O Segredo dos Caçadores
4 Furacão
Notas iniciais

Algo em seus olhos fazia com que Lucelin se sentisse inquieta, nervosa e hesitante. Porém, mesmo tentando, não conseguia desviar o olhar dele. Aquele sorriso sarcástico e um pouco sádico a fez recuar.
O garoto de cabelos totalmente negros a ignorou por um instante, ao erguer o relógio na altura dos olhos, observando-o mais de perto.
– Hey — Lucelin disse, sem abaixar a guarda — Isso me pertence.
Ele ergueu uma sobrancelha e girou o relógio entre os dedos.
– Eu deveria lhe devolver? — Ele disse, aquele garoto por acaso era totalmente feito de sarcasmo? Estava fazendo aquilo para irritá-la, se fosse o caso, estava conseguindo.
Lucelin sentiu a raiva subir por seu corpo e cerrou as mãos. Rapidamente invocou Kami, faria o que pudesse para pegar o relógio de volta. O garoto sorriu erguendo ambas as sobrancelhas, surpreso talvez, era complicado saber o que ele estaria pensando.
– Esta me desafiando caçadora? — Lucelin pôde sentir o ódio em suas palavras. Mas, se ele não era um caçador, nem um demônio e muito menos um humano comum, quem era ele?
– Me devolva o relógio! — A caçadora apontou Kami em sua direção, mas em questão de segundos ele apareceu na sua frente.
– Ou o que? — Ele estava a poucos centímetros de Lucelin, o sorriso sádico no rosto. O garoto segurava a espada de lâmina negra próxima ao pescoço da garota — Vai me matar? — Ele sussurrou fitando-a nos olhos.
Lucelin se afastou quase que imediatamente, o garoto irradiava poder, era algo como o fogo, consumia tudo e qualquer coisa que via pela frente. E Lucelin não era exceção, estar perto daquele garoto a fazia se sentir insignificantemente fraca. Porém, com uma imensa vontade de mostrar o quanto poderia ser forte.
– Posso tentar — Lucelin atacou, virando a lâmina na direção dele, que apenas se afastou.
– Isso vai ser divertido — Ele rodou a espada na mão, enquanto a outra ainda segurava o relógio.
Lucelin respirou fundo e o atacou novamente, desviando de uma investida e chutando-o com a perna quando ele abaixou a guarda. O garoto recuou, parecia realmente estar se divertindo, mas se recuperou logo e lançou-se para cima da garota, espada contra espada. A sua força era incrivel, e quanto mais ele a atacava, mais a garota recuava alguns passos. Lucelin se viu presa, entre uma árvore e o garoto, ele levantou a lâmina na direção de seus olhos. A caçadora se encolheu quando ele enfiou a espada no tronco da árvore, rachando-a.
Um forte vento passou por eles, fazendo os cabelos de ambos sacudirem, avisando-os sobre o inverno que estava chegando. Lucelin o encarou, àquela luz, os olhos do garoto passavam de verde acinzentado para um amarelo alaranjado, como o pôr do sol. Ele virou levemente a cabeça ao olhar novamente para a garota, pensando em algo. Logo em seguida seu sorriso desapareceu.
– Certo, já chega — Ele pegou seu braço com força — Você ainda é fraca — Disse baixo, Lucelin mal conseguiu ouvir suas últimas palavras, ele prendeu o relógio novamente no braço da garota e o soltou.
– Mas, porque? — Ela olhou incrédula para o relógio e o apertou com a outra mão. Apenas isso e a garota ja estava mais calma. O garoto retirou sua espada da árvore e caminhou novamente para a ponte.
– Não o perca novamente, ou irá ganhar mais do que apenas algumas cicatrizes.
Lucelin olhou para o braço, os arranhões que a gárgula havia feito, talvez fosse disso que ele estaria falando.
– Quem é você? — A garota perguntou cruzando os braços, estava confusa, ele não estava ameaçando ela até quase agora? O que aconteceu para mudar de ideia?
O garoto apoiou a espada sobre o ombro e ela logo se desfez, em cinzas e brasas. Ele então era um caçador? Lucelin estava confusa. O garoto olhou para ela e sorriu levemente. Sem sarcasmo. Pareceu que iria responder seriamente até que sua expressão mudou novamente.
– Porque não pergunta para o garoto com a cara emburrada atrás de você?
Lucelin se virou e reprimiu um grito.
– Connor! Quando foi que você...
– Dylan — Connor fitava o garoto, Lucelin nunca o havia visto com aquele tipo de expressão antes.
– Connor — Dylan repetiu no mesmo tom que Connor, zombando do garoto.
Connor sacou sua espada e murmurou algum xingamento antes de correr para atacá-lo. Dylan com as mãos nos bolsos desviou, saltando para cima do corrimão de madeira da ponte.
– Desculpe Connor, mas não tenho tempo para brincar agora — Dylan disse se levantando. Uma névoa vermelha e negra o cercou, rodeando-o dos pés a cabeça. Como em uma névoa de guardião, Lucelin pôde ver longas asas com penas escuras e uma cauda amarela.
Dylan a olhou por mais um instante antes de desaparecer com a névoa.
– Desgraçado — Connor chutou a ponte.
– Ei, cuidado, essa ponte pode querer se vingar depois — Lucelin se aproximou.
– Ele te machucou? — Connor segurou em seus ombros.
Lucelin estava assustada com sua expressão, não era como se ele estivesse realmente procupado, mas sim, procurando por algum motivo para matá-lo.
– Não, eu estou bem — A caçadora se afastou — Quem era ele?
– Alguém que você nunca deverá se aproximar, ele é perigoso entendeu?
– Ele só me pareceu meio, exibido- Lucelin olhou para o relógio em seu pulso.
– Apenas fique longe dele — Connor segurou sua mão, passeando os dedos sobre os arranhões que a gárgula fizera — Dylan mata por diversão.
Lucelin franziu o cenho, deixando-se ser puxada pelas mãos de Connor na direção de casa. Por um instante olhou para trás, a ponte estava vazia. A noite havia caído e aquele lugar estava mais parecido com um pântano do que com um belo lago. Lucelin caminhava um pouco atrás, as mãos enroscadas nas de Connor, pensando em o porque de o amigo ter mudado tanto.
Lucelin sempre foi muito curiosa sobre tudo, na maioria das vezes se dava mal por isso, mas, aquele garoto rondava sua cabeça e isso a estava irritando, precisava saber mais sobre ele ou pelo menos lhe dar um belo soco por tê-la ameaçado. Connor pareceu saber muito sobre esse tal Dylan, mas nem sequer tocou no assunto durante o resto da noite.
Dylan, quem ele realmente é?
***
A caçadora estava paralisada no campus, pedindo aos céus para que aquilo não fosse real. Seria mais um de seus estranhos sonhos? Ou algum mundo paralelo dedicado à atormentar sua vida?
Dylan estava ali, sentado na mesa de madeira do jardim, conversando com Anna e sorrindo gentilmente. Olhando de longe, parecia apenas um estudante comum, cujo seus únicos problemas eram os trabalhos e mais trabalhos da faculdade. Nunca se passaria em seus pensamentos que um movimento em falso e ele poderia arrancar sua cabeça com apenas um golpe.
– Bom dia Lucy! — Anna acenou ao ver a amiga — Este é Dylan Clood, esta fazendo intercâmbio e vai ficar...
Dylan ergueu a mão acenando para Lucy, como se nada tivesse acontecido a alguns dias atrás.
– O que você esta fazendo aqui? — Lucelin ameaçava invocar Kami.
– Ora, é como sua amiga aqui disse, estou fazendo intercâmbio e...
– Espera, você conhece ele Lucy? — Anna perguntou.
– Anna — Lucelin suspirou — Ele é o garoto que te falei.
Anna cobriu a boca com as mãos.
– Então você é o arrogante metido a besta? — Ela apontou para Dylan que ergueu os braços se rendendo.
– Não se esqueça de exibido e sádico — Lucelin cruzou os braços.
– Fico feliz em saber que tenho novas fãs — Dylan disse.
Lucelin o fitou, aquilo definitivamente iria acabar em alguma merda.
– É serio garoto, o que você faz aqui? Esta me seguindo? — Lucelin cerrou as mãos — Ou esta aqui para irritar Connor?
Dylan lhe entregou uma folha de inscrição da faculdade, para o curso de fotografia. Lucelin cerrou o cenho, aquilo era sério?
– Por que acha que eu viria aqui por você? ou pior, pelo Connor? — Ele se levantou carregando uma bolsa velha — Julgar pela aparência é algo muito feio.
Dylan agradeceu a ajuda de Anna e caminhou para o prédio colorido.
– O que ele esta tramando? — Se perguntou o observando.
– Por que não da uma chance para ele? — Anna arrumava suas coisas — Quem sabe Connor estava errado.
– Prefiro confiar nele do que em alguém que me mataria sem hesitar — Lucelin ajeitou o cabelo. Anna deu de ombros.
"Ergus, o que eu devo fazer?"
"Não acho que deva confiar nele, melhor esperarmos para saber o que ele planeja" Ergus respondeu. "Apenas não deixe sua guarda baixa".
Lucelin caminhou para seu prédio, faria o que Ergus mandou. Se sentia encurralada, Dylan não era fácil de se ler, nunca saberia o que estava passando por sua cabeça, o tipo de pessoa instável que nunca se sabe qual será seu próximo movimento.
Dylan era como um furacão, e Lucelin sabia que esse furacão bagunçaria sua vida.
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