O Segredo de Lorien
3 Capítulo 2: O primeiro adeus.
Notas iniciais
Apesar de morar na mesma casa desde que me conheço por gente, eu não havia acumulado muita coisa. Meu quarto era composto por uma cama simples de madeira clara, uma cômoda branca onde cabiam todas as minhas roupas, uma estante com alguns livros e coisas da escola e um baú de madeira que nunca pude abrir, e que ficava num canto, ignorado, quase como um móvel. Como decoração, eu contava apenas com alguns desenhos aqui e ali colados nas paredes, a maior parte sendo de personagens de animações ou livros de fantasia que eu gostava. Era um quarto simples, embora familiar e aconchegante. Mariana nunca me permitiu ter muitas coisas, não por que não tivéssemos dinheiro para tal, nós até tínhamos, mas ela sempre disse que era melhor não nos apegarmos a tantas coisas materiais, pois se algo acontecesse, não teríamos como leva-las conosco. Eu nunca tinha entendido bem os motivos dela sempre falar esse tipo de coisas, mas assentia e pensava que ela realmente tinha razão por ser mais velha, e seguindo a minha concepção, mais sábia.
E, se me perguntarem hoje em dia, eu preferiria nunca ter descoberto o motivo.
Após encarar meu próprio quarto por alguns segundos que me pareceram longos até demais, resolvi que iria realmente seguir as ordens de minha guardiã. Peguei uma das mochilas mais velhas que ficavam guardadas no quarto de Mariana e, assim que voltei para o meu próprio quarto, comecei a enchê-la com diversas coisas: Várias roupas, um ou outro livro, uma caneta, algumas fotos. Depois de pegar o que achei necessário, me dirigi até o banheiro e tratei de pegar coisas como a escova de dente e a de cabelo, um pente, um fio-dental, um sabonete, um creme dental. Eu não sabia para onde iríamos ou o que poderia estar acontecendo, então realmente achei melhor me precaver. A seriedade na voz de Mariana havia me feito ter medo do que viria pela frente, e me forçado a pensar que a bendita cicatriz devia ser algo de extrema importância. Afinal, não é por qualquer ferimento mágico que você sai às pressas da casa onde cresceu — tem que ser algo bem importante para render algo assim. Ao menos foi isso que aprendi nos livros, certo?
Certo mesmo?
—Alexandra! –A voz dela me faz pular de susto, apesar de não estar fazendo nada que pudesse ser considerado errado. Quero dizer, não aos olhos dela, já que suspeitei que nós pudéssemos estar infringindo algum tipo de lei ao nos preparar para fugir sorrateira e repentinamente de casa em plena Quinta-feira à tarde. –O almoço está pronto. Venha rápido.
Eu poderia jurar que naquele instante eu me senti como em qualquer outro dia da minha vida, não fosse pelo fato de estar me preparando para uma fuga misteriosa da qual nem eu sabia o motivo.
“Será que ela vai avisar ao diretor, de última hora, que vamos viajar?” Me pergunto, confusa. Minha “mãe” era professora numa universidade no centro de São Paulo, e dava aulas à noite
—Alex! –Ouço-a me chamar novamente, e desço lentamente a escada,a mochila já cheia nos ombros, receosa. Lá em baixo, ela me esperava com uma cara que, particularmente, achei ao menos ameaçadora. –Já está pronta?
—Sim!?- A minha voz falha, fazendo com que a afirmação mais parece uma pergunta. Mariana me dá um olhar desconfiado em resposta.
“Sinceramente, quem deveria estar lançando olhares desconfiados dentro dessa casa, nessa altura do campeonato, era eu!” Solto um suspiro frustrado com o pensamento, e então dirijo o olhar para a mulher parada em minha frente, que me encarava com curiosidade.
—Ótimo. -Ela solta, simples. – Almoce. Vou arrumar minhas coisas enquanto isso.
—Tudo bem... –Digo incerta, enquanto andava até a cozinha.
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—Pegou roupas?
—Sim.
—Casaco?
—Sim.
—Escova de dentes?
—Sim.
—Calçados?
—Sim, mãe...
—Celular?
—Sim, mãe! Eu peguei tudo! Agora você pode me dizer para onde a gente vai? –Pergunta, pela milésima vez, já esperando pela mesma resposta.
—Te conto no caminho. –Ela responde, desligando a luz ainda acessa da sala e se dirigindo até a frente da porta, onde eu me encontrava plantada. –Vamos, Alex.
Ela me puxa, conseguindo ignorar, de maneira quase improvável, as duas bolsas que carregava, juntamente com o meu baú (que, por sinal, eu havia me esquecido completamente),e a chave do carro em sua mão. Assim que me puxa inteiramente para fora da casa, se vira e tranca a porta com força, dessa vez me entregando as bolsas e a chave, e me ordenando a deixa-las no banco de trás do carro. Nossa “garagem” ficava em frente à porta de casa, protegida apenas por um portão alto,pintado de azul, assim como as outras paredes visíveis do lado externo da residência –que, cá entre nós, não era muito grande. O carro, um Gol 2011 vermelho, era usado frequentemente por Mariana para ir trabalhar, e às vezes também o usávamos para ir à praia por um dia, ou ir ao mercado, coisas assim. Nunca fomos de sair muito, e quando saímos era para algum compromisso ou apenas um passeio de família. Sigo suas ordens e deixo as bolsas, juntamente com a minha mochila, onde ela havia pedido, logo após entrando no veículo e me sentando no banco do passageiro. Enquanto faço isso, observo Mariana ir até o portão e abri-lo, e então voltando e sentando-se no banco ao meu lado.
Assim que termina de tirar o carro da garagem, ela me pede para trancar novamente o portão. Faço isso rapidamente e volto para o carro, encarando a tão conhecida casa azul, na qual eu havia passado tantos anos da minha vida, pela janela. Uma enxurrada de lembranças invade minha mente, e, notando isso, Mariana olha com ternura para mim.
—Me desculpe por isso, querida. –Diz ela, sua voz transbordando sentimento. –Mas nós realmente precisamos ir.
Olho lentamente para ela, notando o modo como seus olhos então voltados para algo além de mim, no portão e nas paredes azuis de nossa casa. Também observo o jeito que suas mãos agarram o volante, como se fazer tal coisa fosse doloroso. Condeno a mim mesma por sequer ter pensado que ela poderia estar bem com isso, afinal, ela devia estar sentindo o mesmo que eu. Não era apenas a casa: eram nossos amigos, nossas risadas, nossas lembranças, nossos vizinhos e conhecidos, minha escola, o trabalho dela. Era toda uma vida, que, por um motivo ainda desconhecido por mim, estava sendo abandonada.
—Nós vamos voltar? –Pergunto baixinho, assim que começamos a andar.
—Suspeito que não, Alex. –Responde ela, evitando olhar para mim, enquanto seguimos adiante, rumo a um destino incerto.
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