— Bom, eu achei que o exame foi fácil. Vai ser uma surpresa se eu não tirar no mínimo em Excede Expectativas.
— Eu também. — respondeu James, sentando-se e enfiando a mão no bolso, tirando um pomo.
— Onde conseguiu isso? — perguntou Remus.
— Afanei. — disse James displiscente. O Lupin sequer precisava olhar para os lados para saber que Lílian estava provavelmente nas redondezas, então James ia fazer o possível para ser notado. Pegou o livro de transfiguração em sua bolsa enquanto Potter divertia Peter ao capturar o pomo, com o olhar fixado no lago.
— Quer guardar isso? — pediu Sirius quando Peter soltou uma comemoração. — Antes que Wormtail molhe as calças de excitação.
— Se estou incomodando. — e guardou o pomo, ainda olhando para o lago.
— Estou chateado. Gostaria que fosse Lua Cheia. — disse Sirius, desanimado, fechando os olhos com a sombra da árvore, olhando com ódio para os estudantes que passavam, como se eles tivessem culpa de seu tédio.
— Você gostaria. — retorquiu Remus. — Ainda temos Transfiguração, se está chateado poderia me testar, pegue...
Sirius riu de Remus e ignorou o livro que o amigo estendeu.
— Não preciso, já sei tudo.
— Isso vai te animar, Padfoot. — comentou James com a voz baixa. — Olhem quem é...
Remus sequer se deu o trabalho, apenas enfiando seu rosto no livro, mas sem conseguir ler enquanto os garotos se levantavam, indo para a árvore não muito longe dali. Ele tentou voltar ao parágrafo onde estava, mas além de não conseguir ouvir muito bem o que estava acontecendo, ele estava rezando para que tivesse algum monitor ao redor, ou até mesmo Lílian, para pará-los, já que ele era inútil naquele quesito.
Quando ouviu o primeiro estalido de varinha suspirou, sabendo que James ia dar um show. Espiou rapidamente as pessoas começarem a se reunir ao redor, enquanto a boca de Snape cuspia sabão. Lupin virou-se para o livro em segundos, aliviado ao ver Lílian aparecer. Focou sua audição no que estava acontecendo enquanto gravava algumas coisas do livro, nem sabendo mais o que estava fazendo. Espiou novamente e James agora tinha um risco em sua bochecha, sangrando enquanto Snape flutuava de cabeça para baixo, caindo em seguida, ao som da voz aguda de Lílian, furiosa.
— Vamos, tire pontos e saia, Lily! — murmurou Remus, em pânico.
— Não preciso de ajuda de uma sangue-ruim imunda como ela! — O Lupin virou-se de vez, deixando o livro cair, segurando a grama enquanto via Lily cruzar os braços e James gritar com Snape, apontando-se a varinha. Então ela deu um passo adiante, falando sem parar com James, que ouvia boquiaberto, estático.
Quando ela saiu marchando, James assentiu algumas vezes, visivelmente irritado, colocando Snape de cabeça para baixo em segundos.
— Quem quer ver eu tirar as cuecas de Ranhoso? — gritou James, focado. Sirius pulou, animado, agitando. Ele não aprende, pensou Remus, furioso, levantando-se em um pulo, tropeçando antes de ficar de pé, abrindo espaço a força nos estudantes ao redor.
— Menos cinquenta pontos para a Grifinória! — disse com a voz trêmula de raiva. James virou-se bruscamente, levando um susto, parecendo não reconhecer Remus.
— Moony, ficou doido? — esganiçou.
— Coloque-o no chão, delicadamente, se não eu tiro mais cinquenta pontos.
— EI, EI! — gritou Sirius, empurrando Remus para longe de James, desesperado com os pontos.
— Remus! — riu James, desacreditado, ainda sem se mover. — Você ouviu o que ele falou pa-
— Menos cinquenta pontos para a Grifinória, se você não fizer o que eu mandei agora, eu vou tirar mais cem. — ameaçou Remus, vermelho. Virou-se pra plateia. — Circulando, se não eu vou conversar com os outros monitores também...
James abaixou o braço bruscamente parecendo socar o ar e Snape caiu feio fruta mole no chão, pegando suas coisas rapidamente e saindo correndo para dentro do Castelo.
— Muito obrigada por ter nos tirado a porra da Taça das Casas! — cuspiu James, alterado.
— Eu tirei? — esganiçou Remus, empurrando o garoto de óculos. — Eu? Ou você? Agindo como um idiota?
— Ele provocou! — gritou James.
— Você que veio até aqui! — berrou Remus.
— Merlin... Meninas, acalmem-se...— murmurou Sirius.
— Qual o seu problema, eu não ia tirar a cueca dele, era só para assustá-lo! Como você pode ficar do lado de-
— Meu Deus! — urrou Remus, quase arrancando os cabelos. — Isso não tem lado! Não existe lado! Existe essa merda — Remus arrancou o crachá de seu uniforme e jogou na cara de James, machucando o amigo, que recuou, cobrindo a testa. Todo o estresse das provas estava se acumulando em seus pés e punhos para matar James na porrada. — e alunos imbecis, feito você! Acha que eu quero perder a Taça das Casas? QUE EU QUERO VER MINHA CASA PERDER? HEIN?
— Vai se foder! — gritou James, ainda massageando a testa.
Remus arregalou os olhos, tomando ar e então marchou para dentro do Castelo, antes que ele cometesse um assassinato no jardim.
...
James e Remus não se falaram até o fim dos exames, e nem depois.
A ampulheta da Grifinória estava pobre perto dos outras, e era vitória garantida à Corvinal naquele ano, o que deu boas horas de deboche para Charlie. Na semana seguinte, a professora Naomi Gerwig anunciou sua saída por gravidez, agradecendo o ano incrível que tivera em Hogwarts. Entretanto, antes, ela sugeriu que eles fizessem um amigo invisível naquela semana, sendo que as regras eram: Sonserinos tirariam os Grifinórios e vice-versa, para acabar com a disputa.
— Vocês me faziam sentir num campo de guerra! — riu a professora, já com os dois chapéus prontos, com o nome de todos os estudantes. Eles tinham uma semana inteira para enviar um presente para seu amigo invisível pela coruja do mesmo, portanto, além do nome, tinha que ter a descrição e o nome do bicho. Ela especificou que os presentes não podiam ser ofensivos ou com o intuito de denegrir o colega, caso fosse, pontos seriam descontados da Casa do aluno que fizera a gracinha.
Remus gemeu quando viu o nome de Alecto Carrow em seu pergaminho, detestando a dinâmica.
— Quem você tirou, Peter? — perguntou Emmeline, alinhada em Remus após a semana de provas em que eles mal se viram ou se tocaram. Peter estava deitado no Pátio Pavimentado, ainda se recuperando das provas.
— Um idiota chamado Rewig. Sei lá que desgraça de nome é esse.
— E você, James? — perguntou Marlene, sentada no chão, picotando um pedaço de grama que nascia entre o concreto.
— Claire — resmungou ele, deitado no banco. —, batedora da Sonserina.
— Ah, ela é legal, — opinou Marlene. — nós conversamos bastante até.
O garoto não fazia ideia de que comprar para Alecto, mas lembrou-se que ela além de gostar bastante, parecia ser muito boa em Astronomia. Decidiu encomendar um mapa astrológico bem divertido que vira uma vez no Beco Diagonal, embrulhando em papel vermelho e dando à sua coruja mal encarada quatro dias antes do grande encontro. Os presentes de seus amigos foram chegando aos poucos, como James, que surpreendentemente recebera um par de luvas luxuosas, com instruções de lavagem em alemão.
Claro que houveram presentes ofensivos, como Lílian, que recebeu um livro de mal gosto, chamado Guia Bruxo para Trouxas: Aprenda Sobre o Mundo Mágico em 300 Páginas, mas ela não quis denunciar, inclusive leu e gostou muito do livro. Sirius recebeu um saco de doces, que jogou fora, certo que estavam envenenados, e Peter deu um berro no Salão Principal quando desembrulhou uma edição de luxo de Rei Arthur, de capa dura e tudo, assinada pelo desenhista e criador. Todos ficaram se mordendo de inveja, desacreditados que ele receber algo tão bonito e caro. Sem contar que seja quem o tirou, parecia o conhecê-lo.
Remus estava certo que ia ficar sem presente já que fora dormir na quinta sem ter recebido nada e a aula era na sexta à tarde. Entretanto, assim que acordara, sua coruja o esperava fielmente com um embrulho gigante, entregando que era um quadro. Ele pagou sua coruja cinzenta e fechou as cortinas de sua cama, ansioso, desembrulhando seu presente.
Sua pressão abaixou bruscamente assim que ele vira a pintura.
Uma linda paisagem de campo assombrada, com árvores distorcidas e um breu azulado, muito bem pintado, e uma evidente lua cheia iluminando todo o espaço deserto. Soltou o quadro em sua cama, colocando a mão no peito, tendo taquicardia.
Ele sabia exatamente quem o tirou.
Escondeu o quadro dos meninos e eles não pareciam muito interessados, queriam logo a confusão que seria aquela revelação de presentes trocados. A sala estava barulhenta, todos com seus presentes, sendo que uma garota ruiva da sonserina tinha um embrulho enorme, visivelmente uma vassoura, e não conseguia parar de sorrir enquanto falava com os colegas. Remus sentou-se ao lado de Marlene, de pernas cruzadas, aguardando maliciosamente a professora aparecer.
— Boa tarde, senhores... — a professora Gerwig entrou na sala, os calando. Ela sentou-se em uma carteira da primeira fileira, virando-se para poder ver toda a Sala. Mesmo com suas vestes clássicas, já era possível ver o relevo de sua barriga começando a ficar maior. — E então, todos felizes? Todos com seus presentes?
Não houveram mais que risinhos e cochichos.
— Vamos começar então! Senhor Potter, gostaria de ser o primeiro? — sorriu ela, olhando James. Ele assentiu e levantou-se com seu par de luvas de Apanhador ainda no embrulho. Foi até a frente da sala e mostrou para todos, colocando nas mãos.
— Bem, eu recebi esse par de luvas... Relativamente luxuosas. São de uma edição limitada da Wizars, todos sabem que é a maior marca patrocinadora de jogadores... Eu fiquei muito, muito, muito feliz mesmo com meu presente, de verdade. E... Bem, creio que esse presente invisível seja de Peterson, porque ele é o apanhador da Sonserina e tal...
— Peterson, você é o amigo invisível do Potter? — perguntou a professora. O garoto negro assentiu, e a sala aplaudiu quando ele se levantou com seu presente, indo até James, apertando sua mão. O Potter sentou-se e o garoto mostrou seu livro, chutando quem havia o tirado, mas Remus estava concentrado em fitar a nuca de outra pessoa, concentrada nas pessoas que iam e voltavam da frente da sala, entre aplausos, casuais apertos de mão ou encaradas gélidas. Colin Mulciber carregava um luxuoso e grosso livro negro nas mãos, com a maior cara de pau depois de ter dado um colar qualquer para Virginia, uma garota do dormitório de Marlene. Ele explicou para a sala detalhadamente que aquele era o presente mais incrível que recebera na vida, que qualquer bruxo de puro sangue sabia a importância de ter um livro da História dos Bruxos, contendo seções detalhadas da historia de diversas famílias de puro sangue, desde o bruxo original aos dias atuais, e o quão agradecido ele estava.
— Ok, o senhor parece ter realmente gostado do presente. — riu a professora. — Quem é seu amigo invisível?
— Eu chutaria o Potter. — disse ele, seguro. James franziu o cenho, negando.
— Não, não sou eu. — riu brevemente, olhando a professora. Ela olhou Mulciber e ele sorriu mais ainda, apontando para o garoto sentado na frente de Remus.
— Black. — afirmou ele.
— Não, até parece que eu ia gastar uma fortuna com isso. — retrucou Sirius.
— Ei! — sibilou a professora, afundando seus olhos bem abertos no garoto, que desculpou-se em seguida, afundando-se um pouco na cadeira. Mulciber pareceu nervoso, passando a mão em seus cabelos louros brevemente.
— McKinnon...? — chutou ele.
A garota gargalhou e a sala soltou alguns risos zombeteiros. Marlene era bolsista, ela jamais teria como bancar um livro daqueles. Mulciber estava chutando pessoas de sangue puro na Grifinória, porque na cabeça dele, somente alguém de sangue entenderia a importância daquilo.
— Ok, sem mais delongas, quem é o amigo invisível do senhor Mulciber? — perguntou a professora, olhando a sala. A mão branca de Lílian se ergueu logo depois dela ter passado a mão em seu rabo de cavalo bem feito. Sua postura perfeita na cadeira parecia um deboche, sem sequer piscar para Mulciber, boquiaberto de surpresa, e um sorriso malicioso, porém contido, nascia nos lábios de Lily.
Remus segurou o riso e a professora Gerwig pareceu orgulhosa.
— Senhorita Evans, que confusão a senhorita causou... — disse ela casualmente, parecendo esforçar-se para manter a postura. Lily apenas riu docilmente, segurando seu presente, assentindo lentamente.
— Bem, Mulciber, eu sei o quão importante é para você a História do Sangue Bruxo, então eu sequer tive dúvidas em como lhe presentear. Esse livro foi um dos primeiros calhamaços que eu li na vida, e também tem um co-autor, que modéstia parte, é meu autor nascido trouxa preferido. — ela sorriu mais ainda, pomposa. — Fico feliz que tenha gostado!
Ela levantou-se com seu presente, apertando a mão de Mulciber, animada, e James passou a mão no rosto, ainda cobrindo a boca, com um sorriso grande demais em seu rosto, sem piscar para a ruiva diante da classe. Ela passou a mão nos fios soltos de seu rabo de cavalo e suspirou, abraçando o livro após tirar seu embrulho.
— Eu recebi um livro muito famoso, que particularmente eu já tinha passado os olhos nas livrarias, mas nunca tinha realmente lido, ainda bem que me presentearam... — ela tinha um tom tão acentuado de ironia que era difícil não ficar animado. James parecia que ia gritar a qualquer segundo segurando o riso. Ela mostrou a capa e a professora parou de sorrir, séria. — Guia Bruxo para Trouxas: Aprenda Sobre o Mundo Mágico em 300 Páginas — alguns sonserinos riram baixinho, mas Lily ainda estava sorrindo, folheando o livro, parecendo impressionada. — É realmente muito bem escrito e tem coisas incríveis, foi uma leitura muito proveitosa, eu descobri coisas que eu não sabia ainda, então foi muito gratificante. Agradeço quem pensou em mim ao comprar.
— Apesar da senhorita Evans ter levado na brincadeira, eu não levei. — a voz da professora era fria quando ela virou-se para o lado da turma onde estava os sonserinos. — Vai passar dessa vez, mas saiba que o próximo a dar um presente irônico, vai ter pontos descontados. — ameaçou, virando-se para frente em seguida. — Então, senhorita Evans...
— Eu chuto que meu amigo invisível é Rosier. — disse ela, com as mãos para trás, de queixo erguido. O garoto levantou-se, com um sorriso debochado, batendo na mão de alguns colegas. Ele teve a petulância de beijar a mão de Lílian e nessa hora ela perdeu a compostura, quando seu rosto transformou-se friamente em uma máscara de ferro. Ela sentou-se dura em seguida, olhando fixamente para a lousa.
Ele falou um pouco sobre sua capa de couro e logo revelou que seu amigo invisível era Mary MacDonald. Ela levantou-se rapidamente e negou-se a apertar a mão de Evan, ansiosa para falar de seu amuleto de pedras preciosas, dizendo que seu amigo invisível era Tabatha, o que era óbvio, já que ela era aficionada pela professora de Adivinhação e suas pedras. A garota foi muito direta e disse que odiou seu presente (um kit de maquiagem) e chutou que aquela tragédia machista só poderia ser de Sirius Black.
O garoto tentou se desculpar na frente da sala, mas ele visivelmente não estava ligando. Mostrou a miniatura de moto para a classe, explicando o que diacho era aquilo para os ignorantes nos quesitos trouxas, e disse que seu amigo invisível só poderia ser McKaye porque ele era o único sonserino na Sala de Estudo dos Trouxas e ele sabia o quanto Sirius gosta daquelas máquinas trouxas. O garoto gordinho foi até a frente da sala e foi uma surpresa quando eles não apertaram as mãos, mas se abraçaram. A professora adorou, batendo mais palmas ainda, animada com sua “integração”. O mesmo mostrou sua camisa do Rei Arthur e todos sabiam que foi Peter seu amigo invisível.
— Eu recebi essa edição limitada de todas as publicações da saga do Rei Arthur até 71, é autografada e tudo. — ele exibiu para a sala, orgulhoso. — É um presente incrível, eu realmente gostei muito, vou guardar com muito carinho.
— E quem o presenteou, senhor Pettigrew? — perguntou a professora.
— Eu não sei, professora... — disse Peter, sem jeito.
— Ok, quem é o ami-
— Eu, professora. — Alecto levantou-se e limpou a garganta, indo para a frente da sala.
— Ótimo, senhora Carrow...
— Não gosto de você, mas eu gosto muito de Rei Arthur, e eu sei que você também, então... Fico feliz que tenha gostado. — explicou ela, olhando Peter de cima. Ele ficou vermelho quando apertou sua mão e sentou-se, ainda envergonhado. Ela suspirou e Remus sentiu palpitação, sabendo que sua vez estava próxima. Ela mostrou friamente para a sala o gigante mapa astral interativo que Remus havia lhe dado, que se adaptava à imprevistos e era o mais eficiente do mercado, além de ter várias brincadeiras legais em anexo. Ela disse que gostou do presente, apesar de não ser nada demais.
— Meu amigo invisível é Lupin, porque ele senta do meu lado em Astronomia. — disse, com uma voz completamente sem emoção. O garoto assentiu e ela sentou-se antes dele ter a chance de apertar sua mão. Remus olhou a sala lotada, nervoso, com o quadro em sua mão. Olhou seu amigo invisível fita-lo, inexpressível, e desembrulhou o quadro relativamente grande.
— Bem, eu recebi essa pintura: — ele mostrou para classe e ignorou os olhos arregalados de Peter, a forma como James segurou sua mesa como se a terra fosse desmoronar e Sirius virou o pescoço mortalmente para o garoto sentado atrás da professora. — É muito bonita, eu não sei de que época é, mas aqui diz que foi pintada por Buñuel, e pelo que pesquisei é um pinto bruxo da época do expressionismo... Foi pintado em 1876 e... E eu gostei muito, é muito bonita.
Remus não sabia se a professora sabia, mas pelo olhar penoso que ela lhe dera, ela sabia. O garoto abaixou os olhos, sentindo-se humilhado diante da sala até a professora limpar a garganta naqueles segundos intermináveis de silêncio.
— E quem é seu amigo invisível, senhor Lupin? — perguntou a professora Gerwig, parecendo um pouco aflita.
— Meu amigo invisível é Severus Snape. — revelou Remus, sem dúvidas. Assim que Snape se levantara, Remus começou à ir para sua mesa, negando-se a olhar seus amigos, fitando o garoto de roupas comuns escuras diante da classe, com um embrulho humilde. Ele limpou a garganta, parecendo incomodado em falar diante da sala cheia.
— Meu... — ele suspirou. — Meu amigo invisível me deu um... — Snape fechou os olhos por um segundo e então tirou um tubo verde de dentro do embrulho. — Um shampoo da marca Eleven, ele é anti-oleosidade, anti-caspas-
A voz de Snape já tinha começado a ser abafada quando ele falou a palavra shampoo, causando risinhos, quando ele começou a detalhar, James não aguentou e gargalhou, escondendo o rosto, assim como Sirius, Peter, Marlene, até mesmo Lily tentava não rir e Snape sentiu que Merlin dado um karma imediato à Ranhoso. A professora aumentou a voz para contê-los e James enxugava as lágrimas, agora mais chorando do que rindo, afirmando que ia morrer de tanto rir, e em alguns minutos a sala silenciou-se e Snape continuou vermelho, visivelmente controlando-se para se manter ali na frente.
— Meu amigo invisível é o Potter. — disse Snape assim que teve a chance.
— Não mesmo, Eleven. — sorriu James, com os braços sob a mesa. A professora olhou o lado da Grifinória, mortalmente séria.
— Quem é o amigo invisível do senhor Snape? — questionou, gélida, com a voz imponente. Demorou um pouco, com todos se entreolhando, até Marlene erguer lentamente sua mão para o alto, apertando seu embrulho, sabendo que estava ferrada. — Ótimo, menos vinte pontos para Grifinória pela gracinha.
— Mas professora! — protestou Marlene. — Eu só comprei um shampoo porque eu sei que ele tem o cabelo grande e talvez queira ter o mesmo cuidado que sei lá, Sirius tem? Sirius, você não usa shampoo?
— Ah sim, todos os dias! E dessa marca! — ajudou o garoto, tentando recuperar os pontos que a Grifinória protestava.
— Quem dera que essa fosse sua intenção, McKinnon — cortou a professora.
— Isso não é justo, então eu quero que a senhora desconte pontos de seja lá quem foi o filho da puta que me deu um ticket de cesta básica! — gritou ela sacando o bilhete o envelope. A sonserina explodiu em risadas e professora escondeu o rosto, assim como Remus, não acreditando que não havia um ser descente naquele lugar.
...
O quinto ano finalmente tinha terminado e Remus finalmente sentia que estava respirando normalmente, sem ter a impressão de algo bloquear seus pulmões. Todos estavam tão exaustos daquele ano que a viagem foi tranquila, até mesmo a ronda com Lílian, fiscalizando os primeiranistas, garantindo que eles não estavam aprontando nada. Após a ronda, ele voltou para a cabine, mas James, Sirius e Peter estavam adormecidos, um jogado em cada canto do banco, tranquilos.
Ele decidiu ir para a cabine de Emmeline então, onde ela conversava com Marlene.
A loura viu o amigo e se calou, colocando os pés sob o seu banco, com suas calças folgadas e as botas de combate, parecendo chateada. Emms o olhou de forma significativa quando ele se sentou ao seu lado. O silêncio ficou incomodo o suficiente para a castanha revelar que estava falando sobre Sirius para Marlene, sobre o que eles tinham conversado nas férias passadas. Lene girou os olhos, encostando a cabeça na parede da cabine.
— Eu sei, ele já devia ter falado com você, mas ele tem vergonha. — Marlene riu de descaso, unindo a sobrancelhas para Remus.
— Vergonha? — ironizou. — Seu amigo tem tudo menos vergonha, Remus. Olha, parem de me empurrar para Sirius, sério.
— Mas...
— Mas nada! — cortou Marlene, sentando-se no banco, batendo os pés no chão. — Eu não estou nem aí para seu amigo, de verdade. Se ele quisesse algo comigo, ele devia ter falado comigo, assim como o Potter grita para os quatro ventos que quer a Evans... — Marlene olhou para o nada, parecendo estar falando muito verdadeiramente. Abaixou os olhos, concentrada em suas unhas. — Eu não quero ser o crush de ninguém. Estar no imaginário do Black como a “garota fodona”, eu não sou isso. Eu tenho problemas com raiva, ele acha que eu gosto de ser assim? Eu preciso de alguém que goste de mim por quem eu sou de verdade e não pela ideia de que alguém tem de mim. Eu já percebi isso, ok? Falta ele notar.
Ela levantou-se, irritada, e saiu da cabine, deixando Emmeline e Remus sozinhos.
Os dois apenas ficaram quietos por um tempo até se entreolharem e gargalharem.
— Finalmente vamos poder ter um tempinho pra nós dois, eu estava cansada de levar livrada na cabeça por te beijar na biblioteca. — riu a garota, fazendo Remus rir mais ainda, com a cabeça encostada no banco, a observando aproximar-se lentamente para um beijo. Os beijos de Emmeline eram sempre ritmados e acabavam antes de tomar intensidade, o que Remus começou a achar que era maldade. Entretanto, daquela vez, ela permaneceu e ambos se animaram, em minutos, a mão de Remus já acariciava sua coxa e ela ofegava sempre que as bocas desgrudavam por um segundo, para recomeçar o encontro, acariciando a nuca de Remus.
Quando o garoto começou a sentir um certo volume em sua calça se manifestar lentamente, Emmeline afastou-se sem aviso e fechou as cortinas da janela, indo até a porta da cabine, também as fechando, trancando a porta. Antes que ele pudesse perguntar, Emms sentou-se em seu colo, de frente para ele, com os joelhos no banco, lhe beijando docilmente.
O garoto tocou sua cintura, devolvendo o beijo intenso, notando o quanto sentira falta de sua namorada. A intimidade entre eles parecia não ter evoluído, mas amadurecido, por conta da forma em que tiveram que manusear o controle do tempo de estudo. Ela parou de beijá-lo o olhou, pegando suas mãos e colocando por debaixo de seu suéter, sem desviar o olhar. Remus temeu que suas mãos estivessem frias quando ele tocou a pele quente e lisa de Emmeline, a fazendo sorrir lentamente. Ele subiu para seu torso, sentindo seu coração disparado, excitado o suficiente para ficar inquieto só de sentir o colo de Emmeline no seu, movendo-se devagar, como provocação.
Ela encostou seu rosto na curva do pescoço de Remus, o abraçando, parecendo sentir seu cheiro.
— Tem certeza? — perguntou ele, vermelho de excitação, rezando para ela não recuar. Um sorriso dócil escorreu no rosto simétrico de Emmeline, em suas bochechas gordas e o nariz pontudo, com os incríveis olhos comuns, e o cabelo mais ainda, e de alguma forma, tudo nela soava como os detalhes mais bonitos que poderiam existir. Remus estava tão burramente apaixonado e Emmeline parecia retribuir quando assentiu lentamente, tirando seu próprio suéter, ficando apenas de sutiã. Suas mãos foram para a camisa de Remus, a tirando com a ajuda do garoto.
Os olhos castanhos fitaram cada cicatriz lentamente, como se cada uma merecesse atenção. Ele sentiu vergonha e Emmeline pareceu perceber, inclinando-se para beijar o maior risco que atravessava seu peito. Conforme ela distribuia os beijos, Remus ofegava um pouco mais, começando a sentir irreversivelmente animado. Emmeline passou a mão em seu peito, subindo até sua nuca, séria.
— Remus, eu amo você. — murmurou. — Não fique com vergonha de mim.
O garoto não teve reação quando Emmeline juntou sua boca na dele, em um beijo quente e delicado, tirando seu próprio sutiã e encostando os seios no torso de Remus, que a apertou contra ele, excitado, a deitando no banco, com os dois se despindo rapidamente, hipnotizados. Remus beijou todo o seu pescoço, a sentindo estremecer debaixo dele, o apertando, ele olhou seu lindo sorriso quando chegou perto de seu queixo e seus sexos se roçaram, o fazendo pensar em algo que só se esclarecera horas mais tarde, quando estava em sua casa, mexendo em anotações.
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
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