O Segredo dos Caçadores
5 O Renegado
Notas iniciais

Lucelin respirou exasperada, suas mãos estavam manchadas com a tinta que usava para pintar uma tela, uma linda floresta escura feita apenas de uma mistura de tons de azul. Por mais concentrada que estivesse, sua cabeça girava de preocupação e nervosismo. Havia se passado três dias desde que Dylan começou a cursar fotografia em sua faculdade, nesse meio tempo Lucelin o via no jardim sempre com uma câmera nas mãos, ignorando as pessoas e observando o céu, quando a garota o olhava, ele sorria e acenava, talvez debochando dela. Isso a irritava completamente, o que alguém como ele estaria fazendo lá? Seria mesmo apenas para estudar? Lucelin tinha serias duvidas quanto a isso.
– Aquele desgraçado! — Connor socou a mesa quando Lucelin lhe contou à alguns dias — Ele deve estar planejando alguma coisa, não irei deixar isso assim.
– Eu também acho, mas, como Ergus mesmo disse — Lucelin girava seu lápis entre os dedos — acho melhor esperarmos, ir até ele e desafiá-lo é exatamente o que ele quer. Se fizermos isso ele apenas vai sair ganhando.
– Esta certo, vamos deixar que ele dê o primeiro passo, mas, fique longe dele enquanto isso.
Por mais que Connor lhe dissera isso na última noite, Dylan não aparentava estar ali para atacá-los. Queria saber o que estava passando por sua cabeça.
A garota afastou a cadeira do quadro e respirou fundo, olhou pela janela de sua sala que ficava no quinto andar e cerrou o cenho. "Falando no diabo" Pensou consigo mesma. Dylan andava com as mãos nos bolsos, estavam em horário de aula mesmo assim ele estava passeando. Lucelin o seguiu com os olhos até o perder entre algumas árvores.
Suspirou.
***
Dylan chutou algumas pedras, aquele homem com uma barba malfeita só falava besteiras e ainda se dizia ser professor, deveria estar dando aula para crianças ou trabalhando em algum Fast Food ao invés de sentar aquela bunda enorme na cadeira e falar sobre sua vida humana inútil como se alguém ali se importasse.
O garoto caminhava pelo campus, haviam outros estudantes fugindo das aulas como ele, alguns aproveitavam para namorar escondido, outros para beber e fumar. Dylan suspirou lentamente e foi para algum lugar mais vazio, humanos lhe davam nos nervos.
O terraço era um ótimo lugar, podia ficar sozinho sem que várias pessoas viessem lhe fazer perguntas. O vento que soprava seus cabelos era frio, o inverno estava chegando, era como naquele dia, o dia em que ganhou sua última cicatriz, estava frio e nevando.
Dylan estava irritado, aquele lugar lhe deixava irritado, mas então, por que estava ali? Precisava socar alguém.
Sorriu satisfeito quando ouviu alguém se aproximar.
– Finalmente resolveu dar as caras por aqui? — Ele perguntou ainda olhando para o céu.
– O que você esta fazendo aqui? — Connor estava parado na porta do terraço, não empunhava sua espada, mas Dylan sabia que o garoto estava louco para lutar.
– Caçando pombas — Dylan apoiou o queixo sobre a mão e curvou-se sobre o para-peito enferrujado do terraço — O que mais seria?
– Não estou para brincadeiras Dylan — Connor disse seriamente — Isso tudo, vir aqui e se rebaixar aos humanos que você tanto odeia, porque? Para me irritar? Ou seria por causa da Lucelin? Não quer que eu acredite que você veio mesmo para estudar fotografia.
Dylan o olhou.
– Connor, você mudou tanto — Dylan virou-se e apoiou as costas no para-peito — Nós eramos tão próximos, brincando juntos, correndo, matando alguns demônios... — Dylan dizia com falsa emoção.
– Isso foi a muitos anos — Connor cerrou as mãos — Antes de você nos trair.
"Trair" Dylan cruzou os braços.
– Faça o que você quiser Dylan — Connor avisou — Mas, se encostar um dedo na Lucelin eu quebro seu pescoço.
– Aguardo ansiosamente — Dylan sorriu, desafiando-o.
Connor lhe deu as costas e saiu pela porta. Dylan sentiu uma vontade incontrolável de rir, que cara era aquela? Ele estava falando séio?
Quanto mais lhe perguntavam o porque de estar ali, mais sentia vontade de ficar mesmo sem saber a resposta. Levantou-se e voltou a caminhar pelo campus até ouvir um alto e longo sino.
– Esta ouvindo? — A garota de cabelos pratas parou a sua frente — Isso significa que agora é o intervalo e logo teremos outra aula e geralmente, as salas ficam dentro dos prédios — Ela dizia como se explicasse para uma criança.
Lucelin cruzou os braços, Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo meio solto e havia tinta em suas mãos e braços.
– Er, Obrigado? — Dylan ergueu uma sobrancelha.
– Se você realmente esta aqui para estudar, pelo menos permaneça nas aulas.
– Estava me seguindo?
– Tenho coisas melhores pra fazer.
Dylan a observou, Lucelin usava uma camiseta larga completamente suja de tinta, provavelmente usada em suas aulas, calças pretas e coturnos. Em seu braço o pequeno e estranho relógio quebrado balançava. O garoto ainda não sabia o motivo de ela praticamente dar a vida por aquele pedaço de metal velho.
– É verdade — Ela levantou a mão com o relógio, notando que Dylan o olhava — Não agradeci por ter me devolvido — Ela afastou algumas mexas do cabelo para trás da orelha — Se bem que no fim acabamos lutando e nem sei porque... Espera, Porque você matou a gárgula? Ela estava fugindo de mim.
Dylan de ombros.
– Ela entrou no meu caminho e eu estava irritado.
– Então foi por isso que me atacou? porque estava irritado — A garota perguntou parecendo perplexa.
– Em minha defesa, foi você quem me ameaçou com sua espada — Ele disse.
Lucelin fez uma careta para ele.
– Você me entendeu, obrigada pelo...
– Lucy! — Anna acenava — Oh, oi Dylan! O que vocês dois estão fazendo? Não vão começar a se matar aqui não é?
– Bom, sua amiga estava prestes a declarar seu amor por mim- O garoto colocou as mãos nos bolsos.
Anna olhou para Lucelin e ambas riram. Dylan a encarou.
– Porque esta me encarando assim?
– É de dar medo — completou Anna.
– Não é nada.
Lucelin o olhou por um pequeno instante e desviou o olhar.
– Vamos Anna — Ela segurou o braço da amiga e a puxou para longe.
– Ah, ok.
Dylan a observou ir embora e sorriu. Quem diria que ela tinha outra expressão além daquela cara assustadoramente séria.
***
Lucelin almoçou no lugar de sempre com Anna e depois da última aula foi para casa, Anna aproveitou para sair e fazer algumas compras.
Estava esfriando de mais e mesmo que Lucelin pudesse controlar a neve isso não a fazia sentir menos frio que outras pessoas. Connor entrou na sala, vestia roupas quentes e tinha uma coberta ao redor dos ombros.
– Faça esse frio sumir Lucy! — Disse ele jogando-se ao seu lado.
– Eu gosto assim — Ela disse.
– Pra você é fácil falar, esta sempre no frio e com aqueles floquinhos de neve te rodeando! — Ele ergueu um braço, passando-o com a coberta envolta do pescoço da garota, trazendo-a para perto de si.
Lucelin sorriu e se acomodou encostada no garoto. Ficaram em silêncio por um belo tempo, Connor segurou a mão de Lucelin, brincando com seus dedos. A garota corou, Connor estava sendo tão carinhoso que chegava a ser estranho, afinal, nunca aconteceu nada entre os dois.
– Isso é estranho — Connor dizia como se estivesse perdido em pensamentos — Dylan de volta depois de tanto tempo e ainda por cima estudando com você — Ele apertou sua mão.
– Você o conhece a quanto tempo?
– Digamos que nós fomos bons amigos.
– Serio? — Lucelin até que conseguia imaginar, os dois brigando por qualquer coisa como duas crianças mimadas.
– Dylan sempre foi, esquentadinho — Ele riu com a própria piada — serio, ele botava fogo em tudo o que via.
– Esse trocadilho foi horrível — Lucelin disse erguendo uma sobrancelha.
Connor limpou a garganta e continuou.
– Eramos como irmãos, brincávamos sempre juntos e brigávamos muito também — Connor abaixou os olhos — Até que ele perdeu seus pais e ficou sozinho.
Lucelin o encarou, então Dylan era órfão como ela. Mas ao contrario da garota que nunca conheceu seus pais, para ele deve ter sido muito pior.
– Depois disso ele se tornou cruel, Dylan culpou os caçadores pela morte deles e jurou vingança — Connor mostrou uma cicatriz que tinha no ombro, como um corte de espada — e com apenas dez anos de idade ele surtou e durante isso, matou mais de dez caçadores, eu fui o único que escapei.
– Você nunca me contou isso.
– É uma lembrança dolorosa, afinal, dentre todos estavam meus companheiros e minha irmã mais nova.
Lucelin levou a mão até a boca. Connor nunca havia contado nada disso, não fazia ideia de que tinha uma irmã, muito menos que Dylan a havia matado.
– Sinto muito — Sua voz saiu fraca, com vontade de chorar.
– Tudo bem, isso foi a nove anos, Dylan foi exilado do castelo e assim se tornou um renegado — Connor abraçou o pescoço de Lucelin com o braço que estava apoiando — Ele ainda tem seus poderes, e ainda caça demônios, mas, não é o mesmo Dylan de antes. Por isso quero que tome muito cuidado com ele. Não quero te perder também.
Connor se aproximou, puxando-a para mais perto. Seus rostos estavam tão próximos que Lucelin podia ver cada detalhe dos olhos castanhos dele. Não conseguia ouvir nada além das batidas fortes de seu coração.
Um rangido e a porta da sala se abriu em alta velocidade. Connor e Lucelin se afastaram quase que instantaneamente.
– Eu juro que não vi nada — Anna levantava as mãos com os olhos arregalados e corada.
A caçadora estava vermelha e sacudia a perna irritantemente, Connor se levantou, largando o cobertor por cima da cabeça de Lucelin.
O caçador pegou as sacolas de compras das mãos de Anna.
– Me de, vou preparar algo para o jantar — Ele andava estranho.
– Você não sabe cozinhar — Lucelin disse jogando a coberta para trás.
Connor abriu a boca para falar algo mas foi interrompido.
– Só leve as coisas pra cozinha esta bem? — Anna disse.
Quando Connor entrou na cozinha, as garotas se entreolharam e riram.
– Mas o que estava acontecendo? — Anna sussurrou sentando-se ao lado da amiga.
Lucelin cobria a boca com a mão, ainda se sentia agitada e seu rosto estava fervendo.
– Não sei — Disse ela.
– Pelo menos me diga que eu cheguei depois de vocês terminarem de se beijar! — Anna disse, alto o suficiente para que Connor gritasse da cozinha.
– Não, você realmente atrapalhou!
Lucelin não se segurou e começou a rir.
***
A noite realmente demorou para passar, Lucelin estava deitada em sua cama rabiscando em seu caderno. A história que Connor havia lhe contado ainda a chocava, tanto ele quanto Dylan tiveram uma infância complicada e dolorosa. Lucelin nunca perdeu ninguém, mas sabia o quanto doía ser abandonada, esquecida e maltratada, isso a fez sentir pena do renegado, pelo menos por um instante.
A caçadora sabia que Dylan era uma pessoa horrivel, sádica e exibida, mas então por que o estava desenhando? Lucelin rabiscou por cima do desenho e arrancou a folha. Nunca em sua vida amassara um desenho com tanta raiva e confusão antes. Lucelin o atirou no cesto de lixo e jogou-se na cama olhando para o teto.
Porém, algo a estava deixando inquieta, confiava em Connor mais que tudo, mas, algo naquela história era estranho para ela, porque Dylan culpava os caçadores? E porque mataria tantas pessoas? Lucelin queria saber mais, queria saber mais sobre Dylan.
***
Dylan olhava para sua câmera, uma herança de familia. Havia tirado algumas fotos naquela tarde, alguns alunos da faculdade no horario de almoço, estava uma luz perfeita, conseguiu capturar um grupo da faculdade de musica se divertindo com seus violões.
Ficou surpreso ao dar zoom na foto, Lucelin estava ao fundo, sentada na grama com sua amiga, ela sorria.
"Ela tem um sorriso bonito" A voz doce de Skarlet surgiu em sua mente.
– Skar! Já disse para parar de me observar escondida — Dylan disse desligando a câmera.
Skarlet riu debochando de sua reação.
"Sou sua guardiã meu querido" Skarlet dizia com a voz cheia de orgulho
"E além do mais, estou morta, não irei sair falando para todo mundo que você fica tirando fotos dessa garota"
– Eu não... — Dylan respirou fundo — Foi sem querer.
"Estou orgulhosa de você garoto"
– E porque? Tudo o que fiz foi tirar fotos aleátorias dos humanos — Ergueu as sobrancelhas.
"Você esta realizando o sonho dela não é?" Skarlet suspirou "Afinal, sua mãe amava fotografia"
– Vá dormir, Skarlet — ordenou.
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